
O semanário Jornal D’Hoje foi um projecto do jornalista Rui Vasco Neto, feito em Portalegre, na transição do século 20 para o século 21.
Irreverente e desafiador dos poderes instituídos – à imagem do seu criador, aliás – o Jornal D’Hoje tinha tudo para ser um fracasso editorial, numa terra tão conservadora como era então a “capital do Norte Alentejano”.
E, como se previa (e como muitos caciques locais desejaram, e trabalharam para

tal), acabou mesmo por ser um fracasso, em termos de viabilidade editorial. Mas foi, também, um grande exemplo do que deve ser a comunicação social local: informativa, atenta, interveniente, sem cedências nem compromissos.
Um jornal que, como se costuma dizer (e porque era feito à imagem do seu criador, repito), chamava os bois pelos nomes. Ou seja: fazia jornalismo. Mesmo correndo o risco de chatear alguns poderes, locais, regionais, ou mesmo

nacionais.E era mesmo isso que se pretendia: dizer as verdades (revelá-las) sobre um dois distritos portugueses mais deprimidos e subdesenvolvidos (não porque “não gostássemos de Portalegre”- e, portanto, só tinhamos era que “voltar para a nossa terra”, como nos foi sugerido várias vezes pelos arautos da mentalidade “xenófoba” local – mas apenas porque era esse o âmbito territorial do periódico em questão). E propunha-mo-nos a revelar essas verdades, doesse a quem doesse.
Ora leiam este excerto do editorial do número zero (9 de Dezembro de 1999), assinado pelo director, Rui Vasco Neto:
«Em Portugal já não se usam palavras. Usam-se meias palavras para tudo, do insulto ao elogio, da ordem à sugestão.
A palavra de ordem é não hostilizar, contemporizar, dialogar, negociar, enganar, se for preciso! – mas não agitar.(...)
Ser politicamente correcto é, nos dias de hoje, tão imprescindível como o telemóvel. Quem não é não está contactável. Pior: não é contactável.(...)
Todas as suas perguntas têm cabimento no JornalD’Hoje. A nossa função é essa, perguntar e obter resposta às perguntas. E quando os senhores que se sentam na coisa pública como se fosse só deles torcerem o público nariz de desagrado pela insistência (...) há sempre uns que se calam.
Gostaria de dizer aos leitores deste jornal que há sempre uns quantos outros que perguntam outra vez o que querem saber e mais outra e outra (...) até à resposta final. E que depois vão confirmar a resposta.
Têm um nome, esses. Chamam-se jornalistas. Bem vindo ao mundo da informação regional, com qualidade nacional.»

Claro que, com esta declaração de intenções, o Jornal D’Hoje estava, logo à nascença, em “guerra” com os poderes então instituídos no “norte alentejano”. E que poderes eram esses? Bem, deixa cá ver se me lembro... eram 10 concelhos dominados pelo Partido Socialista (que estava então também no Governo do país), em 15 dos que compõem o distrito de Portalegre (os outros 5 eram “repartidos” pela CDU e pelo PSD – mas o PS tinha os mais importantes: Portalegre, Elvas, Ponte de Sôr, Campo Maior...). E não era apenas a “proporção” ou “desproporção”de forças que estava ali em causa: era uma lógica de concentração de poderes, de hegemonia. E de asfixiamento das vozes eventualmente rebeldes.
Em Portalegre... fiéis ao objectivo de fazer informação rigorosa, sem cedências e ouvido sempre todas as partes interessadas num determinado assunto... sempre que falávamos com a “oposição”, tentávamos ouvir, também, a maioria (entenda-se, os autarcas do PS). Mas era, precisamente, essa maioria (com a própria Câmara de Portalegre à cabeça) quem colocava obstáculos ao nosso dever de informar.
Era habitual eu terminar os meus trabalhos com frases como “o Jornal D’Hoje tentou ouvir a Câmara de Portalegre, que não se mostrou disponível para prestar declarações”, ou então “na Câmara de Portalegre, disseram-nos que a única pessoa autorizada a falar sobre o assunto seria o presidente, mas só marcando entrevista, e o senhor presidente não estava disponível para entrevistas”.
Não acreditam? Julgam que estou a exagerar?Leiam, então, a seguinte história real:

Ou esta, não menos verdadeira:

Pois: era assim mesmo que as coisas se passavam!
“Desculpem lá, mas é que o senhor presidente não fala para um certo órgão de comunicação social local”. E não falava, sobre nada! Ou quase: certa noite, depois nós, Jornal D’Hoje, termos noticiado, em exclusivo uma “bronca” política que tinha acontecido na Associação de Municípios do Norte Alentejano (notícia escrita por mim, a partir de fontes que não podia identificar – mas que tinhas estado nessa reunião), mandámos um jornalista esperar o senhor presidente à porta dos Paços do Conselho. E porquê? Porque ele tinha apresentado a demiossão do cargo que ocupava na Associação de Municípios, e nós julgámos que isso devia ser explicado... aos munícipes. Ouvindo a versão que nos tinha chegado da “oposição” e, depois, o que tinha o senhor presidente a dizer sobre o mesmo

assunto.
Era essa a nossa obrigação, enquanto jornalistas.
E, se não foi a primeira vez (não tenho a certeza), foi certamente a última que o senhor presidente falou para o Jornal D’Hoje. Vejam lá o descaramento desses jornalistas (que, ainda por cima, nem são de cá) a querer incomodar o senhor presidente com perguntas incómodas!
Enfim, não “incomodávamos” só o presidente da Câmara de Portalegre.
Também “chateámos” um bocado outros detentores
de cargos políticos, como, por exemplo... ora deixa cá ver... pois, o senhor Governador Civil!... (Uma parte dessa história já foi contada
aqui.) E, escusado será dizer – hummm... será mesmo escusado?... – que não nos movia qualquer intuito de “perseguição” a esses titulares de cargos públicos. Era, digo-vos mais uma vez, a nossa obrigação, enquanto jornalistas: informar, fazer serviço público.

Além disso, o Jornal D'Hoje teve ainda o mérito de recuperar - e logo na tão conservadora Portalegre - esta preciosa e esquecida tradição dos "ardinas". Pois, isso mesmo: uns jovens que, expressamente "contratados" para o efeito, e trajados a rigor, abanavam a letargia da cidade, com pregões, tipo "ólhó Jornal D'Hoje!". E isso é outra história que merece ser contada (mas que, por agora, fica aqui apenas brevemente referida, quase como nota de rodapé).
Bem, sobre a minha experiência profissional em Portalegre, havia tantas outras coisas interessantes para contar!...
Mas fica para a próxima, que esta dissertação – e esta série de artigos – já vão longas!
Só mais uma coisa, muito a propósito: eu já me tenho referido aqui ao
Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses – documento aprovado em 1993, que é um exemplo de auto-regulação profissional. Ora bem: eu, que começara a minha carreira profissional em 1992, na Rádio Baía – e que já passara por outros órgãos de comunicação social – só mesmo em Portalegre, e no Jornal D’Hoje fiquei a conhecer o texto integral. Sabem porquê? Porque o director, Rui Vasco Neto, fez questão de o afixar na sala da redacção. E mais: aconselhou-nos a ter sempre presente aquele – valioso – código de conduta.