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sexta-feira, dezembro 23, 2011

três poemas de natal


RESPOSTA DA VAIDADE HUMANA AO MENINO JEJUM

o menino jejum nasceu a 25 de dezembro desse ano
e veio a falecer (morreu portanto) a 25 de dezembro desse mesmo ano.
a sua fugaz passagem por este mundo breve
apenas serviu para confrontar a vaidade humana
com as humildes perspectivas de quem muito poderia fazer
neste mundo se aqui tivesse vivido mais tempo.
a vaidade humana encolhe os ombros
e diz que viver neste mundo mais tempo
sem fazer nada
é bem melhor que morrer apressadamente
sem fazer tudo aquilo que poderia vir a fazer
e ainda por cima em jejum.



RESPOSTA DO MENINO JEJUM À VAIDADE HUMANA

aqui do alto assunto a que ascendi
vejo bem o quanto és vã ó vaidade humana
e só não te perdoo porque tu lá sabes
muito bem aquilo que fazes.
(aliás é essa a única coisa que tu sabes.)
muito eu te poderia ensinar sobre o não ser
mas sei também que tu não queres aprender
porque aprender implica trabalhar, como bem sabes.
apenas te digo que já não estou em jejum
pois agora que ascendi a um alto assunto
aqui me alimento com todas as palavras do mundo:
sou um poeta.
e mais não digo
porque no alto assunto a que ascendi o meu latim é muito caro.
ó vaidade humana que te contentas em ser apenas
a vaidade humana:
continua a dormir bem vaidade humana
que eu fico acordado a aprender
e a escrever
mas sei que quando me for deitar
também dormirei bem
embora sonhe sonhos um bocado bem diferentes
dos sonhos que tu sonhas ó vaidade humana.



RESPOSTA DA VAIDADE HUMANA À RESPOSTA DO MENINO JEJUM À VAIDADE HUMANA

a inveja exacerbada (companheira de quarto da vaidade humana)
acordou ao meio dia e vinte e três a vaidade humana
do sonho hiperactivo no qual como habitualmente hiperagia
para lhe dizer que do planeta alto assunto a que ascendeste
recebera uma comunicação urgente do menino jejum.
a vaidade humana refilou um pouco não muito com a inveja exacerbada
(a vaidade humana refila sempre com qualquer um
ou qualquer uma que a acorde ao meio dia e vinte e três)
e por uma vez na sua hiperactiva vida
dispôs-se a fingir que ouvia uma comunicação
vinda do planeta alto assunto a que ascendeste.
depois disse eu quero é que te vás f*der
e voltou para o seu sonho hiperactivo
onde sempre hiperage
queira ou não queira o menino jejum
ou qualquer outro habitante do planeta alto assunto a que ascendeste.



A.V., 2003

Imagem: "Um theatro de marionettes no parque de Vienna"
(Jornal do Domingo, Lisboa 1887)

quinta-feira, dezembro 30, 2010

29 de Dezembro de 1990: a minha primeira exposição de fotografia


Há 20 anos estava eu a expor alguns trabalhos de fotografia numa colectiva de apoio à candidatura presidencial de Carlos Carvalhas, no Ritz Club, em Lisboa.
Essas fotos andaram perdidas até 2008. Nessa altura, decidi fazer este vídeo, para ficar com um registo da coisa, antes que se volte a perder. Divirtam-se.

terça-feira, novembro 30, 2010

"Jornalista desde 1992"?


Em Novembro de 1992 comecei a minha carreira profissional como jornalista, no departamento de informação da Rádio Baía. Fez agora 18 anos. Permitam-me, portanto, assinalar a data.

Não me vou alongar em pormenores: apenas referir duas ou três coisitas que me parecem importantes porque correspondem a dúvidas que alguns tótós têm levantado ultimamente sobre a minha carreira e as minhas competências. São, digamos assim, as FAQ sobre a minha vida profissional.

Primeira coisita: como apareço eu no jornalismo? Que antecedentes tinha? Que formação? Caí de pára-quedas no métier?

