segunda-feira, março 30, 2009

Poema no blogue do Batata (perdão, do JF):


A VIDA QUE NÃO É AQUI


Na ponte alta dos meus sonhos em que a realidade irrompe
dissoluta em pózinhos magicos raros de kabala absoluta
Kabala orquestrada por mil magos que digerem suas raizes malignas
como se de pastilha elastica fosse o seu constituinte
Rompem mágoas de algodão macio e doce de fantasia mais lenta e vaga
Repetem-se os actos de crueldade com doces gestos de quem orquestra
sinfonias para deuses que se aborreceram e suas panças flácidas e amolecidas
rebolam-se em corridas desenfreadas nas ruas de olimpo
E suas bocas enchem-se de gravilha deleitando se com gargalhadas de sangue
Ah ,que raiva...

JF


Este poema, assinado por JF, é na verdade do velho amigalhaço José "batata" Fialho. Ele, que anda lá fora a lutar pela vida - parece que agora está em London - foi, durante os anos 90, um dos meus compinchas preferidos nas noitadas e outras actividades mais ou menos artísticas da boémia almadense / cacilhense, que tão bons frutos deu.

Foi ele, aliás, o responsável pelo primeiro grande sucesso editorial do Debaixo do Bulcão: um poema intitulado DADOS TÉCNICOS E MORTAIS SOBRE A G3 E OS VÁRIOS PRAZERES DE UM MILITAR "NORMAL" COM UMA G3 - escrito, como é bom de ver, durante a recruta do mancebo, num tempo em que o serviço militar era obrigatório em Portugal. Na altura o mancebo assinava os seus textos poéticos como Z.BTTA (e assim continuou a assinar durante muito tempo).

Fiquei agora a conhecer o blogue dele. Ainda ontem chamava-se Mania de Ser; parece que hoje o cabeçalho já é LITTLE STORY'S OF HUGE DEGRADATION - o que, convenhamos, até é um título mais bem esgalhado.

Para lá chegarem, cliquem em

sexta-feira, março 27, 2009

Um mensagem a propósito do Dia Mundial do Teatro... de 1979


Hoje, 27 de Março de 2009, divulgo aqui - como mera curiosidade histórica, já se vê - a "mensagem da secção portuguesa do Instituto Internacional do Teatro", publicada há exactamente 30 anos, e reproduzida, nessa data, pelo Centro Cultural de Almada. Aqui está ela, em texto integral e entre aspas:


«27 de Março de 1979 - Dia Mundial do Teatro

Mensagem da secção portuguesa do Instituto Internacional do Teatro

É bom saber que, no mesmo dia, em vários países, há pessoas a pensarem no mesmo assunto, com o mesmo fim, mas estou certo que de maneiras diferentes. O universal só se encontra quando se estabelece uma finalidade comum à variedade.

O espectáculo teatral, como acontecimento histórico, condicionado portanto pelo tempo e pelo espaço, é a proposta de um tema, a sua elaboração estética e dialéctica, a sua materialização plástica e sonora e finalmente, a sua comunicação humana e social. Desta esquematização do trabalho teatral, se pode concluir que a sua valorização terá que se fazer, através da qualidade e da intensidade da comunicação, que ele, espectáculo, for capaz de cosneguir. O espectáculo prolongar-se-á em consequências humanas e sociais, desde que o seu espectador tenha a consciência de ter vivido, graças a ele, momentos lúcidos e enriquecedores.

Observando agora a nossa sociedade de classes, dividida por interesses económicos e afectivos diferentes e por vezes antagónicos, esmigalhada em competições individuais de toda a espécie, alienada pelo prazer inconsciencializante dos jogos de diversão, intoxicada pelos pequenos e grandes vícios, que embotam a sensibilidade, deparamos com a tremenda dificuldade de encontrar uma linguagem universal, que atinja grandes plateias. A essa dificuldade devemos atribuir a carência de grandes textos modernos de repercussão mundial e a valorização, cada vez mais sensível, do encenador e do dramaturgista, que dão aos textos filosoficamente válidos, a expressão particularmente adequada ao condicionalismo histórico do espectáculo.

Isto não significa porém, que a humanidade esteja hoje mais afastada de um caminho comum do que num passado, em que a dramaturgia clássica se impunha às elites intelectuais de todos os países da mesma civilização. Pelo contrário, nunca como hoje, os valores universais de libertação do homem, através da justiça social, da segurança, da saúde e do direito à cultura, se tornam tão nítidas e tão sensíveis.

O que acontece é que o teatro moderno não se dirije a elites, que por sua vez tendem a confundir-se cada vez mais, económica e socialmente com os outros trabalhadores, que em todo o mundo travam com armas, linguagens e combates diferentes, a mesma luta libertadora. Na diferença dessas linguagens e desses meios locais de luta, é que os homens de teatro de cada sociedade devem encontrar a expressão própria dos seus espectáculos.

Quero portanto terminar estas palavras com um voto: que se multipliquem as formas nacionais de fazer teatro, que essas formas nacionais se descomponham em regionalismos, em expressões espontaneas de grupos profissionais e culturais e que todos esses particularismos se universalizem na obra comum de libertação do homem da fome, do medo e da ignorância.

Costa Ferreira»

quarta-feira, março 25, 2009

Quinze anos de Teatro Extremo


Em 1994, apareceu em Almada um grupo de teatro que resolveu chamar-se Extremo porque queria falar de coisas e assuntos de extrema importância e actualidade: racismo, violência, desigualdades sociais, atentados ao equilíbrio ecológico do planeta.

Em 2009, para mal de todos nós, essas coisas e esses assuntos continuam a ser de extrema importância e actualidade. Mas (do mal o menos) o Teatro Extremo lá conseguiu sobreviver no meio de tanto lixo intelectual e cultural que por aí se tem acumulado.

Sobreviveu e - mais difícil ainda, senhoras e senhores, meninos e meninas - preserverou na sua actividade, lançou sementes, criou raizes. E, lutando contra muitas adversidades (das quais a falta de dinheiro é apenas a mais óbvia), afirma-se hoje, em Portugal, como uma referência no seu sector de actividade.

Eu não consigo ser imparcial quando me refiro ao Teatro Extremo.
Confesso: gosto muito deles. Pelo trabalho que fazem e pelas pessoas que são. (E olhem que eu até nem sou muito dado a teatreiros: acho que os teatreiros são, de um modo geral, uma cambada de narizes empinados.)

Desde o início, o Teatro Extremo preocupou-se em formar públicos, ganhar mais gente para o teatro. Porque o teatro faz bem e é importante para a formação das pessoas (pelo menos para as que não se tornam, depois, teatreiras em demasia).

A formação artística - ou, se quisermos ser mais ambiciosos, a Educação pela Arte - é algo que muito admiro e sempre defendo. Desde os anos 80, quando estive a fazer a minha escola - e a trabalhar, já agora - numa associação que promovia, precisamente, a formação técnico-profissional de animadores culturais e a tal educação pela arte, para as crianças (hoje adultos, obviamente) desse tempo. Associação para a qual eu entrei - oh, ironia!... oh, coincidência!... - a convite da minha professora de Teatro no nono ano.

Mas isto agora não é (não era) para falar de mim: era para falar do Teatro Extremo!
Em 1995, o Rui Cerveira (um dos fundadores do Extremo) foi até à redacção do jornal onde eu então trabalhava e eu fiz-lhe uma entrevista. Que recuperei agora, em registo áudio (mas transformado numa espécie de vídeo).





Falava-se, então, dos primórdios da companhia, do panorama teatral almadense nesses meados dos anos 90, e já de algumas perspectivas para o futuro.

Que mais devo dizer sobre o assunto? Desculpa lá, ó Fernando Jorge (Lopes), essa cena de te ter queimado os estofos do carro? Nããã... Isso foi há muito tempo (e eu já pedi desculpa). Olha: parabéns, e contem muitos!

