terça-feira, outubro 16, 2018

Fabricando Jair Bolsonaro


texto: Felipe Castelo Branco em Caliban - revista de letras, artes e ideias
imagem: panfletos de apoio à candidatura de Jair Bolsonaro, Brasil, Outubro de 2018

Do antipetismo a Bolsonaro

É inegável que a principal força política de Jair Bolsonaro descende do antipetismo. Grande parte de seus eleitores, quando surgem em sua defesa, em geral empreendem um duplo trabalho: desmentir, relativizar, desconversar ou se apropriar das posições e declarações públicas de seu candidato; e afirmar a urgência de sua eleição contra o PT. Em relação a segunda tarefa, dois termos não tardam em aparecer em socorro ao argumento da ameaça iminente: ‘corrupção’ e ‘comunismo’. Em uma segunda associação imediata, o termo ‘comunismo’ e/ou ‘esquerda’ vincula-se aos dois ícones privilegiados dos eleitores do Messias: ‘Cuba’ e ‘Venezuela’.

A despeito das muitas variáveis que tem se produzido nessas associações, a construção do antipetismo inicialmente se alimentou basicamente apenas do primeiro termo, isto é, da associação entre o Partido dos Trabalhadores e o termo “corrupção”, antes mesmo que as denúncias do chamado “mensalão” tivessem atingido seus altos escalões (as punições, que começam em 2011, em sua primeira fase associavam o PT a um escândalo que atingia diversos partidos), e pelo menos um ano antes do início das operações da chamada “Lava-Jato” (em 2014). O antipetismo surge inicialmente como uma arma mobilizada pelo PSDB para minar as bases políticas da única potência eleitoral efetivamente existente no país, ou seja: Lula. Sua penetração na opinião pública foi gestada especialmente a partir de 2013 e provavelmente visava enfraquecer a força do PT na disputa eleitoral de 2014, mas, acima de tudo, visando gerar seus frutos definitivos nestas eleições de 2018, eliminando o PT da disputa.

O fato é que o poder eleitoral do antipetismo saiu do controle e das mãos do PSDB nos últimos anos, tornando-se a principal alavanca eleitoral da política partidária brasileira. Contrário às expectativas do PSDB, a apropriação do antipetismo, que a partir de 2015 passa a circular entre várias mãos, se mostrou inegavelmente mais eficaz, do ponto de vista eleitoral, pelo seu principal representante hoje: Jair Bolsonaro.

Em sua origem está a imprevisibilidade das manifestações de junho de 2013, que tomou desprevenida a organização do PSDB. Embora as pautas das ruas naquele período fossem diversificadas, a reivindicação central das manifestações orbitava em torno da rejeição ao alto valor do transporte público e da falta de qualidade e alto custo desses serviços. O tema atingia diretamente as políticas dos governos estaduais e como o epicentro dos atos emanava de São Paulo, o PSDB interpretou imediatamente as jornadas de rua como um ataque ao governador Geraldo Alckmin (governador do estado de SP na ocasião). Além de rejeitar a mobilização popular, o PSDB responsabilizou inicialmente o PCdoB pelas ações, diminuindo a importância dos atos e tentando desviar o foco das reivindicações populares para a prefeitura de Fernando Haddad, do PT: “os excessos nas manifestações [tem] um culpado: o prefeito Fernando Haddad, por não cumprir suas próprias promessas de campanha.” (https://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/06/juventude-do-psdb-lanca-nota-contra-manifestacoes-em-sp.html).

Dois dias depois de sua primeira declaração pública, quando o movimento assume dimensões nacionais, o PSDB muda de posição e de estratégia, assumindo a inevitabilidade de se pronunciar a favor dos atos públicos (https://www.revistaforum.com.br/juventude-do-psdb-paulistano-volta-atras-sobre-manifestacoes/). Havia se tornado impossível rejeitar a força das jornadas de junho e, ao mesmo tempo, a cúpula PSDBista havia se dado conta de que o movimento não havia sido organizado de forma linear e centralizada e, portanto, pulsava como uma força sem lideranças formais (inclusive partidárias, o que retirava o habitual protagonismo do PT deste tipo de ação popular).

As marchas de 2013 não pertenciam a nenhum partido. Essa, que foi a principal força dos eventos de 2013, fomentou, por outro lado, uma expectativa entre as lideranças PSDBistas em organizar um direcionamento para a força difusa dos atos públicos, cooptando a insatisfação generalizada em direção a um inimigo visível: o governo presidencial PTista. Embora já iniciadas as condenações no caso do mensalão naquele momento, o governo de Dilma Rousseff, durante a primeira metade do ano de 2013, atingia a assombrosa marca de 79% de aprovação (https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/03/19/dilma-cni-ibope.htm), e poucos efeitos das manifestações daquele ano haviam respingado sobre sua imagem.

Em 21 de junho de 2013, em um dos momentos mais críticos das jornadas de junho, a direção nacional do PSDB, em carta assinada por Aécio Neves, torna público seu “apoio” às chamadas “manifestações”, afirmando que os atos de rua seriam motivados por “uma aguda crítica à corrupção e à impunidade que persistem na base do sistema político” e denuncia “o oportunismo do alto comando do PT, que tenta se apropriar de um movimento independente, ao determinar que militantes do partido se misturem aos manifestantes com o claro intuito de diluir as cobranças feitas ao governo federal” (http://g1.globo.com/politica/noticia/2013/06/psdb-critica-oportunismo-do-pt-e-diz-que-protestos-miram-corrupcao.html). Naquele momento, a “culpa” pela insatisfação popular se desloca para o PT, somando-se a esse deslocamento a ideia de uma insatisfação popular com a corrupção PTista.

Quem esteve nas ruas sabe que pouco se bradava contra Dilma Rousseff. A insatisfação política era generalizada, mas as reivindicações atacavam acima de tudo os vícios estruturais da política partidária e os grandes gastos com os mega-eventos ainda por vir: a Copa do Mundo, o Pan-Americano e as Olimpíadas. No entanto, o PSDB assume uma tarefa. A tarefa de informar a própria massa que foi às ruas que ela estava sendo enganada. Que seu repúdio à classe política, na verdade, era direcionado ao PT e que o próprio partido, ao marchar nas ruas ao lado dos insatisfeitos com sua base militante, tinha a intenção de desviar a atenção do verdadeiro foco do clamor popular: a relação promíscua entre o PT e a corrupção.

Note-se que apesar da relação entre o PTismo e a corrupção moldar inicialmente a estratégia eleitoral PSDBista, o desdobramento dessa associação imediata é restrito. Nada de comunismo, nenhuma menção a Cuba, tampouco se fala no chamado “centrão” e nenhum dos outros partidos da base política do PT são mencionados. Nem mesmo o PTB, partido de Roberto Jefferson que funciona como gatilho inicial para a chuva de denúncias que deu início ao escândalo do mensalão; ou mesmo o PP, partido da base do PT que é o principal envolvido no escândalo e será o articulador central no futuro “petrolão” (https://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/2018/04/24/pp-de-ciro-nogueira-e-um-dos-mais-envolvidos-em-investigacoes-como-lava-jato-e-mensalao.ghtml).

A partir daquele momento, a associação entre o nome PT e o termo ‘corrupção’ passa a ser tantas vezes repetida e incentivada nesta estratégia, que mesmo sem ser indiciada ou mesmo investigada no início de 2014, ano em que concorreria a reeleição contra Aécio Neves, a popularidade de Dilma Rousseff cai de 79% para 39%. A estratégia PSDBista (e mais tarde reproduzida pelo próprio Ministério Público) será falar em “organização criminosa” ao referir-se ao Partido dos Trabalhadores, uma maneira de transmitir a ideia sub-reptícia de um plano oculto de corrupção que atingiria, direta ou indiretamente, todos os membros e apoiadores do partido. Embora a ideia de uma organização intentasse manchar a imagem de todos os partidários PTistas, acusados ou não formalmente de corrupção, evitou-se estrategicamente que essa associação ao tema da corrupção se estendesse aos partidos ligados a base política do PT, mesmo que ativamente participantes de seu governo no poder legislativo e nas estatais. Fala-se em “quadrilha”, em uma insinuação de que as ações do alegado “grupo criminoso” envolva todos os membros do Partido dos Trabalhadores, sem atingir nenhum de seus parceiros, aliados ou rivais.