Cheguei à Rádio Baía respondendo a um anúncio onde pediam pessoal para "fazer rádio". Apareci por lá, apresentei o meu CV, fiz uma prova de admissão e fui aprovado. Eu queria fazer rádio, mas eles precisavam era de pessoal para o departamento de informação, e foi aí mesmo que eu fiquei. Tão simples quanto isso.

E antecedentes? Formação? CV?

Vejamos: estava muito rodado a "fazer rádio" desde 1984 (tinha começado há 8 anos, portanto), primeiro em animações de recintos e em "estúdios móveis" e depois, mais a sério, numa "pirata" de Almada (a Rádio Urbana), entre 1987 e 1988, onde editei noticiários e programas de música e divulgação cultural. Mas estava também habituado ao jornalismo, não apenas por vocação, mas também por experiências práticas. Por exemplo: em 1990 fiz secretariado de redacção num jornal local chamado Almada Press... Poderia até dizer que o início da minha actividade profissional como jornalista foi aí - mas não o digo, por razões que não vale a pena estar a explicar agora (e, possivelmente, nunca).

Então e formação académica, não tinha? Pois não. Tinha melhor, mas mesmo muito melhor que isso!

Entre 1982 e 1987 estive no Centro Cultural de Almada - associação cuja actividade principal e permanente (e pioneira, para a época) era a formação de agentes culturais, através de cursos, seminários, colóquios... E essas acções de formação eram dadas pelos melhores profissionais nas suas áreas de actividade. Imaginem, nos anos 80, uma escola onde pudessem ter cursos de fotografia com o director do Museu da Fotografia (José Pessoa), de composição com um dos compositores de referência do século 20 (Jorge Peixinho), de serigrafia com o mestre do mais importante atelier da época (António Inverno)... e de jornalismo com um jornalista a sério, que fazia - e ainda faz, felizmente! - investigação e tudo (José Goulão).

Juntem a isso a oportunidade de participar em eventos onde podem conhecer (e aprender com) personalidades como Vasco Granja, António Victorino de Almeida, Manuel da Fonseca, Fernando Lopes-Graça - e já ficam com uma ideia (ainda vaga) da qualidade e diversidade da formação "não académica" que eu ganhei durante esses anos.

Mas isso não dá garantias nenhumas de que pudesse vir a ser um bom jornalista, pois não? Se há tanto licenciado que não sabe ler nem escrever...

Pois, aí está a questão! Mas essa é fácil: perguntem a quem comigo trabalhou se eu era bom profissional ou não (mas não perguntem aos medíocres e aos invejosos: perguntem aos competentes, pois é com esses que eu me comparo).

Perguntem-lhes, por exemplo, quantas vezes tive de corrigir textos de jovens jornalistas, estagiários ou mesmo já licenciados e integrados na redacção (e corrigir não apenas ortograficamente, mas - quantas vezes! - totalmente, de modo a que um texto atabalhoado passasse a ser uma notícia). Claro: já naquela altura havia, a par de jornalistas que sabiam do ofício, outros que escreviam com os pés e pensavam com dois neurónios. A diferença é que, nesse tempo, o "mercado" escolhia os melhores; os medíocres iam para outras actividades... a menos que tivessem cunhas ou fossem amigos do(s) chefe(s).

Então eu, que não possuia nenhum "canudo", nunca tive falta de trabalho até ao início desta década. Passei pela Rádio Baía, Rádio Voz de Almada, Sul Expresso, revista e jornal Sem Mais, Jornal da Região (de Almada e Setúbal), Jornal D'Hoje (de Portalegre, onde fui chefe de redacção), revista País Económico, Noticias da Zona... e acho que não me estou a esquecer de nada.

Tudo imprensa regional, claro! Era onde se podia trabalhar a sério, aprofundar os assuntos, fazer perguntas, investigar...

E isto é tudo verdade? Foi mesmo assim?

Em caso de dúvida podem também consultar o meu trabalho, que é público: existem exemplares desses jornais em bibliotecas, arquivos históricos e na internet. E há-de aparecer também uma entrevista onde falo destes e doutros assuntos, no próximo volume do livro "Almada, Gente Nossa", de Artur Vaz (com lançamento previsto, salvo erro, para o primeiro trimestre de 2011).