O site deles, já agora:
http://www.teatroextremo.com/

(A propósito: vão espreitando o Almada Cultural por extenso e o meu blogue de entrevistas - em breve terei lá também peças mais recentes sobre o Extremo)

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

BLOGUE SUSPENSO POR TEMPO INDETERMINADO

Motivos de força maior e alheios à minha vontade obrigam-me a suspender as actualizações deste blogue, por tempo indeterminado.

A primeira razão é fácil de explicar: dificuldades de acesso à internet. Desde que comecei este blogue, recorri sempre a computadores emprestados (eu não tenho computador...). E agora, durante algum tempo, não terei possibilidade de aceder à rede nesses mesmos computadores.

A outra razão prende-se com dificuldades e entraves vários que têm sido colocados ao meu trabalho.

Esta é mais difícil de explicar.

Mas posso dizer resumidamente que tem a ver com o procedimento continuado, recorrente, de uma certa pessoa que, em 2008 me fez abandonar o trabalho que estava a desempenhar no jornal Notícias da Zona (e que podem consultar aqui), alegando que eu não estava a trabalhar e - melhor "alegação" ainda... - que eu não sou jornalista e, aliás, que nunca o fui! E essa pessoa é a mesma que, em 2001 (para só dar mais um exemplo) me desorganizou de tal modo a vida ao ponto de me obrigar a pôr fim à colaboração que desenvolvia então com o Sem Mais Jornal e com o Jornal da Região (trabalho que não recebera, até então, qualquer reparo - pelo contrário: só elogios).

Não vou dar mais pormenores - para não vos maçar e para não expor a referida pessoa e as asneiras que ela fez (e foram muitas, muitas mais)!

Não sei se tal pessoa, ao impedir-me de trabalhar alegando que eu não trabalho ou que nunca fui jornalista (não sou? não fui? na dúvida, vejam também aqui), dá mostras de desligamento da realidade (o que, obviamente, é sintoma de anomalia psíquica grave) ou se, simplesmente, procede de forma dolosa com o objectivo de me prejudicar (por razões que, sinceramente, não enxergo) .

Seja qual for o caso - e porque não posso admitir que a minha reputação e credibilidade (certificadas por quem comigo trabalhou, e trabalha, ou por publicações como a que podem consultar aqui) continue a ser manchada por difamações - estarei disponível para, sempre que for necessário, esclarecer a verdade dos factos e demonstrar a veracidade do que afirmo, com recurso a documentos idóneos, alguns deles publicados e outros eventualmente mais confidenciais.

Portanto, de qualquer forma, o caso será esclarecido e quem está envolvido nele será, a seu tempo, devidamente responsabilizado.

Vocês sabem que eu nunca falo só da boca para fora: quando afirmo algo, é porque tenho certeza suficiente do que digo e, sempre que possível, gosto de suportar as minhas afirmações em provas tangíveis.

E é isso mesmo que farei. Nos locais adequados.

Entretanto, peço desculpa pelo incómodo que esta minha ausência da blogosfera poderá acarretar. Não tanto aqui, mas nos blogues Almada Cultural e Almada Cultural (por extenso) os quais, pelos motivos acima expostos, também deixarão de ser convenientemente actualizados.

Até um dia destes.

António Vitorino

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Carnaval em Almada - algumas memórias dos anos 80 e 90

O corso carnavalesco de Almada não é, certamente, dos mais famosos do país. Mas tem uma história já com quase 30 anos. Eu, que conheço um pouco dessa história, vou tentar falar-vos do que sei sobre o assunto.Ora então, se bem me lembro...


Os desfiles de Carnaval, tal como os conhecemos hoje em Almada, tiveram a sua génese já perto dos anos 80 do século passado. Não tenho informações que me permitam afirmar com certeza em que ano o corso desfilou pela primeira vez. Mas suponho terá sido ainda antes do início dessa década. Mais exactamente em 1979, quando o Centro Cultural de Almada (CCA) organizou uma "festa de teatro popular" para comemorar o Entrudo desse ano.

O Jornal de Almada referia-se ao evento desta forma:




E o já desaparecido matutino "o diário" documentou assim o acontecimento:


Se foi esse o primeiro dos muitos desfiles que vieram depois - e o meu palpite é que talvez tenha sido mesmo - então podemos dizer que o Carnaval de Almada comemora 30 anos em 2009! Será? (Como não quero ser desonesto, admito que não tenho nehuma certeza sobre o assunto.)

O que sei, com certeza (porque estive lá e participei) é que, em meados dos anos 80, o Carnaval de Almada era organizado pela União de Sindicatos do Concelho de Almada (USCA), apoiado então pelo CCA e pela Companhia de Teatro de Almada (CTA).

A coisa funcionava mais ou menos assim: a USCA mobilizava o pessoal e o CCA e a CTA davam apoio técnico e artístico.

Os carros alegóricos, os gigantones, as fantasias - tudo isso era confeccionado em Cacilhas, nuns armazéns em frente à entrada dos estaleiros da Lisnave (estaleiros hoje desactivados e armazéns hoje em ruinas). Muito mexi eu (colaborador que era do CCA) em colas e esferovite e mesmo fibra de vidro. E muito aprendi com o pessoal dos sindicatos! No dia do desfile, os grupos e associações participantes juntavam-se frente àqueles barracões e começavam a desfilar, a partir de Cacilhas, em direcção ao núcleo urbano de Almada. Eram corsos prolongados, longos e cansativos - mas muito divertidos. E muito carregados de sátira política - afinal, estávamos nos anos 80, tempos de crise, e num concelho operário, lutador, "vermelho"...



Em Fevereiro de 2008 escrevi sobre estes carnavais dos anos 80, neste mesmo blogue: para ler o artigo cliquem aqui.

Também não sei em que momento a Câmara Municipal de Almada (CMA) assumiu a "liderança"dos festejos carnavalescos. Admito que terá sido no princípio da década de 1990 (mas, mais uma vez por falta de fontes documentais, não afirmo: apenas me atrevo a dar o palpite).
Suponho que o maior envolvimento da autarquia foi uma maneira de tentar dar resposta ao desabrochar de um novo movimento associativo, mais "informal" e nascido fora das colectividades "tradicionais". Este novo movimento, muito típico dos anos 90, tinha energia, juventude, ideias e vontade de as concretizar - mas não tinha instalações próprias nem dinheiro. A CMA apoiou, financiou e assumiu, então, a realização do corso, nos moldes em que se efectua até hoje.

Com uma novidade, nos anos mais recentes: o espectáculo de música no final do desfile. (Este ano - 2009 - com os Orixas).

Na década de 90 eu já não estava tão envolvido nessas coisas carnavalescas. Ainda assim aceitei, em 1996, um convite do Pedro Morgado para integrar a "performance" do grupo Toucinho do Céu: um novo e florescente culto religioso, chamado IURDD - Igreja Universal do Ranho do Dinheiro. Infelizmente, não tenho fotos desse ano. Mas tenho aqui umas de de 1995. E olhem, não é que são, também do Toucinho do Céu?


E pois: não há droga, não senhor!

sábado, fevereiro 21, 2009

Teatro de Fantoches da AIPICA - Almada, Fevereiro de 1979




Este é um folheto publicado em Fevereiro de 1979 (há 30 anos, portanto) pelo grupo de Teatro de Fantoches da AIPICA - Associação das Iniciativas Populares para a Infância do Concelho de Almada.

A AIPICA, associação nascida do movimento popular pós-25 de Abril de 1974, congregava (à data deste folheto) 8 infantários do concelho de Almada, que serviam cerca de 450 crianças.

De acordo com o folheto, o grupo de teatro de fantoches "iniciou a sua formação no mês de outubro de 1978". Mas, como era algo de novo, sentia dificuldades: falta de tempo para ensaios, escassez de materiais e inexperiência dos membros que o constituiam. Obstáculos que, de acordo com o texto, foram superados "por meio da nossa intuição e do nosso contacto com os miúdos diariamente nas creches e jardins de infância". O grupo de teatro de fantoches da AIPICA apontava como seu grande objectivo "realizar uma acção cada vez mais profunda e responsável, com vista à criação do homem novo, amante da paz e do progresso, construtor da sociedade futura".

