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sábado, novembro 08, 2014
Contribuição para a história do Centro Cultural de Almada
O Centro Cultural de Almada foi uma associação cultural que existiu nesta cidade portuguesa entre 1979 e a primeira década do século 21. Dedicava a sua actividade permanente à formação de agentes culturais através de cursos técnicos e artísticos, para os quais contava com a colaboração de alguns dos mais reputados especialistas portugueses nas respectivas matérias.
Mas o Centro era mais conhecido do grande público pelas organizações (em colaboração com a Câmara Municipal de Almada) de eventos como feiras do livro, animação de espaços públicos, cinema ao ar livre, festivais de música, etc.
Contudo, esta instituição tinha sido criada por decisão da Assembleia Popular do Concelho de Almada, em 1978. E a ideia era, então, criar uma estrutura coordenadora do movimento associativo. O projecto acabou por não se concretizar dessa forma.
Nesta entrevista que a Radiodifusão Portuguesa veio fazer a Almada, em 1978, para o programa Contraponto, três elementos do grupo de trabalho da Assembleia Popular para a criação do futuro Centro Cultural faziam o ponto da situação e apontavam objectivos para o futuro.
Entrevistados:
Maria Emília de Sousa (na altura representante do secretariado da Assembleia Popular do Concelho de Almada; mais tarde autarca e presidente da Câmara Municipal de Almada desde 1986
Dina Bastos, então vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Almada
Luís Marques, que viria a ser o coordenador-geral do Centro Cultural de Almada
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segunda-feira, abril 25, 2011
É o aniversário da revolução, camarada pá!

Há 30 anos, Almada comemorava o sétimo aniversário do 25 de Abril de 1974, com o seguinte programa de festas (clica na imagem para a ampliar e ler o texto, camarada pá):

E sim, naquela altura a gente escrevia "pá", com acento, como se escreve em português (pá, que é uma abreviatura da palavra rapaz, já agora), e não "pah"... pá!
segunda-feira, outubro 04, 2010
"Almada Antecipou a República"

Texto do escritor almadense Luís Milheiro, publicado originalmente no seu blogue Largo da Memória e reproduzido aqui, com as devidas vénia e autorização:
Almada faz jus à sua situação geográfica, na Margem Esquerda do Tejo e sempre que pode antecipa-se às revoluções, foi assim a 23 de Junho de 1833 e também a 4 de Outubro de 1910. E se recuarmos mais algum tempo, em 1580 também vendeu cara a derrota aos espanhóis...
Voltando ao 4 de Outubro, de há exactamente cem anos, a presença de dois dirigentes republicanos e a acção dos agentes políticos locais, com realce para Bartolomeu Constantino, sapateiro de profissão e ainda mais revolucionário que os próprios republicanos, graças ao seu ideário, próximo do socialismo e do anarquismo, fizeram com que Almada se tornasse republicana, antes do tempo.
Bartolomeu Constantino tinha qualidade oratórias invulgares e foram as suas palavras, junto das fábricas, que conseguiram trazer para a rua cerca de oito mil operários, que percorreram as principais artérias de Almada, com vivas à República, e claro, com outros "mimos" muito menos agradáveis, em relação ao Rei, à Monarquia e à própria Igreja.
O cortejo revolucionário só parou em frente aos Paços do Concelho, ocupados pacificamente e onde se ergueu a Bandeira do Centro Republicano Capitão Leitão e se fizeram discursos inflamados pelas principais figuras da revolta.
O Castelo de Almada também foi ocupado, com a cumplicidade da guarnição, que viu ser içada a Bandeira do Centro Republicano Elias Garcia.
E mais uma vez se fez história em Almada, antes do tempo...
Nota: A República também foi proclamada a 4 de Outubro no Barreiro, Loures, e Aldeia Galega (Montijo).
Almada faz jus à sua situação geográfica, na Margem Esquerda do Tejo e sempre que pode antecipa-se às revoluções, foi assim a 23 de Junho de 1833 e também a 4 de Outubro de 1910. E se recuarmos mais algum tempo, em 1580 também vendeu cara a derrota aos espanhóis...
Voltando ao 4 de Outubro, de há exactamente cem anos, a presença de dois dirigentes republicanos e a acção dos agentes políticos locais, com realce para Bartolomeu Constantino, sapateiro de profissão e ainda mais revolucionário que os próprios republicanos, graças ao seu ideário, próximo do socialismo e do anarquismo, fizeram com que Almada se tornasse republicana, antes do tempo.
Bartolomeu Constantino tinha qualidade oratórias invulgares e foram as suas palavras, junto das fábricas, que conseguiram trazer para a rua cerca de oito mil operários, que percorreram as principais artérias de Almada, com vivas à República, e claro, com outros "mimos" muito menos agradáveis, em relação ao Rei, à Monarquia e à própria Igreja.
O cortejo revolucionário só parou em frente aos Paços do Concelho, ocupados pacificamente e onde se ergueu a Bandeira do Centro Republicano Capitão Leitão e se fizeram discursos inflamados pelas principais figuras da revolta.
O Castelo de Almada também foi ocupado, com a cumplicidade da guarnição, que viu ser içada a Bandeira do Centro Republicano Elias Garcia.
E mais uma vez se fez história em Almada, antes do tempo...
Nota: A República também foi proclamada a 4 de Outubro no Barreiro, Loures, e Aldeia Galega (Montijo).
quarta-feira, setembro 29, 2010
"Eu já lhe vou contar uma anedota"

