quarta-feira, março 23, 2011

Dois poemas de Rui Tinoco, publicados no Debaixo do Bulcão 39 e lidos na Festa da Poesia de Almada (Incrível Almadense, 21 de Março de 2011)




O LOCUTOR


achei curioso: depois da notícia
surpreendi um certo olhar de
tristeza ao Locutor. os factos não
eram para menos: a desgraça
abatera-se sobre a família
de Domodedonova durante
as recentes chuvadas tropicais.
o seu telejornal era diferente, ele
não acreditava no rigor da máxima
«uma imagem vale mil palavras»
e insistia em acrescentar uma outra,
a de si mesmo, profundamente
combalido com as misérias do mundo.
felizmente, o dia é longo, tem vinte
e quatro lo-o-o-ongas horas e um nosso
atleta conquistou uma rara
medalha. depois do jantar, o tom
era de festa – assim o ditava
o alinhamento. pobre Locutor!
teve de mascarar a negra sombra
que lhe pairava sobre o coração
e, afirmo-o sem receio, o seu
rosto exalava então a mais profunda
a mais pura e radiosa
alegria! foi nesse momento
que se interrompeu a transmissão
em virtude de compromissos
publicitários.



O ECONOMISTA

o Economista pensa com
índices, afirma x
ou bate-se pela ideia oposta
conforme o que lhe dizem os mercados.
ninguém ouve tão bem os mercados
como o nosso Economista. é
preciso que todos se calem, que os professores
ensinem mais baixinho, que os
maestros não rodopiem demasiado
ao conduzir majestosas orquestras,
que o poeta não chocalhe tanto
as metáforas. é a partir deste
momento que ficamos suspensos
a todo o pequeno gesto
à mais insignificante hesitação
do Economista. ele ouviu os mercados,
aquilatou e alinhou os mais misteriosos
índices. afirmou: «o vosso destino
está sujeito a uma OPA hostil,
o Dinheiro não gosta que estejam
aqui a ler poesia».



Rui Tinoco (poemas) e Jorge Figueira (fotos)

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