Estava enraizado na freguesia da Cova da Piedade, zona do "Pão de Açúcar" - onde, também em Fevereiro desse ano, a AIPICA tinha inaugurado um centro de Ocupação de Tempos Livres. (A data referida no folheto para a criação dos "tempos livres" é 21-2-79, mas dois documentos manuscritos, oriundos desse mesmo centro de OTL mas não assinados, mencionam o dia 2 de
Fevereiro para a mesma "efeméride".)




1979 foi o Ano Internacional da Criança.
A "Revolução dos Cravos" tinha ocorrido (ou começado?) há apenas 5 anos.

Neste ano de 2009 hei-de trazer aqui mais algumas coisas relacionadas com a actividade cultural que se fez em Almada durante esses já longínquos tempos.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

É Carnaval! Vamos festejá-lo?


Aqui ficam umas dicas para festejar, retiradas do Gambuzine (com o beneplácito da respectiva editora, Teresa Câmara Pestana). A BD é de um autor chamado Levin Kurio(http://www.weissblechcomics.com). O Gambuzine é um dos meus zines preferidos. Voltarei a referir-me ao dito cujo, mas só depois do Carnaval.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Literatura de cordel


Em Portugal, quando falamos de literatura de cordel estamos a referir-nos a literatura "barata", de má qualidade. Essa designação vem do século XVII, quando havia, efectivamente, uma literatura que era vendida na rua, em postos de distribuição nos quais as publicações eram apresentadas suspensas em fios - tipo estendal, estão a imaginar?

A "literatura de cordel" já não se publica hoje em Portugal. Dizendo melhor: transformou-se noutras coisas a que se chama, por exemplo, "literatura light" - mas já não se vende dependurada de uma guita (citando esse obscuro vate Affonso Gallo, num dos seus mais interessantes poemas). Se nos referirmos não ao conteúdo, mas à forma, podemos dizer que as publicações "de cordel" vieram a dar em fanzines - ou poezines, se forem zines de poesia (como, por exemplo, o Debaixo do Bulcão).

Infelizmente, em Portugal, até os fanzines estão a cair em desuso. Nos anos 80 havia muitos (incluindo zines literários, como o Ara Gris ou o Fragas - que são aqueles de que me lembro melhor). Nos anos 90 foram desaparecendo. Hoje não sei de nenhum (a não ser o bulcão).

Mas isto é em Portugal.

No Brasil, Literatura de Cordel é outra coisa, está bem viva e recomenda-se. E sim, escreve-se com maiúsculas: é um género literário, rimado e popular. É, em suma, o "cordel" tal como já existiu em terras lusas.

Exportado, de cá para lá, encontrou terreno fértil para se desenvolver no Estado da Bahia. E transformou-se numa rica e muito interessante literatura, de ressonâncias orais e intenções didáticas: em rimas simples, os cordelistas contam histórias (da "pequena História" e talvez mesmo da "grande") do Brasil (com maior incidência, como é natural, em casos do Nordeste
brasileiro), e explicam, de forma acessível, por exemplo "O ABC do HIV" (título de um "cordel" de Antonio Carlos de Oliveira Barreto, publicado por edições Akadicadikum) ou, noutros casos, transmitem tradições e lendas locais.

Amigos meus, do Teatro Fórum de Moura - que sabem que eu adoro estas coisas - foram lá, à Bahia, fazer umas actuações e tiveram a gentileza de não se esquecer de mim. Trouxeram-me uma boa mão-cheia de publicações de cordel - de autores que se chamam Gutenberg Santana (Seja bem vindo / A essa literatura / É istória de cordel / Um pouco da nossa cultura / É sobre Lima Barreto / Faça um bom proveito / E uma ótima leitura); Jotacê Freitas (Numa cidade qualquer / do interior da Bahia / existia uma mulher / que respirava alegria / vivia mostrando os dentes / era chamada galinha); Antônio Klévisson Viana (Sou um poeta do povo / Porta-voz da nossa gente / E quando escrevo um cordel / Quase sempre estou contente / Pois a poesia é um dom / Que Deus me meu de presente); Sérgio Bahialista (Salvador tem tanta coisa / Coisas boas e ruins / Entre as boas tem a nossa / Grande feira de São Joaquim / Tudo que se tem no mundo / tem lá do início ao fim); Antonio Carlos de Oliveira Barreto (Xô, doenças transmissíveis... / Veja que bela lição: / eu soube que Xerazade / não contou para o Sultão / que o recurso que ela tinha / era uma camisinha: / e adeus preocupação!).

Se os meus estimados leitores querem conhecer esta literatura de sabor tão popular (tão gostosa, digo eu), encontram referências à dita em sites como a Wikipédia, o Jornal Mundo Lusíada (brasileiro), ou numa página da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (e podem aceder a esses sites clicando nas palavras ou frases sublinhadas).

Se estão mesmo interessados, não deixem de visitar o site da Academia Brasileira de Literatura de Cordel:
http://www.ablc.com.br/

ou o Portal de Literatura de Cordel
http://www.portaldocordel.com.br/

(Nem vou terminar este artigo escrevendo que seria interessante termos em Portugal uma instituição similar para incentivar a literatura popular portuguesa ou os nossos equivalenteds ao "cordel"... Para quê se, em Portugal, a malta quer é coisas modernaças - coisas das quais, provavelmente, não rezará a História, mas que, prontos pá!, são modernaças! não é?...)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Violência na escola e internamento compulsivo ilegal


Manhã de quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009. (Estamos, portanto, no século 21, somos todos muito civilizados e evoluídos, não somos?)
Eu a preparar-me para sair de casa e a ver, num programa matinal da TVI (com o qual até nem simpatizo muito, confesso) a exposição de dois casos que só não me surpreendem porque conheço outros semelhantes.

No Monte de Caparica, numa escola, uma menina foi espancada - durante duas horas ! - por colegas. Bateram-lhe brutalmente, deixaram-na a sangrar e, como isso não lhes bastava, humilharam-na mais um bocadinho enchendo-lhe a boca de lama. Durante duas horas, numa escola pública, uma criança foi espancada e ninguém reparou no caso!!!
A menina agora tem medo de ir à escola.
E o castigo que a escola dá aos agressores é... uns dias de suspensão!

(Trocando em miúdos: bate à vontade que ninguém te chateia por isso e até te deixam baldares-te às aulas! Porreiro, pá!)

Mais à frente, no mesmo programa da TVI, aparece uma senhora que foi internada compulsivamente num hospital psiquiátrico. Porquê? Diz ela, a senhora que isso aconteceu porque teve uma discussão com o marido. Uma discussão violenta, da qual resultaram agressões mútuas. Só que - diz a senhora - o marido é psiquiatra. E - diz a senhora - o marido ter-se-á aproveitado disso para fazer uma "avaliação clínica" da esposa, apresentá-la a uma «delegada de saúde» (sic do que foi dito no programa da TVI) e esta, logo no dia seguinte, terá emitido um mandado de condução para internamento compulsivo. Fundamentado num (suposto) parecer (supostamente) clínico de alguém que, por acaso, até era o marido da senhora - foi a história que contaram nesse programa da TVI.

O jornalista que apresentou este caso levou ao estúdio também um psiquiatra - que, suponho eu, não era o marido da senhora - o qual explicou que existe em Portugal uma lei (a lei nº 36/98, de 24 de Julho, ou Lei de Saúde Mental) que permite, sim senhor, o internamento compulsivo de pessoas com anomalia psíquica grave, mas não dessa maneira - não porque alguém diz que fulano (ou fulana) tem uma anomalia psíquica grave, em consequência da qual está a ameaçar a integridade física, sua e de outros, e/ou bens patrimoniais, seus e/ou de outros, e que (outra condição, concomitante, para accionar a lei) terá recusado a assistência médica, psiquiátrica, que lhe terá sido proposta.