"Já descansa mais? Não, senhor doutor: o patrão resolveu dar mais descanso às bestas, que estavam a emagrecer!"
Augusto Henriques Pinheiro, médico, no livro "Minhas senhoras e meus senhores... - vida, fome e morte nos campos de Beja durante o salazarismo":
«Eu já lhe vou contar uma anedota. Não é anedota, não é anedota!
Eu estava lá (Baleizão), às tantas comecei a ser.. o consultório começou a ser frequentado por um homem, de trabalho, tostado do sol, que se ia queixar de fraqueza, de falta de forças, de fraqueza, de falta de forças, de fraqueza. Bom... bem, como eu sabia das dificuldades de alimentação, comecei a receitar vitaminas e extractos de carne, e não sei quê... Bem, aquilo que havia na farmácia e que pudesse ajudar a pessoa... bem! O homem ia...
Eu tenho contado isto muitas vezes, sempre da mesma maneira, porque aquilo ficou-me tão vincado, quer sob o ponto de vista da memória visual, quer sob o ponto de vista da conversa que tive com ele, e ele comigo, esse homem, que não falho nada, no meu relato não falho nada, corresponde na realidade ao que se passou.
O homem continuou a consultar-me, a ir à consulta, e a dizer que estava sempre fraco.
Bom, passadas duas ou três consultas, eu disse, Ouça lá, ouça lá, qual é o seu trabalho?, e ele contou-me qual era o trabalho dele: o trabalho dele (...) era o responsável por uma parelha de bestas. E então, levantava-se antes do pôr-do-sol, para estar, antes do nascer do sol, para estar ao nascer do sol numa herdade longe. Portanto, levantava-se por volta das três da manhã. Para quê? para aparelhar, aparelhar as bestas, pô-las ao carro, dar-lhes de comer, aparelhar, pôr-lhes o... dar de comer, pô-las ao carro e ir para a propriedade, estar a começar o trabalho ao romper do sol.
Atenção, no verão o romper do sol aqui é às seis horas! (...)
Portanto, ele tinha de ir à estrebaria, preparar os animais, dar-lhe de comer, preparar os animais, esperar qie eles comessem, aparelhá-los,(...) e ir trabalhar. E então quando... e então diga-me lá, então, e depois? Depois, eu, ao pôr-do-sol, deixo o trabalho.
O pôr do sol aqui, pá, são oito e meia, nove horas, está bem! Então... então, e depois, diga lá, Bom, chego por volta das onze horas a casa, onze horas, porque tenho que ir dar-lhes de comer novamente, às bestas... E quando me vou deitar onze e meia, meia-noite.
Eh pá, eu disse, Então está explicado porque é que você não pode... porque é que você não tem forças. Pois que o senhor trabalha de mais, descansa de menos. E, ainda por cima, com a alimentação fraca como era aqui no Alentejo, que, em regra geral, os trabalhadores rurais têm, isso explica... Olhe, ouça lá, porque..., eu ingénuo, ainda, ainda, eu ingénuo, Ouça lá, porque é que você não pede ao seu patrão para lhe dar mais descanso, para... enfim, descansar mais, não é, ter um período de descanso maior! Bem, lá lhe receitei mais umas coisas e tal...
Pois ele continuou a ir ao consultório dizer que estava mal, mais umas duas ou três vezes.
E um dia aparece-me risonho no consultório. E eu, querem ver que pediu ao patrão para lhe dar mais... já descansa mais. Então diga, diga! Já descansa mais, já disse ao seu patrão, e tal?, Não, senhor doutor, é que as bestas estavam a emagrecer e o patrão resolveu dar mais descanso às bestas.
Eh pá!!! Está a ver como eu fiquei, não é? Está a ver como eu fiquei? Como é que eu vi a mentalidade dos senhores da gleba. Os servos eram da gleba, a gleba era dos senhores.
E, portanto, estava tudo dito. Estava tudo dito!»
(Relato de Augusto Henriques Pinheiro, médico, no livro e duplo CD "Minhas senhoras e meus senhores... - vida, fome e morte nos campos de Beja durante o salazarismo" - arquivo de História Oral, Rede Museológica do Município de Beja. Edição C.M. Beja / Cooperativa Cultural Alentejana, Abril de 2006)
Augusto Henriques Pinheiro, médico, no livro "Minhas senhoras e meus senhores... - vida, fome e morte nos campos de Beja durante o salazarismo":
«Eu já lhe vou contar uma anedota. Não é anedota, não é anedota!
Eu estava lá (Baleizão), às tantas comecei a ser.. o consultório começou a ser frequentado por um homem, de trabalho, tostado do sol, que se ia queixar de fraqueza, de falta de forças, de fraqueza, de falta de forças, de fraqueza. Bom... bem, como eu sabia das dificuldades de alimentação, comecei a receitar vitaminas e extractos de carne, e não sei quê... Bem, aquilo que havia na farmácia e que pudesse ajudar a pessoa... bem! O homem ia...
Eu tenho contado isto muitas vezes, sempre da mesma maneira, porque aquilo ficou-me tão vincado, quer sob o ponto de vista da memória visual, quer sob o ponto de vista da conversa que tive com ele, e ele comigo, esse homem, que não falho nada, no meu relato não falho nada, corresponde na realidade ao que se passou.
O homem continuou a consultar-me, a ir à consulta, e a dizer que estava sempre fraco.
Bom, passadas duas ou três consultas, eu disse, Ouça lá, ouça lá, qual é o seu trabalho?, e ele contou-me qual era o trabalho dele: o trabalho dele (...) era o responsável por uma parelha de bestas. E então, levantava-se antes do pôr-do-sol, para estar, antes do nascer do sol, para estar ao nascer do sol numa herdade longe. Portanto, levantava-se por volta das três da manhã. Para quê? para aparelhar, aparelhar as bestas, pô-las ao carro, dar-lhes de comer, aparelhar, pôr-lhes o... dar de comer, pô-las ao carro e ir para a propriedade, estar a começar o trabalho ao romper do sol.
Atenção, no verão o romper do sol aqui é às seis horas! (...)
Portanto, ele tinha de ir à estrebaria, preparar os animais, dar-lhe de comer, preparar os animais, esperar qie eles comessem, aparelhá-los,(...) e ir trabalhar. E então quando... e então diga-me lá, então, e depois? Depois, eu, ao pôr-do-sol, deixo o trabalho.
O pôr do sol aqui, pá, são oito e meia, nove horas, está bem! Então... então, e depois, diga lá, Bom, chego por volta das onze horas a casa, onze horas, porque tenho que ir dar-lhes de comer novamente, às bestas... E quando me vou deitar onze e meia, meia-noite.
Eh pá, eu disse, Então está explicado porque é que você não pode... porque é que você não tem forças. Pois que o senhor trabalha de mais, descansa de menos. E, ainda por cima, com a alimentação fraca como era aqui no Alentejo, que, em regra geral, os trabalhadores rurais têm, isso explica... Olhe, ouça lá, porque..., eu ingénuo, ainda, ainda, eu ingénuo, Ouça lá, porque é que você não pede ao seu patrão para lhe dar mais descanso, para... enfim, descansar mais, não é, ter um período de descanso maior! Bem, lá lhe receitei mais umas coisas e tal...
Pois ele continuou a ir ao consultório dizer que estava mal, mais umas duas ou três vezes.
E um dia aparece-me risonho no consultório. E eu, querem ver que pediu ao patrão para lhe dar mais... já descansa mais. Então diga, diga! Já descansa mais, já disse ao seu patrão, e tal?, Não, senhor doutor, é que as bestas estavam a emagrecer e o patrão resolveu dar mais descanso às bestas.
Eh pá!!! Está a ver como eu fiquei, não é? Está a ver como eu fiquei? Como é que eu vi a mentalidade dos senhores da gleba. Os servos eram da gleba, a gleba era dos senhores.
E, portanto, estava tudo dito. Estava tudo dito!»
(Relato de Augusto Henriques Pinheiro, médico, no livro e duplo CD "Minhas senhoras e meus senhores... - vida, fome e morte nos campos de Beja durante o salazarismo" - arquivo de História Oral, Rede Museológica do Município de Beja. Edição C.M. Beja / Cooperativa Cultural Alentejana, Abril de 2006)
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sábado, junho 26, 2010
Metro Sul do Tejo - o protocolo de 1995


