quarta-feira, agosto 17, 2011
Motins em Inglaterra: dividir para reinar?
Stephen Lendman, escritor norte-americano, membro do Center for Research on Globalization, defende que os motins em Iglaterra não foram apenas um protesto espontâneo, mas sim uma acção provocada pelos poderes para tentar dividir os movimentos anti-sistema e, ao mesmo tempo, testar a força do Estado em futuras revoltas - que supõe inevitáveis - contra as políticas de austeridade.
"Penso que Cameron conseguiu exactamente o que queria. O assassinato de um jovem negro acontece com demasiada frequência, na América e noutros países ocidentais e normalmente não origina motins de rua, edifícios em chamas, violência extrema, tiroteios... Mas o assasinato de Mark Duggan provocou isso tudo.
Penso que isto foi um incidente provocado pelo Estado. Não foi apenas a polícia assassinar um jovem negro. Penso que isto foi o "incidente de Cameron". Cameron, tal como Obama, é um instrumento político do que podemos chamar a sequência de poder do dinheiro.
O que está a acontecer é que temos terrível depravação social em curso, numa depressão global. Há sofrimento humano, real. Desemprego, probreza a crescer, fome, pessoas sem abrigo... E tudo isso está a piorar cada vez mais. E (os governos) em vez de lidar com a situação, na Europa e na América aplicam a "receita" da austeridade. Isso é como deitar gasolina numa fogueira para aumentar as chamas. O grande medo, na América, no Reino Unido, e em toda a Europa, é que possa realmente acontecer uma erupção social.
Penso que este incidente teve como objectivo separar negros de brancos, incitar motins raciais, separar grupos que, se estiverem unidos, podem ser uma força poderosa para a justiça social. Além disso, distrair a atenção das pessoas da sua miséria económica, assustá-las. E testar sistemas de comando e de controlo para a luta maior que eles esperam que venha a acontecer mais adiante. Porquê? Porque os programas de austeridade que estão a ser implementados vão tornar as condições do dia a dia ainda piores, e as pessoas vão reagir.
A pergunta-chave é quem ganha e quem perde. O Estado vence, derrubando-nos, sugando o máximo de proveitos para a sequência de poder do dinheiro que dirige estes países. Tirando mais ao cidadão comum, às classes trabalhadoras, aos pobres... fazendo-os sofrer mais, encorajando a ira. Precisam de um plano para os abater.
Este foi um teste. Foi para testar o sistema, num nível baixo. Alguns dias de motins, para ver como precisarão de contra-atacar quando os grandes protestos acontecerem. E vão acontecer, e podem ser horríveis, e eles querem estar preparados. É o que estão a preparar em Inglaterra e no resto da Europa."
Etiquetas:
globalização,
mundo,
política
domingo, agosto 14, 2011
Olhar para o mundo sem medos e sem preconceitos
Numa entrevista publicada no Ionline, o General Loureiro dos Santos parte dos acontecimentos ocorridos em Inglaterra nos últimos dias para uma análise à situação mundial.
A entrevista é extensa, está publicada integralmente no site - ler aqui - e o que reproduzo são alguns excertos em que o militar analisa os assuntos com mais preocupação de os entender de um ponto de vista social e não apenas geo-político.
Nesses momentos, Loureiro dos Santos consegue ser mais "marxista" que a maior parte dos analistas de esquerda - porque não se limita a tentar entender (ou apenas explicar, como fazem muitos "intelectuais de esquerda") como é que a miséria social (e cultural, digo eu) é o caldo de cultura para estes fenómenos, nem os "justifica" apenas com a ideia preconcebida (e muito confortável, para muitos, mesmo quando mal fundamentada) que isto é o prenúncio da grande revolta dos pobrezinhos que hão-de derrubar o capitalismo e essas coisas.
Pelo contrário: faz uma análise dinâmica, pragmática, e nada idealista nem fatalista ou determinista (no sentido alienante que a expressão pode ter). E chega mesmo a ser didáctico.
Vejam, por exemplo, como usa uma imagem tão simples para explicar a crescente proletarização da sociedade. Ou como a "sociedade da informação" condiciona a maneira como olhamos para o mundo e nos relacionamos com a realidade, deslumbrando-nos com a "novidade" de fenómenos que pouco ou nada têm de novo, ou como a virtualização da economia leva a fenómenos absurdos (mas com influência real) de que o "poder" artificial das agências de "rating" é exemplo acabado.
(O que está a acontecer em Inglaterra) É apenas vandalismo gratuito?
As razões profundas estão ligadas à construção das sociedades, começam nos guetos das cinturas explosivas das grandes cidades e há uma série de razões que originam situações assim. Não é a primeira vez que isto acontece em Inglaterra. Vemos as imagens de 1980 e são as mesmas. A segunda fase é que acho que mostra impunidade. Aquilo prosseguiu daquela forma porque a resposta não foi suficiente. (...)
Fala nas condições que propiciam situações destas. Quais são elas?
Discriminação social e o sentimento de que não são tratados como os outros. E depois a diferença entre os que têm muito e os que têm muito pouco...
E esse fosso está a aumentar...
Exacto. E o problema novo que altera tudo é que as sociedades foram sempre constituídas por dois mundos diferentes, mas não havia o que há hoje, que é a informação permanente. Ela transformou as coisas. Tudo aquilo que sempre existiu passível de originar actos de revolta agora está perante os nossos olhos, portanto os pobres, os que vivem mal, os que se sentem injustiçados ou discriminados, os que não sabem bem onde pertencem, comparam-se com os outros. E esse conhecimento permanente gera indignação. (...)
Podemos extrapolar esta situação e dizer, como alguns, que é um prenúncio do que vai acontecer em todo o lado?
Acho que tem de haver respostas rápidas a isto, porque esta crise trouxe uma situação nova. É que no passado, quando se falava de desemprego e utilizando linguagem militar, quem ia para o desemprego eram os soldados, os operários. Agora não, agora vão os soldados, os sargentos, os capitães, os majores, vão todos para o desemprego e há gente da classe média, até da média alta, desempregada e desesperada. Isto pode conduzir a revoltas organizadas e, em desespero, podem fazer-se muitas coisas. E esta situação deve merecer muita atenção dos responsáveis políticos, principalmente em termos preventivos. É preciso encontrar políticas que evitem estas situações.
