quarta-feira, outubro 29, 2008

Tremideiras...


O Estuário do Tejo e o Algarve são, como se sabe, as duas zonas de maior risco sísmico em Portugal continental (em teoria, porque nestas coisas de terramotos há ainda mais dúvidas que certezas e nunca se sabe quando e onde vai ser o próximo e que estragos irá causar).

Por viver numa zona de elevado risco, sempre me preocupei com o facto de não ver esforços para implementar uma cultura de prevenção. De vez em quando lá aparecem uns folhetos a explicar o que fazer para minimizar riscos e como proceder em caso de terramoto. Mas nunca se viu - eu, pelo menos, nunca vi - acções mais consistentes de sensibilização e alerta.

Pior: não existia, até agora, um plano de emergência que defina a forma como as diversas entidades de protecção civil se entendam e colaborem num cenário de sismo de grande intensidade.

Isso é realmente preocupante.

Mas parece que, finalmente, o plano de emergência está elaborado e, melhor ainda, vai ser testado no terreno.

De acordo com o semanário Sem Mais Jornal (SMJ) - edição de 11 de Outubro, artigo assinado por António Luís - o plano visa "planear o socorro às populações em caso de terramotos de magnitude elevada e encontrar alternativas para o comando de operações para que não haja interrupção no auxílio", conta com meios de 26 municípios e "vai ser testado nos três distritos (Setúbal, Lisboa e Santarém), entre os dias 21 e 23 do próximo mês (Novembro), através de vários simulacros" nos quais "vão estar envolvidas mais de duzentas entidades, além das forças de segurança, bombeiros, entidades de saúde e operadores de transporte".
Podemos, então, começar a ter algumas garantias de que as pessoas e entidades que zelam pela nossa segurança estão agora mais atentas e preparadas para acorrer a cenários de catástrofe?

Talvez. Mas parece que, nesta matéria há ainda muito - muitíssimo - por fazer.
É que, de acordo com o mesmo periódico (SMJ, 25 de Outubro, artigo assinado por Vera Mariano) o plano de emergência não prevê, por exemplo, a possibilidade de a nossa costa ser atingida por um maremoto. Possibilidade que, note-se, é muito plausível em caso de grandes sismos com epicentro numa falha que passa pela zona do Estreito de Gibraltar, ou no Banco de Gorring, a sudoeste do Cabo de São Vicente (e é dessas zonas que têm vindo os grandes terramotos que afectaram o nosso território continental - diz-se que, em 1755 o "tsunami" matou mais pessoas que o terramoto que lhe terá dado origem).

Citado pelo mesmo jornal, um responsável da protecção civil afirma que o plano tem por base um simulador que «não prevê a ocorrência de um tsunami». E porquê? «Os dados introduzidos no simulador estão relacionados com a falha sísmica ao largo do rio Tejo, a qual, geralmente, não provoca tsunami», diz a mesma fonte ao SMJ.

Portanto, se bem entendi - e de acordo com a notícia do SMJ - o plano de emergência sísmica para a região de Lisboa e Vale do Tejo (que inclui a península de Setúbal) baseia-se num estudo sobre a falha do vale inferior do Tejo! Será isso?

E, se for, é caso para ficarmos mais descansados?

Mas tenho outras dúvidas. Por exemplo: quais são as zonas identificadas como as de maior risco,

e porquê.

Recorrendo novamente ao artigo de 11 de Outubro do SMJ: Alcino Marques (comandante do Centro Distrital de Operações de Socorro) refere que "as áreas mais sujeitas a aventuais sismos são as zonas ribeirinhas de Almada, Barreiro e Seixal".

Mas serão só essas?

A propósito (e por via das dúvidas, como se costuma dizer) lembro um trabalho que fiz sobre o assunto, em Maio de 2001, para o mesmo Sem Mais Jornal, no qual os responsáveis da protecção civil apontavam como pontos críticos "a zona industrial do Barreiro e os depósitos de combustível de Almada, entre as localidades de Trafaria e Banática". Suponho que, pelo menos no caso do Barreiro esse risco já não existe.


Mas, porque não tenho informação actual sobre o que, nesse aspecto, existe ou não em Almada, limito-me a reproduzir, sem mais comentários, as páginas do SMJ de 2001.








Para conferir (se for caso disso, para comparar) e, eventualmente, reflectir um bocadinho sobre o assunto.

sábado, outubro 25, 2008

Música Moderna em Almada (retrospectiva, 1995-2008) - exposição na Biblioteca Municipal


Há uma exposição sobre as bandas de "música moderna" almadenses, sobre o Concurso de Música Moderna de Almada (que, a propósito, está a decorrer este fim de semana, no Centro Cultural Juvenil de Santo Amaro - vulgo Casa Amarela - no Laranjeiro) e sobre as "mostras" que estiveram na origem deste concurso. A exposição pode ser visitada, até 31 de Outubro, na sala de audiovisuais do Fórum Municipal Romeu Correia.

(Um aviso aos mais distraídos: não vale a pena irem à procura da sala de audiovisuais do Almada Fórum. Até pode ser que exista uma, mas aqui estou a referir-me ao edifício da Bibiloteca Central de Almada - que, por acaso, fica na mesma praça do Mc Donalds, mas do outro lado, estão a ver?... pois, é aí - e que, por acaso, até se chamava "fórum" antes do outro. Adiante...)

Esta exposição - "13 anos de Música Moderna em Almada: uma retrospectiva" - apresenta cartazes, folhetos e outros materiais informativos e de divulgação das mostras e concursos de "música moderna"; também alguns CDs (maquetes) gravados pelas bandas na década de 90, e recortes de imprensa sobre as diversas edições do certame, desde a "Mostra Zero", em 1995, até à actualidade.



E é aí mesmo que eu entro. Se os meus estimados leitores e/ou visitantes deste blogue esiverem interessados no assunto, e se quiserem passar por lá para dar uma vista de olhos na exposição, vão encontrar cópias de trabalhos que fiz para o semanário Sul Expresso, e para a Revista Sem Mais, com as bandas almadenses, a propósito das edições de 1995 e 1996 da "Mostra". E também uma entrevista com o vereador da Cultura, António Matos, a propósito da primeira edição da Quinzena da Juventude de Almada (1995), da "Mostra Zero" e do apoio que as bandas locais revindicavam (nomeadamente a construção de um "rockódromo" no edifício que hoje é conhecido como "Casa Amarela" - e que é o local onde, com toda a lógica deste mundo, se realiza agora o Concurso de Música Moderna de Almada...).



A propósito: também podem encontrar essa informação, e outras relacionadas com o assunto, no Almada Cultural (por extenso) :




(As fotos que acompanham este texto foram feitas, a pedido meu, pelo Rui Tavares. Visitem o blogue dele, que também vale
muito a pena:http://fotografiacriativaruitavares.blogspot.com/)

quinta-feira, outubro 23, 2008

"A Magia do Vinil", na Oficina da Cultura de Almada



Exposição organizada pela Associação dos Antigos Alunos da Escola Emídio Navarro, com o apoio da Câmara Municipal de Almada.

De 11 a 31 de Outubro, na Oficina da Cultura, em Almada - de 4.ª a domingo no seguinte horário: 14:30H-19H e 20H-22H.

Nota: Retirei este vídeo do canal da Ermelinda Toscano. Como é óbvio, isso não significa que tenha as mesmas opiniões políticas que ela (convém esclarecer...): significa, apenas, que me pareceu uma boa fonte de informação sobre este assunto. E não lhe pedi autorização para publicar aqui estas imagens. (Agora vê lá, Ermelinda, não me "processes", ok?)

quarta-feira, outubro 22, 2008

Chuchurumel - música... portuguesa?...