Em 1995, Governo e autarquias de Almada, Seixal, Barreiro e Moita, assinaram o primeiro protocolo para a implementação do Metropolitano de Superfície do "arco ribeirinho do Tejo". Estas páginas são o "fac-simile" do protocolo então assinado, e que previa a concretização do projecto até 1999, com percursos entre Almada, Seixal e Barreiro (numa primeira fase) com posterior extensão ao concelho da Moita. O protocolo foi assinado nos Paços do Concelho da Câmara Municipal do Barreiro, no dia 18 de Abril de 1995, pelos presidentes das 4 câmaras envolvidas, e por: Presiudente do Conselho de Gerência da CP - Caminhos dse Ferro Portugueses; Presidente do Conselho Directivo do Gabinete do Nó Ferroviáro de Lisboa, Coordenador do Grupo de Trabalho criado pelo Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações. (Optei por rasurar as assinaturas na última página, por motivos que me parecem óbvios.)
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quinta-feira, junho 10, 2010
A verdade (quase toda) sobre a bandeira portuguesa

Nós aprendemos o que significam os símbolos da Bandeira Nacional portuguesa: o verde é a esperança, o vermelho o sangue derramado, os castelos simbolizam conquistas militares, os círculos dentro das quinas simbolizam as chagas de Cristo... Aprendemos também que o fundo verde-rubro foi invenção dos republicanos para substituir o azul e branco da monarquia. Certo? Errado. Muito errado, mesmo. Querem ver?
Então vejamos, antes de mais, como era a última Bandeira Nacional da Monarquia (bandeira de D. Pedro IV, em 1830).
Então vejamos, antes de mais, como era a última Bandeira Nacional da Monarquia (bandeira de D. Pedro IV, em 1830).

Ali está: escudo (com todos os elementos que nele existem hoje) encimado pela coroa, sobre fundo azul e branco, ocupando uma das faixas (a branca) dois terços da bandeira - proporção quase igual à que vemos na bandeira dos nossos dias (2/5 de verde e 3/5 de vermelho).
Porquê essa proporção? Por razões muito pouco teóricas ou ideológicas: simplesmente "pelo facto de se damnificarem muito, na parte opposta à adriça, as bandeiras dos navios, como, em geral, todas as que fluctuam permanentemente; (...). A bandeira nacional portugueza, usada pelos navios de guerra e do commercio, assim como pelas fortalezas e estabelecimentos do Estado, é pois, um terço azul e dois terços branco." (ver aqui) Trocando em miudos: porque o lado "de fora" - o branco na bandeira da Monarquia, ou o vermelho na bandeira da República - está mais sujeito a desgaste!
A última bandeira monárquica é, portanto - como se pode ver - uma bandeira muito semelhante à actual, com a diferença de ter a esfera armilar a substituir a coroa real, e das cores de fundo serem verde e vermelho, em vez do "tradicional" azul e branco.
Mas mesmo essa alteração de cores não foi, de todo, "invenção" dos republicanos. As cores verde e vermelha conjugadas já eram, há muitos anos, usadas em símbolos da Nação.
"A bandeira naval representando a Cruz da Ordem de Cristo em fundo verde foi também um pavilhão usado durante o reinado de Dom Manuel, um uso a que não terá sido estranho prestígio que as explorações marítimas detinham nesta época.", e voltou a ser muito utilizada durante o período da Restauração da Independência.Temos, portanto, a disposição dos elementos sobre o fundo, e a proporção do fundo, não como inovações republicanas mas como ajustamentos e actualizações da bandeira anterior; as cores de fundo são (como vimos) "recuperadas" de um estandarte régio (naval e nacional) do século XVI.
Estas informações - e outras, muito interessantes, como a origem das "quinas", dos círculos brancos ou dos castelos - encontram-se aqui:
http://www.tuvalkin.web.pt/terravista/guincho/1421/bandeira/pt_hist.htm
Chamo-lhes a verdade "quase toda", não porque esteja a omitir (ou tentar omitir) algo, mas porque esta "versão" da História é polémica (embora me pareça mais credível que aquela que me foi sempre "ensinada"). É que aqui - como em quase toda a investigação histórica - há muitas dúvidas, muitas "leituras" e opiniões, e poucas certezas. (Veja-se, a propósito, o que diz a Wikipédia sobre o mesmo assunto)
E não quero - de forma alguma! - manifestar desagrado com a República ou simpatia com "ideais monárquicos". Quero, sim, aproveitar o Dia de Portugal para lembrar que tudo o que nos é ensinado, tudo o que damos como certo ou adquirido, deve ser sempre questionado à luz da História - ou, se preferirem, analisado em perspectiva, dialecticamente (no sentido marxista do termo).
É assim que eu penso. Sou laico, republicano e socialista. Mas socialista, mesmo!
terça-feira, junho 01, 2010
Recordar o Ano Internacional da Criança (1979)