Que tipo de políticas?
Não sei. Até agora eram apoios sociais, para amenizar as dificuldades, mas por causa da crise o que está a acontecer é que os apoios sociais estão a desaparecer. E isto está tudo inserido numa grande transformação estratégica. (...)
Acha que o sonho europeu falhou?
Houve uma série de pessoas com esse sonho, que viam uma Europa tipo Estados Unidos. Mas desde o início foi claro que nem a Alemanha, nem a França nem o Reino Unido estavam interessados nisso, porque não queriam que houvesse uma câmara alta em que o Luxemburgo pudesse pesar tanto como a Alemanha. Como é que a Alemanha podia admitir isso? Na UE nunca houve solidariedade. Eu escrevo isso desde o ano 2000. Que não pensemos que outros vão vir em nosso socorro. Como esta subida do preço dos alimentos: alguém pensa que, se nós estivermos aflitos sem dinheiro para comer, a Alemanha ou a França nos vêm dar alimentos e ficam eles com fome? Que ninguém pense nisso! Em Portugal houve líderes que se convenceram de que agora éramos todos iguais, podíamos ser todos ricos e andámos a gastar o que não tínhamos! Isto explica a nossa actual situação e não fomos só nós que o fizemos, foi a maior parte dos países. Não há solidariedade internacional e a prova é o que está a acontecer na UE. (...)
Falando em rating, o que pensa dessas agências? Ultimamente tem-se questionado muito a sua existência e poder.
O poder é-lhes dado pela forma como os estados reagem aos seus anúncios. Não são elas que detêm poder, quem lhes dá o poder são os estados. Quando os EUA ficam completamente à nora com a baixa do rating estão a dar-lhes muito poder. O capitalismo já não é aquele que os teóricos do século xx referiam. Agora quem controla são organizações acéfalas, que não se sabe bem o que são, nem quem manda lá... Mas são eles que manobram a economia mundial. E mais, hoje o dinheiro é virtual, são bits, aquelas coisas do computador, que não é nada [risos]. Se não houver mudanças nos estados democráticos, se não arranjarem forma de sair desta tendência quase inevitável, vamos caminhar para capitalismos do género russo ou chinês, autoritários, sem liberdades, sem democracia, e isso é um perigo. Os países democráticos têm de evitar que o actual capitalismo sem rosto se transforme em sistemas ditatoriais.
O que é que pode ser feito?
Têm de ser os jovens. O problema principal deles, hoje em dia, não se punha no meu tempo. Antigamente ter segurança no trabalho era um dado adquirido, não se pensava na fonte de rendimento. Agora isto cria desespero nos jovens. Mas há uma coisa que me espanta nos jovens hoje. No passado, com a revolta dos jovens de Maio de 68, havia propostas, coisas novas. Agora não, aquilo que os indignados dizem é que isto está mal e depois apresentam questões pontuais que passam por "dêem-me emprego". A ideia que dá é que eles concordam com este modelo, desde que lhes dêem um emprego. Isso é errado, porque o modelo é que está mal, foi o modelo que levou a esta situação! Têm de aparecer propostas e os jovens são os únicos com condições para as apresentar.
Uma ideia é pedir uma auditoria dos cidadãos à dívida pública.
Isso nem sequer é uma ideia original, mas parece-me razoável. As ameaças à segurança nacional neste momento não são susceptíveis de resposta militar, têm de ter respostas políticas, económicas, sociais, e espero que não venham a precisar de resposta militar. Há muita gente que vaticina isso, que diz que o que está a acontecer é o que se passou a seguir à grande crise dos anos 30, que começou por aqui: dívidas, nacionalismos, fascismos, guerra. Espero que não chegue aí, sinceramente, até porque as sociedades estão de tal forma vulneráveis e frágeis, por serem tão complexas, que não vão resistir a um abalo. Julgo que vamos passar por um período muito complicado, que não deverá ser muito prolongado - porque isto hoje está muito acelerado - e vão surgir soluções. O mundo nunca deixou de encontrar uma solução. Não pensemos que vamos desaparecer, até porque essas ideias são vendidas pelos mais velhos [risos].
Nota (propositadamente) final - a imagem que ilustra este artigo é um pormenor de uma foto-reportagem sobre motins de jovens em França, em 1983. Publicada no livro "L'Année de La Photo - Le grand show de l'actualité", edição Love Me tender - Sipa Press, 1983.
sexta-feira, agosto 12, 2011
Fim do mundo? Não: apenas uma remodelação.
Lembrei-me disto quando vi os motins e o vandalismo recente em cidades de Inglaterra.
E afinal era apenas uma remodelação da cidade.
Não era possível instalar a nova estrutura viária sem fazer os tais buracos e causar os tais incómdos, que a tantos pareciam sinais do fim do mundo... Tal como não é possível fazer uma omoleta sem antes partir os ovos!
Mas o que tem isso a ver com o que está a acontecer em Inglaterra?
Ora, ainda bem que me faz essa pergunta!
Já aconteceu antes e está a acontecer novamente - é só mudar os personagens porque o guião é decalcado dos anteriores...
Em momentos de crise, o capitalismo arranjou sempre maneira de se salvar e de se reforçar. Os motins são um excelente instrumento para assustar as pessoas, fazê-las apoiar os seus governos e exigir mais "autoridade" (leia-se: Estado policial). E se for preciso vamos para a guerra. O capitalismo nunca temeu as guerras. As guerras são até muito boas para os grandes negociantes.
Sim, é claro que havia condições sociologicas para que revoltas deste tipo estalassem, e essas coisas. Toda a gente sabe isso. Os membros do famigerado grupo Bilderberg, então, sabiam-no muito bem. Tanto que até, ao que parece, discutiram a melhor maneira de usar esse descontentamento a seu favor.
Informações sobre a última reunião grupo Bilderberg neste artigo (em inglês):
Começa a fazer sentido, ou não?