Ser editor do Almada Cultural dá uma grande trabalheira. Mas tem as suas compensações. Por exemplo, ficar a conhecer projectos tão interessantes como estes Chuchurumel.
Mas, como não há bela sem senão, esta banda que, supostamente, representa « o sabor ancestral das músicas e dos cantos tradicionais do Portugal profundo, revestido da mais inovadora tecnologia e concepção cênica» (sic do press release que recebi), além de concepção "cênica" tem também «un impactante espetáculo visual e sonoro», de acordo com o mesmo press release que, a propósito, tem a seguinte proveniência: (retirado de acordo com a vontade expressa pelos autores do texto referido - ver caixa de comentários).

É só impressão minha, ou Portugal já não é, de fato, una nacion onde se habla portugues? (Tá vendo, cara? )

(E é pena - ou, como dizia o outra, não havia necessidade... - até porque a música é realmente boa... julgo eu...)

segunda-feira, outubro 20, 2008

Ai levavam, levavam!


Aqui em Portugal a malta aborrece-se facilmente.

Ainda há meia dúzia de semanas andava tudo em pânico com a vaga de criminalidade (não sei se devia ter posto isto entre aspas...) mas entretanto rebentou a bronca da grande fraude neo-liberal e pronto, agora anda tudo em pânico com a possibilidade de a crise dos mercados financeiros afectar a economia real e, consequentemente, o mundo entrar em recessão (não sei se devia pôr o mundo entre aspas, mas fica assim...). E o pessoal, que andava todo entretido com o consumo fácil (e desmiolado) ver-se de repente nas lonas...

Bem, mas isso também é matéria um bocado chata. A gente até vai aprendendo umas coisitas de economês e tal, mas, sinceramente, é aborrecido estarmos sempre a ouvir as explicações (entre aspas?...) que nos tentam impingir, não é?

A nossa sorte é que ainda temos por cá uns humoristas a inventar piadas jeitosas. Por exemplo, aquela do orçamento e da pen... Foi muito engraçada, não foi? (Claro que a gente não faz ideia do que é essa treta do orçamento - mas todos sabemos o que é uma pen. Logo, todos nós entendemos a piada, não?)

Então e o Magalhães? É a nova piada nacional, não é? Pelo menos os professores fartaram-se de nos fazer rir com os vídeos que colocaram no Youtube a gozar com o Magalhães.

Quando falo em Magalhães refiro-me ao computador, como é óbvio. Porque o outro, o navegador, a gente sabe lá quem foi o gajo! Mas também, para que é que havíamos de saber? E se não soubermos, acontece o quê? Não vamos levar reguadas, pois não? Isso já não se usa! Nem isso nem qualquer tipo de punição, senhores!

Aliás, nem isso, nem qualquer tipo de exigência, pelos vistos. Exigir é muito mau: deixa as criancinhas traumatizadas.

Embora, no que respeita a este caso dos docentes malcriados, eu até imagino uns certos quadros superiores de uma(s) certa(s) direcções regionais de educação a desejar que o Magalhães tivesse mesmo a "drive" da palmatória. Era dar-lhes umas valentes reguadas, a ver se ganhavam juízo, essa malandragem de professores. A eles e aos jornalistas. Aliás, agora que penso nisso, era principalmente aos jornalistas, esses energúmenos que estão sempre a empolar casos pontuais...


Ai levavam, levavam!!!...

Mas isto sou eu que devo ter uma imaginação muito fértil...

(O cartoon é de Pedro Alves e encontra-se na edição número 4 da revista "Ópio" - Janeiro de 2001. A revista "Ópio" era uma publicação do Conselho Municipal da Juventude de Almada. E, de certa forma, foi a antecessora da actual "P'Almada".)

sexta-feira, outubro 17, 2008

Não percam: Einstein, no Teatro Extremo (Almada)


Este é o último fim de semana de exibições de Einstein, no Teatro Extremo: um grande texto, grande interpretação de Fernando Jorge Lopes.

Muito bom!

Até 19 de Outubro:
Sextas e Sábados 21h30
Domingos 16h

quinta-feira, outubro 16, 2008

Não quero ser pretensioso, mas...


... como há quem ainda não tenha entendido (ou insista em "não entender"...), aqui fica uma breve nota bio-bibliográfica a meu respeito, incluída no livro "Gente de Letras com Vínculo a Almada" (editado em 2005 pela SCALA - Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada), escrito por pessoas respeitáveis e muito mais apresentáveis que eu próprio (Victor Aparício, Diamantino Lourenço, Luís Alves Milheiro, Abrantes Raposo e Artur Vaz). E não, eu não sou associado da SCALA, e não pedi a ninguém que fizesse o favor de me incluir nesse livro...


Isto é, de facto, uma descrição muito breve e incompleta da minha actividade desde o início dos anos 80... Mas tem o mérito de não ter sido escrita por mim. Se a verdade incomoda, desculpem lá qualquer coisinha...

quarta-feira, outubro 15, 2008

Tristezas não pagam dívidas nem dão vitórias...


A selecção portuguesa de futebol (finalista no Euro 2004 e 4ª classificada no Mundial 2006) conseguiu hoje um feito histórico: deixar-se empatar, em "casa"... com a Albânia!!!


No "ranking" da FIFA, Portugal ocupa o décimo lugar; a Albânia o 83º lugar...


Pois é: já não há equipas fáceis, peras doces ou favas contadas. E eu cá até avisei quem me quis ouvir que os albaneses têm feito uns resultados interessantes ultimamente (e não são caso único: veja-se o que têm conseguido selecções como as da Suiça ou do Chipre).


A chatice é que "resultados interessantes" para uma selecção como a da Albânia é, por exemplo, vencer a Eslováquia, golear as Ilhas Feroé ou ganhar numa deslocação a Malta, a Andorra ou a San Marino...


Mas empatar em Portugal?... Com a selecção que está em décimo lugar no "ranking" da FIFA? Com os vice-campeões da Europa? Nããã... Não pode ser!


Mas pronto: corações ao alto, para a próxima será melhor (esfreguemos as mãos...) e, para dar alento, lembremo-nos de feitos passados da nossa selecção valente e imortal. Por exemplo: nos anos 70 e 80 não ganhavamos nada mas jogavamos bem. Eramos a melhor equipa do mundo a jogar sem baliza (ouvi esta definição genial já não me lembro onde...) e os campeões das vitórias morais: não ganhamos mas damos uma lição de futebol...


E, enfim, às vezes até ganhávamos. Como no jogo a que se refere o recorte de jornal, disputado em 1 de Novembro de 1979, quando "onze amigos no Jamor" venceram por 3-1 a Noruega, num apuramento para o Europeu de 1980.


Ou seja: não fizeram mais do que a sua obrigação... embora acabassem por falhar o apuramento (a selecção qualificada foi a da Checoslováquia).


(No site da Federação Portuguesa de Futebol encontram informação sobre todos os jogos de Portugal em fases de apuramento para os campeonatos da Europa:
http://www.fpf.pt/portal/page/portal/PORTAL_FUTEBOL/SELECCOES/CLUBE_PORTUGAL/HISTORIA/camp_europa.pdf)

quarta-feira, outubro 08, 2008

Um livro de Dennis Mc Shade (aliás, Dinis Machado, 1930 - 2008)




Estou a ler um policial português - Mulher e Arma com Guitarra Espanhola - editado em 1968 (há quarenta anos), época em que os lusos autores desse género literário não vendiam e, para terem "audiência", assinavam as suas obras com pseudónimos como Ross Pynn (Roussado Pinto), Dick Haskins (António Andrade de Albuquerque ), ou Dennis Mc Shade (Dinis Machado).