Como Portugal ainda não é "o da Joana", é preciso provar essas alegações. E prová-las não é mencionar supostos relatos sobre o estado psíquico do sujeito e sobre a sua suposta perigosidade: é avaliá-lo previamente, com base em relatórios clínicos ou em avaliação, clínica, feita pelo(a) delegado(a) de saúde, após observar o sujeito em questão. O que, no caso da senhora, não terá acontecido (a menos que consideremos como válida uma "avaliação" feita pelo marido da senhora - psiquiatra com certeza - após uma discussão conjugal).

Portanto - explicava o psiquiatra convidado pela TVI para analisar o caso (não o psiquiatra marido da senhora) - quem determinou esse internamento agiu de forma ilegal.

Isto foi o que eu vi, ontem de manhã, num programa da TVI. Não me vou alongar mais sobre o assunto. Já disse antes - mais abaixo neste blogue - o que tinha a dizer. Outras coisas, que talvez não sejam para dizer aqui, denunciei-as a "quem de direito". O resto, di-lo-ei mais adiante.
E sim, tem tudo a ver...

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Mostra de Teatro de Almada: a primeira, em 1996!




Durante os anos noventa (do século passado, como se diz agora), os jovens de Almada (os jovens dedicados à cultura, não os que se dedicavam à carochice, entenda-se) faziam duas coisas: música e teatro!
Bandas de música "moderna" eram para aí mais de cem. (A sério: a Câmara de Almada tinha um registo com muitas dezenas de bandas, mas muitas outras teriam ficado de fora... e estimava-se que andariam, no total, à volta da centena de agrupamentos).

E grupos de teatro? Deviam ser, pelo menos, vinte (contando com os - poucos - que ensaiavam em colectividades e com os - muitos - que se formavam esporadicamente e logo desapareciam para reaparecerem mais adiante, com outro nome mas com as mesmas pessoas...).

Esse movimento (associativo e informal ) de jovens teatreiros fez com que a edilidade reconhecesse a importância dos grupos, lhes desse apoio (que nunca era "o suficiente", já se sabe...) e, em 1996, levou à realização da primeira Mostra de Teatro de Almada, no Salão de Festas da vetusta Incrível Almadense.

Nessa primeira edição não era ainda a Mostra de Teatro de Almada: chamava-se qualquer coisa como Mostra-t'Almada ! (E, para não me alongar, não refiro aqui as piadas que se fizeram a propósito dessa designação - mas são mais ou menos óbvias...)

Então, a propósito da 13ª edição da Mostra (que decorre entre 6 e 22 de Fevereiro de 2009) aqui vos deixo, a vós, fieis leitores deste blogue (e aos novatos, também) uma peça que escrevi para o quinzenário Sul Expresso. Sem falsas modéstias (que modéstia só admito a verdadeira) digo-vos que o Sul Expresso (ou seja: eu e o Fernando Rebelo, neste caso...) foi o jornal (local - não o comparo aqui com os nacionais...) que melhor acompanhou e divulgou esse movimento teatral dos almadenses anos noventa. Disso vos falarei, também, noutra ocasião.

A crónica de Fernando Rebelo (À Boca de Cena, que aparecia em todas as edições do jornal) é um bónus. Que vos faça bom proveito!

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Manter a ordem na zona pedonal de Almada... É isto?


Existe, em Almada, uma zona pedonal (ou, se preferirmos outra designação: uma zona de trânsito condicionado). Essa zona - criada pela Câmara Municipal de Almada, no âmbito da requalificação urbana que acompanhou a implementação do Metropolitano do Sul do Tejo (MST) no território desta cidade - existe desde Agosto de 2008. Mas, em Agosto de 2008 e nos meses seguintes, toda a gente parecia estar a borrifar-se (desculpem a expressão) para a sinalização que proibia o trânsito automóvel a veículos não autorizados (e os veículos autorizados são, a saber: residentes, viaturas de emergência, transportes públicos e os que efectuem operações de cargas e descargas).Por acaso, eu até chamei a atenção para o assunto (ver aqui) mas, convenhamos, eu não sou nenhuma autoridade - logo, a minha chamada de atenção valeu o que valeu... Portanto, adiante...

Mais recentemente, a autarquia decidiu - e muito bem, se querem que vos diga - que devia (finalmente!) impedir o acesso a veículos não autorizados. Recorreu, para isso, ao serviço da Polícia de Segurança Pública (PSP). Numa primeira fase, com serviços "gratificados" (o que, caso alguém não saiba, significa que os agentes da PSP eram pagos para desempenhar aquela tarefa). Ultimamente, e segundo as minhas fontes, a PSP está a fazer o "serviço normal de polícia" (fonte dixit), e isso estará a causar alguma insatisfação entre os agentes.

(Bem, certamente não será só isso o que está a causar alguma insatisfação entre os agentes... Mas não sou eu quem o poderá dizer. Eu não sou agente.)

Aqui há pouco mais de uma semana, um grupo de cidadãos - cidadãos, com todos os direitos de cidadania, embora com aspecto eventualmente menos "normalizado" - decidiu manifestar-se em defesa da legalidade. Por legalidade entende-se o direito a usufruir, enquanto peões, da zona pedonal (ou de trânsito condicionado, se assim o preferirimos entender) desta cidade de Almada.

E aconteceu o quê?

Pois: parece que esses senhores da Polícia de Segurança Pública (PSP) apareceram por lá a distribuir bastonada!

Eu não estive lá nesse dia. Portanto, só posso reproduzir o que disseram os manifestantes, perdão, utilizadores da "zona pedonal": «Um grupo de polícias veio a correr em nossa direcção, empurrando violentamente várias pessoas da banda. Agarraram então uma rapariga que estava com a sua filha bebé ao colo e empurraram-na bruscamente da frente de um carro. Um dos polícias ameaçou a rapariga dizendo-lhe "se não sais do meio da rua, bato no teu bebé".Logo imediatamente a polícia reparou que havia uma pessoa com uma máquina de filmar perto da rapariga (pessoa que tinha estado a filmar toda a iniciativa desde o início da tarde) e foi-lhe tentar apreender a máquina, ao que essa pessoa, pacificamente, se recusou pois não estava a perceber para que os agentes queriam o filme. Perante isto pediram-lhe a identificação ao que ele respondeu que o faria apenas depois de o polícia também se identificar. A partir daí a actuação da polícia tornou-se mais violenta. Respostas como "eu dou-te a minha identificação, o caralho", "se me continuas a pedir a identificação levo-te detido" foram ouvidas da boca de quase todos os agentes envolvidos. Várias pessoas foram mandadas ao chão e a pessoa que estavam a tentar identificar foi imobilizada por 4 ou 5 agentes de uma forma completamente desproporcionada pois em momento algum teve alguma atitude agressiva. Uma senhora que estava a tirar fotos da agressão foi então agredida por um polícia que lhe tentou tirar amáquina fotográfica, mandando-a ao chão, e que quase lhe partiu um dedo.»


Tentei entretanto descobrir as notícias que foram publicadas sobre essa "alegada" carga policial - notícias em que se referia também o comunicado em que a Polícia explicava a sua actuação. Não as encontrei.

É por isso que não posso referir aqui a versão da PSP sobre esse acontecimento.

Depois desse primeiro confronto entra as forças da ordem pública e os energúmenos que querem usufruir da zona pedonal (ou de trânsito condicionado) desta cidade de Almada, houve, no dia 23 de Janeiro de 2009, outra "ocupação" da via pública, promovida pelo mesmo grupo de cidadãos.

Alertado pelas notícias sobre a carga policial da semana anterior, lá fui eu, o homem das vitorinices, observar.

E o que observei foi isto: uma dúzia de jovens manifestando-se pacificamente, numa zona pedonal (ou, se preferirmos, de trânsito condicionado - mas onde os peões têm prioridade); dois agentes da PSP a controlarem, perfeitamente (mas perfeitamente, mesmo: quando um jovem se deitou no chão para simular um atropelamento, os dois agentes levantaram-no e retiraram-no dali sem enfrentarem qualquer resistência!) até que, sem se perceber muito bem porquê, apareceram maia dúzia de outros elementos da PSP, senhores e senhoras, com o aparato que a imagem acima documenta - e, já agora, a ocuparem a via pública, da maneira que a imagem acima documenta!... (E a terem atitudes que a imagem não documenta, e que, por cautela, evito referir, não vá o "diabo" tecê-las).