De fato, a estratégia teve êxito. As desfiliações ao PT se produzem em massa, e jamais os membros de partidos como o PTB ou o problemático PP terão sua imagem diretamente manchada. Esse isolamento abstrato do PT foi um dos principais motivadores para a onda de aderências de políticos profissionais ao antipetismo.

Nesta mesma onda surfou o então deputado Jair Bolsonaro.

O candidato a presidência era deputado pelo PTB, sendo base do governo PTista, entre 2003 e 2005, justamente os anos em que o PTB admitidamente participou do esquema do mensalão, segundo relato do próprio presidente do partido, Roberto Jefferson. Mesmo participando do governo do PT, Bolsonaro jamais será associado ao escândalo do mensalão (ao contrário de Lula, que não foi nem mesmo indiciado no escândalo). Ao se desfiliar do PTB, Bolsonaro adere ao PP entre 2005 e 2016. Além de permanecer na base ampla do governo do PT por mais 11 anos, Bolsonaro troca um dos principais agentes do escândalo do mensalão (o PTB) pelo principal envolvido no escândalo do petrolão, o partido que mais recebeu dinheiro da JBS dos irmãos Batista e o partido mais investigado na Lava-Jato, ou seja, o PP (https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/24/politica/1524605415_828915.html?id_externo_promo=enviar_email). Ainda assim, a imagem de Bolsonaro será muito habilmente afastada do imbróglio, tanto de seu vínculo aos escândalos do mensalão e petrolão, quanto de seu vínculo com o próprio PT, que ele chega a apoiar publicamente em diversos de seus discursos (https://www.youtube.com/watch?v=1Nqrsmt980E).

Por que a estratégia de construção de um antipetismo parecia útil ao PSDB como principal oposição eleitoral ao PT? Afinal, não seria um risco para o próprio PSDB se queimar na centelha acesa do discurso da associação entre ‘corrupção’ e PT? A resposta é sim. No entanto, os riscos da estratégia poderiam ser compensados no tempo da colheita dos frutos prometidos. A estratégia PSDBista apostava na despolitização da disputa eleitoral, na medida em que insistir no embate político e na aposta privatista dos tucanos havia levado o partido a derrota em pelo menos três disputas eleitorais nacionais, até aquele momento. O fato é que, por mais grave que seja, o tema da corrupção é uma ferramenta importante de despolitização de qualquer debate.

O discurso anticorrupção se produz na generalidade. Ao alimentar a suspeita da corrupçãocomo motivador político oculto, legitima-se um debate que desconsidera números, conjuturas internacionais, posições políticas. O cenário político se transforma em massa amorfa, indiferente às nuances específicas que são fundamentais a política partidária. Com seu forte apelo moral, a ideia de corrupção desconsidera indiciados, réus, condenados e absolvidos. Desconsidera, inclusive, o respeito a ritos da normatividade jurídica. A anticorrupção é frequentemente punitivista. E o punitivismo mobiliza o mais eleitoreiro dos afetos, o ódio.

Dispensando o recurso a números ou a análise concreta dos fenômenos políticos, o discurso anticorrupção mobiliza a boa intenção moral e em troca produz seus monstros. É da massa amorfa do “todos os políticos são iguais” que um traço de distinção promete criar um destaque personalista que torne possível uma nova figura elegível. A eleição retornaria a uma espécie de “grau zero” da disputa, na dependência de quem se sair melhor no discurso do “combater tudo que está aí”. Eis a primeira aposta do antipetismo. Eis a aposta
do PMDB naquele momento.

Eis a fórmula que fabricou Bolsonaro.

texto completo em
https://revistacaliban.net/fabricando-jair-bolsonaro-f0956e865daa

segunda-feira, outubro 02, 2017

Eleições autárquicas em Almada: resultados comparados, 2017-2013

Câmara Municipal:

Assembleia Muncipal:
Assembleias de Freguesia:


Para melhor leitura destes resultados:

Legislativas 2015: Almada e distrito de Setúbal

Eleições autárquicas em Almada: comparação 2013-2009
(os links direccionam para as páginas com a informação respectiva)

sábado, julho 22, 2017

Entretanto na cidade inteligente...


"(...) somos Cidade Educadora; Cidade de Cultura de Desporto e do Movimento Associativo; Cidade Moderna, Segura e Solidária de Liberdade e Tolerância (...)

Com a mesma inteligência com que venceu e vence obstáculos no passado e no presente, Almada está em condições de continuar a construir o seu Futuro, com Juventude, com Beleza, com Bondade, com Conforto, Bem-estar, Saúde e Felicidade. Almada onde todos têm lugar; construção em que todos podem participar."

(Mensagem eleitoral assinada pelo actual Presidente e recandidato à Câmara Municipal de Almada)

Resumindo: se a mensagem é bonita, há quem se empenhe muito em destruí-la. Não ganhem juízo, depois admirem-se com os resultados (em 2013 tiveram a pior votação de sempre, mas parece que ainda não perceberam).

Não julguem é que me intimidam. Sei do que a casa gasta. Tenho a mesma escola.

E sim, sei muito bem o que é jornalismo. Quem supostamente conhece tão bem Almada devia estar devidamente informado sobre isso.

Estou farto destes trauliteiros.

quarta-feira, junho 07, 2017

António Vitorino e Ondina Pires escangalham poesia

Debaixo do Bulcão 4*5 from Debaixo do Bulcão on Vimeo.

Lançamento da edição 4*5 do Debaixo do Bulcão poezine, na livraria Meia Volta de Úrano - Casa das Artes, em Cacilhas, Almada. 3 de Junho de 2017.

segunda-feira, abril 03, 2017

Debaixo do Bulcão 44

A edição número 44 de Debaixo do Bulcão poezine já circula, em papel e na internet.

Informação detalhada em:
http://debaixodobulcao.blogspot.pt/2017/04/edicao-44-marco-de-2017.html

Versão online:
https://issuu.com/debaixodobulcao/docs/debaixo_do_bulc__o_44_-_mar__o_2017

sábado, outubro 29, 2016

A Cidade do Teatro - livro sobre a Mostra de Teatro de Almada no seu 20.º aniversário


Nos 20 anos da Mostra de Teatro de Almada, um livro conta a história do fenómeno sociologicamente rico que faz de Almada uma frente nacional do teatro. Percorrendo os contextos histórico, político e social que o explicam, trata-se do primeiro estudo sobre o teatro e as artes performativas no Concelho. Inclui um levantamento fotográfico das salas de espectáculos e outros lugares que têm acolhido as criações da grande família teatral que a Mostra integra, um vasto conjunto de depoimentos testemunhais e faz a recensão biográfica dos cerca de meia-centena de grupos de teatro que participaram na Mostra desde a sua 1.ª edição.

A CIDADE DO TEATRO
Lançamento 19 NOVEMBRO | CASA DA CERCA | SÁBADO | 15h00
Com textos de Sarah Adamopoulos, Nuno Bernardo, Isabel Mões, António Vitorino e Xico Braga, fotografias de Vítor Cid e ilustrações de Rui Silvares, Luís Miranda, Ângela Luzia e João Lima.

terça-feira, maio 03, 2016

sexta-feira, outubro 23, 2015

Debaixo do Bulcão regressa em Dezembro de 2015

Depois de 2 anos de ausência, Debaixo do Bulcão poezine regressa com uma edição comemorativa do 19.º aniversário. Como sempre, aberta à participação de todos os interessados.

Mais informação:
http://debaixodobulcao.blogspot.pt/2015/10/debaixo-do-bulcao-regressa-em-dezembro.html

quarta-feira, outubro 07, 2015

Legislativas 2015: Almada e distrito de Setúbal

Resultados no concelho de Almada

Resultados no distrito de Setúbal

Números oficiais.
Fonte:
http://www.legislativas2015.mai.gov.pt

segunda-feira, junho 22, 2015

Proposta para a promoção da literacia mediática (operativa e crítica) em Almada

Educação, cultura e informação na sociedade em rede - proposta para a promoção da literacia mediática  (operativa e crítica) em Almada (*)


Apresento esta comunicação com o propósito de contribuir para a concretização dos objectivos estratégicos 4 e 5 do PDM de Almada,  nomeadamente no que se referem a "desenvolvimento de uma política de formação de agentes culturais para o movimento associativo" e "diversificação e aprofundamento das formas de participação dos cidadãos na vida do município".