Contudo, perguntam ainda alguns tótós, tenho o direito de me considerar jornalista? Onde está o título profissional?

Pois, boa pergunta. A resposta daria um artigo pelo menos tão grande quanto este... Mas pode ser resumida citando a lei que regulamenta o Estatuto do Jornalista (lei 64/2007):

Definição de Jornalista:

1 - São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio electrónico de difusão.


2 - Não constitui actividade jornalística o exercício de funções referidas no número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial.

3 - São ainda considerados jornalistas os cidadãos que, independentemente do exercício efectivo da profissão, tenham desempenhado a actividade jornalística em regime de ocupação principal, permanente e remunerada durante 10 anos seguidos ou 15 interpolados, desde que solicitem e mantenham actualizado o respectivo título profissional.

Eu tenho mais que esses "10 anos seguidos ou 15 interpolados" de experiência profissional, referidos no parágrafo 3 deste artigo da lei. Agora, que estou a exercer funções incompatíveis com a actividade de jornalista, não posso ter carteira profissional (como é óbvio - e é por isso mesmo que o título deste artigo está entre aspas). Mas assim que regressar à profissão (espero que não demore muito) tenho - de acordo com a lei - todo o direito a pedi-la. E é isso mesmo o que farei.

Esclarecid@s?


(A foto que ilustra este "post" é de um artigo do semanário Actual, em 1994, estava eu em serviço para a Voz de Almada, a tentar fugir à objectiva do fotógrafo - porque o jornalista não tem de aparecer na notícia - mas não consegui, e ainda bem.)

segunda-feira, julho 19, 2010

Uma entrevista com Adelino Moura, em 1995



Havia, na imprensa regional dos anos 90 quem fizesse jornalismo a sério. Só que, num meio pequeno e com redacções com pouca gente (não tão pouca como hoje - mas o que se faz hoje na imprensa regional não serve de exemplo para nada) os jornalistas não tinham grandes hipóteses de se "especializar". Tinham de ser pau para toda a obra.

Eu vinha da área da Cultura - onde tive formação específica, mas também suficientemente generalista para me sentir à vontade com assuntos diversificados. E, felizmente, comecei a minha carreira profissional na rádio. Felizmente porque aí, na rádio, tinhamos mesmo que nos "desenrascar" - muitas vezes em directo, sem rede - com os assuntos mais imprevistos.

Cheguei à imprensa escrita em 1994 (na revista Sem Mais) mas comecei mais a sério em 1995, no quinzenário Sul Expresso.

Aí fazia o tal trabalho "generalista" (embora ainda me deixassem dar muita atenção à cultura - coisa que já não aconteceu a partir de 1998, noutro jornal): tanto fazia investigação sobre os projectos do Governo para a travessia do Tejo ou sobre a onda de violência racista que vinha do início da década e que se foi agravando, ou sobre o processo de legalização extraordinária de imigrantes (que deixou muita gente de fora), ou sobre o longo e conflituoso desmantelamento da Lisnave, como fazia reportagens sobre o 1º Congresso dos Algarvios da Margem Sul, a reprovação do PDM de Almada e posterior aprovação com "amputações", ou a novidade que era, nesse tempo, o anteprojecto para o Metro Sul do Tejo.

E, se fosse preciso, até fazia peças da secção mais especializada (a que tinha jornalistas que só trabalhavam nessa área): o desporto!

A imprensa regional tinha realmente bons profissionais: polivalentes, flexíveis e com grande arcaboiço.

Como é óbvio, ao trabalhar em rádios e jornais, tive a oportunidade de entrevistar muita gente. Algumas dessas entrevistas eram de circunstãncia, muitas deles feitas por telefone. Mas, quando surgia a possibilidade de falar olhos nos olhos com o entrevistado o "repórter" acabava muitas vezes por ter conversas longas, interessantes e gratificantes.

