quarta-feira, abril 24, 2013

"Os Americanos na Revolução Portuguesa (1974-1976)"

Os Estados Unidos da América foram apanhados de surpresa pelo levantamento militar (e depois popular) de 25 de Abril de 1974. Por isso, mantiveram primeiro uma posição de "esperar para ver". Mas, assim que entenderam o rumo revolucionário que os acontecimentos estavam a tomar, os responsáveis políticos norte-americanos preocuparam-se e tentaram influenciar o processo político português. Para Washington, era inaceitável que Portugal pudesse ter o Partido Comunista no governo, pois isso poderia desequilibrar a correlação de forças na Europa (onde os partidos comunistas de Itália e França tinham já, também, uma influência social e peso político e eleitoral crescentes).

No entanto, os próprios EUA estavam divididos quanto ao que fazer no caso português. O então secretário de estado, Henry Kissinger, defendia aquilo que ficou conhecido como a doutrina da "vacina": que os EUA apoiassem as forças contra-revolucionárias ou que deixassem mesmo os comunistas chegar ao poder, combatendo-os depois violentamente - dessa forma, pensava o famoso estratega da linha dura norte-americana, Portugal seria visto como um "mau exemplo" para o resto da Europa, e os comunistas portugueses como os agentes do caos.

Opinião diferente tinha o então embaixador fos EUA em Lisboa, Frank Carlucci. Homem mais ligado aos serviços "de inteligência" norte-americanos (e destacado para a embaixada em Portugal só após o 25 de Abril, para "lidar com a situação" ao seu jeito), preferiu combater a revolução apoiando os "moderados" - particularmente Mário Soares e o Partido Socialista. E foi essa a tendência que vingou.

São estas, em resumo, as ideias defendidas por Tiago Moreira de Sá, na investigação jornalística que publicou no livro "Os Americanos na Revolução Portuguesa (1974-1976)" (Editorial Notícias, 2004).

Escreve o autor: "os acontecimentos de Lisboa coincidiram com um momento em que o bloco ocidental enfrentava um cenário de crise no flanco sul da NATO, isto é, no Mediterrâneo, fazendo temer pela perda do controlo deste importante ponto estratégico. A oriente, eclodia o conflito de Chipre entre a Grécia e a Turquia, dois membros da NATO, e o subsequente início de um processo de transição de regime em Atenas. A ocidente, o problema era colocado pela crescente probabilidade da chegada dos comunistas ao governo em França e Itália. Isto para além da incerteza quanto ao futuro da Espanha em transição de regime. O processo político português era visto em Washington como um factor potenciador desta crise no Mediterrâneo, uma vez que se temia que a chegada do PCP ao Governo, primeiro, e a possibilidade de instauração de um regime comunista, depois, podiam influenciar negativamente Roma, Paris, Madrid e Atenas, com o risco de toda a Europa do Sul se tornar comunista a prazo.
Os EUA só podiam estar preocupados com a evolução política do seu aliado do outro lado do Atlântico. No fundo eram os equilíbrios da guerra fira que podiam ser postos em causa pelos acontecimentos em Portugal, logo, também estava em jogo o interesse nacional de Washington"
(segundo a doutrina intervencionista norte-americana) "Deste modo, podia-se esperar tudo menos desinteresse norte-americano."

Entende-se, assim, a razão de os governos provisórios do período 1974/75 serem de tão curta duração: não apenas por problemas internos, do processo revolucionário em curso, mas também (ou principalmente) pela pressão e mesmo ingerência dos EUA.

"Washington (...) actuou prioritariamente em duas frentes. Primeiro, ameaçando directamente Portugal de expulsão da NATO, o que no fundo queria significar a sua exclusão do sistema ocidental. Era uma forma de pressão de alto grau de eficácia, uma vez que os dirigentes portugueses não podiam desconhecer a elevada dependência do País face ao Ocidente e as consequência políticas, económicas e de segurança que uma exclusão deste bloco poderia acarretar.
Segundo, ameaçando directamente a URSS com o fim do clima de desanuviamento Leste-Oeste(...)."

Isto num primeiro momento. Depois, os EUA passam também a intervir no plano interno com o apoio à oposição "moderada", que lhes podia garantir uma transição pacífica para uma "democracia ocidental", ou seja, capitalista.

Processo que o autor explica ao longo de 160 páginas, com recurso a importantes documentos da época (incluindo documentos do Congresso e do Governo dos EUA) e citando depoimentos de alguns dos intervenientes.

Em suma, um livro importante para entender aspectos menos claros (e normalmente ignorados, embora os papeis de Kissinger e Carlucci não tivessem passado despercebidos aos revolucionários da época - e este livro vem dar-lhes razão) do processo revolucionário e, principalmente, do processo contra-revolucionário subsequente ao 25 de Abril de 1974.

1 comentário:

Arlindo Costa disse...

Pois é, isto apenas vem confirmar aquilo que os mais atentos já sabiam, ou seja o papel contra-revolucionário dos EUA apoiado pelo Dr. Mário Soares. Enfim foi esta vergonhosa ingerência dos EUA nos assuntos que diziam respeito ao nosso povo que o"patriota" Dr. Mário Soares ajudou a acontecer. Hoje vemos o resultado da politica de subserviência dos Governos PS e do PSD, aos ditames do Amigo Americano e da Srª Merkel.