(Nota de rodapé, para os que têm dificuldade em lidar com figuras de estilo: não, não estou a comparar os planos capitalistas com os projectos de requalificação da cidade de Almada. Estou a dizer que as pessoas que pensam que os motins em Inglaterra são a revolução ou o fim do capitalismo já para amanhã estão tão enganadas como os que pensavam que as obras do metro de superfície eram o fim do mundo)
(Nota de rodapé, para os que têm dificuldade em lidar com figuras de estilo: não, não estou a comparar os planos capitalistas com os projectos de requalificação da cidade de Almada. Estou a dizer que as pessoas que pensam que os motins em Inglaterra são a revolução ou o fim do capitalismo já para amanhã estão tão enganadas como os que pensavam que as obras do metro de superfície eram o fim do mundo)
Etiquetas:
globalização,
mundo,
política
quarta-feira, agosto 10, 2011
terça-feira, julho 26, 2011
Zona quê?
Pedonal:
adj. 2 g.
1. Relativo a pedestre.
2. Que só pode ser percorrido a pé. = PEDESTRE
(Dos dicionários)
Mas em Almada deve ter outro sentido qualquer... Porque é isto, todos os dias e a toda a hora.
O mais engraçado é que os comerciantes (e o PSD local) queixam-se de que "Almada morreu" e que não fazem negócio porque os clientes não podem levar o carro para a "zona pedonal" - se o fizerem, a Ecalma cai-lhes logo em cima. Pois, devem ter razão...
Devo ser eu que estou enganado. Com certeza vivo noutro planeta ou a minha máquina fotográfica tem alucinações e regista coisas que não estão lá.
A "zona pedonal" de Almada está deserta, dizem eles. Quem sou eu (ou a realidade) para os contrariar?
Etiquetas:
"zona pedonal" de Almada,
estacionamento
quinta-feira, julho 07, 2011
Lutar contra o sistema, e não contra um ou outro dos seus elementos isoladamente

Desde que apareceram na mesma frase as palavras "lixo" e "Portugal" ficou na moda indignarmo-nos contra as agências de rating. Confesso que estou um pouco surpreendido com tanta indignação. Não porque seja ilegítima, mas porque só aparece agora - reacção pavloviana - quando o problema é antigo, e sistémico.
Encontrei, no site Bio Terra, um texto que me parece interessante e apropriado a esta conjuntura de indignação nacional. Passo a transcrever...
Terroristas económicos - fim aos paraísos fiscais, fim à especulação e fim às organizações de terroristas do rating

A Avenida da JPMorgan (clique na imagem para ampliar) - domina quase todos os EUA
O discurso do coitadinho e poupadinho do Presidente da República não convenceram os "mercados" e foi o mote final para o ataque dos chantagistas que estão nas empresas de rating a chular todo o mundo. Estamos numa OMC que afinal quase se assemelha a uma organização mais terrorista, sem criminosos culpados.Afinal estas empresas até desrespeitam o FMI, UE e BCE acordos internacionais. E porque carga de água o BCE valoriza as SUSPEITAS de uma mera empresa de rating? Debitocracy...conhecem o documentário? Já viram Inside Job? Mas a reflexão também deve ser também cá dentro: A PT fez negócios com a JP Morgan e a Capital Group. Qual o interesse? Do país ou da classe dominante no regime capitalista- isto é a banca e os credores? Que "seriedade" tem afinal fazer acordos comerciais com estes terroristas?

A Avenida da Capital Group (clique na imagem para ampliar)-Eis a avenida dos chantagistas-...uma delas
Porque se eliminou as golden shares? Não seria melhor e mais lucrativo para o Estado vender as suas próprias acções? E em último recurso......Porque desferroviaram o país todo? Porque só há turismo de praia e sol e golfe? Porque deixamos crescer os subúrbios? Que critérios são usados para distinguir os benefícios e crescimento económico de determinadas regiões do País em detrimento de outras? Porque falhou a regionalização? Porquê esta corrida ao mega-tudo? Há quanto tempo se fala na eficiência energética? Há quanto tempo se fala na insustentabilidade das parcerias publico-privadas? Há quanto tempo de fala na industrialização das nossas faculdades e escolas secundárias? Há quanto tempo se fala na mobilidade sustentável? Há quanto tempo a sociedade reclama serviço exclusivo dos nossos deputados? Há quanto tempo se pedia um poder mais fiscalizador da AR e o fim às mini-mega empresas/institutos que se duplicaram até à exaustão e delegam em boyismos? Porque é que os altos cargos nacionais têm de ter "confiança política" do Governo- mas que critérios e verdade e seriedade há nisto tudo? Há quanto tempo é criticável as inflações de notas em Medicina/Arquitectura ? Porque raio são elas a dor de cabeça no Ensino em Portugal? E as outras licenciaturas e pós-graduações? As medidas "conservativas" e alguns "recados" da Troika já há muito os ecologistas falavam e outros técnicos ligados às energias, água, reciclagem, mobilidade...não quisemos saber "deles" para nada. Entretanto os técnicos ambientais fartaram-se e entregaram-se à ecocracia e a sociedade continuou sem projecto comum. Quem destruiu a industrialização do País? Quem iniciou os recibos verdes? Quem "obrigou" o País a transformar-se num campo de golfe e praia e Sol? Quem finalizou por betonizar tudo o que faltava? Quem destruiu a agricultura nacional? É justo em democracia exigir a TODOS sacrifícios depois destes actos perdulários e criminosos?
Do site BioTerra
sexta-feira, julho 01, 2011
Câmara inaugura mais um parque de estacionamento. Entretanto, na vida real...
Ligo para a Ecalma:
- Boa tarde. Alguém estacionou uma viatura em cima do passeio em frente à minha casa, impedindo-me o acesso ao contador da luz. Já posso chamar a Ecalma para virem resolver o problema?
- Não. Continuamos a ter ordens superiores para não intervir nessa rua.
Pouco a acrescentar, portanto, ao que já escrevi sobre o mesmo assunto, aqui. Continua tudo na mesma, a Câmara sabe como resolver o problema, mas não o resolve, não deixa resolver, nem explica porquê.
E a mensagem que vai passando aos munícipes é: nestas coisas da mobilidade não levem muito a sério o que a gente diz, porque nós também não! É só propaganda.
