quinta-feira, maio 31, 2007

«GREVE GERAL: Grande vitória dos trabalhadores!!! Estrondosa derrota do patronato e do Governo!»



Já vos chamei a atenção? Ainda bem. Era isso mesmo que eu queria. Agora que já cá estão:

1 - Não estou nada interessado em debater se esta greve foi mais geral ou menos geral. É claro que foi uma grande greve e é claro que podia ter sido muito melhor.
Se não foi melhor, é pena. Mas não vale a pena chorar sobre o leite derramado.
Havia razões (muitas) para fazer esta greve. Quem não a fez talvez ainda se venha a arrepender (mas aí será com consequências para todos nós).

2 - Não esperem de mim grandes parangonas como as que dão título a este artigo. Era só para "gozar" com certa "comunicação social" autista, de uma certa esquerda que parece viver noutro planeta.
No tempo do saudoso o diário ("a verdade a que temos direito", lembram-se?), um dos passatempos preferidos de quem não era comunista (e, portanto, seria fascista...) era tentar adivinhar qual seria o título desse jornal (matutino) na edição do dia seguinte a cada jornada de luta da CGTP. (Bem, o mesmo se passava com as edições a seguir a jornadas de luta do PCP.)
Aparte isso, o diário era um jornal a sério, feito por jornalistas a sério (verdade seja dita, era informação alternativa e dava-me gosto lê-lo, principalmente a sua edição de fim de semana).
Nada a ver com certa "comunicação social" que anda agora pela internet, portanto...
(A propósito: o diário tem agora uma versão electrónica. Muito diferente do outro, tanto quanto me consigo lembrar...)

3 - Uma televisão mostrava uma senhora numa fila para os transportes públicos. Dizia a senhora (cito literalmente):

«Havia de ser geral. Se é uma greve geral, havia de ser tudo. Paralizar completamente tudo. Agora assim não. Isto assim vai ser uma brincadeira na mesma. Eles continuam com a deles. E quem se lixa é o Zé Povinho».

A referida senhora estava, obviamente, a fazer o frete ao governo e ao grande capital...
Agora a sério: não foi a única pessoa que eu ouvi dizer que "não entendia os motivos desta greve".
E no entanto eles foram anunciados antecipadamente pela CGTP:

«Agravamento do desemprego dá razão à Greve Geral

A evolução do mercado de emprego no 1º trimestre de 2007 fica novamente marcada pelo aumento do desemprego. É o segundo trimestre consecutivo em que se verifica um crescimento do desemprego em termos homólogos e o segundo em que a taxa desemprego é superior à verificada em termos médios na União Europeia a 27. A taxa de desemprego subiu 0,7 pontos percentuais no último ano e 0,2 pontos percentuais em termos trimestrais, sendo agora de 8,4%. A situação é particularmente grave entre os jovens, com uma taxa de desemprego de 18,1%. As mulheres são também particularmente atingidas, com uma taxa de 9,9%. Há mais 40 mil desempregados do que no 1º trimestre de 2006, atingindo o desemprego oficial 469,9 mil pessoas, o que corresponde a um agravamento de 9,4%. O desemprego cresceu mais entre as mulheres (mais 10%), entre os jovens da faixa etária 25-34 anos (15,1%), entre os diplomados com ensino superior (mais 32,2%, atingindo já 55,9 milhares). A taxa de desemprego mais elevada verifica-se no Norte (9,5%), tendo havido aumentos em todas as regiões, excepto no Alentejo. O desemprego de longa duração continua elevado, com um peso de 49,2% no total dos desempregados. Apenas os serviços e a construção criaram emprego (mais 0,1% e 1,6%, respectivamente, em termos homólogos), o que se traduziu num aumento negligenciável do emprego global (0,2%). A taxa de emprego (15-64 anos) teve também uma diminuição face ao trimestre homólogo e ao trimestre anterior, situando-se agora nos 67,4%. A precariedade aumentou 12,6% neste período, atingindo mais de 835 mil trabalhadores e elevando a percentagem de contratos não permanentes para os 21,5%. Os trabalhadores com emprego estável (contrato sem termo) reduziram-se em 2,4%, ao mesmo que houve uma quebra no emprego a tempo inteiro e um aumento de 9,2% do emprego a tempo parcial. Estes dados contrastam com o aumento do crescimento económico divulgado esta semana pelo INE que, além de não ser suficiente para aumentar o emprego e estancar o desemprego, é inferior ao observado na UE27 (2,1% face a 3,2%). E contradizem os dados do IEFP referentes aos desempregados inscritos nos centros de emprego em Abril (bem como dos meses anteriores) que apontam para uma diminuição do desemprego registado em 10,4%. Os dados agora divulgados reforçam as razões que levaram a CGTP-IN a marcar a Greve Geral de 30 de Maio e justificam a exigência de uma mudança de rumo nas políticas que têm vindo a ser seguidas.»