Dennis Mc Shade era um dos meus "ícones literários". No entanto, praticamente não conhecia a sua obra, até há poucos meses. (É uma contradição, pois é... mas talvez um dia vos esclareça sobre o assunto...)


Conhecia passagens do "Molero" (de Diniz Machado), algumas recensões literárias de obras do Mac Shade... até que encontrei este livro no lixo!


Sim, no lixo: há um par de anos atrás, ia eu e o Jorge Feliciano (do Teatro Fórum de Moura) passeando e conversando pelas ruas de Almada, e encontrámos, junto a um contentor de lixo, algus sacos de plástico cheios de livritos de BD, alguns "westerns", textos de apoio para a disciplina de História, Curso Complementar, primeiro ano, de 1974/1975 (Ministério da Educação e Cultura, Secretaria de Estado da Orientação Pedagógica), "O Estrangeiro", de Albert Camus, e alguns policiais da "colecção Rififi" (Editorial Ibis), com títulos como "A Morte Ronda a Enfermaria" (de Ann Cardwell), "O Golpe das Moedas Raras" (de Richard Stark), e este "Mulher e Arma com Guitarra Espanhola".


Eu, que sou um inculto e nunca tinha lido Camus, fiz finca-pé para ficar com o estrangeiro e chamei-lhe um figo: devorei-o, rapidamente e em força. A seguir atirei-me ao Mc Shade mas, por motivos que não vêm agora a propósito, apenas li o início do livro, e os capítulos nove e dez (porque a acção se desenrola num bar de "literatos", chamado As Vinhas da Ira...).


Até que, na passada sexta-feira (3 de Outubro de 2008), veio a triste notícia da morte do Dinis Machado. E eu - má consciência... - lá resolvi, nesse mesmo dia, ler finalmente o livro que encontrei no lixo!

E o livro é tão bom, que quero partilhar convosco alguns excertos.


Então é assim: o protagonista desta estória (Peter Maynard, um assassino profissional com escrúpulos e critérios éticos e estéticos: gosta de música, de poesia, e só aceita contratos se considerar que o "serviço" corresponde a uma causa justa...) é chamado pelo milionário Steve Ricco para matar um outro assassino profissional: George, "o Menino".


E porquê? Porque Ricco, sentindo-se "traído" pela sua amante, Nora, contratara o "Menino" para assassinar a "adúltera". Mas o "Menino" foge com o dinheiro que Ricco lhe adiantara pelo serviço. E agora, o milionário receia que o "Menino" se tenha passado para o outro lado: receia que Nora, tendo conhecimento da tramóia, o tenha contratado para matar Ricco.


Mainard não acredita (porque o "Menino", afinal, também tinha os seus princípios éticos...) e recusa o serviço. Mas fica a matutar no assunto.


Vamos encontrá-lo, Maynard, no seu "habitat natural": a mítica grande maçã americana.


Leiamos o que ele nos diz:



Estávamos em Maio, o mês das flores. Mas em Nova Iorque não há fragrância de flores, há o cheiro dos homens que correm atrás da vida e há o cheiro do cimento que lhes absorve as horas e as ideias, por causa do dinheiro. Naquele momento, eu era um dos poucos novaiorquinos que não corria atrás de coisa alguma: dinheiro, poder, mulheres ou a juventude perdida. E se não fosse a circunstância de ter contra mim o Sindicato do Crime e a Mafia, podia considerar-me do lado de fora da maior competição fratricida do mundo, uma espécie de Jogos Olímpicos do Dólar. Ou uma peça chamada Estados Unidos da América, com milhões de figurantes seguindo a bandeira do Dólar, com dólares desenhados nos olhos, com dólares escondidos no coração, com dólares atravessados na garganta, dias muito dinâmicos e noites muito cansadas, publicidade, bairros de lata e arranha-céus, publicidade, combates de boxe e avenidas a «néon», publicidade, o eterno problema dos negros e «compre hoje mesmo o seu frigorífico», publicidade, mais material de guerra e «sorria como William Holden», publicidade, comprimidos para lembrar e comprimidos para esquecer, publicidade, e a manhã que nasce e tudo recomeça.


O meu último contrato rendera-me bom dinheiro. Partira para Roma seis meses antes. Parto sempre para Roma quando não me sinto seguro. Revejo a Capela Sistina, as garotas da Praça de Espanha, vejo o último Fellini ou o último Rosselini, compro livros que dificilmente encontro nos Estados Unidos, e espero que Johnny Arteleso, meu companheiro de infância e meu único verdadeiro amigo, me diga de Nova Iorque que o tempo está sereno. Então regresso.


(...)


Interessado na história que Ricco lhe contara, e disposto a esclarecer as suas dúvidas sobre o assunto, Maynard procura então o seu "único amigo" e principal informador, Johnny Arteleso, que o leva a um bar "underground" (que, por pura coincidência, me faz lembrar alguns locais que conheci em Almada e arredores, há alguns anos atrás...), onde poderão obter pistas sobre o paradeiro do esquivo George "o Menino". Porém, no desenvolvimento da narrativa, a gente até se esquece dos motivos que os levaram até lá...


(...)


- Como se chama o bar? - perguntei.
- «The Grapes of Wrath» - disse Johnny. - É um bar diferente.
- Diferente de quê?
- Diferente. É tudo.
Johnny fez o carro guinar para a direita e compreendi que existiam zonas de Nova Iorque que eu não sabia existirem. Passámos debaixo de uma espécie de arco de pedra e metemos por uma rua empedrada, com caixotes do lixo e sem candeeiros. Lembrei-me repentinamente da minha mocidade. Foi do cheiro que me chegou às narinas, o cheiro de tudo o que apodrece.

(...)

- O bar - começou a dizer Johnny - não tem que ver com o Sindicato. É um bar estranho. Altamente reservado o direito de admissão. Nem se pode dizer que seja frequentado. Normalmente, «os irados» vivem mais no bar do que o frequentam. Formam uma espécie de grupo.
- E como vamos entrar? - perguntei.
- Dizemos o nome do homem com quem vamos falar. Eles adoptam todos pseudónimos de escritores.
- E com quem é que vamos falar?
- Emílio Zola.

(...)

Entrámos e a porta fechou-se atrás de nós. A primeira coisa que vi foi um grande clarão vermelho. A casa era vermelha, era tudo vermelho: as paredes, o balcão, as poltronas, os sofás (sim, havia sofás).

(...)

- «The Grapes of Wrath» é o inferno para os inocentes - disse o homem loiro, olhando para mim e sorrindo. - Além da sala vermelha, temos também a sala branca e a sala cinzenta, onde espraiamos a ira.

(...)

Um tipo que estava mesmo debaixo do quadro de Soutine, levantou-se e encaminhou-se para a sala. Trazia a mesma merda de sorriso. Cumprimentou-nos com uma pequena vénia e disse:
- Dentro de minutos, na sala cinzenta, Baudelaire recitará um excerto de «As Flores do Mal».
Era pequeno, magríssimo, mal vestido e usava sapatos quarenta e quatro. Tinha cabelo muito ondulado e dentes muito brancos. Foi-se embora, depois de outra vénia.
- Quem é este? - perguntei.
- Marcel Proust - disse Zola. - Todos os dias escreve uma página e depois rasga-a. É um génio. - Olhou para mim com os olhos muito escuros e apertados. - Um
génio. Percebe, insecto?
- Perfeitamente - disse eu, conciliatório. - O Baudelaire já chegou?

(...)
Beeeemmm... peço desculpa por interromper, mas é só para acrescentar que a conversa que se segue não é tão inverosímil como poderá parecer a algumas pessoas
mais distraídas... ou mais... hummm... digamos que "caseiras". Adiante, portanto.