Mas confesso que achei muito estranha esta atitude da PSP. Então, um grupo de jovens, que exigem pacificamente que se cumpra a pedonalização daquela zona é confrontada com todo esse aparato policial?

Mas porquê?

Estavam esses jovens a cometer alguma ilegalidade ou alguma alteração da ordem pública ao utilizarem a zona pedonal (ou zona de trânsito limitado, etc,) como... zona pedonal!?

Ou era só uma atitude preventiva por parte da Polícia de Segurança Pública (sabe-se lá se não aparece algum mais exaltado, não é?). E, se o fosse, era mesmo necessário tanto aparato?

Era?Bem...

Então, vejamos...

Esses perigosos jovens que se manifestavam a favor da zona pedonal levaram bastonada na primeira vez que se manifestaram e, na segunda, foram controlados (não digo já provocados, não vá o diabo tecê-las...) por aqueles senhores e por aquelas senhoras da PSP encarapuçados e com tanto aparato.

Está documentado - logo, ninguém vai negar que isso aconteceu, pois não?

Então, alguém me explica porque carga de água, em Junho de 2008, no final do jogo de futebol Portugal-Alemanha, aconteceu uma evidente alteração da ordem pública, ali bem perto, e não apareceu um único polícia para controlar e prevenir uma situação que poderia ter tido consequências bem mais graves do que as provocadas por um grupo de jovens que "atrasam" carros que, supostamente, devem circular devagarinho (ou nem circular ali, de todo)?





Quando grupos de jovens se envolveram em confrontos na Praça da Liberdade e nas ruas adjacentes (sem que um único polícia por lá aparecesse) eu estava ao serviço do Jornal Notícias da Zona. E liguei várias vezes para a esquadra de Almada da PSP, tentando obter informações sobre o caso. E quem me atendia, na esquadra da PSP de Almada, dizia que não tinha conhecimento do caso. Mandavam-me falar com um superior (com quem nunca consegui falar) e, pelo meio, lá iam desabafando que as condições eram más para fazer o serviço, que se pudessem, se os deixassem, se lhes dessem meios, até seriam mais eficazes a prevenir esses casos de alterações da ordem pública, que «eu cheguei agora, o que é que lhe posso dizer?» ou que «isto para onde está a ligar é pouco mais que um balcão, o que é que eu lhe posso dizer?».


Pois. Eu entendo - entendemos todos - que a PSP (e as polícias que existem para zelar pela nossa segurança - e pela ordem pública) está (estão) a passar por grandes dificuldades - e, estamos solidários com a PSP, todos nós, os que não têm nada de ilícito a esconder e, portanto, não deviam ter razões para ter medo da polícia.


Percebo (percebemos, todos os que não andam a cometer actos ilícitos, etc.) muito bem, aliás, que os senhores e as senhoras agentes andem com vontade de bater em alguém.


Mas então, que tal lutarem pelos vossos direitos, em vez de andarem a chatear quem apenas tenta fazer cumprir coisas que, por acaso, até são A LEGALIDADE?


E lutar pelos vossos direitos é possível, hoje em dia, mais do que era por exemplo quendo eu era um puto a insurgir-me contra a molha que alguns de vós, senhores agentes da autoridade, levaram, para defender as vossas condições de trabalho.


Defender direitos é difícil?


Mas talvez seja boa ideia. Já houve até quem tentasse. E com alguns resultados.


Claro que ficaram molhados. Mas conseguiram alguma coisa com isso. Por exemplo, criar uma associação sócio-profissional. Para defender direitos. Exactamente!


E isso, parece-me a mim, é melhor, mais ousado, mais arriscado, mais valente - e, por tudo isso, talvez até mais divertido - que confrontar jovens que complicam a circulação de carros que passem na zona pedonal (ou de trânsito condicionado, como preferirem) de Almada.


(Informação sobre a manifestação dos "secos e molhados" aqui: http://www.aspp-psp.pt/noticias_detalhe.php?id=24)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Esclarecimento:

Até ao final do corrente mês, encontro-me com algumas dificuldades para aceder à internet. E, como é óbvio, sem acesso à internet não posso actualizar este blogue.

É apenas por essa razão que ainda não falei aqui de alguns acontecimentos ocorridos recentemente nesta cidade de Almada (por exemplo, na sua zona pedonal...).

Fá-lo-ei em breve. Entretanto, tentarei manter actualizado o blogue Almada Cultural e, na medida do possível, também o Almada Cultural (por extenso) e o Debaixo do Bulcão.

Fiquem bem, e voltem sempre!

A.V.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Mensagem para Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos da América:

"Senhor Presidente,


No momento em que V. Exa. assume a presidência de uma nação cujo poder de intervenção no conflito israelo/palestino é decisivo para a sua solução, apelo a que a nova administração norte-americana assuma, por palavras e por actos e com a urgência que a situação catastrófica decorrente da invasão israelita da Faixa de Gaza reclama, uma atitude que contribua para o decisivo estabelecimento de um Estado Palestino independente e soberano, nos termos aliás expressos nas resoluções das Nações Unidas e de acordo com os mais elementares princípios do Direito Internacional, e para uma Paz justa no Médio Oriente."

Este é o texto de uma mensagem apresentada pelo escritor José Saramago, em 18 de Novembro de 2008, por ocasião da Semana da Palestina, promovida pelo MPPM - Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente.

Saramago, Prémio Nobel da Literatura e presidente da Assembleia Geral do MPPM, apelou a todos os portugueses sensíveis ao sofrimento do Povo Palestino, cuja opressão se arrasta há mais de meio século, que enviassem uma mensagem por correio electrónico para a Casa Branca, no dia 20 de Janeiro, data da posse do novo presidente dos Estados Unidos da América, instando Barack Obama a intervir a favor de uma solução justa para a resolução deste problema que é uma afronta para os direitos humanos e uma ameaça para a paz mundial.


Enviar para o endereço
comments@whitehouse.gov
com CC para mppm.palestina@gmail.com

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Bush Bye Bye Party !!!

Hoje, 19 de Janeiro de 2009, está em curso uma grandiosa e mundial festa de despedida a George W. Bush.
A ideia é a seguinte:
(ver vídeo)


E não é piada, não: está mesmo a acontecer!

Informações no site oficial Bush Bye Bye Party (onde se encontra, por exemplo, informação sobre as festas agendadas, ou a decorrer, nos diversos países):
http://bushbyebyeparty.com/home_eng.html

E, como não podia deixar de ser, aqui o Vitorino junta-se à festa:


(pois, acho que vou sair desta a ver a dobrar!...)

Um facto é um facto: tenhamos essa percepção!

Respondendo a um desafio (provocação?) que o PréDatado colocou no seu (dele) blogue, venho aqui hoje escrever umas coisitas sobre o mui polémico acordo ortográfico da língua portuguesa.


Antes de mais nada: não escondo que sou favorável a este acordo (e já o referi antes aqui e também aqui). Como instrumento político para unificar documentação oficial, é muito interessante. É, assim mal comparado, uma espécie de "programa simplex" da língua portuguesa. Acho que todos os magalhães já deviam vir apetrechados com um.


Pronto, agora a sério: concordo, sim, com o acordo. Não me vai fazer escrever de maneira diferente (continuarei a redigir facto e fato, por serem palavras diferentes, mas continuarei a escrever também recepção e reacção... embora, no português de Portugal, esteja a usar consoantes desnecessárias).