Parto da observação - empírica, mas sustentada pelos poucos dados estatísticos disponíveis - de que as literacias operativa (funcional) e crítica (a que permite questionar as linguagens no plano ideológico) se encontram, presentemente longe do desejável e necessário para uma efectiva cultura de cidadania e participação informada.

Almada é, na actualidade, um dos concelhos da Área Metropolitana de Lisboa com piores índices de circulação e leitura de periódicos e um dos que mais piorou, a esse nível, nas últimas décadas (fonte: Pordata). Entretanto, não existem - ou, se existem, não se encontram publicados - estudos e dados estatísticos sobre os hábitos culturais e a literacia dos almadenses. Tal carência de dados dificulta a tentativa de avaliar o problema objectivamente, com rigor e sustentação científica.

Não existe no concelho comunicação social que faça investigação jornalística e privilegie a reportagem junto das "forças vivas" (reportagem é mais que a simples divulgação ou cobertura noticiosa de eventos) ou que estimule e promova o debate de ideias.

Nem sempre foi assim: na segunda metade da década de 1980 existiam no concelho pelo menos 4 rádios locais; na década de 1990, duas rádios locais e pelo menos um jornal vocacionado para reportagem, investigação e estímulo ao debate de ideias. Os novos órgãos de comunicação social e as novas plataformas não apresentam essas características (exceptuando a possibilidade que abrem ao debate de ideias - possibilidade pouco aproveitada na prática, devido a vários factores, entre os quais o excesso de "ruído" provocado por "notícias" falsas e opinão mal informada).

Nos anos mais recentes verificou-se, a par do desaparecimento desses órgãos de comunicação social, um decréscimo acentuado - aparente (faltam os estudos no que diz respeito a Almada...) - da literacia crítica e mesmo da literacia operativa, da população do concelho.

Isso verifica-se na forma como, por exemplo, as mensagens da CMA dificilmente são recepcionadas e entendidas por sectores significativos do público a quem, supostamente, se destinam. Verificamos essa deficiência nas comunicações sobre o Metro Sul do Tejo, o Plano de Mobilidade Acessibilidades XXI, ou as funções e competências da ECALMA - para mencionar só 3 dos casos mais evidentes.

É verdade que, no que diz respeito ao Metro Sul do Tejo e ao Plano de Mobilidade, a CMA produziu e divulgou abundante informação, algumas vezes de assinalável qualidade. Mas a experiência ensina-nos que produzir e divulgar informação não é o suficiente para que a mensagem que pretendemos transmitir seja recepcionada e entendida.

É preciso fazer da informação assunto de debate público, e não apenas em eventos pontuais, mas criando hábitos de debate nas comunidades locais e nos meios de comunicação disponíveis (órgãos de comunicação social, redes sociais da internet, etc.)

E é fundamental avaliar permanentemente a eficácia da divulgação e os resultados do debate.

Esses processos (informação, debate, avaliação) devem envolver o poder local - Juntas de Freguesia, Assembleia Municipal, Câmara e outras estruturas com competência nas matérias em questão - bem como a comunidade educativa, os agentes culturais e os comunicadores (incluindo aqui os órgãos de comunicação social e os órgãos de informação, a par de outras personalidades que trabalhem nos diversos aspectos da comunicação).

E, para sustentar o debate em termos rigorosos e científicos - não meramente teóricos ou opinativos - permitindo a expressão de opiniões informadas, é necessário incentivar a produção e divulgação de estudos nos âmbitos das ciências sociais, da psicologia social (incluindo neurociências e ciências da evolução) e das ciências da comunicação. Fazendo-o numa perspectiva que terá de ser integrada e multidisciplinar, geradora de sinergia, não dirigista mas entendida como ferramenta para elevar as formas de literacia e, consequentemente, para melhorar a capacidade de intervenção democrática dos cidadãos e das suas estruturas e, em última análise, ajudar ao melhor desempenho dos próprios órgãos do poder local.

Uma vez entendida e assumida a necessidade de integrar estas propostas numa estratégia de desenvolvimento socio-cultural, seria importante começar, desde logo, a perspectivar formas práticas e efectivas de reunir as estruturas e personalidades interessadas na sua concretização e deixar que sejam estas a decidir qual a melhor forma e a melhor solução orgânica para concretizar tais projectos.
(Na minha opinião, a melhor solução orgânica passa por estabelecer parcerias com as melhores instituições universitárias e centros de investigação de todo o país, sedeando em Almada uma estrutura flexível e pouco pesada, capaz de trabalhar em rede com todos para produzir dados científicos úteis e informação relevante e de disponibilizar o resultado do seu trabalho aos agentes socio-culturais, particularmente aos do concelho.)



Almada, 04 de Junho de 2015

António Vitorino


(*) Apresentada ao 1º Congresso Almada, em Junho de 2014

Fonte da imagem: Pordata.

sábado, novembro 08, 2014

Contribuição para a história do Centro Cultural de Almada



O Centro Cultural de Almada foi uma associação cultural que existiu nesta cidade portuguesa entre 1979 e a primeira década do século 21. Dedicava a sua actividade permanente à formação de agentes culturais através de cursos técnicos e artísticos, para os quais contava com a colaboração de alguns dos mais reputados especialistas portugueses nas respectivas matérias.

Mas o Centro era mais conhecido do grande público pelas organizações (em colaboração com a Câmara Municipal de Almada) de eventos como feiras do livro, animação de espaços públicos, cinema ao ar livre, festivais de música, etc.

Contudo, esta instituição tinha sido criada por decisão da Assembleia Popular do Concelho de Almada, em 1978. E a ideia era, então, criar uma estrutura coordenadora do movimento associativo. O projecto acabou por não se concretizar dessa forma. 

Nesta entrevista que a Radiodifusão Portuguesa veio fazer a Almada, em 1978, para o programa Contraponto, três elementos do grupo de trabalho da Assembleia Popular para a criação do futuro Centro Cultural faziam o ponto da situação e apontavam objectivos para o futuro.

Entrevistados:

Maria Emília de Sousa (na altura representante do secretariado da Assembleia Popular do Concelho de Almada; mais tarde autarca e presidente da Câmara Municipal de Almada desde 1986

Dina Bastos, então vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Almada

Luís Marques, que viria a ser o coordenador-geral do Centro Cultural de Almada

terça-feira, setembro 02, 2014

Pedido de esclarecimento à ECALMA

Pedido de esclarecimento à ECALMA sobre outros doze (!) pedidos de esclarecimento, nunca respondidos por essa empresa municipal de Almada até à data.

Isto é uma longa história de mentiras e incompetência, à qual já me tenho referido aqui várias vezes. E a que talvez valha a pena voltar mais adiante, de forma mais explícita e desenvolvida.

Da mesma forma, e pelas mesmas razões, talvez valha a pena, também, começar a questionar a sério todos os mitos sobre a "boa gestão" desta câmara...

Um dia destes. Por enquanto, fico à epera de resposta (ou, mais provavelmente, da falta dela). Sentadinho, para não me cansar muito.

terça-feira, julho 22, 2014

O Vôo 007: uma história de "bons" e "maus"

Imagem: fotografia e gráfico copiados do livro 'L'Année de la Photo - Le grand show de l'actualité', edição Love Me Tender - Sipa Press, Novembro de 1983

Em Setembro de 1983, o mundo foi surpreendido e chocado com a tragédia do vôo KAL007 (rapidamente abreviado na comunicação social para "vôo 007"). Um avião, da Korean Airlines, saiu do aeroporto norte-americano de Anchorage, no Alasca, em direcção a Seoul, Coreia do Sul. A meio da viagem, foi abatido por um caça da força aérea da União Soviética. Morreram todas as 269 pessoas que iam a bordo.

Essa foi a notícia que nos foi dada e que deixou todos em choque. Uns incrédulos - "não pode ser! os nossos camaradas da pátria do socialismo nunca fariam tal coisa!" - enquanto não foram vencidos pelas evidências.

Outros, é claro, aproveitaram logo para, sem perder tempo e sem esperar por mais informação, passar ao ataque: "estão a ver como são esses malvados desses comunas!?".

