quinta-feira, outubro 18, 2007

O Intendente Manique e o contágio revolucionário!

(O que se segue são excertos de um texto de 1887, aqui reproduzido com ortografia actualizada. Eu sei que é óbvio. Eu sei que está desactualizado. Mas, com esta explicação prévia, ninguém poderá, de boa-fé, dizer que ando para aqui a insinuar coisas. Porque não ando. Publico só pela curiosidade histórica. Claro que a História nos pode dar lições sobre muitas cousas... Mas isso é outra conversa.)



«À medida que vão subindo na gama revolucionária os arrojos da Convenção, mais se vão exacerbando os ódios implacáveis do intendente e a impaciência repressiva contra os seus apologistas e prosélitos.
Ele mesmo se gloria de ter permanecido continuamente na estacada, como se fora um antigo e denodado paladino, prestes a receber na ponta da sua lança e a prostrar vencidos em terreiro os que ousem turbar a beatífica paz do absolutismo.
As que ele apelida ideias do século, e que são no seu conceito nefandas heresias sociais, sempre acharam nele, segundo a sua própria confissão, o mais duro e implacável perseguidor.
A sua glória política cifra-se principalmente em haver combatido sem quartel as secretas associações, que então eram para as crenças condenadas o mais profícuo meio de pautada, mas segura confissão.
Como se estivera na China ou no Japão nas épocas de mais cerrada intolerância contra gentes peregrinas, o seu empenho capital é circundar o território português com uma espessa tranqueira policial para que nem os homens, nem a luz emanada de terras estrangeiras, possam vir a inquinar ou esclarecer a beata escuridão de Portugal.
Os franceses vulgares, os mercadores, os obreiros, os que no reino acobertam com os seus misteres honestos e prestadios na aparência as subversivas intenções, inquietam o intendente e o obrigam à frequente severidade. São, porém, os homens de culta e elevada inteligência os que mais o trazem apreensivo e temeroso, como quem de parceria com irrequietos portugueses podem pôr o estado a perigo iminente de ruína.
(...)
Bem podia o vigilante zelador da ordem pública afrontar-se com os jacobinos vulgares e iletrados. Alguns espias, quatro membrudos aguazis, a cadeia, o segredo, a deportação para climas bem insalubres, dar-lhe-iam armas eficazes para coibir as populares exalações. Mas a surda agitação promovida pelos homens de mais culta e privilegiada inteligência turbava-lhe com amargos pesadelos o sono policial.»

Latino Coelho

Este texto, que encontrei numa colecção de um semanário do Século XIX - o Jornal do Domingo (publicação que me foi oferecida há cerca de 20 anos e que reencontrei agora...; mas isso é uma história que hei-de contar mais tarde..) - tem a assinatura de Latino Coelho (suponho que se trata do famoso militar, político, jornalista e escritor...) e refere-se, obviamente (aqui sem nenhuma dúvida) ao intendente Pina Manique, figura que, mesmo nos nossos dias, continua a ser polémica.
Pina Manique, o hoje célebre Intendente, ainda não era uma figura histórica. Aliás, estava bem vivo: tinha, por esta altura, 54 anos . Com essa idade, já tinha obra feita. E que obra! Sabem vocês que (só para dar um exemplo) foi ele o fundador da Casa Pia de Lisboa?
Para mais informação sobre essa figura histórica, aconselho a seguinte biografia:

www.arqnet.pt/dicionario/pinamanique.html

Ah, outra coisa: o director deste “Jornal do Domingo” chamava-se Pinheiro Chagas. Também não tenho a certeza se era "o" Pinheiro Chagas referido aqui:
pt.wikipedia.org/wiki/Pinheiro_Chagas


Alguém me esclarece?

4 comentários:

Marreta disse...

Foi fundador da Casa Pia e tem um estádio com o nome dele, também pertencente à Casa Pia: o Estádio de Pina-Manique.
Infelizmente não te posso ajudar, mas parece que esse "Pila" Manique deixou uma aurea que ainda hoje prevalece...
Saudações.

Luis Eme disse...

Caro Vitorino,

esse intendente que falas não podia ser o Pina Manique, pois este viveu grande parte da sua vida no século XVIII, tendo esse cargo no reinado de D. Maria I...

O Latino Coelho foi um dos fundadores do Partido Repúblicano e era um grande amigo do cacilhense Elias Garcia (tem uma rua na Almada velha).

Debaixo do Bulcão disse...

Epá, ó Luis: tens toda a razão!
Cometi um erro de palmatória (indesculpável, diria mesmo)!!!

É que não me dei ao trabalho de ler com atenção o "link" que eu próprio coloquei para uma página com a briografia do Pina Manique. Dessa forma, dei um "saltinho" do século 18 para o 19 (coisa pouca, não?...). Assim se explica aquela afirmação extraordinária: Pina Manique estava "bem vivo" quando Latino Coelho escreveu este artigo.

Pronto, confesso: meti a pata na poça, o pé na argola, e essas coisas todas!

Mas insisto: alguém me pode dar mais informação sobre este "Jornal do Domingo"?

(Agradeço, até para me ajudarem a evitar mais erros deste quilate...)

Por outro lado, como se costuma dizer, quem nunca errou atire a primeira pedra e...

ai, porra! quem foi o engraçadinho?

António Vitorino

Luis Eme disse...

Sabes que o século XIX foi extremamente fecundo em jornais, pelo que te aconselho a procurares noticias do "Jornal de Domingo" na "Hemeroteca", ou na "Biblioteca Nacional".

O que aconteceu é comum. Muitas vezes somos induzidos em erro, porque o nosso subconsciente associa quase de imediato a palavra intendente a Pina Manique.

O que devia acontecer, tanto no século XVIII como XIX é que estes intendentes tinham muito poder, e um poder quase ditactorial, daí serem todos muito "amados"...