Uma das entrevistas que mais gostei de realizar foi esta, com o histórico presidente do Almada Atlético Clube, Adelino Moura. Foi muito fácil dialogar com aquele homem que, sendo um líder com carisma, não precisava de fazer poses, armar-se em importante ou ter ares de sobranceria para dizer o que pensava. E dizia-o frontalmente, sem papas na língua mas sem entrar em insinuações ou armar "peixeirada".

A página e meia de texto aqui reproduzida é o que foi publicado na edição do Sul Expresso de 7 de Junho de 1995 - o resumo de uma conversa com cerca de 2 horas, muito estimulante e enriquecedora.

O mote para a entrevista era a subida do Andebol sénior do Almada à primeira divisão nacional. Mas aquele era também um tempo de grandes investimentos em estruturas desportivas. O Almada tinha já relva no seu estádio do Pragal (junto ao Cristo-Rei), mas não tinha ainda pavilhão próprio. Esse era, aliás, o próximo grande objectivo "material" de Adelino Moura. (E suponho que por isso mesmo, o equipamento que foi construído anos mais tarde se chama, precisamente, Pavilhão Adelino Moura.)

Inevitavelmente, falou-se muito de números, de verbas, de subsídios. No entanto, o que mais me impressionou foram as opiniões de Adelino Moura sobre o papel do Desporto como escola de valores humanos. Devia ser uma coisa natural, óbvia... mas já naquele tempo (os anos 90 foram, também, a década da euforia neoliberal) não o era!

O "meu entrevistado" não ignorava isso. E tinha ideias muito interessantes, com as quais não tive nenhuma dificuldade em concordar (digo-o agora - naturalmente não o disse naquele momento, nem tinha nada que o dizer, pois estava ali como jornalista e o jornalista não deve nunca confundir notícia com opinião).

Cito:

«Os clubes, pelo menos os pequenos, devem viver em função da conjugação de boas vontades e com o objectivo não apenas de competir mas de ajudar a formar desportistas e cidadãos. Um clube como o Almada deve ter também uma função social»

«Acho mal que se gastem dinheiros públicos em coisas efémeras (...) A autarquia não nos dá dinheiro para pagar despesaas correntes. Tudo o que recebemos da CMA é para ser aplicado em obras»

«o Almada, devido à sua proximidade com Lisboa, não tem outra hipótese a não ser formar os seus próprios jogadores. Tentamos ganhar alguns para a equipa principal e, por uma questão de necessidade, vender outros a clubes que nos possam proporcionar receitas. Quando isto funcionava em moldes amadores eu não tinha esta opinião, mas agora os tempos são outros e temos de ser realistas»

«as coisas andam muito deturpadas: cairam no meio desportivo alguns "paraquedistas", indivíduos sem conhecimentos de desporto. Chamam-lhes gestores e talvez sejam bons gestores nas suas empresas. Mas o desporto propriamente dito não tem nada a ver com a gestão de uma empresa: estar a encher 30 mil garrafas por dia ou estar a arranjar automóveis não é o mesmo que ver a bola bater na trave ou conhecer de perto os jogadores.»

«Em Portugal, como se sabe, há 3 clubes grandes; tão grandes que até são os maiores nas dívidas. Este modelo não serve aos clubes mais pequenos. Se começam a ceder à pressão dos sócios e entram em grandes despesas vão inevitavelmente acabar por falir»

Eram "prognósticos" do presidente do Almada Atlético Clube, em 1995. O decorrer do jogo acabou por lhe dar razão.

Nota de rodapé: Parece que esta entrevista chegou a incomodar algumas pessoas (porque, como escrevi acima, Adelino Moura não fugiu às perguntas e até acrescentou matéria sobre a qual eu, por desconhecimento, não perguntei nada); no entanto alguns dos meus colegas - os especialistas em desporto - criticaram-me por alguma "ingenuidade" nas questões. Passados 15 anos, tenho um palpite que a minha ingenuidade terá consistido em não perguntar nada sobre as relações entre o andebol do Almada e o do Ginásio Clube do Sul. Sabem que mais? Ainda bem que fui ingénuo: assim posso apresentar uma peça menos datada, com mais substãncia e menos tricas e mexericos! :)

sábado, junho 12, 2010

O meu curso de vídeo (1985)

Eu sei que hoje, no século 21, todas as criancinhas conseguem editar vídeo. Qualquer telemóvel grava imagens em movimento que podem, depois, ser editadas em computador e publicadas na internet. Faz-se muito disso, algumas vezes com talento, outras só com vontade. Até eu, que não sou nenhuma criancinha, o tenho feito, sem grande talento (claro!...) mas com muita vontade (como é óbvio). Olhem para o meu canal - http://www.youtube.com/bulcanico e digam lá se não está perfeitamente ao nível do que faz qualquer criancinha desenvolvida deste glorioso século 21!