É muito triste ver as coisas chegarem a este ponto.
domingo, junho 19, 2011
O cartaz da Festa da Amizade de 1985
Durante muitos anos, o PCP realizou, em Almada, uma versão local da Festa do Avante: era a Festa da Amizade (e sobre ela já escrevi aqui).
Em 1985, a Concelhia de Almada - organizadora do evento - abriu concurso público para o cartaz de divulgação da festa desse ano.
Aos concorrentes, pedia-se um trabalho a 3 cores, que incluisse a frase-lema dessa edição (Alegria, Confiançe e Luta!) e, naturalmente, a identificação da entidade organizadora.
Eu concorri e ganhei, com o cartaz que agora vos apresento e que é, evidentemente, inspirado nos arraiais populares desta época do ano.
É um trabalho em tricromia (azul, amarelo, magenta) todo feito à mão (o fundo e as letras brancas são a lápis de cera sobre papel com textura; as outras letras e elementos gráficos são recortes de papel colorido).
Com o fundo a azul, porque é a cor que melhor resiste quando exposta ao sol, nas paredes. Com o símbolo do PCP integrado no conjunto de instrumentos musicais populares, para reforçar a ideia de alegria e confiança na luta, conforme era sugerido pelo regulamento do concurso. E com o nome da entidade organizadora por extenso, porque era assim mesmo que eu gostava (e gosto) de a ver designada: Comissão Concelhia de Almada do Partido Comunista Português!
A intenção era que o cartaz resultasse em exposição "individual" mas também em sequência. Assim:
E resultou!
Para mim que - embora fizesse já há vários anos trabalhos gráficos no atelier do Centro Cultural de Almada - não estava habituado a ver coisas minhas nas paredes da cidade, foi muito gratificante. Mais que o prémio... que, sinceramente, já nem me lembro o que era - mas suponho que incluia livros, da Caminho ou da Avante. Outros tempos, não é?
Etiquetas:
Almada,
anos 80,
arte pública,
Festa da Amizade,
vitorinices
terça-feira, junho 14, 2011
1985: uma colaboração para o DN-Jovem

Em 1985, vagamente inspirados pelo Zig Zag, programa da televisão portuguesa apresentado pelo lendário Luís Pereira de Sousa - Programa semanal transmitido pela RTP na primeira metade dos anos 80, nas tardes de Domingo. Diversos convidados demonstravam habilidades nas suas respectivas artes e ofícios. A rubrica dedicada aos jogos de computador do ZX Spectrum tornou-se muito popular, na época. (Wikipédia dixit) - eu e o meu amigo e colega do Centro Cultural de Almada, Jorge Figueira, decidimos fazer o que acima vos mostro (cliquem na imagem para ampliar, ver os bonecos e, se tiverem paciência, ler o texto).
Fizémos e enviámos para o não menos lendário Dn-Jovem (suplemento semanal do Diário de Notícias).
Enviámos, e eles publicaram.
Só depois de publicado, alguém na redação do DN-Jovem reparou que "este aqui parece o Luís Pereira de Sousa"... Olharam melhor e acabaram por desconfiar também das semelhanças entre o Dr. R.A. Betta Motta e um na época badalado - e badalador - jornalista e comentador político chamado Francisco Sousa Tavares.
- Seus malandros! - disse, entre sorridente e encavacado, o grande Manuel Dias, director da publicação.
E, a partir daí, começou a ter mais cuidado com o que enviávamos.
Um boneco vagamente parecido com Daniel Proença de Carvalho ainda passou à justa (Olha o Proença! E nós: Não! Nããããoooo ééé o Proooença!!!).
Mas outro, em que um jornalista chamado Manolo de Cadavez Mata entrevistava uma senhora chamada Sallete Magna (que tinha ligeirissimas semelhanças com a cantora Collete Magny) não passou, de todo.
"Porque" - justificou o Manuel Dias - "o Cadafaz de Matos não está no país e era incorrecto estar a publicar um boneco dele sem pelo menos lhe dar conhecimento!"
"Mas não é o Cadafaz! É o Cadavez!"
"Pois, pois..."
PS: O texto tem, como é evidente, muitas piadas datadas. "É verdade que se vai candidatar?" - é uma referência às "pré-candidaturas" às eleições presidenciais de 1986. "Bloco central" - governo PS/PSD que então estava no poder. "Dizeria" é uma expressão que ficou célebre num debate televisivo sobre ensino em Portugal. O "sketch" com a personagem "Derrota Secundária" é uma piada a uma publicidade protagonizada pela então muito famosa actriz Victoria Principal. O Salazar mencionado no texto é Alberto salazar, atleta que ficou em 2º lugar na maratona dos Jogos Olímpicos de 1984, ganha por Carlos Lopes."Heróis do Mar, Nobre CLIC" porque naquele tempo a televisão não emitia, como hoje, 24 horas por dia e, no encerramento, passava sempre o Hino Nacional - que ninguém ouvia até ao fim, obviamente.
quinta-feira, junho 09, 2011
Legislativas 2011: resultados em Almada

Resultados oficiais (provisórios) das eleições para a Assembleia da República no concelho de Almada. (Entre parêntesis, os resultados das legislativas de 2009):
PS
27,94% (35,57%)
24.833 votos (31.702)
PPD/PSD
27,49% (18,57%)
24.433 votos (16.556)
PCP-PEV
17,01% (17,36%)
15.116 votos (15.474)
CDS-PP
12,32% (9,09%)
10.950 votos (8.100)
BE
6,62% (13,12%)
5.879 votos (8.100)
Como habitualmente, o concelho de Almada segue a tendência nacional em eleições legislativas: neste caso, PSD e CDS aumentam a votação; PS, CDU e BE descem - à semelhança do que acontece no total nacional (nota: a CDU, mesmo perdendo votos, elege mais um deputado, pelo círculo eleitoral de Faro).