Eu tenho um baú cheio de coisas antigas. E outro cheio de coisas ainda mais antigas. Esta, de 1979, veio quase do fundo do segundo baú.
Ando sem muito tempo para actualizar este blogue. Hoje não é excepção. Mas pensei que seria boa ideia não esquecer o Dia Mundial da Criança. À falta de melhor, deixo-vos aqui este documento: um comunicado da Comissão Municipal criada para as comemorações, em Almada, do Ano Internacional da Criança.
Isto merece ser melhor trabalhado e enquadrado? Pois merece. Mas (repito) não tenho, por agora, disponibilidade para isso.
E haverá, certamente, quem tenha mais tempo e mais talento para o fazer. Fica a sugestão (ou,se preferirem, o desafio).
quarta-feira, maio 12, 2010
"Avante, avante p’lo Benfica" - o hino original, censurado pelo fascismo português.
O original hino do Benfica não é aquele que todos conhecemos (o tal "ser benfiquista", das "papoilas saltitantes"...). O original - que, de acordo com as fontes que consultei, será (ou devia ser) também o oficial - é este.
Foi "composto por ocasião do vigésimo quinto aniversário do Clube (1929) e censurado pelo Estado Novo fascista em 1942". Música de Alves Coelho, com letra de Félix Bermudes. Terão sido as palavras deste hino que o tornaram inaceitável para a ditadura fascista.
Ei-las:
"Todos por um!" eis a divisa,
Do velho Clube Campeão,
Que um nobre esforço imortaliza,
Em gloriosa tradição.
Olhando altivo o seu passado,
Pode ter fé no seu futuro.
Pois conservou imaculado
Um ideal sincero e puro.
REFRÃO
Avante, avante p'lo Benfica,
Que uma aura triunfante Glorifica!
E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,
Honrai agora os ases
Que nos honraram o passado!
Olhemos fitos essa Águia altiva,
Essa Águia heráldica e suprema,
Padrão da raça ardente e viva,
Erguendo ao alto o nosso emblema!
Com sacrifício e devoção
Com decisão serena e calma,
Dêmos-lhe o nosso coração!
Dêmos-lhe a fé, a alma!
Como aparece, então, o "Ser Benfiquista", para substituir o hino original?
"A 16 de Abril de 1953 foi apresentado num sarau de angariação de fundos para a construção do Estádio da Luz, no Pavilhão dos Desportos, com a presença de cerca de 6 mil benfiquistas o tema "Ser Benfiquista" escrito por Paulino Gomes Júnior (letra e música) e interpretado pelo cristalino tenor Luís Piçarra, muitas vezes tomado, erradamente, pelo hino oficial do Clube."
Fontes:
http://5dias.net
http://www.youtube.com/user/antonio00maia
Foi "composto por ocasião do vigésimo quinto aniversário do Clube (1929) e censurado pelo Estado Novo fascista em 1942". Música de Alves Coelho, com letra de Félix Bermudes. Terão sido as palavras deste hino que o tornaram inaceitável para a ditadura fascista.
Ei-las:
"Todos por um!" eis a divisa,
Do velho Clube Campeão,
Que um nobre esforço imortaliza,
Em gloriosa tradição.
Olhando altivo o seu passado,
Pode ter fé no seu futuro.
Pois conservou imaculado
Um ideal sincero e puro.
REFRÃO
Avante, avante p'lo Benfica,
Que uma aura triunfante Glorifica!
E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,
Honrai agora os ases
Que nos honraram o passado!
Olhemos fitos essa Águia altiva,
Essa Águia heráldica e suprema,
Padrão da raça ardente e viva,
Erguendo ao alto o nosso emblema!
Com sacrifício e devoção
Com decisão serena e calma,
Dêmos-lhe o nosso coração!
Dêmos-lhe a fé, a alma!
Como aparece, então, o "Ser Benfiquista", para substituir o hino original?
"A 16 de Abril de 1953 foi apresentado num sarau de angariação de fundos para a construção do Estádio da Luz, no Pavilhão dos Desportos, com a presença de cerca de 6 mil benfiquistas o tema "Ser Benfiquista" escrito por Paulino Gomes Júnior (letra e música) e interpretado pelo cristalino tenor Luís Piçarra, muitas vezes tomado, erradamente, pelo hino oficial do Clube."
Fontes:
http://5dias.net
http://www.youtube.com/user/antonio00maia
domingo, março 21, 2010
21 de Março é, também, o Dia Universal do Teatro (ou do teatro de amadores)!?

Convencionou-se comemorar o Dia Mundial do Teatro a 27 de Março. Toda a gente minimamente interessada no assunto sabe isso. Mas sabiam que, a 21 de Março, se comemora também (além dos dias da árvore e floresta e da poesia) o Dia Universal do Teatro, também conhecido como Dia do Teatro Amador (ou do teatro de amadores)?
Eu não sabia, até descobrir este texto, escrito pelo dramaturgo português Jaime Gralheiro para a Associação Portuguesa de Teatro de Amadores e publicado pelo Centro Cultural de Almada em 1979.
Porque existem duas efemérides tão semelhantes e logo em datas tão aproximadas?
Pois, isso também eu gostava de saber. Mas não encontrei documentação sobre o assunto. Há informação, sim, sobre o Dia Mundial do Teatro (27 de Março) mas, sobre o dia do "teatro amador" a informação que encontrei é, além de escassa, inconclusiva (as fontes consultadas não coincidiam nem nas datas que apontam para a efeméride: há quem refira o dia 16 de Dezembro, em vez de 21 de Março...).
Eu não sabia, até descobrir este texto, escrito pelo dramaturgo português Jaime Gralheiro para a Associação Portuguesa de Teatro de Amadores e publicado pelo Centro Cultural de Almada em 1979.
Porque existem duas efemérides tão semelhantes e logo em datas tão aproximadas?
Pois, isso também eu gostava de saber. Mas não encontrei documentação sobre o assunto. Há informação, sim, sobre o Dia Mundial do Teatro (27 de Março) mas, sobre o dia do "teatro amador" a informação que encontrei é, além de escassa, inconclusiva (as fontes consultadas não coincidiam nem nas datas que apontam para a efeméride: há quem refira o dia 16 de Dezembro, em vez de 21 de Março...).
Fiquei com vontade de procurar melhor, para esclarecer esta dúvida.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
O Auto da Índia, de Gil Vicente e a inauguração do Cristo-Rei, no Boletim de Fontes Documentais do Arquivo Histórico de Almada

De uma das visitas ao Arquivo Histórico de Almada (onde vou consultar publicações antigas - incluindo o Sul Expresso, jornal onde trabalhei entre 1995 e 1997), trouxe o livrinho de que vos quero falar hoje.
Chama-se "Almada na História", é uma edição do Arquivo Histórico da Câmara de Almada, costuma ter conteúdos interessantes (para quem se interessa por História, claro!), recuperados dos acervos do município e de outras instituições.
A edição a que me quero referir é ainda mais interessante: inclui o Auto da Índia, de Gil Vicente (farsa representada pela primeira vez em Almada, no ano de 1509) e uma reportagem da inauguração do monumento a Cristo-Rei, em 1959. Mas também um documento sobre a reestruturação da Câmara Municipal, em 1975.
Neste volume (dois números, semestrais: 15 e 16, referentes a 2008, mas tão actuais agora como há um par de anos) "Almada na História" apresenta, por ordem cronológica, oito "documentos impressos e manuscritos".
"Audiência concedida por João Afonso, ouvidor de D. Nuno Álvares Pereira, a João Amador, Mamposteiro, em 1413 - traslado da audiência concedida no Paço do Concelho em Almada a João Amador, mamposteiro da Casa dos Gafos, de Cacilhas", documento do Arquivo Histórico
da S. C. da Misericórdia de Almada.
da S. C. da Misericórdia de Almada.
"Reunião da vereação da Comuna dos Judeus de Lisboa, em 1485 - a comuna dos judeus de Lisboa, reunida em vereação, na noite de 2 de Outubro de 1485, autoriza José Calado e José Yaex, ambos alfaiates, a venderem o foro de umas casas na Judiaria Nova a Juda Gabay e
José Catalão", pergaminho do Arquivo Histórico Municipal de Almada.
José Catalão", pergaminho do Arquivo Histórico Municipal de Almada.
"Auto da Índia, de Gil Vicente, representado em Almada, em 1509 - transcrição do Auto da Índia, segundo a edição de 1562, representado em Almada, perante a rainha D. Leonor e a corte que saira da capital, por motivo da peste, em 1509", reprodução de documento do arquivo daBiblioteca Nacional.
"Chegada e estadia do Rei Filipe na Vila de Almada e na cidade de Lisboa, em Junho de 1581", Paris, Biblioteca Nacinal de França (Biblioteca Digital Gallica).
"Contracto efectuado por Manuel Malheiros com os oficiais da Câmara de Almada, sobre a vistoria do Moinho de Mutela, em 1647 - documento seiscentista com interesse para a história da moagem da vila e termo de Almada".
"Carta de Sangrador de Francisco António Botelho, registada em 1751 - concedida a licença ou carta de sangria a Francisco António Botelho, (...) «para sangrar, sarjar, lançar ventosas e sanguessugas em todos os reinos e senhorios de Portugal»".