Acontece que, há 25 anos atrás, quando comecei a trabalhar com vídeo, não havia internet, computadores era coisa que só víamos no cinema, as máquinas fotográficas usavam rolos (não faziam filmes, portanto), as câmaras de vídeo que existiam eram daquelas de usar ao ombro e funcionavam com cassetes de fita magnética. E tudo isso era tão caro que a maior parte das pessoas não lhe conseguiam chegar.

Felizmente existiam já algumas - poucas, ainda - instituições que promoviam o acesso democratizado à formação, técnica e artística, para quem quisesse trabalhar com as "novas tecnologias" daquele tempo (na verdade, o vídeo não era tecnologia nada nova - mas a maior parte daquelas a que hoje chamamos "novas" também não o são).

Existia, por exemplo, o Centro Cultural de Almada - que começou a fazer cursos de vídeo, salvo erro por volta de 1986. E existia o FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis - instituição da administração central, com delegações distritais, antecessora do actual Instituto Português da Juventude). Eu estava no Centro Cultural de Almada e fiz o meu curso de vídeo no FAOJ de Setúbal.

Essa acção de formação decorreu entre 9 de Fevereiro e 27 de Março de 1985 (um ano antes do Centro Cultural de Almada as começar a fazer), com aulas teóricas e práticas, em Setúbal e no Montijo (onde fomos fazer captação de imagem para o trabalho final). Decorria entre as 15h00 e as 22h00 e custou a módica quantia de 1.300 escudos (podem ver aqui quanto dá isso em euros).

É claro que hoje as técnicas e as tecnologias são diferentes (não necessariamente "novas", mas sim evoluções do que já existia) e que os conhecimentos adquiridos neste curso podem estar obsoletos (estranho seria se não estivessem). Mas que foi muito engraçado ver três focos de luz (os projectores de vídeo dessa época tinham 3 lentes) incidirem numa superfície branca - o azul primeiro, depois o vermelho e a seguir o verde - para formarem luz branca, lá isso foi! Aprendizagem prática, de conceitos que, à partida podem parecer estranhos, estás a ver? Pois, no "meu tempo" já se fazia.

E toda esta conversa a propósito de quê? Bem, em primeiro lugar, isto é só um blogue pessoal - portanto serve também para falar de experiências pessoais que poderão depois ter interesse para outras pessoas (ou não...).

Para os mais espertos que não ficaram satisfeitos com a explicação anterior, aqui vai a verdadeira explicação: é que eu estou farto de levar com gente que diz que eu nunca fiz nada na vida, não tenho formação nenhuma, etc. etc. etc. (sendo os três etc. resumo do chorrilho de disparates que tenho ouvido e que, de tão grande, precisaria de um blogue inteiro para ser explanado na íontegra). Portanto, lá tenho eu de ir buscar - assim de longe em longe e como quem não quer a coisa - mais alguns "exemplos" (necessariamente avulsos e incompletos) ao fundo do meu baú.

A minha "sorte" (e o azar dos que se esforçam por provar que eu não fiz o que fiz e que não sei o que sei) é que quanto mais procuro mais encontro. Porque, na realidade, ainda há muito que encontrar.

sexta-feira, julho 03, 2009

Há por aí um psiquiatra baratinho? Ou uma autoridade de saúde?