Fonte, com todos os resultados oficiais: site da Direcção Geral da Administração Interna (DGAE)
http://www.legislativas2011.mj.pt/
PS
27,94% (35,57%)
24.833 votos (31.702)
PPD/PSD
27,49% (18,57%)
24.433 votos (16.556)
PCP-PEV
17,01% (17,36%)
15.116 votos (15.474)
CDS-PP
12,32% (9,09%)
10.950 votos (8.100)
BE
6,62% (13,12%)
5.879 votos (8.100)
Como habitualmente, o concelho de Almada segue a tendência nacional em eleições legislativas: neste caso, PSD e CDS aumentam a votação; PS, CDU e BE descem - à semelhança do que acontece no total nacional (nota: a CDU, mesmo perdendo votos, elege mais um deputado, pelo círculo eleitoral de Faro).
Fonte, com todos os resultados oficiais: site da Direcção Geral da Administração Interna (DGAE)
http://www.legislativas2011.mj.pt/

domingo, junho 05, 2011
Portugal, anos 80, Portugal hoje: descubra (ou faça) a diferença

(Na foto: manifestação de estudantes em 1987, frente ao Ministério da Educação e Cultura, liderado então por João de Deus Pinheiro/PSD)
Entre 1983 e 1985 Portugal teve um governo de bloco central PS/PSD. A partir de 1985, um governo minoritário do PSD, com Cavaco Silva como primeiro-ministro. Foram tempos de grande crise económica (com "ajuda" do FMI, desde 1983), de grandes lutas de massas com gigantescas manifestações de muitos milhares de pessoas, e de repressão e atantados contra as liberdades democrática (num desses anos, até a habitual manifestação de 25 de Abril, no Rossio, foi cercada pelo Corpo de Intervenção da PSP!!!).
Depois de tanta crise, tanta luta e tanta resistência, o PRD apresentou uma moção de censura na Assembleia da República (aprovada com votos a favor de PS, PCP e seus aliados e, naturalmente, do PRD) que fez cair o governo e convocar eleições antecipadas. Fomos então a votos. E, contrariando todas as expectativas, foi o PSD (Cavaco Silva) quem ganhou, e com maioria absoluta.
Assim se desperiçaram tantas energias, tantas lutas... E apartir daí a direita neoliberal instalou-se no poder, de onde ainda não saiu. Porque os revolucionários daquele tempo não levaram a luta até ao voto. Erraram por excesso de confiança.
As semelhanças com a realidade actual parecem-me óbvias (*). O desfecho é que pode ser diferente.
Ou vamos, agora, cometer o mesm o erro?
(*) embora a realidade actual me pareça, comparada com a dos anos 80, uma realidade diminuida... mas isso é conversa para outra ocasião.
sábado, junho 04, 2011
Uma "bela e apetecida vitória"
Isto foi em 1979, no Estádio Nacional, em jogo de qualificação para o Euro 1980. Portugal, 3 - Noruega, 1. Uma "bela e apetecida vitória do futebol português", como se lê neste recorte de jornal (suponho que do desaparecido Diário de Lisboa - mas não tenho a certeza...)Amanhã é dia de eleições, hoje há bola na TV, e eu não quero que pensem que venho para aqui falar de política quando devia estar apenas em reflexão.
Ah, pois, a coincidência de ter aparecido a polícia no acampamento contestatário do Rossio logo hoje - véspera de eleições, dia de reflexão e de futebol na TV - não é para aqui chamada. Deve ter sido apenas isso: uma coincidência.
Nem pode ter sido outra coisa - porque em democracia os políticos não chamam a polícia para tentar criar tensões com as quais possam intimidar os eleitores. Deixa-me mas é ver onde meti o barrete verde-rubro da selecção de todos nós e procurar uns trocos para a cervejola.
sexta-feira, junho 03, 2011
"Há os que lutam toda a vida: estes são os imprescindíveis"
terça-feira, maio 31, 2011
Ainda sobre os "confrontos" (?) do 1º de Maio em Setúbal
Já vos disse: não sou anarquista. Nem gosto dos métodos que eles normalmente utilizam.
Mas há mais informação e rigor jornalístico neste vídeo de propaganda anarquista do que em qualquer peça que eu tenha visto até agora sobre o mesmo assunto nos órgãos de comunicação social. O que diz muito (mal) da comunicação social que temos e mostra (muito bem) aquilo a que chegámos. Sic transit gloria mundi...
sábado, maio 28, 2011
Polícia dispara contra manifestantes em Setúbal
Isto aconteceu no 1º de Maio de 2011, no centro de Setúbal: polícia aos tiros contra uma manifestação pacífica, convocada por movimentos anarquistas.
Eu não sou anarquista. Simpatizo até com as causas deles, mas não gosto dos métodos voluntariosos que utilizam. (Claro que isso é outra conversa... mas digo só para esclarecer quem precisar de ser esclarecido)
Não vejo é razão nenhuma para isto. Tiros contra manifestantes desarmados? Num país democrático, onde a Constituição da República e as leis asseguram o direito à livre manifestação de ideias políticas?
Sim, porque Portugal é um país democrático, não é?
Etiquetas:
cidadania,
democracia,
perguntas retóricas,
repressão
quarta-feira, maio 25, 2011
Portugal tem funcionários públicos "a mais"? A OCDE diz que não!

Portugal é um dos países do "mundo desenvolvido" com menor percentagem de emprego público.
Como se pode verificar no gráfico, Portugal está abaixo da média dos países da OCDE no que diz respeito a percentagem de trabalhadores do sector público relativamente à população activa. Países como França, Bélgica, Canadá, Reino Unido e Itália têm mais funcionários públicos que nós! E a percentagem de emprego público em Portugal praticamente não aumentou no período abrangido por este estudo da OCDE (1995 - 2005).
Eu sei que estes números contrariam a ideia feita de que o nosso mal é termos funcionários públicos "a mais"... E também sei que, se lermos o documento todo, ficamos até a perceber - caso não tenhamos ainda entendido - que as "gorduras" do Estado encontram-se nos órgãos "federais e de governo" (sic do documento) e não na administração local.
Isto são dados oficiais (da OCDE), publicados num site oficial (do Governo português). Vale muito a pena ler com atenção o estudo, que ajuda a desmistificar estes e outros preconceitos sobre o emprego público em Portugal.
Lembrei-me deste gráfico ao ver, no telejornal de hoje, o anúncio da OCDE sobre a recessão em Portugal - "o único país desenvolvido do mundo que está em recessão económica".