É preciso ter em conta que, contrariamente ao que dizem os que são contra, este acordo não vem "alterar por decreto a língua portuguesa". É um acordo ortográfico - logo, só altera a ortografia. E - isto é, a meu ver, o mais importante - altera a ortografia para a aproximar da fonética. Ou seja: daqui a uns anos - quando estivermos todos habituados a isto - deixaremos de escrever em Portugal recepção (passaremos a escrever receção - pois é assim mesmo que dizemos a palavra!). Mas vamos continuar a escrever facto e pacto (porque dizemos facto, e não fato; pacto e não pato!). No Brasil, diz-se fato (e, por isso mesmo, é assim que se escreve) e diz-se pacto e diz-se recepção (logo, os brasileiros vão manter o "c" e o "p" nessas palavras.

Simples, não é?

Refiro estes casos porque, entre as muitas dúvidas que se levantaram em Portugal, uma das mais recorrentes (talvez mesmo a mais recorrente) era saber se vamos passar a redigir fato em vez de facto. (Mas isso é assunto que foi tão debatido, desde os anos 80, que tenho alguma dificuldade em admitir que, hoje em dia, quem apresenta essa "dúvida" esteja mesmo a falar a
sério...).

O que me incomoda e preocupa, realmente, é a adulteração da língua portuguesa pela via das abreviaturas usadas hoje, a torto e a direito, nas msg de tlm e na net (e eu tb as uso, tão a ver?). Porque é assim: abreviaturas sempre foram utilizadas, para escrever mais depressa ou para poupar espaço (veja-se o caso de algumas inscrições lapidares da "idade média"). Mas, até
agora, soubemos sempre separar o trigo do joio: discernir o que é a escrita fluente e o que é escrita abreviada.


Ora - e é aqui que a porca torce o rabo - acontece que alguns professores têm andado a descobrir recentemente, nos textos dos seus alunos, essa tal "linguagem de telemóvel" escrita como se fosse a língua portuguesa correcta. Pior: quando lhes perguntam, os alunos mostram desconhecimento da regra - escrevem assim, porque foi assim que "aprenderam" e, portanto, é assim que está correcto (correto, segundo o acordo ortográfico), para eles!

Bem, e se fossem só os alunos...

Olhem para esta "pérola", encontrada numa caixa de comentários, a propósito de um artigo sobre, precisamente, o acordo ortográfico:

axo k u novo acordo ortograficovai ser algo que só vai trazer complicaçõespara com os alunos e para a população em geral!!!protesto!!!

É para rir? Talvez...
Mas não fui eu que inventei. Está aqui (podem ir lá confirmar):

Na dúvida, consultem também este artigo da Wikipédia:
Está muito completo (tanto quanto um artigo da Wikipédia o consegue ser) e, julgo eu, muito esclarecedor. Explica as alterações à grafia nos diversos países lusófonos, em que casos vamos escrever facto, fato, pacto, pato... Enfim: explica essa coisas todas.


A minha única dúvida - e a grande angústia existencial que este acordo me provoca - não fica, contudo, esclarecida nesse artigo. É esta: afinal, escrevemos cágado ou cagado? E se for um cágado cagado? É um cagado cagado? Alguém me esclarece?

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Emigrar para trabalhar? Que tal emigrar cá dentro?

Agora que Portugal voltou a ser um país de emigrantes - eu conheço muitos, e tenho pena que eles se tenham posto a andar, porque me deixaram só e abandonado (sim, esta é para vocês, Batata, Luísa, vasco e... e pessoal do Teatro Fórum de Moura) - eu agradeço encarecidamente aos amigos que ainda me restam por estes lados que não desapareçam para muito longe. É que eu já não estou naquela idade em que fazemos "novos amigos"... Portanto, pá, se quiserem emigrar, que tal emigrarem cá dentro? Como fizeram, por exemplo, o Jorge e a Andreia: foram para Moura e criaram por lá uma companhia de teatro.

Vem esta conversa mole a propósito de uma coisa importante. É que o Teatro Fórum de Moura tem uma vaga para relações públicas e promoção. Para quem não saiba, Moura fica no Alentejo - aliás, no "Alentejo profundo", como disse, em tempos que já lá vão, o nosso PR (que era, na altura, apenas p-m) - a duas horas da "grande Lisboa". Claro que eles preferem um trabalhador que viva nas redondezas... Mas não custa nada experimentar: os eventuais interessados não têm nada a perder, e têm todo um mundo de experiências novas a ganhar!



Aqui fica o texto enviado pelo TFM:

Procuramos trabalhador(a) para exercer funções de relações públicas, captação e angariação de públicos, assessoria de imprensa, contacto institucional e apoio administrativo.
Damos preferência a pessoal que resida no Alentejo, especialmente na margem esquerda do Guadiana.

Mais info e marcação de entrevista: teatrofmoura@gmail.com
ou 966 706 036/285 254 464
Teatro Fórum de Moura - Associação
R. Cardeal Lacerda, 87860/018 MOURA

terça-feira, janeiro 13, 2009

Quero mais!



(Para hoje, uma posta meio confessional. Desculpem lá estar a fazer de vós o meu confessionário. Ou o meu padre...?)


Reza a lenda, ou a história (e a RTP confirma: vídeo aqui) que os Xutos e Pontapés fazem hoje 30 anos. Ou melhor: que há exactamente 30 ano (em 13 de Janeiro de 1978, portanto) os Xutos fizeram o seu primeiro concerto, na tão popular quanto mítica colectividade lisboeta que dá pelo nome de Alunos de Apolo.

Ora, desta banda (que era de Almada e hoje é de todo o lado e de sítio nenhum) eu só poderia dizer coisas boas. Foram, e ainda são, uma das minhas referências. Mesmo quando vieram com o tão mal-amado Gritos Mudos (na altura, em 1990, a piada era "gritos mudos, orelhas moucas"!), eu nunca deixei de gostar deles. Aliás, são precisamente desse álbum alguns dos meus temas preferidos: Gritos Mudos, Pêndulo... E do ábum seguinte, Dizer Não de Vez, a Velha Canção da Cortiça, a Chuva Dissolvente e O Que Foi Não Volta a Ser - hoje clássicos, mas muito mal recebidos... - foram, para mim, mais alguns "hinos", a juntar aos que vinham de trás (como, por exemplo, o Homem do Leme, Remar Remar, ou Longa se Torna a Espera).

Mas, por acaso, posso até dizer que já os conhecia ainda antes disso. Logo no primeiro single: lado A Sémen; lado B Quero Mais.

Quero Mais que, também por acaso, é outro dos "hinos" da minha juventude - canção que - pobre de mim! - me veio a acompanhar ao longo da vida e... Ah, pronto, já chega por hoje.


Fiquem lá com esta:




encontrada neste canal:
http://br.youtube.com/user/bakinho

Xutos e Pontapés - alguns "clássicos"

Chuva dissolvente
em http://br.youtube.com/user/TataComuna



Pêndulo
em http://br.youtube.com/user/actozeros



Homem do Leme
em http://br.youtube.com/user/visionariotv




Sai prá rua
em http://br.youtube.com/user/universalmusicpt





O que foi não volta a ser
em http://br.youtube.com/user/Jotagix

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Uma "breve História da Palestina"

Visões da história recente, da criação do Estado de Israel e dos antecedentes do conflito israelo-palestiniano. Dez minutos de História, numa perspectiva não-sionista e não-imperialista.

Israel ataca o Hamas!?... Pois... Mas sabemos nós o que é, afinal, o Hamas?


Para o Estado hebraico, o Hamas é um grupo terrorista que usurpou o poder na Faixa de Gaza e bombardeia constantemente as cidades israelitas. Para os palestinianos (particularmente para os que residem nessa superpovoada Faixa de Gaza), o Hamas é, além de um Governo eleito, uma instituição de solidariedade social, que apoia e protege os mais desfavorecidos da sociedade.

E é. As duas coisas: amigo do seu amigo e inimigo do seu inimigo.

Apesar de estar no poder, o Hamas não tem uma lógica de "partido político", tal como nós o entendemos, nem mesmo (julgo eu) de "movimento de libertação" tal como, por exemplo a OLP, entendia. Declarou a Israel uma guerra sem tréguas e, aparentemente, não aceita nenhuma solução diplomática para a criação de dois Estados (Israel e Palestina) com relações de boa vizinhança (contrariamente ao que acabou por fazer, por exemplo, Iasser Arafat).