"Inauguração do Monumento a Cristo-Rei, em 1959 - reportagem do jornal regional Praia do Sol relativa à inauguração do Monumento".
"Reestruturação dos serviços da Câmara Municipal, em 1975 - reorganização do funcionamento da nova estrutura orgânica da autarquia, após o 25 de Abril de 1974, com o objectivo de desburocratizar as matérias de rotina e tornar funcional e rápido a prestação de serviços aos munícipes".
São, portanto, quase 500 anos de História, documentada - com recurso a fac-similes das edições mencionadas - em cerca de 80 páginas de "boletim". Está disponível, ao público (não só aos investigadores: ao "público em geral", mesmo) no Arquivo Histórico de Almada. Merece leitura atenta!
quarta-feira, novembro 25, 2009
Almada, Novembro de 1979

«As crianças não precisam de tempos livres: precisam de uma casa!», ou «Querem brincar com barro? É só levantar o tapete que logo o encontram!» - duas respostas que, há 30 anos, os pais das crianças da zona do Bairro do Matadouro, em Almada, deram a quem queria implementar ali um centro de Actividades de Tempos Livres.
Tais afirmações constam de um interessantíssimo documento, com data de 25 de Novembro de 1979. Nesse - que foi o Ano Internacional da Criança, note-se... - as prioridades eram ainda, em muitas zonas do concelho, o combate à pobreza. Primeiro, à pobreza palpável (uma casa decente, alimentação...). Só depois à pobreza cultural.
Quem, nesse tempo, trabalhava em prol da educação desse pobre povo almadense, merece o máximo respeito e a maior admiração. Trabalharam em condições muito difíceis - e, assim, desbravaram o caminho que as gerações postriores tiveram a felicidade de seguir. (Ainda que hoje exista um retrocesso - aparente, apenas? - nesta e noutras matérias.)
A divulgação que faço deste documento é, então, uma homenagem a esses educadores - e espero que seja entendida apenas como aquilo que é!


«Quando se fez propaganda e o porta-a-porta a explicar a importância dos tempos livres, aos pais das crianças, a resposta que tinhamos - e que não podíamos rebater perante os factos evidentes - era que aos seus filhos fazia-lhes mais falta uma casa do que os tempos livres. Quando para os convencer da importância para o desenvolvimento mental e cultural das crianças lhes falávamos dos trabalhos que os miúdos poderiam fazer, inclusivamente trabalhar com o barro, a resposta que obtinhamos era de que bastaria eles levantarem o tapete para poderem encontrar e amassar o barro. Por outro lado, nós tinhamos consciência plena de que o pouco trabalho que fizemos com o apoio da assistente social que aqui estagiou era de que a felicidade que as crianças mostravam quando trabalhavam connosco, daí a pouco desapareceria quando chegassem a casa. Encontrariam a escuridão do seu bairro, a lama, o lixo e as fossas de todos os dias, a cama molhada pela chuva, e os berros dos pais que não sabiam o que fazer à vida, tudo isto em contraste com as lindas histórias que lhes contácamos e as cores que produziam no papel. Nós sabíamos que as crianças eram crianças quando estavam connosco, mas que depois perante o meio em que viviam se tornavam forçosamente adultas, perante as condições de vida familiares, e nalguns casos a constatação da prostituição descarada das mães.»
(Ver texto completo na caixa de comentários deste blogue)
terça-feira, agosto 04, 2009
Almada, Verão de 1384 - I: Como Almada aderiu à causa do Mestre de Avis (futuro rei D. João I) e o que sofreu por isso