Pronto, está bem, se a OCDE o diz deve ser verdade. Só é pena que nem toda a verdade passe na televisão.
Encontram o documento integral aqui:
http://www.dgap.gov.pt/index.cfm?OBJID=c56e2903-1f51-417d-8839-240c045f72c9
(A Década - emprego público em números, 1995 - 2005, editado em 2009. Abre em formato pdf)
quinta-feira, maio 19, 2011
Estacionamento em Almada: quando a propaganda e a realidade vivem em mundos diferentes
Chegou-me hoje à caixa do correio o boletim da Junta de Freguesia de Almada, em cuja contra-capa se encontra este delicioso pedaço de prosa poética:
"Inaugurado a 28 de Janeiro, o novo parque de estacionamento, com entrada pela Rua Leonel Duarte Ferreira, gerido pela ECALMA (...) trará decerto grandes benefícios tanto aos residentes, como ao comércio local, aos que usufruem dos serviços e da oferta cultural desportiva, ou apenas ao convívio, das diversas colectividades que enriquecem esta zona, como aos que trazem os seus filhos à escola, como ainda aos turistas que nos visitam e que obrigatoriamente incluem a zona histórica no seu roteiro".
Eu moro na Rua leonel Duarte Ferreira e até gosto muito de poesia, como se sabe. Mas esta prosa poética é de muito mau gosto. Porque a realidade é que, passados quase 4 meses desde a inauguração do parque, o que residentes, utentes de serviços e comércio local e turistas encontram continua a ser isto: carros estacionados em cima dos passeios, todos os dias e a todas as horas.
Note-se que, mesmo antes da inauguração do parque da Câmara gerido pela ECALMA, já existiam zonas de estacionamento grátis - que os automobilistas não utilizam, preferindo, em vez disso, ocupar os passeios (situação documentada no vídeo acima). A Câmara tem vindo a ser devidamente alertada para o problema, há mais de um ano. Mas tudo continua na mesma. Porquê?
Ora, estacionar (ou mesmo parar) em cima dos passeios é ilegal, de acordo com o Código da Estrada (artigo 49, alínea f). E a Câmara tem um instrumento chamado ECALMA para intervir nestes casos. Mas não faz nada. Porquê?
Fiz essas perguntas à ECALMA (e à Câmara) em Fevereiro. Disseram-me na ECALMA "temos ordens superiores para intervir em todas as ruas que estejam nas zonas de influências dos nossos parques, excepto nessa, enquanto não for colocada nova sinalização". Que sinalização? E é para demorar quanto tempo? Na ECALMA não me responderam a essa pergunta. E a Câmara não me diz nada sobre o assunto. Não confirma essas "ordens superiores" - mas também não as desmente!
Entretanto, até já existe nova sinalização.
(Sinalização recente, em Almada velha. O parque indicado como "São Paulo" é o da Rua Leonel Duarte Ferreira)
Mas a ECALMA continua a não intervir nesta rua. Porquê? Há mais sinalização para meter aqui? Qual? Para quando? E - a talhe de foice, já que falamos nisso - se assim for, porque é que responsáveis da Câmara me disseram, anteriormente, que não iriam intervir mais nesta rua, por se tratar de uma "área consolidada"?
Quando a ECALMA (empresa municipal) diz uma coisa e a Câmara outra, a conclusão óbvia é: ou não se entendem (nesse caso entendam-se lá) ou alguém está a mentir!
Quando a Câmara, em pouco tempo, parece mudar de opinião sobre o mesmo assunto e sem dar cavaco a ninguém (contrariando até a decisão da Assembleia Municipal que recomenda à Câmara que informe melhor os cidadãos sobre o papel da ECALMA e as leis e regulamentos em vigor), já nem sei bem o que pensar e o que dizer. Pior que isso: já nem sei em quem votar nas próximas autárquicas. Eu que sempre votei na (e apoiei a) CDU.
A CDU costuma ser (re)conhecida nas autarquias pelo seu projecto político, pela boa gestão e pela honestidade com que se dirige aos munícipes.
Fazer um parque de estacionamento com dinheiros públicos e depois não incentivar o seu uso - e, pelo contrário, fechar os olhos ao estacionamento ilegal - não me parece boa gestão nem boa visão política. Não informar devidamente as pessoas recusando-se a cumprir até uma deliberação da Assembleia Municipal também não me parece lá muito honesto.
E nem sei que mais vos diga...
Edital sobre o funcionamento da ECALMA


Eu devo ser um tipo muito velho e desactualizado, com certeza. Porque ainda sou do tempo em que os editais tinham validade jurídica, e eram para cumprir.Ou então ando distraído. Alguém tem visto por aí "informação ou reinformação pública sobre a missão e objectivos da ECALMA"? E "clarificação e publicidade das normas em vigor e dos procedimentos considerados adequados", onde está?
Este edital tem agora 5 meses. E não é mais uma manobra demagógica da oposição: foi apresentado em Assembleia Municipal... pela CDU. E aprovado.
Eu penso, sinceramente, que é um bom conjunto de medidas. Falta só cumpri-las. Porque não se cumprem? Estão à espera de quê?
segunda-feira, abril 25, 2011
É o aniversário da revolução, camarada pá!

Há 30 anos, Almada comemorava o sétimo aniversário do 25 de Abril de 1974, com o seguinte programa de festas (clica na imagem para a ampliar e ler o texto, camarada pá):

E sim, naquela altura a gente escrevia "pá", com acento, como se escreve em português (pá, que é uma abreviatura da palavra rapaz, já agora), e não "pah"... pá!
sábado, março 26, 2011
Eu até queria escrever sobre outras coisas... mas todos os dias tropeço nisto:
Carros e camiões estacionados em cima do passeio, impedindo a passagem de peões. Nestes dois locais de Almada acontece todos os dias, e quase sempre com os mesmos protagonistas. É proibido, obviamente (Código da Estrada, artigo 49, alínea f). Mas ninguém faz nada para cumprir a lei e defender a segurança dos peões (que assim são obrigados a circular pela faixa de rodagem dos automóveis).