Outros ainda, reconhecendo o evidente, sentiam-se amargurados, desapontados e até traídos. Houve quem me dissesse que, apesar de ser comunista, depois daquilo não poderia continuar a apoiar a União Soviética e os países socialistas.

Claro que havia, também, uns poucos que preferiram não reagir a quente, e ficar à espera de mais informação para tentar entender o que realmente acontecera. Os que conseguiam ter tal tipo de atitude eram poucos, já nesse tempo (e parece que hoje são ainda menos, mas adiante...).

À medida que mais informação foi revelada, ficámos a perceber que, como sempre, a história não era assim tão simples.

Por alguma razão, até hoje nunca esclarecida, o vôo foi desviado da sua rota normal. Estava a passar por cima de bases militares soviéticas (e note-se que aquela era uma zona - a única - em que as duas superpotências militares da época faziam fronteira; logo, era uma zona altamente militarizada). Primeiro, sobrevoou a península de Kamchatka, utilizada pelos soviéticos para testar armamento. Depois, entrou no espaço aéreo da ilha de Sakhalin, onde existiam aeroportos militares e uma base naval da URSS.

Quando foi abatido, já estava, supostamente, na parte final desse percurso. E, supostamente (foi o que disseram os soviéticos, na altura), depois de ser avisado várias vezes... O que, no fim de contas, nos tranquilizava um pouco. Afinal, apesar de todas as vítimas e de toda a tragédia, a URSS teria uma boa desculpa. Era um avião civil usado para espiar as bases militares soviéticas. Foi avisado. Os soviéticos tinham o direito de se defender. A culpa, portanto, era mais de quem o enviou para essa missão suicida do que de quem o abateu em legítima defesa..

Entretanto, o piloto que abateu o avião civil, foi entrevistado pela televisão da URSS. Excertos dessa entrevista passaram nas televisões do "ocidente". O que ajudou a tranquilizar os que queriam continuar a acreditar na "bondade" dos soviéticos, mas também deu argumentos aos que defendiam que, pelo contrário, os soviéticos eram os "maus" da história.

Dizia o piloto que tinha sido enviado numa "missão de combate" (e que bem me lembro destas palavras!...) para defender o seu território, como competia a um militar, e que se limitara a obedecer a ordens. E mostrava-se convencido de que tinha defendido a sua pátria e o seu povo e evitado um mal maior.

Não sei se alguém alguma vez terá feito uma análise científica do vídeo dessa entrevista na perspectiva da psicologia. Gostaria de ver tal análise. Porque acredito que o homem estivesse convencido da justeza (e é de propósito que não uso a palavra "justiça") daquilo que afirmava. Quem abateu um avião civil e matou 269 pessoas que tinham o azar de estar no local errado à hora errada não tinha de ser, necessariamente, um facínora psicopata. Podia ser uma pessoa como outra qualquer, ainda por cima, agindo com a melhor das intenções. Quem estuda essas coisas diz que a percentagem de "verdadeiros" psicopatas (os que têm todas as características associadas a essa patologia) são cerca de 1% da população. Na União Soviética o serviço militar era obrigatório. Logicamente (estatisticamente) a possibilidade de aquele piloto ser um psicopata era, portanto, muito reduzida. Podia ser. Ou não. Mas isso não interessa.

Talvez não seja na sua argumentação (na convicção com que dizia que foi numa "missão de combate" derrubar um avião civil) e na de outros como ele que devemos procurar "o mal".

Passados uns anos, já no tempo pós-URSS, na presidência de Ieltsin, apareceu uma nova versão para explicar o que teria acontecido. De acordo com a nova versão, os soviéticos, afinal, terão confundido o avião civil com um avião espião norte-americano que, no dia anterior, andara pelo mesmo espaço aéreo. E, como não queriam ser apanhados desprevenidos uma segunda vez, terão disparado logo, sem aviso prévio nem nada  - apesar de o avião, quando foi abatido, já andar por ali há bastante tempo, e já ter sobrevoado a tal península militarizada ali perto, e estar já quase a sair do espaço aéreo soviético... (Duvido que os soviéticos confundissem um avião civil com um militar, e duvido que, se queriam mesmo abatê-lo sem aviso prévio, tivessem demorado tanto tempo, e deixado que ele sobrevoasse tanto território militar soviético, mas pronto... é a versão que parece hoje mais aceite).

Perante isto, o que parece serem factos não refutados: o avião foi desviado da sua rota comercial e estava sobrevoar bases militares soviéticas; havia aviões espiões dos EUA que faziam o mesmo; a União Soviética tinha consciência da vulnerabilidade daquele território - que faz fronteira com os EUA (com o Alasca) e, naturalmente, encarava essas incursões como uma ameaça (os EUA teriam o mesmo tipo de desconfiança com qualquer aeronave que, vinda da URSS, invadisse o seu espaço aéreo, ainda por cima sobrevoando bases militares).

Isso justifica o abate do avião e a morte daquelas 269 pessoas? Penso que não. Mas havia alternativas? Não sei. A culpa é de quem? De quem disparou sobre o avião ou de quem o meteu naquele espaço aéreo? Também não sei.

Tenho muita dificuldade em lidar com categorias filosóficas ou religiosas como "bem" e "mal". E, mais ainda, com a ideia de "bons" e "maus".

Quando separamos as pessoas em "bons" e "maus" e olhamos para o que fazem como manifestações do "bem" ou do "mal", acabamos a medir os narizes uns dos outros. Os de nariz grande são os "maus". Ou o contrário. Depende da nossa noção do que é o "bem" e do que é o "mal".

(Em tempos que já lá vão, a definição de "bem" e "mal" era prerrogativa das religiões; desde a revolução insustrial, e cada vez mais, tal prerrogativa tem sido transferida para os meios de comunicação e a cultura pop, que nos "ensinam" como devemos pensar... Mas isso, como se costuma dizer, são outros quinhentos.)

Prefiro falar de agressores e vítimas, porque é mais objectivo. E, nesse caso, penso que as vitimas têm o direito de se defender dos seus agressores. Mas, quando passam de vítimas a agressores, continuam a ter o direito?

Parece que há quem pense que sim. Porque, se os agressores são "maus", as vítimas, para se defenderem, têm o direito de lhes fazer mal. E as vítimas passam a agressores e os agressores passam a vítimas. Os "bons" têm todo o direito de ser cruéis quando se trata de castigar os "maus". E assim infinitamente, in saecula saeculorum...

(Não sei se vale a pena acrescentar que não contribuo para esse peditório.)

domingo, novembro 24, 2013

O protesto e as sequelas (Janeiro - Maio de 2001)




Na manhã de 4 de Janeiro de 2001, o empresário Manuel Subtil barricou-se, com a esposa e a filha, nas instalações da RTP em Lisboa, ameaçando fazer explodir o edifício. Protestava "contra o facto de a RTP ter transmitido uma reportagem a 19 de Junho de 1990 sobre alegadas burlas na legalização de emigrantes"o que terá levado ao encerramento da sua empresa.

Este protesto em defesa de interesses individuais rapidamente começou a ter seguidores e imitadores (o que, de resto, acontece frequentemente sempre que este tipo de acções é amplificada pelos noticiários). Nos meses seguintes, foram vários os casos de "barricados", exigindo resolução de problemas de índole privada ou pessoal. Todos eles tentando beneficiar de cobertura mediática.

Dois desses casos aconteceram no distrito de Setúbal. O Sem Mais Jornal, semanário do distrito, procurou entender (e ajudar a entender) o fenómeno, mais do que simplesmente o noticiar. Pediu opinião a especialistas e, na edição de 10 de Maio de 2001, publicou a reportagem que reproduzo acima (clicar nas imagens para ampliar e ler o texto)

segunda-feira, setembro 30, 2013

Eleições autárquicas no concelho de Almada: comparação 2013-2009


Votação para a Câmara Municipal:

Votação para a Assembleia Municipal:

Resultados oficiais, obtidos no site http://autarquicas2013.mj.pt
No mesmo site encontram-se os resultados da votação para as assembleias de freguesia. 

Nota: não apresento os resultados comparativos das votações para as assembleias de freguesia, mas apenas porque não me parece muito rigoroso comparar a soma dos resultados obtidos nas freguesias em 2009 com os resultados das eleições para as freguesias "unificadas".

sexta-feira, julho 05, 2013

Sorria! Está a ser manipulado.


