quinta-feira, fevereiro 22, 2007

A "revolução" explicada aos pequeninos



a sociedade em que vivemos divide-se em 2 grupos:
os bons, que são os que não têm nada
e os maus, que são os que têm tudo.

os bons, porque são bons, querem distribuir
a riqueza dos maus por todos os bons.

mas os maus, porque são maus,
não deixam.

os bons, como são bons, começam por pedir com jeitinho
aos maus que distribuam a sua riqueza
pelos bons.

mas os maus, como são maus,
não querem.

então os bons, mesmo sendo bons,
são obrigados a matar todos os maus

e quando já não resta nenhum mau vivo para
impedir os bons de serem bons,
os bons, para provar que são mesmo bons,

distribuem a riqueza dos maus pelos bons.

e tudo o que não for distribuível
porque é mau
e, sendo mau, não serve aos bons,

é confiscado
e destruído
e arrasado.

assim se completa a revolução
e assim termina de vez a luta
dos bons contra os maus.

depois, com a revolução feita,
deixa de haver bons e maus:

ficamos todos comunistas.

primitivos

mas comunistas.



António Vitorino
(Fevereiro 2007)

(Comentário do autor, em sua legítima defesa: se é verdade que não se fazem omeletas sem partir os ovos, matar a galinha já não me parece lá muito boa ideia.)

9 comentários:

Luis Eme disse...

Grande lição de luta entre bons e maus...

O pior é que os ditos "bons" do poema, pensam que são mesmo pessoas porreiras, e sem eles o mundo não existia...

Debaixo do Bulcão disse...

Espera aí: para que não haja dúvidas, eu sou comunista, marxista-leninista. É por isso que ainda penso em luta de classes, propriedade privada dos meios de produção, etc.
Essa luta dos "bons" contra os "maus" é mais coisa de khmers vermelhos, cruzados e outros fundamentalistas, religiosos ou não.

Leo disse...

Utopicamente concordo com tudo!
Se sou pragmatica já não acredito na luta de classes.Os maus devoram os bons, os bons esqueceram a luta,porque querem ser tão consumistas como os maus.O vil dinheiro move tudo...para onde foram os ideais...somos meros carneiros deste mundo capitalista.

Debaixo do Bulcão disse...

E é esse precisamente o mal. Mas ficar de braços cruzados a ver o povinho afundar-se na merda do consumismo é coisa que faz um bocadinho de confusão a esta pobre cabecinha. Por isso vou escrevendo coisitas...

Livratemundo disse...

Isto se os bons forem burros

Um bom burro é mau
e um burro mau é bom
para os maus
isto se os maus forem maus
mas se os maus forem bons
preferem burros bons
porque um burro bom
não deixa de ser mau
isto na ideia dos bons
se não forem maus
mas para os maus
se forem bons
o caso muda de figura
e voltamos ao bom burro
que é mau porque eu sou bom

Debaixo do Bulcão disse...

O lúcido Pol Pot arrasou as cidades para plantar nelas arroz e transformou o Camboja numa sociedade quase neolítica. Mesmo depois de os burros dos vietnamitas lhe terem ido lá destruir aquela sociedade tão perfeita, ele continuou sempre convencido de que tinha razão.

Debaixo do Bulcão disse...

Já o Lenin, que não era nenhum robin dos boques, tentou construir uma sociedade comunista desenvolvida (em termos civilizacionais, sociais e técnicos), a partir da transformação das relações de produção e da socialização dos meios de produção. O problema é que, desde que ele morreu, ainda neinguém voltou a tentar. Exceptuando, talvez, Cuba.

Debaixo do Bulcão disse...

HOLIDAY IN CAMBODIA
So you been to school for a year or two / And you know you’ve seen it all / In daddy’s car, thinkin’ you’ll go far / Back east your type don’t crawl / Play ethnincky jazz to parade you snazz / On your five grand stereo / Braggin’ that you know how the niggers feel the cold / And the slum’s got so much soul / It’s time to taste what you most fear / Right Guard will not help you here / Brace yourself, my dear… / It’s a holiday in Cambodia / It’s tough, kid, but it’s life / It’s a holiday in Cambodia / Don’t forget to pack a wife / You’re a star-belly sneech, you suck like a leech / You want everyone to act like you / Kiss ass while you bitch so you can get rich / While your boss gets richer off you / Well you’ll work harder with a gun in your back / For a bowl of rice a day / Slave for soldiers ‘til you starve / Then your head is skewered on a stake / Now you can go where people are one / Now you go where they get things done / What you need, my son… / Is a holiday in Cambodia / Where people dress in black / A holiday in Cambodia / Where you’ll kiss ass or crack / Pol Pot, Pol Pot, Pol Pot, Pol Pot, etc…. / And it’s a holiday in Cambodia / Where you’ll do what you’re told / A holiday in Cambodia / Where the slums got so much soul

Jello Biafra

deadkennedys.com/discography.htm

pedras contra canhões disse...

ganda faixa - holiday in cambodja.

de facto, existe uma tendência que coloca a luta política no plano de uma luta moral, ou seja, no plano do idealismo. Se és marxista-leninista, compreendo perfeitamente que critiques isso. Nem poderia ser de outra forma.
Ser comunista passa necessariamente pela superação do idealismo, pela análisa baseada no materialismo, dialéctico, histórico, objectivo.
Quem abandona a perspectiva de classe e passa a analisar a sociedade e as relações de produção com base na bondade ou maldade dos seus actores, está a dar um bom contributo para o regresso à análise idealista, fora do plano material objectivo.

compreendo o que queres dizer com o texto. Não o escreveria, eu, pelas explicações que se tornam necessárias dar, como mostram os comentários. Não o escreveria porque o autor, o homem, deve ter em conta o impacto da criação em cada momento e em cada comunidade.

Ainda assim, explicadas estão as coisas nos comentários e os advertências clarificam qb.

um abraço