As autoridades não actuam, porquê? Têm sido avisadas muitas vezes! (Nem seria preciso - porque isto é transgressão tão evidente - mas têm sido avisadas...)
Que conclusões tirar disto? Almada passou a ser uma terra sem lei?
Ou a lei só se "aplica" à noite, nos bares e nas ruas de Almada Velha - onde não se pode estar pacatamente a beber um copo e a conviver sem que apareça a PSP, e armada até aos dentes como se andasse a perseguir perigosos delinquentes?
Alguém me explica o que se está a passar na minha cidade? Não cumprir a lei compensa, em Almada?
PS - É claro que, depois de diagnosticar problemas e apresentar propostas para os resolver - e tendo em conta que ando nisto há tanto tempo e continua tudo na mesma - já não posso acreditar na boa fé nem na vontade política de quem tem meios para resolver isto. Por mais propaganda que me tentem impingir, só acredito quando vir soluções em prática. E estou curioso para ver se não serão as soluções que eu sugeri... implementadas com um atraso absurdo (deviam ter sido pensadas com antecedência - ou seja: antes de se perceber que não é só por a Câmara inaugurar novos parques que o problema do estacionamento fica automaticamente resolvido). É que se for isso, desculpem lá, mas parece que - pelos vistos, não é? - até eu fazia o mesmo e mais depressa, se tivesse poder para tal.
E se os meus amigos acham que estou a insistir muito no mesmo tema, ajudem-me a resolvê-lo. Quando deixar de haver assunto, eu deixo de ter razão para escrever sobre ele, não é?
quarta-feira, março 23, 2011
Dois poemas de Rui Tinoco, publicados no Debaixo do Bulcão 39 e lidos na Festa da Poesia de Almada (Incrível Almadense, 21 de Março de 2011)
O LOCUTOR
achei curioso: depois da notícia
surpreendi um certo olhar de
tristeza ao Locutor. os factos não
eram para menos: a desgraça
abatera-se sobre a família
de Domodedonova durante
as recentes chuvadas tropicais.
o seu telejornal era diferente, ele
não acreditava no rigor da máxima
«uma imagem vale mil palavras»
e insistia em acrescentar uma outra,
a de si mesmo, profundamente
combalido com as misérias do mundo.
felizmente, o dia é longo, tem vinte
e quatro lo-o-o-ongas horas e um nosso
atleta conquistou uma rara
medalha. depois do jantar, o tom
era de festa – assim o ditava
o alinhamento. pobre Locutor!
teve de mascarar a negra sombra
que lhe pairava sobre o coração
e, afirmo-o sem receio, o seu
rosto exalava então a mais profunda
a mais pura e radiosa
alegria! foi nesse momento
que se interrompeu a transmissão
em virtude de compromissos
publicitários.
O ECONOMISTA
o Economista pensa com
índices, afirma x
ou bate-se pela ideia oposta
conforme o que lhe dizem os mercados.
ninguém ouve tão bem os mercados
como o nosso Economista. é
preciso que todos se calem, que os professores
ensinem mais baixinho, que os
maestros não rodopiem demasiado
ao conduzir majestosas orquestras,
que o poeta não chocalhe tanto
as metáforas. é a partir deste
momento que ficamos suspensos
a todo o pequeno gesto
à mais insignificante hesitação
do Economista. ele ouviu os mercados,
aquilatou e alinhou os mais misteriosos
índices. afirmou: «o vosso destino
está sujeito a uma OPA hostil,
o Dinheiro não gosta que estejam
aqui a ler poesia».
Rui Tinoco (poemas) e Jorge Figueira (fotos)
Etiquetas:
Festa da Poesia de Almada 2011,
poesia
terça-feira, março 22, 2011
O que é isto?
Uma carrinha da Misericórdia de Almada estacionou esta tarde no passeio em frente a minha casa. Porquê? Eu não os chamei! Parece que os vizinhos também não... E tenho a certeza que, se procurassem, encontravam lugares de estacionamento legal mais perto do local onde foram - supostamente... - dar apoio domiciliário.
"Lugares de estacionamento legal" são, caso não tenham entendido: os 2 parques grátis à superfície que existem aqui e, na falta de lugares nesses, o parque subterrâneo da ECALMA, que fica nesta mesma rua. Nos passeios é que não pode ser, diz o artigo 49 do Código da Estrada! E não abre exceção nenhuma para carrinhas de apoio domiciliário, mesmo que tenham um papelinho no pára-brisas a dizer que estão "em serviço" (não estão a fazer transporte de doentes, pois não? então? é preguiça de andar um bocadinho desde o estacionamento até à residência onde vão dar apoio?)
Eu sei que este pessoal se está a borrifar para as regras (para o código da estrada, neste caso): é frequente ver carrinhas desta instituição, nesta rua, em cima dos passeios mesmo quando há 3 parques de estacionamento aqui perto (e já os vi também noutra rua e noutro passeio: confirmem aqui).
Mas, se não têm emenda, pelo menos não voltem a faze-lo à minha porta, ok? Agradeço.
PS: Se alguém com responsabilidades nesta matéria tiver interesse, pode pedir-me o vídeo que fiz na mesma ocasião, com o qual demonstro que existiam mesmo lugares de estacionamento legais e vagos, naquele momento, e que não precisavam de meter a carrinha em cima do passeio. Não quero que vos falte esclarecimento nenhum.
Etiquetas:
deves estar a gozar comigo,
estacionamento,
trânsito
sexta-feira, março 18, 2011
Debaixo do Bulcão no no Dia Mundial da Poesia


O cartaz da Festa da Poesia, a realizar dia 21, no Salão de Festas da Incrível Almadense, e a capa da nova edição do Debaixo do Bulcão poezine - mais informação sobre este projecto editorial alternativo aqui:
http://debaixodobulcao.blogspot.com
A Festa da Poesia de Almada é uma organização da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, em parceira com a SCALA - Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada, Associação Poetas Almadenses, O Farol - Associação de Cidadania de Cacilhas, e Debaixo do Bulcão. Durante o evento haverá uma sessão de "poesia vadia" (aberta à participação de todos os que desejem dar a conhecer os seus poemas, ainda que não editados) e serão distribuídas 3 publicações de poesia (cadernos das associações Poetas Almadenses e SCALA, bem, como a já mencionada edição 39 do Debaixo do Bulcão poezine).
