segunda-feira, setembro 24, 2007

A «Perversão bloguista»

«O mundo novo, que a internet nos trouxe, tornando-nos mais próximos e mais globais, tem ainda um conjunto de problemas para resolver, sendo que a falta de regras e a ausência de validação de conteúdos são, de longe, as mais preocupantes.
Um dos dramas da actualidade tem a ver com a forma como alguns blogues estão a ser geridos. Pontifica o anonimato e a calúnia gratuita, num jogo de cobardias, patetice e demência que não abona nada em favor de uma das maiores invenções do Homem.
Claro que a questão não é simples de resolver, nem tão pouco deverá servir para outras cabalas passadistas e retrógradas que, desde sempre, perfilaram contra eta coisa da net.
Mas é preciso que em cada país se saiba valorizar os impactos, a defesa do Estado de direito e a dignidade do cidadão e das instituições.
No que aos blogues diz respeito, é possível e urgente zelar por estas condições de vida e de carácter, em nome da democracia, da verdadeira liberdade de expressão e cidadania.»


O que acabaram de ler é um editorial do jornal Sem Mais (semanário do distrito de Setúbal, edição 480, de 8 de Setembro de 2007), redigido por Raul Tavares, director daquela publicação.
Quando esse prestigiado jornalista se refere a «anonimato» e «calúnia gratuita», a «jogo de cobardias, patetice e demência», não está (não estaria...) a pensar, certamente, em nenhum blogue almadense, mas sim a um outro... setubalense, por sinal.
Fiquem, então, os meus leitores descansados: também eu não vou dissertar aqui (hoje...) sobre nenhum blogue almadense.

O editorial de Raul Tavares apontava, então, para uma peça jornalística, escrita por Cristina Isabel Pereira, e publicada na página 4 de referida edição do supracitado semanário.

Aqui vai um excerto:

«O caso de um blogue anónimo, com expressões ofensivas numa linguagem menos correcta, visando o executivo da Câmara de Setúbal está a levantar a polémica na região.
(...) O blogue “Bocageacordou” começou em Junho deste ano, mas a polémica só estoirou na passada semana quando um funcionário da autarquia viu ser-lhe aberto um inquérito disciplinar. O trabalhador é acusado de distribuir, para os endereços de e-mail da autarquia, informação constante neste blogue. O acesso ao blogue já tinha sido vedado a partir dos computadores da câmara, há cerca de um mês, mas as caixas de correio electrónico dos funcionários municipais receberam textos incluídos nessa página.»

Mais à frente, a jornalista considera que o inquérito disciplinar é «exemplo de que este meio não é completamente incontrolável». Afirmação sustentada, também, pelo secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna que, em declarações àquele jornal, afirma que a blogosfera «não é imune» às regras de um Estado de direito.
Para José Magalhães «se através de um blogue for alimentada uma campanha de insultos e calúnias contra alguém, os lesados podem fazer uso da lei geral para se defenderem».

O governante defende ainda que «é preciso analisar as várias categorias de blogues», as quais, na sua diversidade, «não podem ser regidas por um princípio único».

Sobre o mesmo assunto, a jornalista Cristina Isabel Pereira ouviu ainda o depoimento de José Luís Andrade, um web designer que, contrariando a opinião de José Magalhães, afirma ser impossível «controlar os milhões de blogues que existem», embora existam sempre «vestígios, porque pode sempre existir uma série de cópias que surgem quando é feita uma pesquisa».
Na mesma peça jornalística, outro depoimento, de David Santos, gestor de uma empresa de publicidade, marketing e multimédia: «os conteúdos são deixados ao critério de cada um, mas é importante que haja liberdade» até porque, embora o «equilíbrio» na blogosfera seja «difícil de conseguir», não faz sentido «retroceder na liberdade de expressão».

Em rodapé, a autora do artigo aponta três blogues, como outros tantos exemplos de formas de estar na internet (e na vida, acrescento eu, sem falsas modéstias, desculpem lá...).

abrupto.blogspot.com

«O blogue pessoal do político e comentador José Pacheco Pereira, é uma das presenças mais antigas na blogosfera. (...) Com uma actualização diária, o blogue está sempre ‘em cima da actualidade’ e é mais um suporte utilizado por Pacheco Pereira para os comentários e análises políticas e sociais que já realiza na imprensa e em programas de rádio e de televisão.»

vitorinices.blogspot.com

«António Vitorino, homem da Margem Sul do Tejo, ligado à Cultura, dá a cara através do blogue “Vitorinices”. Com informações sobre vários assuntos(...) o autor expressa as suas opiniões de forma crítica mas bem humorada, sem recurso a termos ofensivos»

bocageacordou.blogspot.com

«O anonimato que a internet possibilita foi utilizado pelo autor de “Bocageacordou” para falar sem quaisquer preconceitos sobre os membros do executivo da Câmara de Setúbal. Desde os textos às imagens utilizadas, o blogue demonstra um carácter ofensivo e utiliza algumas expressões menos próprias.»

Beeeemmm!.... Isto deixou-me babado!... Deixem-me cá limpar a baba!...
Pronto, já está!

Agora já posso fazer duas breves considerações sobre o que acima foi dito:

Consideração número 1: Embora a referência a este meu blogue seja, talvez, excessiva, devo agradecer à autora do artigo por ter entendido tão bem quais as minhas intenções. Ah, pois, e devo também realçar que não conheço, de todo, a jornalista em questão. Conheço, sim o director do Sem Mais. E ele conhece-me a mim. Mas não fiquem a pensar que temos alguma espécia de “conluio”. Até porque ele é do Partido Socialista e eu sou um assumidíssimo comunista! Aliás, já o era quando trabalhava para ele!

Consideração número 2: Tal como prometido, não falei aqui de nenhum blogue “anónimo” almadense... mas olhem que, se tivesse falado, não seria de todo descabido. Pois não? De qualquer forma, essas coisas “anónimas” já existiam antes de haver “blogosfera” (ou internet...), e vão continuar a existir. Como diz o povão (e lembrando o grande José Estebes): «os cães ladram, e a caravana passa, carago»!...

Não acreditam?

3 comentários:

pedras contra canhões disse...

preparemo-nos que, sob a capa da defesa da difamação, cedo quererão saber quem são os autores de todos os blogues. claro que se estão barimbando para a boa reputação dos ofendidos neste ou naquele blog, mas lá que é uma boa desculpa para uma bela base de dados sobre opiniões subversivas, ai lá isso é.

saudações!

Marreta disse...

O reaparecimento da esferográfica azul em versão electrónica?

Debaixo do Bulcão disse...

"Pedras" e "Marreta":

Não concordo com vocês.
Penso que é importante identificarmo-nos, para que as nossas opiniões tenham credibilidade.
Se eu quero insultar alguém, ou fazer correr boatos (etc.) a melhor maneira é ser "anónimo" ou assinar com pseudónimo.
E isso parece-me um bocado cobarde...
Ou melhor: até entendo que as pessoas possam querer manter-se anónimas. Mas, nesse caso, também não se devem armar em "campeões".
É aí que está a cobardia.
E isso tem sido usado, por exemplo, por elementos de um partido que, fingindo ser simples "cidadãos indignados" sem conotação partidária, aproveitam o anonimato, ou os "nicknames", para atacar o poder autárquico em Almada.
Se têm assim tanta razão... e se as coisas que dizem são assim tão factuais e indesmentíveis... então, porque se escondem?
Eu cá sempre ouvi dizer que "quem não deve não teme".
E isto é filosofia popular... Pré-socrática, aliás!
Percebem o que quero dizer?

Vitorino