Mas - ironia que já cá faltava - este encarniçado inimigo de Israel foi apoiado, no início, por quem? Exactamente: pelo Estado de Israel. E para quê? Pois claro: para enfraquecer a OLP.

Entretanto, vamos recebendo notícias da ofensiva militar israelita sobre a Faixa de Gaza. Mas - como habitualmente - a história nunca é bem contada. Há sempre omissões, incorrecções e "pontas soltas" (para não falar de casos em que há apenas manipulação dos factos...).

É importante - sempre! - diversificar as nossas fontes de informação.

Aqui ficam três artigos - encontrados, respectivamente, num blogue de um jornalista brasileiro a residir nos EUA, num portal brasileiro e num órgão de comunicação social alemão - onde se tenta perspectivar o actual conflito, olhando para o passado recente de Israel, da Palestina e do Hamas:


"Uma História do Hamas", por Pedro Dória


A indignação de parte a parte é importante. E compreensível. Mas há vários sinais ocorrendo em Gaza que boa parte da cobertura jornalística não está pegando.
Por que, por exemplo, o Hizbolá não está atacando Israel do Líbano?
Por que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que por muito menos já ameaçou Israel das piores formas, anda tão ameno em seus discursos das últimas semanas? (Diz que o Hamas está ficando mais forte e não passa disso.)
Precisamos compreender o Hamas: de onde vem, e o que é hoje.
Israel informa que está atacando o Hamas, em Gaza, neste momento. As vítimas, no entanto, são palestinos. Morrem às centenas.
Alguns – muitos – não têm qualquer ligação com o Hamas. Mas como declaradamente o ataque é ao Hamas, aqueles que tomam as dores das vítimas defendem o Hamas; e aqueles cujo coração bate por Israel sugerem que quase todos os mortos são do grupo.
O Hamas, no entanto, não representa todos os palestinos. A se contar as pesquisas eleitorais de dezembro, em 2009 46% dos eleitores em Gaza planejavam votar no Fatah e apenas 32% no Hamas. Levando-se em conta também os eleitores na Cisjordânia, a outra parte da futura Palestina, a derrota eleitoral do Hamas seria de acachapantes 42 a 28%.
O que é, então, o Hamas?
É o grupo que, durante muito tempo, recebeu dinheiro da Arábia Saudita. É o grupo que durante anos foi parcialmente financiado por Saddam Hussein. São aqueles que se sustentam, hoje, com o dinheiro do Irã.
Mas, antes de tudo isso, é o grupo financiado de nascença por Israel. E esta que segue é sua história.




"A história do conflito entre Hamas e Fatah", em Último Segundo


O Fatah do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e os islamitas do Hamas no poder têm uma longa história de rivalidade e conflitos. As tensões e os conflitos armados entre os partidários dos dois campos nos últimos tempos marcam o auge de quase 20 anos de desentendimentos.
(...)
Os problemas atuais têm sua origem no combate mais amplo que opôs, durante quase meio século, uma corrente nacionalista pan-árabe, liderada por Jamal Abdel Nasser, a um movimento islamista, dominado inicialmente pelos Irmãos Muçulmanos Egípcios.
Nos territórios palestinos, a batalha começou no início dos anos 1980 nos campus das universidades, entre membros dos Irmãos Muçulmanos, que vão criar no fim de 1987 o Hamas, e os nacionalistas do Fatah, fundado em 1959 pelo líder histórico dos palestinos, Yasser Arafat.
A primeira intifada (1987-1993) lançou os dois campos numa primeira luta pelo poder e em confrontações diretas, o Hamas contestando a supremacia da Organização para a Libertação da Palestina (OLP, que agrupa todos os movimentos nacionalistas) na luta pela libertação nacional.
O jovem Hamas, criado pelo xeque Ahmed Yassin, que pregava a destruição de Israel, realizou nesta época seus primeiros ataques contra Israel, recusando o combate ao lado de outros movimentos e, sobretudo, a ajuda do Fatah.
A verdadeira ruptura ocorreu em 1988, quando a OLP reconheceu o princípio de dois Estados, um israelense e outro palestino, vivendo lado a lado. A divisão entre os grupos tornou-se ainda mais evidente em 1993, quando da assinatura dos acordos de Oslo sobre a autonomia palestina, criticados pelo Hamas.



"Saiba o que é o Hamas", em DW-world


O Hamas é, ao mesmo tempo, um partido político e um movimento militar, as Brigadas Qassam. São elas que organizam os ataques com mísseis contra Israel.
Para muitos palestinos, entretanto, trata-se de uma organização beneficente, que presta ajuda e assistência nos lugares onde a Autoridade Nacional Palestina (ANP) falha.
Foi também graças à atuação do Hamas que foram inaugurados hospitais, jardins-de-infância, escolas e pontos de distribuição de sopa nos territórios em conflito, o que permitiu que a organização ganhasse amparo junto à parte pobre da população palestina.
O Hamas virou um partido político em 2005. Em janeiro do ano seguinte, venceu as eleições parlamentares palestinas, derrotando o Fatah e ficando com a maioria das cadeiras.
Em junho de 2007, a chamada Batalha de Gaza resultou na expulsão do Fatah da Faixa de Gaza, que passou a ser controlada pelo Hamas. Em resposta, o presidente palestino, Mahmud Abbas, retirou representantes do Hamas do governo da Autoridade Nacional Palestina na Cisjordânia.




Mais algumas fontes de informação:
Hamas, Democracia e Paz
Imagens da Palestina, actualizadas, num canal árabe israelita noYoutube:
http://br.youtube.com/user/tvcabo777
Al Jazeera, em inglês, no Youtube:

terça-feira, janeiro 06, 2009

Um poema palestiniano:


Vós homens
E vós mulheres
Todos vós, xeques, rabinos, cardeais,
Vós enfermeiras e operárias têxteis,
Tanto tempo haveis esperado
E o carteiro ainda não chegou
Trazendo as ansiadas cartas
Através dos ressequidos
Arames
Farpados


Homens
Mulheres
Não espereis mais, não espereis
Arrancai as roupas da vossa noite
Escrevei as vós mesmos
As cartas das vossas esperanças


Samih al-Qassim

autor palestiniano citado por Emil Habibi, no livro
"As estranhas circunstâncias do desaparecimento de Saíd Abu Nahs O OPTISSIMISTA" - Edição portuguesa: Editorial Caminho, Lisboa, Setembro de 1985.

"O optissimista", escrito entre 1972 e 1974, foi publicado originalmente na edição árabe do jornal Al-Ittihad (órgão central do Partido Comunista de Israel), como um "romance epistolar", publicado nas páginas do periódico, uma carta de cada vez. Foi traduzido por António Bento Guimarães a partir da versão francesa, "L'Optissimiste", de 1980. A capa - de que reproduzo um pormenor - é de António Domingos.

(Espero voltar a este livro, com divulgação de excertos do romance propriamente dito.)

terça-feira, dezembro 30, 2008

Janeiras - do Natal aos Reis


Cantar as Janeiras é uma das tradições que em Portugal - felizmente! - ainda se mantêm. Aqui fica uma contribuição (copiada de um caderno editado em 1979 pelo Centro Cultural de Almada) para o conhecimento dessa actividade festiva.

Nas vésperas do Ano Novo (ou Ano-Bom) e na véspera do dia da Festa dos Reis, à noite, bandos de crianças e adultos, com instrumentos de música, e na falta deles, com campaínhas e tambores improvisados com pequenos barris sobre que se ata uma pele, vão pelas portas das pessoas de quem esperam obter algumas dádivas, entoam diversos cantos - chama-se a isto pedir as Janeiras, o Ano Novo ou os Reis.

Os cantos já são romances ou estrofes tradicionais, improvisados no momento.

Canto de Rapazes

Ó da casa dê-nos Reis
Que não somos senão seis;

Bote-nos aqui num proto,
Que não somo senão quatro.