A entrada é livre, e estão todos convidados!
Etiquetas:
debaixo do bulcão,
poesia
sábado, março 05, 2011
Almada, Janeiro de 1987
Este vídeo é da inauguração de um evento cultural, na antiga Oficina da Cultura de Almada. O momento aqui documentado aconteceu no dia 24 de Janeiro de 1987: é a "cerimónia oficial" (ou o "moscatel de honra", se vos der mais jeito) de abertura da Semana do Livro de Almada.
Tenho, no meu canal do Youtube, mais vídeos do evento. E não me apetece alongar-me agora em detalhes sobre o assunto. (Hei-de escrever mais sobre isto, mas não aqui nem agora.)
Ao divulgar este documento espero, sim, estar a contribuir para esclarecer alguns blogueiros e respectivos leitores com aspirações a "fazedores de opinião"... mas eventualmente tão mal informados que pensam (pensam?), por exemplo, que Maria Emília de Sousa é presidente da Câmara de Almada desde o 25 de Abril.
(Não, não estou a brincar: li mesmo uma coisa assim, não há muito tempo, num blogue cá da terra.)
Então, para que a História não seja esquecida (nem "reescrita" à vontade dos diversos fregueses), aqui está, neste vídeo, José Martins Vieira, primeiro presidente eleito da Câmara Municipal de Almada, manifestando o seu apoio às actividades promovidas pelo Centro Cultural de Almada, num tempo em que a Cultura era (mesmo) um parente pobre da actividade municipal. Deste município como de todos.
Vejam o vídeo, divirtam-se. E, se tiverem dúvidas, perguntem-me antes de "opinarem" com os disparates do costume, ok?
Etiquetas:
Almada,
anos 80,
Centro Cultural de Almada,
cultura,
videos
quinta-feira, janeiro 27, 2011
Sobre o canibalismo mediático de uma morte recente

Eis o texto que eu gostaria de ter escrito, mas não consegui. Lúcida análise, do jornalista Rui Vasco Neto.
La hipocrisie en rose: Introdução.
Sábado, 15 Jan, 2011
O assunto é de vómito, todo ele. E de vómito maior ainda é tudo isto que o rodeia, alimenta de disparate e mantém à tona de todas as conversas. Toda esta insuflação, à falta de informação a sério, de factos confirmados, naturalmente escassos por esta altura. Mas como o assunto é assunto e a audiência é garantida então há que falar muito, dizer coisas. Mesmo que não haja nada certo para dizer há que improvisar, imaginar, especular e opinar, opinar sempre e muito, esse é o segredo. Será no fundo uma espécie de homenagem póstuma, talvez, o que acaba por fazer sentido sobretudo quando nada mais faz, neste carnaval de horrores em tons de rosa e sangue, agora ornado com as plumas e paetês da grande hipocrisia nacional. Um vómito, resume bem.
O que tenho visto e ouvido sobre esta tragédia nos últimos dias tem sido o inacreditável, palavra de honra. E mais inacreditável ainda é tudo aquilo que eu ainda não vi nem ouvi a ninguém, estranhamente ou talvez não. Por isso estou assim, aparvalhado, confesso que tão atordoado como fiquei na hora em que me chegou a notícia, de chofre: o Carlos Castro foi castrado e assassinado em Nova York. Credo, que coisa horrorosa! Que sopro gelado bate a nossa própria realidade, contemporânea da selvajaria, nesse instante de náusea! Carlos, castro e morto? Digam o que disserem eu cá digo o que disse no momento, convicção inabalável: ninguém merece morrer assim. Ninguém, nem o Carlos Castro. Ninguém.
Procurei pormenores, claro, o como e quem e quando e onde da notícia, o cerne factual vestido com o mínimo de opinião possível, tentando evitar o preconceito alheio e quedar-me pela tarefa de lidar apenas com o meu próprio, inevitável. Assim fui filtrando e digerindo toda a informação essencial para formar uma opinião sobre o sucedido, sustentada e independente do meu sentir pessoal sobre o falecido, algo que neste contexto de sofrimento e morte não tem evidentemente qualquer cabimento ou relevância. Remexi os meus sentimentos, em busca da compaixão indispensável a qualquer entendimento e também de outros pequenos nadas que entendi pôr em causa nesta hora de balanço obrigatório. E fechei o lado pessoal da questão quando no passado domingo, ao final da tarde, me sentei mais as minhas reflexões num banco da igeja onde cresci a ouvir falar de perdão e de respeito pelo próximo, para entregar o assunto a quem de direito de uma vez por todas. Saí de lá sozinho e resolvido, não sem antes ter assistido à missa das 19:00h que nessse dia, domingo 9 de Janeiro, na Igreja da Penha de França em Lisboa, foi rezada em intenção de Carlos Castro, pelo seu descanso eterno na paz que todos merecemos. Uma decisão sincera tomada de coração puro, que nada tem a ver com as minhas convicções pessoais sobre o finado, evidentemente. E que em nada interfere ou colide com a opinião que eu possa ter formado sobre aquela que é para mim a violência maior deste crime de morte, segundo facto indiscutível deste caso: este é um crime que fez duas vítimas, uma delas mortal; e outra o assassino.
Já o facto primeiro é o tal que faz a notícia e que ainda hoje pede análise, séria e urgente, a bem da verdade que não é cor-de-rosa, a bem de todos nós, no fundo: Carlos Castro morreu em Nova York, assassinado em circunstâncias sórdidas pelo rapazinho que o acompanhava. Por mim desejo paz à sua alma, dê-lhe Deus o eterno descanso e ponto final. Que encontre para si no céu a compaixão que raramente mostrou ter pelos outros aqui na terra, são os meus votos sinceros. E digo-o de coração, isso é certo. Tão certo como nunca, mas mesmo nunca ter gostado dele um nadita que fosse em vida.
publicado por Rui Vasco Neto
no blogue
Sete vidas como os gatos
Subscrever:
Mensagens (Atom)