(...)
Coloquei os cotovelos em cima da mesa, olhei em volta e perguntei:
- Mas vocês fazem isto a sério ou a brincar?
- A sério, meu amor - disse a Charlotte (nota do vitorino: Charlotte Bronte) - Não há nada mais sério do que isto. Acreditamos na arte como única forma de aproximação. Acreditamos especialmente na literatura, na força da palavra.
- Pois.
- O facto de tu não entenderes - disse ela - estava previsto nos textos sagrados, como diriam os místicos. És uma besta, meu amor. Não há nada a fazer a isso. Há milhões de bestas lá fora. Nascem, vivem e morrem a fazerem coisas estúpidas. Têm cultos mesquinhos, têm profissões e coisas assim. Alimentam inconscientemente tiranias, políticas e guerras.
- O templo do conhecimento - disse eu, quase para mim próprio.
- Não és estúpido de todo - disse ela, olhando para mim com certa benevolência. - Até já percebi que aprendeste umas coisas e vives no pior dos mundos: o mundo duplo, que é aquele em que morres e aquele que já te foi sugerido.
- Isso é verdade.
Houve uma pausa. O Zola sorria e Johnny olhava para ela com a sua natural timidez, quando alguém discorria sobre um certo número de coisas que lhe escapavam.
- Ali o teu amigo - disse ela, percebendo a timidez de Johnny - está muito mais certo do que tu. Vive de valores errados, mas são os valores que conhece. Um esquimó não sabe o que são os Trópicos, portanto os Trópicos para ele não existem.
- Johnny é um sábio - disse o Zola. - Vive no mundo do crime e é puro como um anjo. O inocente é o que não explica nada.
- Camus - disse eu.
- É exacto - disse ele. - Citei Camus. E depois?
- Depois, nada.
- Muito bem - interrompeu ela, com a mão transparente no ar. - Vive no mundo do crime e não perdeu a inocência. Mas o mundo do crime é apenas um sub-produto do mundo civilizado em que eles vegetam. - E apontou para nós. - Têm as pequenas emoções ilegais, coitadinhos.
- Charlotte - disse o Zola, metendo na boca um cigarro de ponta doirada - não é fácil, seja para quem for, escolher como tu escolhes. Quanto mais para eles. Não têm, sequer, iniciação. E vês o meu caso: existo nos dois mundos.
- Porque não és suficientemente rico - disse ela. - Se tivesses muito dinheiro, o mundo deles não te interessava. De resto, não te interessa: é ali que vais buscar o carvão para alimentar esta fogueira. Ao passo que eles, não. Podiam ser ricos como eu, que sempre seriam o que são: umas doninhas mentais.

(nota do vitorino: por esta altura, já eu me estou a desmanchar a rir... adiante)
Nunca ninguém me tinha chamado doninha. E disse:
- Nunca ninguém me chamou doninha.
- Já era tempo, meu amor - disse ela.
- Qual é a tua profissão?
- Assassino profissional.
- E depois, é parvo. Que é isso de assassino profissional?
- Matar pessoas, Charlotte. Por exemplo: tu zangas-te com o teu amigo Zola, queres ver-te livre dele e pagas-me para eu o matar. E eu mato-o, se achar que o devo fazer. Esqueci-me de dizer que sou um assassino profissional específico. Um assassino profissional com consciência. Um conflito vivo.
Ela olhou para mim com os olhos quase tristes.
- E fazes isso a sério ou a brincar? - perguntou a meia voz.
- Nem eu sei - disse eu, também a meia voz. - Mas vou dizer uma frase bonita: as coisas mais sérias são aquelas que fazemos a brincar.
- Não gosto da frase - disse o Zola. - Não gosto de trapézios literários. Pelo menos, daqueles que são muito evidentes.
Alguém bateu as palmas e uma voz disse:
- Baudelaire vai recitar «As Flores do Mal».
- Venham, meninos - disse a Charlotte. - E tu, meu amor - disse ela para mim - não mates ninguém no meio do recital, é de mau gosto.

O tio Baudelaire estava à entrada da sala que devia ser cinzenta. Sorria. A mesma merda de sorriso.

(...)


E pronto: como é de esperar, segue-se, no livro, um recital de poesia.





Não sei como termina esta estória. Sei que estou deliciado com o mui subtil sentido de humor, e com o génio (sim, génio - palavra que até uso
parcimoniosamente, mas que agora vem a propósito) de Dennis Mc Shade. Sei que vos recomendo vivamente este autor e este livro.



E sei também que quem, se algum de vós tem a triste ideia de me contar como a estória acaba, eu junto uns trocos e contrato o senhor Peter Maynard para um
servicinho muito eticamente - e, sobretudo, literariamente - justificável... Um desses serviços que Maynard não rejeita, capisce?

Se quiserem conhecer mais sobre Dinis Machado - e sobre Dennis McShade - estejam à vontade para consultar:





terça-feira, setembro 30, 2008

Histórias de um "Portugal perigoso"... (1)


Portugal é, tradicionalmente, um país pacato, e a violência a que assistimos nestes últimos meses é algo de novo, sem precedentes, certo?

Errado!

O sentimento de insegurança que se vive actualmente no nosso país não difere muito do que se vivia, por exemplo em 1994 ou, mais ainda em 1996.

Mas a criminalidade está, hoje, mais violenta? Usa métodos nunca antes usados em Portugal?

Talvez existam agora associações criminosas mais organizadas (e profissionalizadas), e é lícito acreditar que esses grupos vêm dos países do Leste europeu e das favelas brasileiras... Pois sim. Mas é bom lembrar que já em 1996 (por exemplo...) se usaram explosivos em atentados à vida das pessoas (este Verão de 2008, utilizaram-se explosivos no assalto a uma carrinha de valores... e foi a histeria que se viu).

O incidente em Alhos Vedros, em que "um grupo de cerca de 30 jovens" (segundo a comunicação social) agrediu indiscriminadamente pessoas num jardim (a polícia "acredita" que se tratou de um ajuste de contas) anuncia um novo tipo de delinquência juvenil?

Não sei, não... Que dizer, então, do que aconteceu entre o final da década de 1980 e o início da década seguinte, quando grupos de "cabeças rapadas" (bandos violentos de extrema-direita) começaram a bater - criteriosamente, pois claro! - em tudo o que era negro, e/ou militante de organizações de esquerda?

E que dizer da reacção, ainda mais violenta (e indiscriminada) dos grupos de jovens negros dos subúrbos que, até meados dos anos 90, espalharam um clima de insegurança - esse bem real - agredindo e roubando... tudo o que não era "negro" (e por isso eu lhes chamei, num artigo do semanário Sul Expresso, "racistas ao contrário")? Em 1992, um grupo de 30 (ou mais) desses jovenzitos suburbanos (aos quais, erradamente, alguns chamavam "gangs") desembarcou no largo de Cacilhas e arrasou tudo o que lhes apareceu à frente e não era "negro"... até que um jovem, português, branco, lhes mostrou que estava vestido com uma camisola do MPLA (eram tempos eleitorais em Angola...) e aí eles pararam: "epá, há um engano!..."

Tem piada, mas não é piada: aconteceu mesmo!

Hoje os larápios recorrem ao "carjacking" (porque, devido ao reforço dos sistemas de segurança, já não conseguem roubar carros a não ser com os proprietários lá dentro)? Pois bem: na década passada, os putos dos subúrbios recorriam mais ao "telemóveljacking", que funcionava mais ou menos assim: estavas sozinho e eras cercado por um bando e ou lhes davas, de livre vontade, o (como eles diziam) "meu telemóvel, que tens no bolso", ou levavas na boca e ficavas na mesma sem o telemóvel! Hoje és assaltado, numa estrada deserta, se tiveres um carro topo de gama?