(Comunicado da CGTP
em 17 de Maio de 2007.
Dados da CGTP sobre a Greve Geral aqui)

Eram estas as razões (e mais haveria...) para o protesto.
Mas, já se sabe (vem nos livros...), é mais fácil unir as pessoas à volta de reivindicações mais imediatas, mais "parcelares". Mobilizar para uma greve contra toda a política económica e social de um governo é mais difícil do que muitos julgarão.

4 - E pronto, como o governo listou os dados pessoais dos grevistas, como alguns piquetes de greve foram ameaçadas pelas polícias e como as empresas avançam com processos disciplinares... "cuidado, que vem aí o Estado policial" (ou o fascismo?).
Vá lá, pessoal, acalmem-se lá um bocadinho!...
Pensam que este tipo de coisas não aconteceu já nos anos 80, com a AD, e nos anos 90, com os governos do PSD (liderados por Cavaco Silva)?
Pensam que é empolando excessivamente e simultaneamente desvalorizando os resultados da luta que se vai a algum lado? (Empolar para chamar a atenção para "a nossa força" e desvalorizar para dizer que "é necessário recorrer a formas de luta mais radicais", como já andei a ler por aí.)
Pois... há 10 anos a internet era ainda para as elites... e há 20 anos ainda nem existia (mas as pessoas já falavam umas com as outras, já debatiam ideias e também já se fechavam nos seus "groups" - a que, na altura, se chamava "capelinhas"- para não serem incomodadas pela dura realidade da vida).

5 - Nos anos 80, um dos grandes problemas que enfrentavam os comunistas era explicar aos assalariados que, apesar de auferirem salários mais altos que os operários de épocas anteriores, no fundo eram mais explorados, porque produziam lucros como até então não se tinha visto, e recebiam uma parcela mais pequena do que os seus antecessores.
(Nesse tempo ainda havia, apesar de tudo, alguma segurança no emprego.)
Estava-se então, também, a começar a entender que "proletariado" já deixara de ser sinónimo de "classe operária", no sentido tradicional do termo...
Depois, veio a queda do "bloco socialista", veio o "cavaquismo", o dinheiro dos fundos comunitários... O país entrou numa euforia consumista e neo-liberal. Era então (anos 90) uma luta ainda mais difícil.
Agora, com tanta precariedade, com uma taxa de desemprego como não se via há 20 anos, com a banca e as grandes multinacionais a anunciarem lucros fabulosos... Mesmo assim, muita gente diz que não entende as razões para esta greve.
E quem devia explicar, pelos vistos, não conseguiu.
Que se passa?
É só "medo" de perder o emprego, ou de ser perseguido?
Se não se fizer as pessoas perder esse "medo", como é que se pode pensar em realizar lutas mais
grandiosas, alguém me explica? Como é que trabalhadores com "medo" se podem unir numa luta contra o capital? Ou essa luta é feita só por um grupo de "iluminados" (tipo os jovenzitos que fizeram aquela "manifestação anti-fascista" no 25 de Abril)?
Ou é culpa da comunicação social (como sempre, aliás... ai ai)?
E que tal tentarem entender a sério o que se passa, em vez de repetir chavões, que até nos podem fazer sentir mais seguros, mas que não levam a lado nenhum? É que, desculpem lá que vos diga, nem o capitalismo está na defensiva, nem nós estamos na ofensiva.

6 - No início dos anos 90 houve um grande debate na esquerda, para tentar entender as transformações em curso, e tentar entender como devíamos agir.
Hoje, mais do que nunca, as "transformações" aí estão. E o debate?
Não seria boa altura para começar a pensar no(s) assunto(s)?

PS 1 - Sobre o direito à greve, e as limitações que muitos lhe tentam impor, é sempre interessante ver o que diz a esse respeito a Constituição da República Portuguesa (e, já agora, consultá-la no Portal do Governo)

PS 2 - Conheci um militante socialista (com responsabilidades partidárias, diga-se) que se queixava de que o PS nunca tinha obtido maioria absoluta e que era por iso mesmo que não conseguia implementar as suas políticas de esquerda.
E agora, que já têm a maioria absoluta?
Conheci um militante do PSD que, no tempo do governo Guterres dizia mal de todos os ministros mas, afirmava ele "salva-se José Sócrates: é o único que toma decisões".
Nem o militante do PS é um direitista empedernido, nem o do PSD é um porco fascista. O mundo não é a "preto e branco".