Quando decide comprar este ou aquele produto, aderir a este ou àquele serviço, ver este ou aquele filme, votar neste ou naquele candidato... está a decidir em consciência? A escolher o que é, de facto, melhor para si? E pondera as consequências que essa escolha terá na sua vida e na vida dos que lhe são próximos? Tem a certeza?

Não quer pensar melhor no assunto?

Porque, na verdade, não é bem assim que as coisas funcionam.

A maior parte das decisões que tomamos (e entre elas as mais importantes) são accionadas por mecanismos inconscientes. Decidimos antes de pensar e, quando pensamos no que decidimos (e, normalmente, só pensamos depois de termos decidido), estamos apenas a justificar para nós próprios (e para os outros, se for caso disso) a nossa decisão irracional.

Surpreendido? É natural: tudo isto são afirmações que contradizem muito do que aprendemos durante décadas. Mas os processos das decisões irracionais estão, agora, muito bem estudadas pelas ciências neurológicas. E esse conhecimento tem vindo a ser aplicado na prática, em coisas que afectam a nossa vida quotidiana e, consequentemente, condicionam os nossos comportamentos enquanto indivíduos e enquanto sociedade.

Uma das áreas de estudo que aplicam as descobertas feitas pelos neurologistas sobre a maneira como os nossos cérebros funcionam tem um nome até muito sugestivo: o neuromarketing!

Há quem fale também em neuroeconomia e mesmo neuropolítca - aplicações das ciências neurológicas à economia e à política. Mas, neste artigo, vou referir-me apenas ao neuromarketing e, mais especificamente, a um livro que é um verdadeiro manual de instruções: 'Neuro Marketing - o Centro Nevrálgico da Venda' (edição portuguesa: Smartbook, Lisboa, 2009).

Escrito por dois homens com vasta experiência na área - os franceses Patrick Renvoisé e Christophe Morin - 'Neuro Marketing' destina-se a ensinar os profissionais da publicidade e das vendas, ajudando-os a passar de uma abordagem intuitiva para outra mais metódica, fundamentada nas descobertas mais recentes das ciências neurológicas.

É, portanto, um autêntico manual de manipulação. Mas (até por isso mesmo) indispensável para quem queira entender os processos com os quais somos manipulados - o que, penso que concordarão comigo, é o ponto de partida nos defendermos da manipulação.

Os autores começam por definir as várias "valências" do cérebro humano (embora de forma resumida, mas eficaz para a mensagem que pretendem transmitir) - temos um "cérebro primitivo", que processa a intiuição (numa "divisão" a que os autores chamam "cérebro intuitivo") e as emoções (o "cérebro emocional"). Por cima deste, muito mais recente e comandado pelo "cérebro primitivo", temos o neocortex, ou "cérebro racional". Até há relativamente pouco tempo dava-se importância exagerada ao "cérebro racional", por se julgar que era este que comandava, filtrava os impulsos do subconsciente e tomava as decisões. Mas, pelo menos desde a década de 1980 e, particularmente a partir da década seguinte, após a publicação do livro "O Erro de Descartes", do neurologista português António Damásio, sabe-se que não é exactamente assim que funcionamos.

No processo de decisão, as emoções aparecem antes da razão. Mas não só: descobertas subsequentes têm demonstrado que as emoções são mesmo mais importantes e fundamentais para o processo de decisão. Essas emoções são processadas pelo "cérebro primitivo" antes de "chegarem" ao neocortex, e são processadas durante mais tempo do que se imaginava, e as consequências desse processamento "irracional" são, para o resultado final, maiores do que se julgava. (Nota: os processos são, na verdade, mais complexos, e eu estou a usar uma linguagem simplificada, tal como os autores do livro. Para entender estes processos com mais rigor é aconselhável consultar obras especializadas).

"Os investigadores demonstraram que os seres humanos tomam as suas decisões de forma emocional, justificando-as depois racionalmente. Na verdade, as emoções são recebidas e processadas pelo cérebro intuitivo e a decisão final é tomada pelo cérebro primitivo", escrevem os autores, e acrescentam que "no seu livro 'How The Brain Works, o especialista do cérebro humano Leslie Hart observa: "Um grande número de descobertas indica que o cérebro primitivo é o comutador central que especifica que sinais irão para o cérebro racional e que decisões serão aceites".

Portanto, não é de estranhar a afirmação de que "a maioria de nós faz uma compra com base em emoções e, em seguida, justifica racionalmente as suas decisões".

Isso explica-se porque a publicidade (tal como outros tipos de marketing) apela à emoção e não à razão, e "O cérebro primitivo reage fortemente às emoções. As neurociências demonstraram claramente que uma emoção provoca uma reacção química no seu cérebro, a qual influencia directamente a maneira como você processa e memoriza as informações. Pode simplesmente lembrar-se de acontecimentos e informações que não vão muito além do curto prazo, a menos que experimente aquilo que os cientistas apelidam de "forte cocktail emocional", ou seja, o resultado das emoções quimicamente processadas pelo seu cérebro".

Partindo destas asserções, os autores do livro explicam (aos publicitários) e desvendam (aos seus alvos, que somos todos nós) alguns dos truques utilizados pelo "neuromarketing".

Em primeiro lugar, fazer o diagnóstico das frustações dos potenciais clientes. Leu bem: os autores não falam em necessidades, desejos ou aspirações do público-alvo, mas sim nas suas frustrações. E é a análise dessas frustrações, seguida de processos tendentes a convencer o potencial cliente de que há uma solução adequada ao seu problema que vai "despoletar" o impulso da compra.

Isto, trocado em miúdos, é mais ou menos assim: decidimos em função de emoções (como já vimos atrás), mas as emoções mais fortes têm a ver com os nossos medos; diagnosticando esses medos, conforme as situações concretas em que se apresentam (um potencial comprador de um telemóvel ou computador portátil tem medo que esse aparelho seja tão frágil que se estrague da primeira vez que cair ao chão; um investidor tem medo de perder o seu investimento...) podemos apresentar a solução que pareça mais adequada (comparando um computador que cai ao chão e fica intacto com outro que se parte; mostrando um investidor feliz a pescar num aquário cheio de peixes em contraste com outro, isolado numa praia deserta, sem sinal de peixes). O que se está a vender não é, necessariamente, a melhor solução (não se valorizam as qualidades do produto) mas sim a solução que melhor corresponde ao medo do potencial consumidor. Ou seja, o produto ou serviço que melhor apazigua o "medo" - a "solução" que "resolve" o "problema".

Claro que isto se aplica mesmo que o "problema" não seja um problema real, mas sim inventado pelo próprio marketing - a velha técnica de inventar a doença pare depois vender a cura. Os autores do livro não vão ao ponto de sugerir tais práticas, naturalmente. Mas citam uma frase do publicitário David Ogilvy que me parece muito apropriada: "Se quer vender extintores, ateie o fogo em frente dos potenciais clientes".

Reagimos, então, a problemas imaginários, que não existem de facto? Sim, se os percepcionarmos como se fossem problemas reais! E decidimos, então, reagindo apenas a ilusões? Sim, infelizmente decidimos assim, muitas vezes!

Aliás, os autores não têm duvidas em afirmar que "as histórias têm mais impacto que os dados racionais mais fundamentados".

Como assim? Mais uma vez, devido às características do nosso "cérebro primitivo", que se desenvolveu durante um longuíssimo período em que não havia écrans, nem tecnologia ou civilização, tal como a entendemos hoje. E que se adaptou às necessidades desses tempos ancestrais (tempos que formam, de longe, a maior parcela da evolução da espécie humana, com tudo o que isso significa e implica).

"Mas por que é que uma acção tão banal como contar uma história produz um tal efeito? Mais uma vez, por causa do cérebro primitivo.

No entanto, não somos nós, pessoas adultas, indivíduos racionais? Ora, quando vemos um filme, sentimos emoções, mais ou menos intensas, que nos fazem ficar tristes, alegres, melancólicos, revoltados ou chorosos. Sabemos, todavia, que se trata de ficção. O herói não morreu de verdade e o bebé não perdeu realmente os pais.

E no entanto... o nosso cérebro racional tem consciência de que é tudo ficção, mas o maestro, o cérebro primitivo, não distingue entre a realidade e uma história bem urdida.