Opá, há uns poucos anos eras assaltado (em qualquer sítio, e a qualquer hora)... se tivesses um telemóvel (e, de preferência, fosses "branco" - ou "pula", que é uma expressão angolana, derivada de "polaco", e que eles usavam sem saberem porquê...)!

Ah, não acreditam? Acham que estou a exagerar? Acham que é mais uma vitorinice das minhas?

Está bem. Então leiam o que se segue:





Que tal?

Histórias de um "Portugal Perigoso"... (2)

Parece que em 1996, houve uma vaga de crime violento... Muito violento, mesmo.






Passo os olhos pela revista do semanário Expresso de 21 de Setembro de 1996, e leio:

«Ourém, 24 de Agosto: um casal e dois filhos são mortos a tiro de caçadeira; Águas de Moura, 3 de Setembro: uma bomba explode no carro do casal Galego; Fundão, 6 de Setembro: uma bomba deflagra na escola e mata uma funcionária».


E mais: «O assassínio de toda a família de Acácio P., na madrugada de sábado, 24 de Agosto passado, em Ourém, Quinta da Granja, revestiu-se de uma tal crueza que um investigador da PJ não hesitou em abandonar a habitual circunspecção policial para declarar que os crimes «foram cometidos num quadro de grande dramatismo e demonstrando grande vileza».

(texto do jornalista Rui Pereira, na mencionada publicação)







O artigo citado (Três crimes da 'loucura normal') dramatiza - excessivamente, para o meu gosto, mas enfim... - crimes vionetos ocorridos nesse Verão de 1996... com recurso a caçadeiras, e (surpresa?) bombas (uma num carro, outra à porta de uma escola!), todos eles (convém esclarecer) cometidos por cidadãos portugueses!


Mas três crimes, por muito violentos que sejam, não nos dão o direito de dizer que estamos (estivemos) perante uma "vaga de criminalidade violenta". O sentimento de insegurança nem sempre corresponde a um aumento real dessa criminalidade.


A propósito (ainda segundo a revista do Expresso) o ano de 1994 (doias anos antes, portanto) foi muito mauzinho nesse aspecto da criminalidade violenta - as pessoas é que já não se lembravam.
Passo a citar:













"A sangue frio" - crimes do Verão de 1996, segundo a revista do Expresso


Motivos insondáveis e violência desproporcionada são comuns à maior parte dos crimes cuja coincidência no tempo põe em causa a segurança em geral


Um pai, que há muito se mostrava desavindo com o filho, matou-o por ter tropeçado nos seus pés, quando se encontrava num café. Um marido matou a mulher tetraplégica, com gás asfixiante, para se livrar dela. Um irmão e uma irmã, septuagenários, viviam sós e o primeiro considerou que o melhor para ambos era pôr fim à vida - matou a irmã e pretendia de seguida suicidar-se, tendo mesmo convocado a imprensa para um hotel, com objectivo de se explicar. Os três casos passaram-se em 1994 e tiveram lugar de destaque nas páginas de jornais e nas televisões. Grosso modo, analisadas as motivações e as circunstâncias, encontrar-se-ão mais afinidades que diferenças, em relação à recente onda de homicídios (54, entre os dias 1 de Julho e 9 de Setembro) - de 1996.


Talvez a primeira e principal diferença seja a de os crimes de 1994 estarem já esquecidos. Pelo contrário, a memória colectiva ainda está impressionada e tem bem presentes o assassínio de uma família inteira, a morte de um casal à bomba, ou a do jovem de 17 anos que se recusou a entregar 20 contos(...). Os motivos são fúteis e a violência é desproporcionada, nalguns casos refinada mesmo, com apreciável grau de planeamento e concepção. Impressionante é também a coincidência temporal. Mas sabe-se que tal não é inédito: o mês de Janeiro deste ano (1996) registou o mesmo número de crimes (24) que Agosto. Vinte e quatro foram também os homicídios verificados em Maio, Novembro e Dezembro de 1995. E em Março de 1994 o número foi ainda mais elevado: trinta e cinco casos consumados.



(Texto de Ana Paula Azevedo, revista do Expresso, 21 de Setembro de 1996)


Em que ficamos, então?

Que tal espreitarmos o que se dizia (escrevia) sobre a criminalidade em Portugal, e o sentimento de insegurança, nesse ano de 1994?

Histórias de um "Portugal perigoso"... (3)

O "Grande Atlas do Portugal Perigoso" - jornal Público, Junho de 1994




Em 1994 havia entre a população portuguesa um sentimento de insegurança...


Estávamos no início de uma época de prosperidade económica (recebíamos muitos fundos comunitários, havia muito dinheiro a circular) e nós, portuguesitos, entrámos na onda do novo-riquismo, fartámo-nos de comprar telemóveis, computadores e roupas de marca (iam longe os anos 80, e a promessa de frigoríficos em todos os lares portugueses...). Ainda havia por aí bandos de "skinheads" a arranjar confusões, mas já tinhamos enxotado os negros e outros pobretanas para bairros periféricos e... Ops, esses mesmo começavam a revoltar-se, e a querer, também eles, telemóveis e roupa de marca!...


A maneira mais fácil (ou a única?...) de obter essas coisas, era roubar... E se fosse roubar os "pulas", melhor ainda: vingávamos 500 anos de opressão e afirmávamos melhor as nossas raízes africanas, check it out, yo! Tá-se well?


(Se não perceberam a ironia, azar!)


Mas parece que, no meio de toda esta agitação social, os portugueses - entretidos como estavam com os seus telelés, pcs e vcrs - tinham medo, sim, mas era dos "drogados"!


Isto a fazer fé no que se afirmava no jornal Público, em 19 de Junho de 1994 (e que, não desfazendo, foi talvez a primeira tentativa feita - nessa época - por um jornal português para recolher, de forma sistematizada, dados sobre a criminalidade ou, mais propriamente, o sentimento de insegurança).


Cito:


Em Portugal a noção de local perigoso está quase sempre associada à droga. Bairros e ruas onde se faz tráfico, ou que são simplesmente pontos de encontro de toxicodependentes, aparecem em quase metade da lista de locais que o Público seleccionou a nível nacional, através de um extenso inquérito em todo o país a um grupo de onze profissões.


Neste Grande Atlas do Portugal Perigoso - que destaca os pontos que aparecem mais vezes nas estatísticas do crime mas também o simples medo que certos locais promovem a quem a eles se desloca em trabalho - Lisboa vem à frente como a cidade mais perigosa. O que não espanta, num país apesar de tudo sereno, pequeno, em que as grandes cidades são raras.


Fora da capital há evidentemente locais perigosos, onde as probabilidades de haver assaltos, furtos a pessoas ou propriedades, e ofensas corporais são maiores. Mas dos 305 concelhos portugueses só em 34 apareceram lugares onde as profissões inquiridas pelo Público - Polícias (PJ, PSP e GNR), carteiros, médicos de serviço nocturno ao domicílio, assitentes sociais, bombeiros, funcionários dos telefones, transportes (públicos e taxistas) e serviços camarários - sentem receio.


Um receio que, apesar de tudo, segundo dizem, não os impede de entrar em praticamente nenhum lugar, mesmo os de pior nome. A excepção são os taxistas, da Grande Lisboa, que explicitam várias zonas onde pura e simplesmente não entram ou, se o fazem, é porque realizaram, com o cliente, acordos prévios que chegam a incluir garantias bancárias. É o caso do interior do Casal Ventoso, um dos bairros emblemáticos do tráfico de droga em Lisboa.