Se n'os podem dar
Bem se podem aviar;
Nós temos muito para andar
E pouco para arrecadar.

Também os adultos cantavam às portas, pedindo às senhoras, e em louvor de alguns santos.

Se os cantores não recebem nada "descantam" da seguinte forma:

Estes Reis que aqui cantamos
Tornemo-los a descantar
Estas barbas de farelos
Não têm nada que nos dar.

(Celourico de Basto)

Na Foz do Dão, entre os dias 3 e 6 de Janeiro, juntam-se rapazes e raparigas em grupos, percorrendo as ruas a pedir as "Janeiras".
Costumam dar-lhes chouriços, batatas, castanhas, maçãs, passas, vinho, etc.
Um deles vai à frente com uma candeia a alumiar, quando se acaba o azeite é costume encherem-lha na casa a que vão pedir.
Outro vai com um saco a recolher esmolas.

Se não recebem esmolas dizem:

Surrão, surrão
Esta casa vai ao chão

Quandos lhes dão dizem:

Ripa, ripa
Esta casa seja rica.

No fim assam as castanhas numa fogueira.

"Materiais para o Estudo das Festas, Crenças e Costumes Populares"
1881 - Adolfo Coelho

(Em "Festa das Janeiras" - edição Centro Cultural de Almada, 1979)


Mais informação (actualizada) sobre Janeiras:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Janeiras

Origens das Janeiras


Citando a publicação de 1979 do Centro Cultural de Almada, "Festa das Janeiras":

As origens das Janeiras perdem-se no tempo. Luís Chaves (conservador do Museu Etnológico) no seu livro "Páginas Folclóricas" - 1941 - diz-nos que a sua génese "entronca nos bailados e pantominas".

José Leite de Vasconcelos, director honorário (fundador) do Museu Etnológico, garante com base em documento histórico que desde o século XIV se cantam as Janeiras em Portugal.

António Feliciano de Castilho que viveu no Caramulo de 1826 a 1834, escreveu de lá que as "pagãs janeiras que ainda alguns se lembram de ter cantado já lá vão...".
Acrescente-se, no entanto, que apesar de tudo, a realidade actual parece contradizer esta afirmação de Castilho.

Com menos frequência, mas mantendo a tradição, cantam-se ainda as Janeiras em várias terras do país.

Assim, se são dados aos Janeireiros chouriços, vinho, etc., entoam cantigas enaltecendo por exemplo a família e a casa:

Quem diremos nós que viva
No grãozinho de arroz?

Viva a família toda
Por muitos anos e bôs.

Se nada lhes é oferecido "descantam":

Esta casa cheira a breu,
Aqui mora algum judeu;

Esta casa cheira a barro,
Aqui mora algum masmarro;

Esta casa cheira a fel,
Aqui mora algum luzbel;

Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto;

Semi-nus, rotos, descalços, às vezes a tiritarem de frio, é rara a noite de entre o Ano Novo e os Reis, que, em algumas freguesias da Beira Baixa, as crianças não andem, aos magotes, pelos balcões e pelas portas, a pedir e a cantar, em toada dolente, as janeiras.

Em Vale de Lôbo assim cantam as Janeiras:

Boas noites, boas noites,
Boas noites de alegria,
Que lhes manda o Rei da Glória,
Filho da virgem Maria.

Coro

Naquela relvinha
C'o vento gelou,
A Mãe de Jesus
Tão pura ficou.

Dominus Excelsis Deo,
Que já é nascido
O que nove meses
Andou escondido.

Em Escalos de Baixo, as Janeiras, cantadas do Natal ao Ano Novo, começam assim:

O Sol já vai raiando
Por cimas das oliveiras.
Erga-se lá, senhora,
Que vamos cantar as Janeiras!

Músicas acompanhadas com pífaro de pau (flauta rústica que usam os pastores)


"Etnografia da Beira" Vol I, 2ª edição - 1944, Dr. Jaime Lopes Dias

segunda-feira, dezembro 29, 2008

A minha primeira exposição de fotografia... (Dezembro de 1990)


Dezembro de 1990: o tal ano em que o "bloco de Leste" se desfez... Álvaro Cunhal ainda era o secretário-geral do PCP, mas havia também Carlos Carvalhas - o homem que teria a difícil tarefa de liderar o Partido Comunista Portugês nesses anos críticos (críticos para o ideal comunista, entenda-se) e que o fez muito bem (digo eu).
Em Dezembro de 1990 estávamos em campanha eleitoral para a Presidência da República Portuguesa, e Carlos Carvalhas era o candidato do PCP.


Eu era frequentador do Ritz Club e - por coincidência, ou não - a candidatura de Carvalhas faz uma acção de campanha nesse espaço da noite lisboeta. Eu tive a sorte, o privilégio (e essas coisas todas, etc. etc.) de ser convidado para apresentar alguns trabalhos meus. Pois: eu fazia fotografia (desde os anos 80) a preto e branco, com uma praktika mtl qualquer coisa, e até usava rolos da orwo (marcas da ex-RDA, a máquina e os rolos), e tinha muitas horas de experiência no laboratório do Centro Cultural de Almada... Enfim, tinha algumas fotografias para apresentar!
Então, com o meu amigo Rui Jorge Martins, decidi (decidimos) aceitar a porposta, e apresentar, no dia 29 de Dezembro de 1990, ao cimo da escadaria que dava entrada para as instalações do Ritz Club, alguns painéis com fotografias, aos quais chamámos PortFólios. (Não nos pediram um nome original, está bem? Pediram-nos, só, fotografias).

Aquilo foi uma exposição só de um dia. Soube-me a pouco e, por isso mesmo, propus à Casa Municipal da Juventude de Almada (Ponto de Encontro, em Cacilhas) realizar ali uma versão revista e aumentada. E assim se fez: se não me engano, foi em Janeiro de 1991 que as minhas fotos apareceram, pela primeira vez, numa exposição individual, em Almada.

Mais tarde, durante essa década de 90, fiz outras exposições: de fotografia (PhotoGraphias) no Ponto de Encontro, e de pintura a marcador, no Ponto de Encontro e num bar de Almada Velha que se chamava Alma da Velha... Mas essas coisas perderam-se. (Não fui eu quem as perdeu, não; mas enfim... não falemos de coisas tristes, mais uma vez...)

Mesmo a exposição de 1990/1991, perdeu-se quase toda. Ficou apenas isto:









A minha primeira exposição de fotografia (ou o que dela resta...).





domingo, dezembro 28, 2008

O Ritz Clube, antes de eu o ter conhecido...



O Ritz Club foi, durante anos, das mais míticas salas de espectáculo de Lisboa. Localizado na Praça da Alegria (perto do local onde hoje está o Maxime e mais perto ainda da sede da Federação Portuguesa de Futebol), o Ritz Club era um dos locais carismáticos do "bas-fond" lisboeta... Até que, nos anos 80, um tal de Vitorino Salomé (o famoso cantor, alentejano do Redondo) se interessou pela sala e, com uma pequena ajuda dos seus amigos, resoveu transformá-la em local "de culto", mas para outro tipo de público.


Foi nessa altura que outro Vitorino (pois: eu) a descobriu.

"As" descobriu, aliás: porque o Ritz Club era não uma mas duas salas. Num primeiro piso, um sítio mais recatado (digamos...) e, mais acima, a sala de espectáculos propriamente dita, com plateia de mesas - muito ao estilo "cabaré" - e um balcão e tudo.

Foi lá que vi, pela primeira vez, um concerto dos Ena Pá 2000 e... E não vou falar disso agora. Porque este artigo é sobre o Ritz Clube, mas antes de eu o ter conhecido.

Aqui ficam, então, excertos de uma reportagem feita pela revista Contraste, na sua edição número 3, em Abril de 1986:






E que tal uma página no MySpace sobre o Ritz Club? Sim, existe mesmo uma página no MySpace sobre o Ritz Club! Felizmente:
É aqui:
http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendid=303114256