O cérebro primitivo liberta então uma torrente de hormonas que tanto faz com que as lágrimas nos caiam cara abaixo como desencadeia outras respostas fisiológicas: garganta apertada, mãos húmidas, aumento súbito da tensão arterial, aceleração do ritmo cardíaco, etc.

As boas histórias têm mais impacto no cérebro primitivo e no nosso inconsciente do que os dados puramente racionais."


E isso, nas mãos de publicitários (ou propagandistas) hábeis, pode ser uma arma extremamente poderosa.

Cuidado, então, com as histórias que deixamos que nos contem...

Claro que, para nos defendermos eficazmente de toda esta ofensiva publicitária (e propagandística) altamente sofisticada, precisamos primeiro de dar o passo mais desconfortável: assumir que não, não somos aquelas pessoas muito esclarecidas que não se deixam enganar facilmente. Por muito que isso nos custe, estamos todos vulneráveis à manipulação. A boa notícia é que, se soubermos quais são os pontos vulneráveis da nossa percepção, podemos defendê-los melhor - e sim, é possível conhecer esses nossos pontos fracos, e defendê-los. Pelo menos até onde a ciência, no seu estado actual, nos permite fazê-lo.

A ciência não é, em si, uma coisa "boa" ou má". Pode é ser aplicada com boas ou más intenções. E nisto, como em tantas outras áreas da nossa vida, depende apenas de nós aceitarmos o que não nos prejudica e rejeitarmos o que nos é nefasto.



segunda-feira, abril 29, 2013

"Moralismos" ou a arte de bem enfiar a cabeça em qualquer areia (como nem as avestruzes fazem, porque não são assim tão estúpidas)

- O nosso problema é o medo?

- Pois é.

- E as mensagens da televisão, do cinema, dos jogos de vídeo?...

- Isso não tem importância nenhuma!

- Mas a violência constantemente presente, e repetida, na televisão, no cinema, nos jogos de vídeo, faz com que as pessoas fiquem assustadas e com medo.

- Mentira. Não acredito. Prova!

- Ok. (apresento uma quantidade de "provas", quer dizer, estudos científicos feitos por várias personalidades e entidades independentes, ao longo de muito tempo, devidamente fundamentadas *) aqui está a prova.

- Ah pois... (assobia para o lado)

- Portanto, se os conteúdos da televisão, do cinema e dos jogos de vídeo influenciam o comportamento das pessoas e induzem-nas a ter medo (como já demonstrei), não podemos simplesmente assobiar para o lado e dizer que não têm importância nenhuma, pois não?

- Então e queres o quê, que eu veja menos filmes, lol?

- Por exemplo. Ou então, pelo menos, fazer um debate sério sobre o assunto.

- Lá estás tu a ser moralista.



(*) as provas:

Does Violent Media Make People Violent, or Just Scared? http://www.youtube.com/watch?v=AgWfLnX3U28

THE MEAN WORLD SYNDROME - Media Violence & the Cultivation of Fear

http://www.mediaed.org/cgi-bin/commerce.cgi?preadd=action&key=143&template=PDGCommTemplates%2FHTN%2FItem_Preview.html

Society's Storyteller: How TV Creates the Myths by which we Live
http://www.medialit.org/reading-room/societys-storyteller-how-tv-creates-myths-which-we-live

Reclaiming Our Cultural Mythology - "Television's global marketing strategy creates a damaging and alienated window on the world", George Gerbner

http://www.context.org/iclib/ic38/gerbner/

Media Violence and Kids

http://www.youtube.com/watch?v=7CXqZWW9yRQ

Hollywood and the war machine
http://www.youtube.com/watch?v=v66HM5ILiwk

GAME OVER - Gender, Race & Violence in Video Games 

http://www.mediaed.org/cgi-bin/commerce.cgi?preadd=action&key=205&template=PDGCommTemplates%2FHTN%2FItem_Preview.html

Army Training Video Games Tech In Homes Of Kids Today
http://www.youtube.com/watch?v=ZUeP2i-VVyg&feature=youtu.be

Army Trains W/ Call Of Duty
http://www.youtube.com/watch?v=J14wdIsyYqk&feature=youtu.be

WRESTLING WITH MANHOOD - Boys, Bullying & Battering
http://www.mediaed.org/cgi-bin/commerce.cgi?preadd=action&key=216&template=PDGCommTemplates%2FHTN%2FItem_Preview.html

Violência e empatia: considerações sob o ponto de vista da psicologia cognitivo-comportamental
http://gabriele-albuquerque.blogspot.pt/2011/03/violencia-e-empatia-consideracoes-sob-o.html

Fighting “Mean World Syndrome”

http://www.wired.com/geekmom/2011/01/fighting-mean-world-syndrome/

(Etc.)

quinta-feira, abril 25, 2013

"Cinco Conversas com Álvaro Cunhal"

Publicado em 1999 pela editora Campo das Letras, "Cinco Conversas com Álvaro Cunhal" nasceu de um pedido de entrevista feito pela jornalista Catarina Pires, ao qual o dirigente histórico do PCP (que não era já secretário-geral desde 1992) respondeu: "que tal fazermos antes um livro?".

A autora (ou co-autora, como prefere apresentar-se) explica, no prefácio: "Eu já conhecia o Álvaro. Fiz um trabalho sobre ele para a Universidade e escrevi um artigo sobre os Desenhos da Prisão para a Notícias Magazine. Depois surgiu a ideia de o entrevistar. Pedi-lhe a entrevista. Ele aceitou. Um dia depois recebo uma chamada em casa. Era o Álvaro: "E se em vez de uma entrevista, escrevessemos um livro de conversas?". Surpresa total. Eu pedi-lhe uma entrevista, ele deu-me um livro."

E assim foi. Um livro com 5 conversas, agrupadas por temas: A História; O Mundo; A Política; A Arte; As coisas da vida.

Nas conversas, Álvaro Cunhal não foge a nenhuma questão, por incómoda que seja e, mais do que isso, ele próprio desafia várias vezes a entrevistadora a "incomodar" - por exemplo, quando se refere ao colapso da União Soviética e dos países socialistas do Leste da Europa, à crítica e autocrítica do que estava mal no regime soviético (acompanhada, neste caso, com o necessário elogio ao que a experiência do poder socialista significou como avanço civilizacional relativamente ao capitalismo), e depois, em aspectos como

- o exercício do poder:

"No que respeita à organização da sociedade e ao Estado, as lições da história obrigam a prevenções. O poder está muito viciado, o poder defende-se, o poder corrompe e é susceptível de corromper. O abuso de poder é fácil, nas instituições, na sociedade, nos órgãos de poder, em qualquer aspecto da vida social. Também nos partidos. É necessário impedir-se e pode impedir-se um poder assim concebido e realizado. Como? Com formas e mecanismos democráticos de fiscalização, incluindo por parte daqueles sobre quem o poder é exercido. Seja no Estado, seja na sociedade, seja na família, seja nos partidos."

- a visão exageradamente optimista e determinista que julgava ser possível mudar comportamentos adquiridos na ordem social definida pela luta de classes e pela desigualdade, apenas mudando as estruturas políticas e sociais:

"Nesta questão há qualquer coisa que, particularmente os comunistas, temos de aprender com o século que agora termina. Tomar consciência de que houve sempre uma avaliação irrealista e uma esperança irrealista em que uma transformação social, pela qual fossem liquidadas as grandes desigualdades, as grandes injustiças, as grandes misérias e flagelos do capitalismo, eliminaria causas sociais determinantes da formação e conduta negativa do ser humano, e podia levar à criação do homem novo num sentido geral da população.

Se a ideia, assim simplificada, se mostrou irrealista, concretizou-se entretanto na conduta e na vida de milhões de seres humanos empenhados nas transformações sociais libertadoras realizadas por grandes revoluções. Foi o caso da Revolução de 1917, que numa fase inicial e em vários momentos do Estado socialista, assim como muitas outras revoluções socialistas, democráticas, nacional-libertadoras que se deram no século XX, criaram centenas de milhares, mesmo milhões de seres humanos, de homens e mulheres, que deram tudo de si incluindo a própria vida. O mesmo na luta clandestina contra a ditadura fascista. O mesmo na Revolução de Abril. Esta ideia, que continua exacta, a do homem novo nestes termos relativos, foi utópica quanto à sua generalização à sociedade..."