O espanto de muitos profissionais perante a pergunta do Público - "Quais são os locais mais perigosos em termos de crime na região em que trabalha?" - e a reacção de vários comandos distritais de polícia, que quase se ofenderam quando perguntámos "Têm medo de entrar em algum lugar?", revela a situação de pacatez nacional e explica, em parte, a ausência de várias capitais de distrito dos mapas destas páginas.


(...)


Em relação a Lisboa (...) "a confusão ajuda os ladrões. É quase mais fácil assaltar uma casa na Av. Alexandre Herculano (transversal da Av. Liberdade, centro de Lisboa) do que um apartamento em Carnaxide" (periferia de Lisboa), disse ao Público Francisco Pereira Calvão, cordenador para a área dos furtos e roubos da Polícia Judiciária.


Aliás, para a PJ é evidente que quem estiver às dez da noite na zona do Marquês de Pombal - quem for por exemplo passear para o Parque Eduardo VII, "e ainda há muitas pesoas que vão namorar para lá" - terá muito mais hipóteses de ser agredido ou assaltado do que às cinco da manhã em muitos dos locais de capitais ou vilas de província que, no contexto local, são olhados com muita desconfiança.


À cabeça de um Atlas do Portugal Perigoso deveriam estar indicados os locais onde há mais homicídios e violações. Mas o homicídio, por exemplo, "não escolhe lugar nem hora" que permitam apontar com o dedo os sítios onde há mais ocorrências, como diz o inspector João de Sousa, de departamento de homicídios e ofensas corporais da Polícia Judiciária. Restam-nos portanto as estatísticas nacionais: em 1993 houve 83 homicídios (33 no primeiro semestre, 50 no segundo), e entre 1 de Janeiro e 31 de Maio, 49.


(...)


Geograficamente, tornou-se óbvio que o crime de rua que implica violência, os assaltos a casa e lojas, é mais comum no litoral que no interior do país. Mas também é no litoral que estão concentrados a maior parte dos portugueses, muitos deles a habitar bairros periféricos e, portanto, mais pobres.


"O Grande Atlas do Portugal Perigoso"jornal Público, 19 de Junho de 1994Texto de Bárbara Dias e Rui Cardoso Martins, com David Pontes, Luís Filipe Sebastião e os correspondentes do Público que encontraram zonas de relevo nos respectivos concelhos e distritos: Alexandrina Baptista, Santarém; Carlos Camponez, Leiria; Carlos Dias, Beja; Francisco Fonseca, Barcelos; Graça Barbosa Ribeiro, Coimbra; Idálio Revez, Faro; Jorge Talixa, Vila Franca de Xira; José Parreira, Peniche; Luís Paulo Rodrigues, Famalicão; Manuel Teixeira, Matosinhos; Pedro Garcias, Vila Real; Raul Oliveira, Sines; Raul Tavares, Setúbal; Tolentino da Nóbrega, Funchal.


O método do Atlas


O Público fez uma pergunta - "Quais são os locais mais perigosos em termos de crime na região em que trabalha?" - a um grupo de profissões de Norte a Sul de Portugal, Madeira e Açores. Polícias (PJ, PSP e GNR), carteiros, médicos de serviço nocturno e ao domicílio, assitentes sociais, bombeiros, funcionários dos telefones, transportes (públicos e taxistas) e serviços camarários foram as profissões escolhidas por serem aquelas que mais directamente fazem deslocações, constantes, aos vários pontos das cidades e vilas portuguesas, independentemente de serem ou não receados.


O levantamento feito no terreno pelos jornalistas merecia, também ele, ser objecto de estudo.


Veja-se, por exemplo, o caso de Almada, que aparece com 15 entradas (o maior número de referências nesse "atlas"), enquanto, por exemplo, Setúbal é referenciada apenas 9 vezes. Eu não me sentia mais inseguro no jardim da Cova da Piedade (Almada) que na Avenida Luisa Todi (Setúbal)... E não sei o que são as "zonas escuras do Bairro do Pica Pau Amarelo": seriam as traseiras do prédio onde eu morava, no Bairro Amarelo? Mas, nesse caso, estávamos muito longe do Hospital Garcia de Orta... (Suponho que o jornalista que recolheu os dados se estaria a referir ao bairro do Valdeão... ou ao Bairro do Matadouro... ou ao Bairro Cor de Rosa... ou mesmo ao Pragal - pois são essas as zonas residenciais mais próximas do Hospital).


Sem mais comentários, aqui fica a "caracterização" das "zonas problemáticas" de Almada, segundo o Público, em 1994:


Almada
População: 151.783Desemprego: 10,8% (dados de 1994, note-se)


Zonas escuras do Bairro do Pica Pau Amarelo
Problema: Junto às traseiras do Hospital Garcia de Orta são comuns as desavenças, talvez por seu um local de tráfico de droga.


Torcatas e Pragal
Problemas: Local de concentração de consumidores de droga. Zona de assaltos também, onde os taxistas, por exemplo, não gostam de ir.


Mata de S. António, Costa da Caparica
Problemas: Zona clandestina densamente aglomerada. A própria polícia tem medo de lá entrar. Não raras vezes, embora sem eco público, verificam-se confrontos entre "gangs" de negros e cabeças rapadas.


Jardim da Cova da Piedade
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes.


Barrocas, Cova da Piedade
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos. Os taxistas sentem-se inseguros.


Quinta do Rato e Bairro da Fundação, Laranjeiro
Problemas: idem


Quinta de Sto António e Bairro de S. João, Feijó
Problemas: idem


Bairro Fundo Fomento, Vale Figueira
Problemas: idem


Charneca e Vila Nova da Caparica
Problemas: Assaltos a carros e vivendas. Os taxistas sentem-se inseguros.


Bairro Campo da Bola, na Costa de Caparica, zonas de praia na própria vila, Marisol e zona da Fonte da Telha
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos à mão armada. Os taxistas sentem-se inseguros.


S. Pedro da Trafaria, zona 2º Torrão
Problemas: Droga e assaltos. Os taxistas sentem-se inseguros.


Ruelas de acesso ao cais de embarque, Cacilhas
Problemas: Entreposto fluvial. Zona de chegada e partida de "mulheres do alterno" e "utentes" do "bas-fond".


Imediações do Asilo 28 de Maio, Porto Brandão.
Problemas: Criminalidade de todo o tipo, com predominância para o tráfico de droga.


Cova do Vapor, Trafaria
Problemas: Os taxistas receiam trabalhar naquela zona.
Bairro Amarelo, Monte da Caparica
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Histórias do "Portugal perigoso" (4)

Portugal perigoso? Onda de violência?
Perigoso mesmo era andar na rua em Almada, nos anos 90!

Recapitulando: ainda que hoje exista um novo tipo de criminalidade (não o nego: é evidente), eu não me sinto mais inseguro.

Sei que me arrisco a estar no local errado, à hora errada, e a ser vítima de algum criminoso mais violento (ou mais "profissional"). Mas, nos anos 90, esse risco era constante: bastava andar na rua, a partir do início da noite, ou apanhar um autocarro para a Costa de Caparica (ou qualquer outro, que passasse pela periferia de Almada) para correr o risco de ser assaltado por um bando de imbecis dos subúrbios.

Os autocarros eram, nesse tempo uma espécie de Kinder Surpresa (passe a publicidade): não sabiamos o que ía lá dentro antes de lá entrarmos. E às vezes a "surpresa" era pancadaria e assaltos.