Mais uma vez, encontro-me sem internet, sem computador e sem local para trabalhar. Mais uma vez porque há quem - com mais poder que juízo - julgue que tem direito a interferir na minha vida e a impedir-me de trabalhar, alegando que... não trabalho (olha a lógica da alegação, não é?)!!! Mas, melhor ainda: alegando que nunca trabalhei, nunca fui jornalista, não o sou, nunca ganhei dinheiro, sou um vagabundo que apenas escreve poesia! (etc. etc. etc: estão a ver porque escrevi acima que tal gente tem mais poder que juízo, não estão?)

Pois... Em relação à vagabundagem, enfim, lá terão as suas razões para o dizer. Agora, que me fizeram perder o trabalho que tinha e que, aparentemente, muito se empenham em conseguir que eu continue sem meios para trabalhar - pois claro, vagabundeio! Mas esperam o quê? Que vá arrumar carros?

A sério: não há quem faça ver a essas pessoas que a realidade é diferente da história que inventaram a meu respeito naquelas cabecinhas? E, uma vez que estou a ser prejudicado por gente que, aparentemente, perdeu a noção da realidade, não há aí uma autoridade de saúde que
tome conta da ocorrência?

Estou só a perguntar. Perguntar não ofende, não é?

E não posso ser mais explícito. Se digo a verdade toda (com os nomes das pessoas incluídos no relato) ainda me acusam de difamação. Livra!

Portanto, o melhor é - mais uma vez - comer e calar.

Esqueçam lá isto e isto. E, já agora, também isto.

Não se passa nada. Eu sou só um maluquinho que anda na rua de mochila às costas porque não sabe fazer mais nada.

Pois. Deve ser isso, deve.

sexta-feira, maio 29, 2009

Obrigado pela preferência e voltem sempre!

Nos últimos 12 meses este blogue teve mais de 10 mil visitas. Quero agradecer a todos os que por aqui passaram, aos que deixaram opiniões e outros comentários - e, especialmente, aos que se tornaram já visitantes habituais.



Depois deste agradecimento politicamente correcto, quero também esclarecer duas ou três coisas.

A saber: sim, é muito agradável verificar que temos quem nos leia - mas eu não vim para a "blogosfera" com a intenção de ser muito popular nem de participar em nenhum "concurso de beleza". Comecei este blogue como uma brincadeira, ou melhor, como uma forma de me incentivar a escrever poesia ou coisas aparentadas com poesia (aliás, o meu "site" principal era - e não deixou completamente de o ser - o Debaixo do Bulcão).

Não queria fazer muita publicidade a mim próprio. Nunca fui muito de o fazer.

No entanto, a partir de certa altura (ou seja: quando certas mentes supostamente muito esclarecidas "descobriram", entre outras coisas, que eu nunca fiz nada de jeito na vida...) achei que não seria má ideia divulgar aqui algumas... coisitas da minha actividade profissional (enquanto jornalista) e artística (em várias áreas).

Espero ter contribuido para esclarecer quem, aparentemente, precisava de ser esclarecido.
E se isso for útil também a todos os restantes leitores deste blogue, melhor ainda!

A avaliar pelo número de visitas, talvez tenha valido a pena. (Desculpem lá a eventual falta de modéstia, ou qualquer outra coisinha).

quarta-feira, maio 27, 2009

Maio de 1994: estórias de um certo Festival da Liberdade...


Comemoravam-se duas décadas de liberdade e democracia: comemorava-se, pois, o 20º aniversário do 25 de Abril.

A Associação de Municípios do Distrito de Setúbal organizou, nesse ano de 1994, uma grande festa (no terreno da Quinta da Atalaia - propriedade do PCP - o mesmo onde se faz anualmente a Festa do Avante).

E eu, obviamente, não quis faltar - porque, como sabem os que me conhecem, gosto "demais" desse tipo de eventos; e porque era jornalista da Rádio Voz de Almada (não da Voz de Almeida...) e gostava (também "demais") do trabalho que fazia.

Então, no sábado, mesmo fora do horário de serviço (pois esse era o meu dia de folga semanal) lá fui, e aproveitei para entrevistar os participantes (que estavam a trabalhar voluntariamente, como eu, aliás), e os festivaleiros (que, como eu, se estavam a divertir muito voluntariosamente).