Uma das questões mais interessantes do livro (na minha opinião, claro) diz respeito ao 25 de Abril e ao processo revolucionário. Lutando muito assertivamente (e bem!) contra a ideia muito difundida de que o 25 de Abril não teria sido uma revolução, Álvaro Cunhal lembra que, em pouco mais de ano e meio, por acção das forças revolucionárias, a sociedade portuguesa, as suas instituições e a sua vida política sofreram (ou beneficiaram de) transformações profundas e tão sólidas que demoraram décadas a ser desmanteladas pela ofensiva contra-revolucionária.

E dá exemplos, que não vou mencionar exaustivamente (leiam o livro, ora!), mas de que destaco o que diz respeito à Reforma Agrária:

"A criatividade dos trabalhadores e das massas populares em luta na revolução de Abril é um grande ensinamento. Para a Reforma Agrária na região de latifúndio do sul, tinhamos as experiências da União Soviética, kolkozes e sovkozes - cooperativas ou herdades colectivas -, experiências seguidas noutros países. Pareceu-nos que essas experiências podiam ser a solução e pusemos no programa. E no fim de contas, na realização da reforma agrária com a revolução de Abril, não resultou nem uma nem outra. As UCP / Cooperativas foram uma criação original dos trabalhadores portugueses. Eram unidades de trabalhadores com uma administração democrática e colectiva. Criaram-se cerca de 550 Unidades Colectivas de Produção, abrangendo um total de centenas de milhares de hectares de terra e milhares de postos de trabalho. Diversificaram-se as culturas, aumentou a produção agrícola e pecuária, introduziram-se máquinas, construíram-se instalações e oficinas, realizou-se uma notável obra social e cultural. Uma obra extraordinária, sob o fogo da reacção e de sectores do poder militar e político. Vinham delegações da União Soviética, da Bulgária e de outros países. Visitavam uma UCP e perguntavam: Isto é uma herdade do Estado ou uma cooperativa? Não era uma coisa nem outra. E admiravam-se dos resultados alcançados.

Catarina - E depois o poder político destruiu tudo?

Álvaro - Destruiu, levou alguns anos a destruir, mas acabou por destruir.
As grandes revoluções e as suas conquistas não foram só obra dos chefes, dos dirigentes, dos órgãos de poder instaurados. Nós, os comunistas portugueses, compreendemos uma revolução que se propõe realizar profundas transformações progressistas, não só com o apoio do povo, mas com o seu empenhamento, entusiasmo, criatividade e coragem."


E, porque nem tudo neste livro é política no sentido restrito da palavra (nem poderia ser, em conversas com uma personalidade tão rica e multifacetada como era a de Álvaro Cunhal):

"Catarina - Para não terminarmos a conversa sobre este tema em termos tão dramáticos e negativos e já que falaste em superstições - isto não tem muito a ver com a religião, mas sempre pergunto: acreditas na astrologia?

Álvaro - Bom, mudemos de rumo. Qual é o teu signo?

Catarina - Gémeos.

Álvaro - Oh diabo! Tu lês os horóscopos?

Catarina - Não.

Álvaro - Eu sou do signo Escorpião e tem sucedido que, quando chega o signo, recebo cartas amistosas escritas a sério ou a brincar, com o horóscopo apropriado. Num dos anos passados recebi um horóscopo de um astrólogo que já morreu e que me comunicava, e disse-o publicamente, que o horóscopo anunciava a minha morte nesse mesmo ano. Deve ter trocado os horóscopos.

Catarina - Felizmente. Se calhar era aquele que dizia todos os anos que a Ponte 25 de Abril ia cair e que o Sporting ia ser campeão...

Álvaro - Não sei se era o mesmo e não corro o risco de pronunciar-me sobre previsões ou insinuações futebolísticas, pois seria excessivamente arriscado. Deixo tal previsão aos astrólogos."


Por tudo isto "Cinco Conversas com Álvaro Cunhal" é um daqueles livros que frequentemente releio com prazer. E recomendo, claro!

quarta-feira, abril 24, 2013

"Os Americanos na Revolução Portuguesa (1974-1976)"

Os Estados Unidos da América foram apanhados de surpresa pelo levantamento militar (e depois popular) de 25 de Abril de 1974. Por isso, mantiveram primeiro uma posição de "esperar para ver". Mas, assim que entenderam o rumo revolucionário que os acontecimentos estavam a tomar, os responsáveis políticos norte-americanos preocuparam-se e tentaram influenciar o processo político português. Para Washington, era inaceitável que Portugal pudesse ter o Partido Comunista no governo, pois isso poderia desequilibrar a correlação de forças na Europa (onde os partidos comunistas de Itália e França tinham já, também, uma influência social e peso político e eleitoral crescentes).

No entanto, os próprios EUA estavam divididos quanto ao que fazer no caso português. O então secretário de estado, Henry Kissinger, defendia aquilo que ficou conhecido como a doutrina da "vacina": que os EUA apoiassem as forças contra-revolucionárias ou que deixassem mesmo os comunistas chegar ao poder, combatendo-os depois violentamente - dessa forma, pensava o famoso estratega da linha dura norte-americana, Portugal seria visto como um "mau exemplo" para o resto da Europa, e os comunistas portugueses como os agentes do caos.

Opinião diferente tinha o então embaixador fos EUA em Lisboa, Frank Carlucci. Homem mais ligado aos serviços "de inteligência" norte-americanos (e destacado para a embaixada em Portugal só após o 25 de Abril, para "lidar com a situação" ao seu jeito), preferiu combater a revolução apoiando os "moderados" - particularmente Mário Soares e o Partido Socialista. E foi essa a tendência que vingou.

São estas, em resumo, as ideias defendidas por Tiago Moreira de Sá, na investigação jornalística que publicou no livro "Os Americanos na Revolução Portuguesa (1974-1976)" (Editorial Notícias, 2004).

Escreve o autor: "os acontecimentos de Lisboa coincidiram com um momento em que o bloco ocidental enfrentava um cenário de crise no flanco sul da NATO, isto é, no Mediterrâneo, fazendo temer pela perda do controlo deste importante ponto estratégico. A oriente, eclodia o conflito de Chipre entre a Grécia e a Turquia, dois membros da NATO, e o subsequente início de um processo de transição de regime em Atenas. A ocidente, o problema era colocado pela crescente probabilidade da chegada dos comunistas ao governo em França e Itália. Isto para além da incerteza quanto ao futuro da Espanha em transição de regime. O processo político português era visto em Washington como um factor potenciador desta crise no Mediterrâneo, uma vez que se temia que a chegada do PCP ao Governo, primeiro, e a possibilidade de instauração de um regime comunista, depois, podiam influenciar negativamente Roma, Paris, Madrid e Atenas, com o risco de toda a Europa do Sul se tornar comunista a prazo.
Os EUA só podiam estar preocupados com a evolução política do seu aliado do outro lado do Atlântico. No fundo eram os equilíbrios da guerra fira que podiam ser postos em causa pelos acontecimentos em Portugal, logo, também estava em jogo o interesse nacional de Washington"
(segundo a doutrina intervencionista norte-americana) "Deste modo, podia-se esperar tudo menos desinteresse norte-americano."

Entende-se, assim, a razão de os governos provisórios do período 1974/75 serem de tão curta duração: não apenas por problemas internos, do processo revolucionário em curso, mas também (ou principalmente) pela pressão e mesmo ingerência dos EUA.

"Washington (...) actuou prioritariamente em duas frentes. Primeiro, ameaçando directamente Portugal de expulsão da NATO, o que no fundo queria significar a sua exclusão do sistema ocidental. Era uma forma de pressão de alto grau de eficácia, uma vez que os dirigentes portugueses não podiam desconhecer a elevada dependência do País face ao Ocidente e as consequência políticas, económicas e de segurança que uma exclusão deste bloco poderia acarretar.
Segundo, ameaçando directamente a URSS com o fim do clima de desanuviamento Leste-Oeste(...)."

Isto num primeiro momento. Depois, os EUA passam também a intervir no plano interno com o apoio à oposição "moderada", que lhes podia garantir uma transição pacífica para uma "democracia ocidental", ou seja, capitalista.

Processo que o autor explica ao longo de 160 páginas, com recurso a importantes documentos da época (incluindo documentos do Congresso e do Governo dos EUA) e citando depoimentos de alguns dos intervenientes.