O quinzenário Sul Expresso tentou, nesses tempos turbolentos, perceber que raio se estava a passar. E, entre 1995 e 1996 produzimos as seguintes peças jornalísticas - assinadas pelos jornalistas António Vitorino e Marina Caldas:








Agora que essa delinquênca juvenil quase deixou de existir (veja-se o que diz o mais recente relatório de segurança interna...), seria talvez interessante - e útil - tentar entender como (com que recursos, com que métodos...) o assunto foi trabalhado pelas intituições locais e nacionais, desde os anos 90 até à actualidade.


Mas nem sempre a comunicação social tenta encontrar explicações para os factos. É triste, existe, não é fado, mas é verdade...

Histórias do "Portugal Perigoso" (5)

Não digam que ele não avisou...

(Em Setembro de 1996, o criminologista, ex-agente da Polícia Judiciária - e actual presidente de Câmara - Francisco Moita Flores analisava assim a "onda de violência" desse ano e a cobertura que lhe foi prestada pelos "media". Um texto muitissimo actual em 2008 - surpreendentemente, ou talvez não...)




O triste espectáculo da violência

As cadeias de televisão, os jornais, os poderes instituídos, sabem como a gestão das emoções faz crescer audiências, aumenta a tiragem de jornais e é um belíssimo investimento para a angariação de votos. Mostrá-la, discuti-la, não tem como finalidade explicar ou compreender mas seduzir pelo medo, provocar a debilidade e a insegurança que faz pender os favores dos destinatários deste espectáculo mediático para o lado de quem melhor demonstrar o poder de dominar, ainda que de forma aparente, a morte e a violência.

Foi assim que o crime, enquanto espectáculo mediático, ganhou carta de alforria. Os noticiários fornecem-no em doses concentradas e com uma tal unidade que durante 30 minutos desfilam ante os nossos olhos a morte do árbitro em Portugal, seguido do indivíduo que matou crianças na Escócia, para nos aparecer o homem que, na Austrália, assassinou não sei quantos cidadãos e, logo, a quadrilha de pedófilos e homicidas belgas, para se misturar tudo com os ataques ao Iraque, a continuação da morte e devastação na Joguslávia e terminar com cenas do julgamento do bando do multibanco ou as últimas notícias do extripador de Lisboa.
Postas as coisas nestes termos, parece excessivo, mas não o será para quem acompanhar com regularidade os noticiários televisivos. Podem variar os ingredientes, mas o caldo tem sempre o mesmo objectivo - entregar emoções, inquietar, fazer saltar a lágrima, a indignação, o horror e, sobretudo, o medo.


Perdoai-me não alinhar neste coral de histerismo mediático, mas os acontecimentos das últimas semanas são uma manifestação natural da evolução da criminalidade em Portugal.
Será que devemos atribuir à Comunicação Social em geral e às cadeias de televisão em particular a maior ou, pelo menos, significativa parcela de responsabilidade nesta apetência desmedida - diria quase histérica - para a exibição da violência e consequente especulação em torno de fenómenos artificiais? Pensamos que não. Ou melhor, pensamos que a sua parcela de responsabilidade, enquanto emissor, é menor que a nossa, enquanto receptores.

(...)

Há uma interacção paradoxal entre poder e Comunicação Social. Entre a exigência da racionalidade e a manipulação da afectividade. O poder, para se afirmar, precisa da mediatização. Tal facto pressupõe a transferência de territórios. O espectáculo substituiu-se à explicação demopédica, a propaganda substituiu a informação.

(...)

Não é possível desejar viver numa sociedade de risco e, a seguir, querer anular a própria ideia de risco. Reforçar corpos de segurança, sejam eles a PSP, a segurança social ou a segurança rodoviária, é apenas tomar a nuvem por Juno, escamotear a essência dos fenómenos perante as realidades nacionais que se desenvolvem em rápida mutação.

(...)

Milhares de polícias não modificam o carácter funcionalista das grandes metrópoles, não poderão combater o individualismo feroz que emerge do aprofundamento das políticas neoliberais, nem reduzirão os pólos de tensão, as manifestações de agressividade, o «stress» que se desenvolve nas grandes concentrações demo-urbanísticas, e que aceleram a morte por enfarte, a morte por acidentes de viação, a morte por acção criminosa.

(...)

Cada vez que recomeça o folhetim da insegurança, os oradores oficiais desconhecem que estão a falar praticamente de duas grandes regiões metropolitanas, para as confundir e identificar com o País.

(...)

Começa a chegar a hora de ir avisando os milhões de sedentos de emoção que, no campo meramente criminal, o futuro que nos espera promete mais altas taxas de criminalidade, maior violência nas acções, crescente intensidade no consumo de psicotrópicos. Já não é nenhuma novidade.

(...)

A retenção do fenómeno só é possível com medidas que invistam no reforço dos laços psico-afectivos, com um forte empenho na formação escolar, na educação cívica, na apreensão dos valores mais profundos da cultura humanista, com a anulação do sentido da ameaça e do risco, no que respeita à situação económica e social das poçulações.

Francisco Moita Flores,
artigo publicado na revista do Expresso,
em 21 de Setembro de 1996




sexta-feira, setembro 26, 2008

Eu sabia!


Na sequência da requalificação urbana, proporcionada pelas obras no "espaço-canal" do Metro Sul do Tejo, o comércio tradicional almadense vai criar uma marca própria «que nos defina e nos proteja, e que ofereça ao grande público uma identificação maior», como afirma à jornalista Cristina Isabel Pereira, do Jornal da Região, o presidente da delegação de Almada da Associação de Comércio e Serviços do Distrito de Setúbal, Luís Henriques.

Apetece-me dizer: eu sabia! As minhas fontes já me tinham dito!
E não estou a brincar: é mesmo a sério!
Tinha esta informação comigo desde Março (há seis meses, portanto), tal como tinha outras (por exemplo, uma longa entrevista com António Neves, presidente da Junta de Freguesia da Costa de Caparica, na qual o autarca afirma que se vai candidatar a mais um mandato, findo o qual, possivelmente, deixará o cargo, com a obra do Polis já concluída...) - matéria jornalística que, infelizmente, não tive oportunidade para publicar antes do Jornal da Região o fazer (e agora, nem antes nem depois).

A concorrência é uma coisa porreira, pá: faz-nos ter pontos de referência para melhorar o nosso próprio trabalho.

Mas, para que isso aconteça, é preciso ter onde publicar o nosso trabalho. Não é?...

terça-feira, setembro 23, 2008

Preparados para mais uma Feira do Fanzine?


Almada tem, desde os anos 90 (do século passado) uma mostra internacional de publicações alternativas: a Feira do Fanzine.

Foi, aliás, durante uma das primeiras edições do evento que surgiu pela primeira vez o poezine Debaixo do Bulcão - publicação de poesia criada por este vosso amigo (com a ajuda de outros amigos deste vosso amigo, como é óbvio...), a qual ainda hoje continua a ser editada (blog: http://debaixodobulcao.blogspot.com/).

A próxima Feira do Fanzine realiza-se já em Novembro. Mas atenção, que está quase a terminar o prazo para entrega de trabalhos!

«Enviem as publicações para a grande exposição de fanzines e publicações alternativas vindas de todo o mundo juntamente com a ficha de inscrição em anexo por via postal, até ao dia 3 de Outubro.
Não se esqueçam de pedir a ficha de inscrição e o regulamento para fanzine2008@gmail

Almada Fashion no Almada Cultural: reportagem de Bruno Martins...


Em nome do comércio local, o Complexo Desportivo de Almada recebeu, no sábado, a edição do Almada Fashion’2008. Impedida a realização na Praça da Liberdade, devido às condições meteorológicas, o evento teve, contudo, casa cheia.