Até aí nada de especial. Embora trabalho não seja conhaque, eu sempre consegui conciliar as duas coisas muito bem.

O problema é que, nesse dia (e nessa noite) parece que "conjuguei" as duas coisas bem demais.

Gravei, sim senhor, uma quantidade de entrevistas, cumprindo assim o tinha prometido à directora do Departamento de Informação da rádio. E bebi copos até mais não - como tinha prometido a mim próprio!

Na manhã seguinte (na rádio trabalhei sempre aos domingos de manhã), bem cedo, lá vou para o estúdio e ponho-me a ouvir as entrevistas que tinha feito na noite anterior. E que davam muito jeito... porque, afinal, o evento era importante (notícia, ainda mais numa rádio local), e porque, aos domingos, quase não havia noticiário de jeito - eram uma seca, os domingos!

Ora então, tinha ali - entre outras coisas curiosas e interessantes - uma entrevista com um jovem que (dizia ele) se ia casar nessa tarde, mas não encontrava a noiva... Bem, dessa lembrava-me eu. Apareceram foi outras que não me cabiam já na alembradura...

Até porque eu era um verdadeiro yuppie:o meu lema era "work hard, party harder"!

Ou seja: na noite anterior a "party" e o "work" tinham sido tão "duros" (eh eh eh...) que uma certa entrevista com o representante da Associação Portugal-Cuba me apareceu já no final da cassete e me deixou intrigado. Que raio, ainda havia mais essa? E era uma entrevista minha? Olha, pois era: a voz do entrevistador era a minha. Empastelada, é certo, mas minha.

Benditos mojitos! E benditas cubas libres!



(Notas de rodapé: o Festival da Liberdade teve apenas essa edição, em 1994. Esteve para se realizar no fim de semana de 14 e 15 de Maio, mas o mau tempo que se fez sentir obrigou a adiar o evento para 28 e 29 do mesmo mês. Eu gostava de disponibilizar aqui informação sobre o festival, mas não a encontrei em lado nenhum. Fica, portanto, apenas o meu testemunho. Ou melhor: o pouco de que me lembro, depois de 15 anos e muitas cubas libres e mojitos. Ah ah ah!)

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

BLOGUE SUSPENSO POR TEMPO INDETERMINADO

Motivos de força maior e alheios à minha vontade obrigam-me a suspender as actualizações deste blogue, por tempo indeterminado.

A primeira razão é fácil de explicar: dificuldades de acesso à internet. Desde que comecei este blogue, recorri sempre a computadores emprestados (eu não tenho computador...). E agora, durante algum tempo, não terei possibilidade de aceder à rede nesses mesmos computadores.

A outra razão prende-se com dificuldades e entraves vários que têm sido colocados ao meu trabalho.

Esta é mais difícil de explicar.

Mas posso dizer resumidamente que tem a ver com o procedimento continuado, recorrente, de uma certa pessoa que, em 2008 me fez abandonar o trabalho que estava a desempenhar no jornal Notícias da Zona (e que podem consultar aqui), alegando que eu não estava a trabalhar e - melhor "alegação" ainda... - que eu não sou jornalista e, aliás, que nunca o fui! E essa pessoa é a mesma que, em 2001 (para só dar mais um exemplo) me desorganizou de tal modo a vida ao ponto de me obrigar a pôr fim à colaboração que desenvolvia então com o Sem Mais Jornal e com o Jornal da Região (trabalho que não recebera, até então, qualquer reparo - pelo contrário: só elogios).

Não vou dar mais pormenores - para não vos maçar e para não expor a referida pessoa e as asneiras que ela fez (e foram muitas, muitas mais)!

Não sei se tal pessoa, ao impedir-me de trabalhar alegando que eu não trabalho ou que nunca fui jornalista (não sou? não fui? na dúvida, vejam também aqui), dá mostras de desligamento da realidade (o que, obviamente, é sintoma de anomalia psíquica grave) ou se, simplesmente, procede de forma dolosa com o objectivo de me prejudicar (por razões que, sinceramente, não enxergo) .