Almada teve um papel importante num dos momentos decisivos para a independência nacional: a Revolução de 1383-85, que contrariou as pretensões castelhanas ao trono de Portugal, e levou ao poder o primeiro rei da Segunda Dinastia. Num momento histórico repleto de peripécias - das quais a mais conhecida, e celebrada, será a Batalha de Aljubarrota - o cerco a Almada tem, contudo, algumas das mais interessantes (interessantes seja qual for o ponto de vista...). E dava um filme!
Querem conhecer um pouco dessa história? Sigam-me: vou contar-vos o que diz o cronista Fernão Lopes (socorrendo-me também, e muito, de um texto de Alexandre Magno Flores, director do Arquivo Histórico de Almada). O texto de Alexandre Flores está entre aspas; o original, de Fernão Lopes, em itálico.
"Com a morte do rei D. Fernando, ocorrida a 22 de Outubro de 1383, pouco depois do casamento da sua filha com D. João de Castela, a regência do reino foi entregue à rainha D. Leonor. Tendo em conta os termos do contrato daquele casamento, nem o rei de Castela, nem a maioria do povo português aceitaram tranquilamente a solução então adoptada.
D. João de Castela pretendia, de facto, assenhorear-se do reino de Portugal. Por outro lado, o povo português receava que a regente acabasse por entregar a coroa ao filho e ao genro."
(...)
"Estavam divididas as opiniões, pois além do Mestre de Avis" (D. João, futuro rei D. João I) "e do rei de Castela, pretendiam a coroa os dois filhos de Inês de Castro, D. João" (rei de Castela) "e D. Dinis. Nesta crise, a maioria da fidalguia decide-se pela viuva D. Leonor e depois em favor do rei de Castela, enquanto que o povo, a burguesia comercial-marítima e alguns altos dignatários, tomam o caminho da revolução"
E é mesmo de uma revolução que se trata. Encabeçada pelos burgueses (nova classe social emergente) de Lisboa, mas rapidamente secundada pelo povo - a arraia miúda, como lhe chama Fernão Lopes - e superiormente dirigida, a nível militar, por Nuno Álvares Pereira.
Tudo começa a 6 de Dezembro de 1383 quando, na sequência de uma conspiração engendrada pela nova classe social, um grupo de "comandos" - que inclui o Mestre de Avis, D. João - se dirige à corte e assassina o Conde de Andeiro (amante da rainha regente, considerado partidário da causa castelhana e, eventualmente, pouco mais que um bode expiatório da história). Este assassinato político serve de rastilho ao que vem a seguir: os instigadores do golpe (burgueses de Lisboa, liderados por Álvaro Pais) enganam o povo da capital, espalhando um boato segundo o qual o Mestre de Avis (personagem indecisa politicamente, mas acarinhada pela população) foi alvo de uma cilada na corte (ou seja: exactamente o contrário do que acontecia efectivamente!).
A palavra de ordem era: ao paço, ao paço, que matam o Mestre!
Vendo que o Mestre estava vivo, a população de Lisboa rejubila e, em seguida, ataca tudo o que cheire a castelhano, ou pró-castelhano. À fúria popular não escapa, sequer, o Bispo de Lisboa: atirado, ainda vivo, da torre da Sé Patriarcal, é deixado em agonia e pasto de cães esfomeados.
(A propósito: a bem da verdade histórica, ou do que se supõe ser a verdade histórica, não irei, neste relato, omitir alguns factos mais escabrosos, ou eventualmente mais chocantes - porque, dizem as fontes históricas, tais factos aconteceram mesmo!)
Com a revolução em marcha, a regente D. Leonor foge de Lisboa e , em seguida, refugia-se em Castela, onde pede ajuda ao rei D. João. Este avança com o seu exército sobre terras portuguesas. O primeiro objectivo é cercar Lisboa, obrigando os conspiradores - e o Mestre de Avis, já então aclamado "regedor e defensor do reino" - a capitular. Mas, para que o cerco a Lisboa resulte, é importante ocupar Almada, considerada assi come chave do mar pera quallquer armada que elRei de Castella sobre a çidade quisesse fazer.
Almada que, entretanto, se tinha já decidido pela causa independentista - do Mestre de Avis - e que viria, por isso mesmo, a sofrer um cerco feroz, durante largos meses de 1384.
Almada que, entretanto, se tinha já decidido pela causa independentista - do Mestre de Avis - e que viria, por isso mesmo, a sofrer um cerco feroz, durante largos meses de 1384.
Os castelhanos montam, então, o cerco a Lisboa. E, a partir de Maio desse ano, cercam também o Castelo de Almada. Os habitantes da vila, sitidos entre muralhas e a escarpa sobre o Tejo, vão passar duras privações e cometer actos de memorável heroísmo. Mas, no plano militar, as coisas não começam bem: alguns personagens influentes são capturados logo no início das hostilidades...
"A 11 de Junho de 1384 é preso em Almada, Diogo Lopes Pacheco, já com idade avançada, que entretanto chegara de Castela com os seus três filhos e 30 homens, para auxiliar o Mestre de Aviz. A mesma sorte coube também ao Regedor de Almada, Afonso Galo."
Mas isso era apenas o princípio...
(continua)
Foto: revista Sem Mais, Setúbal, 1995 - "O Castelo da Resistência", um dos primeiros artigos que fiz para a imprensa escrita...
Almada, Verão de 1384 - II: O cerco castelhano e a resistência almadense
Na luta pela independência nacional, durante a revolução de 1383-85, Almada esteve cercada pelo exército castelhano, entre Maio e Agosto de 1384. Resistiu enquanto foi possível - com muito sofrimento, privações e actos de heroísmo.
O investigador Alexandre Flores escreve, a partir da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes):
"Na vila de Almada prosseguiam com alguma regularidade as escaramuças. O rei de Castela ordenou algumas das suas forças que fizessem uma cava longe do arrabalde em direcção a uma torre, junto à porta do castelo. No entanto, foram sair com a boca da cava à alcárcova, tendo sido imediatamente repelidos pelos almadenses.
Como esta operação não surtira qualquer efeito militar, o rei de Castela resolveu dirigir pessoalmen
te o combate, tendo para o efeito, mandado construir sobre o campanário da Igreja de Sant'Iago um cadafais forte de madeira. Aquando de uma luta entre os besteiros de ambas partes, os almadenses, sitiados no castelo, pensando que o rei castelhano se encontrava no referido cadafais, fizeram u tiro com um trom, resultando dois mortos e três feridos nos castelhanos, pouco tempo depois de o rei se ter retirado para comer.
Os castelhanos voltaram à carga, lançando duas fortes bombardas, mas o forte de Almada não sofreu qualquer estrago.
Os moradores de Almada começaram a ter dificuldades, sobretudo com a falta de água que ia rareando. A água existente na única cisterna do Castelo, acabou por se esgotar.
Como a água tinha minguado e os almadenses sitiados procurassem por
todos os meios não se renderem, efectuaram, então, duas tentativas para obter água, descendo a barroca atrvés de um caminho que fizeram até junto ao rio Tejo. Na primeira tentativa, conseguiram iludir a vigilância inimiga, mas à segunda vez, cerca de cem castelhanos que se encontravam escondidos entre os penedos, atacaram de surpresa os 17 almadenses que transportavam diversas tinas. Desta escaramuça, os portugueses sofreram três mortes e os restantes feridos de setas e de dardos, ainda conseguiram levar para o castelo dois odres meos dagua".
Como a água tinha minguado e os almadenses sitiados procurassem por
todos os meios não se renderem, efectuaram, então, duas tentativas para obter água, descendo a barroca atrvés de um caminho que fizeram até junto ao rio Tejo. Na primeira tentativa, conseguiram iludir a vigilância inimiga, mas à segunda vez, cerca de cem castelhanos que se encontravam escondidos entre os penedos, atacaram de surpresa os 17 almadenses que transportavam diversas tinas. Desta escaramuça, os portugueses sofreram três mortes e os restantes feridos de setas e de dardos, ainda conseguiram levar para o castelo dois odres meos dagua".Este episódio é, de resto, contado por Camões - com evidente exagero nos números - no Canto VIII de Os Lusíadas:
Olha que dezessete Lusitanos,
Neste outeiro subidos, se defendem,
Fortes, de quatrocentos castelhanos,
Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
Porém logo sentiram, com seus danos,
Que não só se defendem, mas ofendem.
Digno feito de ser, no mundo eterno,
Grande no tempo antigo e no moderno!
"Em Lisboa, o Mestre de Aviz, conhecedor da situação aflitiva que se vivia no Castelo de Almada, decidiu enviar pela noite em socorro dos almadenses sitiados, uma barca com um trom, pólvora, bestas e outras armas. Por engano, a barca acabou por aportar junto aos batéis de Castela, tendo resultado a prisão dos tripulantes e a confiscação daquele material de guerra."
Acontece, então, um dos episódios mais curiosos e bizarros de todo o cerco: o regedor da vila, Affonso Gallo, é levado, como prisioneiro, em frente às muralhas do castelo. Diziam os castelhanos que, se Almada não se rendessem, o seu regedor seria morto ali mesmo. Estava Affonso Gallo acorrentado, lado a lado com um cavaleiro do exército castelhano, note-se!
Sabem o que aconteceu? Os almadenses responderam que bem os podia elRei (de Castela) matar se quisesse, mas que a villa nom dariam por nada que fosse. Dito e feito: dispararam, de entre as ameias do castelo, um projéctil. E, espantosamente, atingiram o castelhano, sem ferir o regedor da vila!
Fezerom prestes huu trom pequeno e tiraromlhe dantes as ameas: e foi tal sua ventuira que deu com elle (o castelhano) morto em terra e ficou Affonso Gallo vivo em pee (Fernão Lopes)
Então? Dava um filme ou não?
(continua)
Almada, Verão de 1384 - III: epílogo
Após 3 meses de cerco castelhano, Almada rendeu-se às tropas sitiantes - mas só depois de receber ordem - ou melhor dito: autorização - do próprio Mestre de Avis. Foi o culminar de um dos episódios mais importantes - e talvez menos conhecidos - da revolução de 1383-85, decisiva para a independência nacional.
Continuando a citar o historiador Alexandre Flores (que, por seu turno, cita a melhor fonte sobre a época: o cronista Fernão Lopes)...
"No evoluir da situação, os almadenses em estado de perigo de vida, devido à falta de água, resolveram enviar uma mensagem ao Mestre de Avis. Entretanto, em Lisboa, um almadense que tinha regressado numa frota proveniente do Porto, ofereceu-se voluntariamente para atravessar o Tejo a nado e levar a missiva se o Mestre o quisesse mandar a Almada.
Nessa mesma noite, o corajoso almadense atravessou o rio, tomando depois um caminho da barroca em direcção ao Castelo. O almadense anónimo realizou seis travessias no rio Tejo a nado, na última das quais transmitiu a ordem de capitulação autorizada pelo Mestre de Avis.
Deste modo, no dia 1 de Agosto de 1384, o rei de Castela acompanhado da mulher D. Beatriz, foram em galés ao porto de Cacilhas e daqui para Almada. O rei recebeu as chaves a vila e nomeou regedor um cavaleiro chamado João Bravo"
D. João, rei de Castela, face às adversidades e à encarniçada resistência almadense, tinha prometido passar todos os habitantes da vila a fio de espada - mas não concretizou a ameaça. Depois de tomar posse da vila, e do castelo, regressou à margem norte, para continuar o cerco a Lisboa.
Almada manteve-se ainda algum tempo sob o jugo das tropas castelhanas. Foi recuperada meses mais tarde por Nuno Álvares Pereira - que, a partir de 1385, com a independência nacional consolidada, recebe em doação, pelos serviços prestados, a vila e termo de Almada - e grande parte do território português a sul do Tejo.
Fontes:
Fernão Lopes, Crónica de el-rei D. João I de Boa Memória e dos reis de Portugal o décimo
Fernão Lopes, Crónica de el-rei D. João I de Boa Memória e dos reis de Portugal o décimo
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Alexandre M. Flores, Almada e a Revolução de 1383-1385 na Crónica de D. João I, de Fernão Lopes
Biblioteca Municipal - Câmara Municipal de Almada
1ª edição, 1984
segunda-feira, abril 27, 2009
África do Sul, 27 de Abril de 1994: as eleições que ratificaram o fim do "apartheid"
Abril de 1994: eleições presidenciais na África do Sul. O início da era pós-apartheid, com a vitória (esmagadora e indubitável) do candidato do ANC, o histórico Nelson Mandela.
Na Rádio Voz de Almada acompanhávamos (como nos competia, enquanto jornalistas) esses dias de mudança. Este é o registo original (editado posteriormente em vídeo - ou melhor: em diaporama) de um noticiário intercalar, no dia 27 de Abril, onde se dava conta do andamento do escrutínio e se recolhiam dois depoimentos sobre a realidade sul-africana desse tempo. Para recordar hoje, quando passam precisamente 15 anos sobre essa data histórica.
segunda-feira, agosto 25, 2008
Incêndio do Chiado, Lisboa, Agosto de 1988