Reportagem e fotos de Bruno Rodrigues Martins:

segunda-feira, setembro 22, 2008

Dia sem carros? Boa! E para quando a cidade sem carros?


Hoje, Dia Europeu Sem Carros, passei pela "zona pedonal" da cidade de Almada, entre as praças Gil Vicente e São João Baptista - zona que estava, como é costume, invadida por carros.

Acontece que a "zona pedonal" até está devidamente assinalada, com um painel que avisa ser aquela via apenas para veículos autorizados (por exemplo: residentes e viaturas de emergência).

Mas parece que, em Almada, todos os condutores se consideram "autorizados"! Será isso?

a propósito...

segunda-feira, setembro 15, 2008

Jornalista procura trabalho e/ou emprego


Caros amigos:


Terminei a minha colaboração com o jornal Notícias da Zona e, consequentemente, encontro-me desempregado e disponível para trabalhar em qualquer área da comunicação social (pois é essa a área profissional em que exerço a minha actividade desde o início da década de '90).


Tenho vasta experiência de trabalho na imprensa regional (rádio entre 1987 e 1995; jornais e revistas desde 1995), e em outras actividades relacionadas com comunicação social, animação cultural (e afins...) como poderão confirmar consultando a barra lateral deste blogue (mas leiam mesmo: não vejam só os bonecos, ok?)

Aliás, foi essa vasta experiência (e, pelos vistos, alguma competência, até) que fez com que o director do mencionado jornal me convidasse para assumir uma eventual futura edição desse quinzenário noconcelho de Almada.

Mas as coisas nem sempre correm como a gente deseja, não é?...

(Na foto: sim, sou eu, na redacção do Notícias da Zona, em Abril deste ano, fotografado pela jornalista Catarina Cabral.)

terça-feira, setembro 09, 2008

Festa do Avante 2008 - reportagem no Almada Cultural (por extenso)


Já estão disponíveis imagens da Festa do Avante 2008 no Almada Cultural por extenso. Fotos (minhas) e reportagem (de Bruno Rodrigues Martins), aqui:

http://almada-cultural2.blogspot.com/search/label/Festa%20do%20Avante%202008

quinta-feira, setembro 04, 2008

É assim a Festa (do Avante)!!!

O grande final da Festa do Avante de 2007.

Mais vídeos no Canal Bulcânico:

http://www.youtube.com/bulcanico

O verdadeiro espírito da Festa!


Todos os anos, quando se aproximam os 3 dias da Festa do Avante, ouço as mesmas conversas: «que o programa deste ano está fraco, não há nada de jeito, nem sei se vale a pena ir», etc. etc. etc.

Claro que, muitas das pessoas que dizem isso acabam mesmo por ir. E porquê?
Porque, meus amigos, a Festa do Avante não é um festival de verão (já existia muito antes, e há-de continuar a existir quando esse formato de entretenimento já tiver passado de moda), não é um pacote de concertos de bandas mais ou menos consagradas - é muito mais que isso!

Quem lá foi sabe muito bem a que me refiro: esse "espírito da Festa (do Avante!)" que só existe ali, e em mais nenhum evento ou local. A quem não conhece, eu não sou capaz de explicar. Só mesmoexperimentando...

A Festa é (como se tem dito muitas vezes) um espaço de encontros, e de reencontros. Mas é, sobretudo, uma ocasião e uma oportunidade para a descoberta: de músicas, de modos de ser, de gastronomias... e de lutas e experiências políticas, como é óbvio!

E quanto à suposta "pobreza" da programação dos palcos... lembro-me, por exemplo, de um grande concerto (no Alto da Ajuda, no limiar dos anos 80) com uns desconhecidos que se chamavam Dexy's Midnight Runners; ou de outro grande concerto, de uma brasileira que por cá (quase) ninguém conhecia, chamada Simone de Oliveira... Ou de um tal Billy Bragg que, já no final dessa década, encheu (sozinho com a sua guitarra acústica) o enorme palco de Loures...

Eu sei que, usando este tom tão propagandístico, nem pareço um jornalista. Mas que querem? Eu conheço a Festa do Avante desde 1977 (no Jamor) e, durante 20 anos, não falhei uma... Não posso, portanto, ficar indiferente ao maior evento social, cultural e político que se realiza no nosso país.

Este ano espero estar lá em serviço, como jornalista. Aí, a conversa será diferente. Como se dizia no "meu tempo", trabalho é trabalho, conhaque é conhaque! (Embora, às vezes, seja difícil saber onde acaba o trabalho e começa o conhaque...)

Até para a semana! E (para os que lá forem) boa festa!

Parece que os anos 8o estão na moda...


... por isso mesmo aproveito a "moda" para partilhar convosco alguns grafismos de edições antigas da Festa do Avante. São as EP (entrada permanente - bilhete para os 3 dias da festa) de 1981, 1982, 1984 e 1985, e um cartão de participante, de 1985, quando lá estive a dar uma ajuda no stand do Centro Cultural de Almada.









quarta-feira, setembro 03, 2008

Armindo Rodrigues (1904 - 1993) na Festa do Avante de 2008


A Festa do Avante evoca este ano um dos mais interessantes - e mais esquecidos - poetas portugueses do século 20: Armindo Rodrigues.

Escritor de um lirismo viril e rigoroso, militante do PCP e lutador anti-fascista... Uma das minhas principais influências poéticas...

Tive a sorte de o ver recitar poemas seus em Almada, no início da década de 1980 (num festival de poesia em que eu tive também o atrevimento de participar... mas isso é história para contar noutra ocasião).


Eis aqui alguns dos seus poemas:



Vem já de longe o moderno,
Mas o antigo vem mais.
Por isso o olhar mais terno
É para as coisas banais.
O que é antigo é seguro.
O que é moderno amedronta.
E ao puro chama-se impuro
Porque a impureza afronta.
Quem é mais crê que novo cria
Que mais faz que repetir?
Nova é só a alegria
De imaginar descobrir.


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Liberdade

Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.

É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.


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Prisão de Caxias, 1949

Como fantasmas, sem repouso,
no corredor andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite.
Nuvens vazias lhes pesam.
Um vinho azedo os corrompe.
O corredor é longo e estreito
longo e sujo,longo e escuro.
Do tecto baixo as lâmpadas exaustas
dir-se-ia que de remorsos lhe põem mais sombras
na atmosfera sombria de remorso.
Só nas salas, fechados, os presos falam,
os presos riem,os presos cantam.
Não há remorso na lembrança deles.
Na desgraça deles não há remorso.
O remorso ficou lá fora,
no corredor onde andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite,
a manchar de vergonha a vida
e a fazer nojo aos escarradores
alinhados contra a parede.
O remorso ficou lá fora,
na felicidade e na cobardia
dos que se alheiam do combate.

Na minha sala há treze presos.
Treze são as salas que dão
para o corredor onde andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite.
Maldita seja a maldição
com que à honra se responde.
Cada sala tem uma janela
que nem finge de fingimento,
porque além da barreira das grades
em frente um talude nos cobre
a despreocupação de ave
do horizonte desdobrado,
e lá fora andam outros guardas,
de carabina ao ombro, dia e noite.

Na minha sala há treze presos,
com treze protestos erguidos,
mas erguida uma só bandeira.
São criminosos de querer,
num tempo torpe de prisões,
as torpes prisões arrasadas.
Os outros presos, nas outras salas,
sangram das mesmas feridas,
ardem de desejo igual.
Estão aqui presos, mas são livres,
porque neles a justiça
sopra como os vendavais.
A prisão ficou lá fora,
nos felizes e nos cobardes.


Armindo Rodrigues




E também no Almada Cultural por extenso (citado do semanário Avante):