Em suma, um livro importante para entender aspectos menos claros (e normalmente ignorados, embora os papeis de Kissinger e Carlucci não tivessem passado despercebidos aos revolucionários da época - e este livro vem dar-lhes razão) do processo revolucionário e, principalmente, do processo contra-revolucionário subsequente ao 25 de Abril de 1974.

quarta-feira, abril 17, 2013

Banalização da violência ou do medo?

Debateu-se muito (e ainda se debate) a hipótese de a violência nos meios de comunicação social influenciar comportamentos violentos nos espectadores. É verdade que alguns estudos apontam nesse sentido (ver, por exemplo, o relatório 'The Influence of Media Violence in Youth'). Mas os casos de crimes ou actos de violência extrema por imitação do que se vê nos media são raros (os estudos que apontam para relação causa-efeito falam de outro tipo de violência, mais disseminada, menos intensa e menos espectacular).

A partir da década de 1960, George Gerbner, um investigador norte-americano, professor de Comunicação na Annenberg School of Communication, de Filadéfia, colocou uma hipótese ligeiramente diferente, e com implicações muito mais profundas. Segundo ele, o visionamento prolongado e repetido de actos de violência (real ou ficcionada) nos écrans não conduz a uma reacção causa-efeito imediata (ninguém "no seu perfeito juízo", como se costuma dizer, vai matar o vizinho só porque viu um assassinato na televisão) mas causa, sim, a ideia de que o mundo e as comunidades em que vivemos são mais perigosas do que são efectivamente. E o efeito disso é que as pessoas ficam mais receosas, mais desconfiadas - e mais facilmente aceitam a violência exercida sobre si ou sobre terceiros como forma aceitável de resolver conflitos e aceitam, também, que lhes retirem liberdades civis, para terem a segurança que, supostamente (ilusoriamente) lhes falta.

Isto foi objecto de estudos aprofundados, ao longo de anos. E deu origem ao que hoje é conhecido como "teoria da cultivação" (ou "do cultivo"). O efeito dessa exposição à violência nos media, demonstrado por Gerbner e colaboradores é conhecido como "síndrome do mundo mau".

 Em entrevista recente a um programa de rádio norte-americano, Michael Morgan, investigador da Media Education Foundation da Universidade de Massachusetts, explica, de forma sucinta mas bem fundamentada, os resultados dessa investigação.

Resultados que podem surpreender. Por exemplo, quando afirma que, para o efeito de medo e insegurança, o consumo de imagens reais ou ficcionadas é indiferente (têm ambas o mesmo efeito) ou que, quando se trata de exposição à violência nos media, pessoas de todas as idades e com níveis de educação diferentes estão vulneráveis na mesma medida.

Nota: encontram uma (tentativa de) tradução para português do principal conteúdo desta entrevista em
http://vitorinices.blogspot.pt/p/blog-page.html

quinta-feira, abril 11, 2013

Um desenho


Eu sempre achei que não tinha grande "jeito" ou "talento" para desenhar. Bem tentava, mas, durante muito tempo, não saía nada que se aproveitasse.

Mesmo depois de vários anos a aprender no atelier de artes gráficas do Centro Cultural de Almada, o melhor que conseguia fazer eram cartazes. Não muitos, mesmo assim. Entre 1981 e 1986, não produzi grande coisa que se visse - exceptuando, talvez, o cartaz da Festa da Amizade de 1985, o do Carnaval de Almada de 1986 e um ou outro sobre cursos que o CCA organizava.

A partir de 1986, já não me lembro como nem porquê (mas suponho que por estar mais em contacto com pessoas que faziam desenho desenho mesmo, e não apenas "trabalhos gráficos") começo a aprender, também, a desenhar. E invento o pseudónimo Sturrefsit Adjukaatrix, que tenho usado desde então.

Este desenho é dessa primeira fornada. Terá uma história, como todos os desenhos. Neste caso, e a esta distância, parece-me que é uma tentativa (tentativa inconsciente) de "retratar" uma época em que Portugal vislumbrava no horizonte um "crescimento" capitalista e a miragem da "modernização" (1986 foi o ano da adesão à CEE). Mas a minha realidade era, ainda, a de um país "suburbano", que olhava o "progresso" de longe e, enquanto sonhava, tinha que fazer pela vida e desenrascar-se com o que tinha à mão. Um país de grandes desigualdades económicas e sociais, ainda com indústria, sustentada pela tal população suburbana, da qual faziam parte muitos imigrantes das ex-colónias.

Julgo que tentei meter isso tudo num desenho...

Mais tarde, a Câmara Municipal de Almada decide incluir no seu boletim municipal um suplemento de 4 páginas sobre políticas para "a juventude" (expressão que começara a ficar muito popular no discurso político desde 1985, Ano Internacional da Juventude) e abre um espaço para colaborações de jovens autores. Mas, por ser a primeira edição, não tinham ainda muito material para incluir e convidam-me para enviar colaboração. Envio-lhes, então, alguns desenhos e meia dúzia de poemas.

A primeira edição do suplemento de juventude do Boletim Almada Autarquias-Povo sai, então, em Março de 1990 (edição n.º 74 do boletim), e inclui dois desenhos meus. (Outra edição, em Dezembro desse ano, há-de incluir mais um desenho e também um poema - e foram esses, se não me engano, os únicos trabalhos que publiquei, até hoje, em qualquer edição da Câmara Municipal de Almada.)

Entretanto, em 1996, crio o fanzine de poesia (poezine) Debaixo do Bulcão, que chegou agora à sua edição 41 (encontram os poemas dessa edição clicando aqui). Para esta edição faltava-me uma imagem de capa. Lembrei-me, então, do velho desenho. E pronto, aí está ele, de volta.

E qual é o interesse disto tudo? Pois, se calhar não interessa nada. Mas, como já não actualizava este blogue há muito tempo... ;)

sábado, fevereiro 23, 2013

Almada, 1999

Em 1999 a câmara Municipal de Almada (CMA) lutava contra um plano de urbanização proposto pelo Grupo Mello para o terreno da Margueira, ocupado então (e ainda hoje) pelos já desactivados estaleiros navais da Lisnave.

O terreno tinha sido retirado à tutela do município em 1996 pelo recém-eleito governo PS (liderado por António Guterres) - na sequência de um processo rocambolesco relacionado com o Plano Director Municipal (PDM) de Almada. O governo anterior (PSD / Cavaco Silva) tinha recusado aprovar o documento; o novo governo aprovou-o, mas passando para a Administração Central três parcelas do território: o Plano Integrado de Almada, o Alfeite e a Margueira (Lisnave).

No terreno ocupado pelo estaleiro de reparação naval o Grupo Mello (principal accionista da Lisnave) queria construir uma urbanização para 30 mil habitantes. A CMA contestava, alegando que aquele território estava destinado a usos industriais e que pretendia instalar ali empresas que ajudassem a diversificar a base económica do concelho após a desactivação da Lisnave (que, desde a dévada de 1970 e até à data, tinha sido o maior empregador de mão-de-obra, no concelho e na região).

A divergência entre os projectos da Câmara e do Grupo Mello foi subindo de tom até que, em  Abril de 1999, a presidente da edilidade, Maria Emília de Sousa, sugeriu, em conferência de imprensa, que a população de Almada tomasse posição sobre o caso. Mas sem especificar que tipo de acções gostaria de ver desenvolvidas.

Interessado (como compete a um jornalista) agarrei no assunto, fiz as perguntas que deviam ser feitas, e desenvolvi este trabalho.

Do qual me lembrei agora, a propósito das intenções anunciadas pelo actual governo sobre a deslocalização do terminal de contentores do Porto de Lisboa para a Trafaria, no concelho de Almada.

A Margueira não seria uma hipótese melhor a considerar?

Eu sei: há um projecto da CMA apara urbanização daquele local, com construção em altura, dentro de água e em cima de uma falha sísmica. Mas é ainda projecto. E a CMA já recuou (infelizmente, penso eu) em projectos mais estruturantes, como no caso do Plano de Mobilidade.

E aquele terreno não era, supostamente, para fins industriais? Para diversificar a base económica do concelho? Um terminal de contentores, se for bem aproveitado, não pode ser uma boa aposta nesse sentido?