O incêndio do Chiado de 1988 deu-se na madrugada de 25 de Agosto, pelas 4.30h, quando segundo testemunhos da época o fogo deflagrou numa montra dos Armazéns Grandela. Em meia hora este edifício foi destruído pelas chamas. Os bombeiros foram avisados às 5.15h chegando ao local em poucos minutos, quando o fogo se tinha já alastrado para o outro lado da rua do Carmo, através dos estores do penúltimo andar dos Armazéns.
Em pouco tempo as labaredas atingiram uma grande altura e as explosões das botijas de gás dificultaram a acção dos bombeiros. Devido à dimensão do sinistro afluíram ao local todas as corporações das diversas unidades de bombeiros de Lisboa e arredores assim como os autotanques do Aeroporto de Lisboa.
A dificuldade de circulação na rua do Carmo, devido ao arranjo estético efectuado no local pouco tempo antes, dificultou o acesso e a rapidez no combate às chamas, permitindo o avanço do incêndio para os Antigos Armazéns do Chiado. Também as temperaturas altas, os materiais existentes nas lojas, os gases inflamáveis e as explosões sucessivas, impediram o avanço dos bombeiros que tiveram de recuar várias vezes, devido à dimensão do fogo, tendo de se posicionar nas ruas do Ouro e da Assunção, nas traseiras da Escola Veiga Beirão e no elevador de Santa Justa.Com o avanço do fogo, o quarteirão da rua do Carmo, entre os Armazéns Grandela e a rua Garrett, ficou destruído, desaparecendo os estabelecimentos comerciais, alguns centenários, e as antigas construções pombalinas, deixando desalojadas dezenas de pessoas. O objectivo dos bombeiros passava por impedir o alastramento do fogo para a rua Nova do Almada, o que foi impossível, pois os armazéns do Chiado arderam por completo, assim como a sede da Valentim de Carvalho com o seu Arquivo Histórico, uma dependência da Electricidade de Portugal e os edifícios Eduardo e Jerónimo Martins na esquina da rua Garrett com a rua Nova do Almada.
Os reforços que chegaram totalizaram 1680 bombeiros que combateram o fogo em 18 edifícios numa área de 10.000 m2 ajudados por uma logística de apoio que envolveu a Cruz Vermelha Portuguesa, os Soldados da Paz, a PSP, a Polícia Judiciária e os militares, que socorreram, os bombeiros e os residentes feridos. Foi solicitado à população o envio de leite e de mantimentos para serem distribuídos aos bombeiros e aos desalojados, entretanto encaminhados para a Misericórdia de Lisboa e Juntas de Freguesia da área. Verificaram-se duas mortes.O incêndio do Chiado ficou extinto pelas 12.30h de 25 de Agosto, mas as operações de rescaldo duraram até 5 de Setembro e a zona ficou vedada até Outubro desse ano. Mobilizou o governo e a presidência da República que estiveram presentes nessa manhã e sobretudo a Câmara Municipal de Lisboa, que no próprio dia decidiu o nome do projecto para a reconstrução da zona do Chiado: "Projecto Global", apelando à ajuda e à disponibilidade de empreiteiros e de arquitectos. Posteriormente foi criado o "Gabinete de Coordenação e Assessoria Técnica da Área Sinistrada do Chiado", que ficou responsável pela reconstrução da zona, sob a orientação e os projectos do arquitecto Siza Vieira.
Com o incêndio do Chiado uma parte da cidade nobre, elegante e comercial do século XIX, referenciada tantas vezes nas obras dos escritores Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão ou Bulhão Pato, desaparecia e com ela desapareciam: na rua do Carmo, os armazéns Grandela de 1894 e do Chiado de 1905, a charcutaria de luxo Martins e Costa de 1914, a Perfumaria da Moda de 1909; na rua Garrett, as casas José Alexandre de 1833, Eduardo Martins de 1889 e Jerónimo Martins, esta última em actividade desde 1792; e na rua Nova do Almada, a Valentim de Carvalho de 1920, a pastelaria Ferrari, fundada em 1827, e principalmente a Casa Batalha de 1635, o estabelecimento comercial mais antigo da cidade e do país.
Informação do site da Câmara Municipal de Lisboa:
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quinta-feira, outubro 18, 2007
O Intendente Manique e o contágio revolucionário!
(O que se segue são excertos de um texto de 1887, aqui reproduzido com ortografia actualizada. Eu sei que é óbvio. Eu sei que está desactualizado. Mas, com esta explicação prévia, ninguém poderá, de boa-fé, dizer que ando para aqui a insinuar coisas. Porque não ando. Publico só pela curiosidade histórica. Claro que a História nos pode dar lições sobre muitas cousas... Mas isso é outra conversa.)