PS 3 - Escreve Mário Contumélias, no Jornal de Notícias:

«Diz-se que Sarkozy saiu de Portugal, quando cá esteve há meses, contente por os socialistas franceses não serem como os nossos, porque, se o fossem, teria dificuldades acrescidas para fazer passar as suas mensagens e ser eleito, como foi, presidente da República. Verdadeira ou não, a história vale como indicador da carência de socialismo do PS, que se vai afirmando no terreno. Evidência clara disto mesmo é o desinvestimento crescente no Estado social, especialmente visível em áreas como a Educação e a Saúde, com o encerramento de escolas e serviços e com os frequentes "ajustamentos" avulso do ministro Correia de Campos, que chegam ao ponto de poder agora conduzir a que crianças, com menos de 12 anos, passem a ter de pagar taxas moderadoras. Ou uma política económica que parece entender que os problemas estruturais se resolvem mandando trabalhadores para a rua, entendimento esse que ajuda a explicar o facto de termos, neste momento, a taxa de desemprego mais elevada (8,2%) dos últimos 20 anos. Ao menos uma vez, Marques Mendes tem razão quando diz que o Governo "consegue ultrapassar o PSD pela Direita". O que talvez agrade ao PS. É que à medida que o socialismo vai perdendo identidade, rouba-a também ao PSD, e alarga o seu espaço de influência. Talvez seja isto a "real politic".»

Com tanta opinião por aí, eu tinha logo que escolher esta, de um tipo que até é próximo do PS, porquê?
Vocês sabem: eu sou um vendido desavergonhado, um porco fascista, paladino da burguesia e do
grande capital, um sinistro lacaio do imperialismo e das multinacionais que andam a destruir o equilíbrio ecológico do planeta e a fomentar o crescente aumento das desigualdades sociais e do fosso entre ricos e pobres.

António Vitorino

Deixei isto para o fim
(porque, como se sabe, o veneno do escorpião está na cauda...):
vídeos sobre a Greve Geral,
colocados no Youtube pelo PCP:

http://www.youtube.com/watch?v=AGxNuQhJJQg
http://www.youtube.com/watch?v=LnXtoW9LsAA
http://www.youtube.com/watch?v=rnxaHQP2FW0
http://www.youtube.com/watch?v=qw7ZqovaxEw
http://www.youtube.com/watch?v=kIMdHcHV814
http://www.youtube.com/watch?v=d2vekp1d8h4
http://www.youtube.com/watch?v=nPwTiVJhZXo

8 comentários:

Rui Diniz disse...

A solução é simples:
pare-se tudo até sermos todos trabalhadores sem lucro ou todos cadáveres. Todos. O mundo inteiro.

Debaixo do Bulcão disse...

Ó Rui Diniz, se calhar até é.
Mas o problema mantém-se: como é que isso se faz?

Debaixo do Bulcão disse...

Correcção ao ponto 5 deste artigo:

Logo no início, refiro-me aos anos 80 como um período em que se tentava explicar a relação entre o bem-estar e a produção de mais-valia: «um dos grandes problemas que enfrentavam os comunistas era explicar aos assalariados que, apesar de auferirem salários mais altos que os operários de épocas anteriores, no fundo eram mais explorados.»

Refiro-me não a toda essa década de 80 (que, aliás, começou com uma gravíssima crise económica e social aqui no distrito de Setúbal), mas à segunda metade da década.
(Lembro-me, em particular, de palestras de dirigentes do PCP, em 1987, para ser mais preciso.)

Vitorino

FernandoRebelo disse...

Vejo que continuas em grande forma, Vitorino! Vai ao doismaisdoisigualacinco.blogspot.com.
Um abraço do
Fernando Rebelo

Rui Diniz disse...

Através da procura contínua da verdade - nunca se estagnar numa resposta quando esta é provadamente obsoleta. Nunca parar de questionar. Nunca parar de tentar mesmo caindo mil vezes no mesmo buraco.

As mentes que o fizerem serão, por efeito deste método, incapazes de continuar escravas.

PS: A propósito, acabei de colar um poster com um poema teu, que muito me diz (e de mim diz), aqui na parede mesmo ao lado. Começo a guardar memorabilia :-D

Debaixo do Bulcão disse...

Olá FernandoRebelo!
Folgo muito em ver que também andas cá pela "blogosfera"!
Hei-de ir visitar esse site, hei-de pois.
Já quanto ao estar em forma... Enfim, ainda mexo!
(Mas por acaso alguém te tinha dito o contrário?...)

Vitorino

Debaixo do Bulcão disse...

Rui Diniz:
Nunca parar de tentar, está bem. Mas, de preferência, sem cair duas vezes no mesmo buraco!

Agora essa do poster com um poema meu, deixou-me banzado.
Tens a certeza que é um poster?
Tens a certeza que tem lá um poema?
E é meu? (Não será, sei lá, do Vitorino Nemésio, por exemplo?)

É que, a falar a sério, essa de haver posters com poesia minha é, para mim, uma grande novidade!

Não me queres esclarecer?

Vitorino

Rui Diniz disse...

My friend:

Poema "Profeta"
Edição Index Poesis - caderno 14.
Poster feito para o encontro de ontem ;-)

Gamei-o.