«À medida que vão subindo na gama revolucionária os arrojos da Convenção, mais se vão exacerbando os ódios implacáveis do intendente e a impaciência repressiva contra os seus apologistas e prosélitos.
Ele mesmo se gloria de ter permanecido continuamente na estacada, como se fora um antigo e denodado paladino, prestes a receber na ponta da sua lança e a prostrar vencidos em terreiro os que ousem turbar a beatífica paz do absolutismo.
As que ele apelida ideias do século, e que são no seu conceito nefandas heresias sociais, sempre acharam nele, segundo a sua própria confissão, o mais duro e implacável perseguidor.
A sua glória política cifra-se principalmente em haver combatido sem quartel as secretas associações, que então eram para as crenças condenadas o mais profícuo meio de pautada, mas segura confissão.
Como se estivera na China ou no Japão nas épocas de mais cerrada intolerância contra gentes peregrinas, o seu empenho capital é circundar o território português com uma espessa tranqueira policial para que nem os homens, nem a luz emanada de terras estrangeiras, possam vir a inquinar ou esclarecer a beata escuridão de Portugal.
Os franceses vulgares, os mercadores, os obreiros, os que no reino acobertam com os seus misteres honestos e prestadios na aparência as subversivas intenções, inquietam o intendente e o obrigam à frequente severidade. São, porém, os homens de culta e elevada inteligência os que mais o trazem apreensivo e temeroso, como quem de parceria com irrequietos portugueses podem pôr o estado a perigo iminente de ruína.
(...)
Bem podia o vigilante zelador da ordem pública afrontar-se com os jacobinos vulgares e iletrados. Alguns espias, quatro membrudos aguazis, a cadeia, o segredo, a deportação para climas bem insalubres, dar-lhe-iam armas eficazes para coibir as populares exalações. Mas a surda agitação promovida pelos homens de mais culta e privilegiada inteligência turbava-lhe com amargos pesadelos o sono policial.»
Latino Coelho
Este texto, que encontrei numa colecção de um semanário do Século XIX - o Jornal do Domingo (publicação que me foi oferecida há cerca de 20 anos e que reencontrei agora...; mas isso é uma história que hei-de contar mais tarde..) - tem a assinatura de Latino Coelho (suponho que se trata do famoso militar, político, jornalista e escritor...) e refere-se, obviamente (aqui sem nenhuma dúvida) ao intendente Pina Manique, figura que, mesmo nos nossos dias, continua a ser polémica.
Pina Manique, o hoje célebre Intendente, ainda não era uma figura histórica. Aliás, estava bem vivo: tinha, por esta altura, 54 anos . Com essa idade, já tinha obra feita. E que obra! Sabem vocês que (só para dar um exemplo) foi ele o fundador da Casa Pia de Lisboa?
Para mais informação sobre essa figura histórica, aconselho a seguinte biografia:
www.arqnet.pt/dicionario/pinamanique.html
Ah, outra coisa: o director deste “Jornal do Domingo” chamava-se Pinheiro Chagas. Também não tenho a certeza se era "o" Pinheiro Chagas referido aqui:
pt.wikipedia.org/wiki/Pinheiro_Chagas
Ele mesmo se gloria de ter permanecido continuamente na estacada, como se fora um antigo e denodado paladino, prestes a receber na ponta da sua lança e a prostrar vencidos em terreiro os que ousem turbar a beatífica paz do absolutismo.
As que ele apelida ideias do século, e que são no seu conceito nefandas heresias sociais, sempre acharam nele, segundo a sua própria confissão, o mais duro e implacável perseguidor.
A sua glória política cifra-se principalmente em haver combatido sem quartel as secretas associações, que então eram para as crenças condenadas o mais profícuo meio de pautada, mas segura confissão.
Como se estivera na China ou no Japão nas épocas de mais cerrada intolerância contra gentes peregrinas, o seu empenho capital é circundar o território português com uma espessa tranqueira policial para que nem os homens, nem a luz emanada de terras estrangeiras, possam vir a inquinar ou esclarecer a beata escuridão de Portugal.
Os franceses vulgares, os mercadores, os obreiros, os que no reino acobertam com os seus misteres honestos e prestadios na aparência as subversivas intenções, inquietam o intendente e o obrigam à frequente severidade. São, porém, os homens de culta e elevada inteligência os que mais o trazem apreensivo e temeroso, como quem de parceria com irrequietos portugueses podem pôr o estado a perigo iminente de ruína.
(...)
Bem podia o vigilante zelador da ordem pública afrontar-se com os jacobinos vulgares e iletrados. Alguns espias, quatro membrudos aguazis, a cadeia, o segredo, a deportação para climas bem insalubres, dar-lhe-iam armas eficazes para coibir as populares exalações. Mas a surda agitação promovida pelos homens de mais culta e privilegiada inteligência turbava-lhe com amargos pesadelos o sono policial.»
Latino Coelho
Este texto, que encontrei numa colecção de um semanário do Século XIX - o Jornal do Domingo (publicação que me foi oferecida há cerca de 20 anos e que reencontrei agora...; mas isso é uma história que hei-de contar mais tarde..) - tem a assinatura de Latino Coelho (suponho que se trata do famoso militar, político, jornalista e escritor...) e refere-se, obviamente (aqui sem nenhuma dúvida) ao intendente Pina Manique, figura que, mesmo nos nossos dias, continua a ser polémica.
Pina Manique, o hoje célebre Intendente, ainda não era uma figura histórica. Aliás, estava bem vivo: tinha, por esta altura, 54 anos . Com essa idade, já tinha obra feita. E que obra! Sabem vocês que (só para dar um exemplo) foi ele o fundador da Casa Pia de Lisboa?
Para mais informação sobre essa figura histórica, aconselho a seguinte biografia:
www.arqnet.pt/dicionario/pinamanique.html
Ah, outra coisa: o director deste “Jornal do Domingo” chamava-se Pinheiro Chagas. Também não tenho a certeza se era "o" Pinheiro Chagas referido aqui:
pt.wikipedia.org/wiki/Pinheiro_Chagas
Alguém me esclarece?
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