Seja qual for o caso - e porque não posso admitir que a minha reputação e credibilidade (certificadas por quem comigo trabalhou, e trabalha, ou por publicações como a que podem consultar aqui) continue a ser manchada por difamações - estarei disponível para, sempre que for necessário, esclarecer a verdade dos factos e demonstrar a veracidade do que afirmo, com recurso a documentos idóneos, alguns deles publicados e outros eventualmente mais confidenciais.

Portanto, de qualquer forma, o caso será esclarecido e quem está envolvido nele será, a seu tempo, devidamente responsabilizado.

Vocês sabem que eu nunca falo só da boca para fora: quando afirmo algo, é porque tenho certeza suficiente do que digo e, sempre que possível, gosto de suportar as minhas afirmações em provas tangíveis.

E é isso mesmo que farei. Nos locais adequados.

Entretanto, peço desculpa pelo incómodo que esta minha ausência da blogosfera poderá acarretar. Não tanto aqui, mas nos blogues Almada Cultural e Almada Cultural (por extenso) os quais, pelos motivos acima expostos, também deixarão de ser convenientemente actualizados.

Até um dia destes.

António Vitorino

segunda-feira, dezembro 29, 2008

A minha primeira exposição de fotografia... (Dezembro de 1990)


Dezembro de 1990: o tal ano em que o "bloco de Leste" se desfez... Álvaro Cunhal ainda era o secretário-geral do PCP, mas havia também Carlos Carvalhas - o homem que teria a difícil tarefa de liderar o Partido Comunista Portugês nesses anos críticos (críticos para o ideal comunista, entenda-se) e que o fez muito bem (digo eu).
Em Dezembro de 1990 estávamos em campanha eleitoral para a Presidência da República Portuguesa, e Carlos Carvalhas era o candidato do PCP.


Eu era frequentador do Ritz Club e - por coincidência, ou não - a candidatura de Carvalhas faz uma acção de campanha nesse espaço da noite lisboeta. Eu tive a sorte, o privilégio (e essas coisas todas, etc. etc.) de ser convidado para apresentar alguns trabalhos meus. Pois: eu fazia fotografia (desde os anos 80) a preto e branco, com uma praktika mtl qualquer coisa, e até usava rolos da orwo (marcas da ex-RDA, a máquina e os rolos), e tinha muitas horas de experiência no laboratório do Centro Cultural de Almada... Enfim, tinha algumas fotografias para apresentar!
Então, com o meu amigo Rui Jorge Martins, decidi (decidimos) aceitar a porposta, e apresentar, no dia 29 de Dezembro de 1990, ao cimo da escadaria que dava entrada para as instalações do Ritz Club, alguns painéis com fotografias, aos quais chamámos PortFólios. (Não nos pediram um nome original, está bem? Pediram-nos, só, fotografias).

Aquilo foi uma exposição só de um dia. Soube-me a pouco e, por isso mesmo, propus à Casa Municipal da Juventude de Almada (Ponto de Encontro, em Cacilhas) realizar ali uma versão revista e aumentada. E assim se fez: se não me engano, foi em Janeiro de 1991 que as minhas fotos apareceram, pela primeira vez, numa exposição individual, em Almada.

Mais tarde, durante essa década de 90, fiz outras exposições: de fotografia (PhotoGraphias) no Ponto de Encontro, e de pintura a marcador, no Ponto de Encontro e num bar de Almada Velha que se chamava Alma da Velha... Mas essas coisas perderam-se. (Não fui eu quem as perdeu, não; mas enfim... não falemos de coisas tristes, mais uma vez...)

Mesmo a exposição de 1990/1991, perdeu-se quase toda. Ficou apenas isto:









A minha primeira exposição de fotografia (ou o que dela resta...).





domingo, dezembro 28, 2008

Só durante um bocadinho, vamos fazer de conta que estamos em Dezembro de 1992


Em 1992, ainda não havia internet, não havia telemóveis, não havia televisão por cabo, não havia mesmo televisão em Portugal a não ser os dois canais da RTP... Era tudo um grande aborrecimento, o mundo era pequenino e a preto e branco. Portugal era um país triste, de hábitos pronvicianos, onde não acontecia nada; e era governado por um bando de "velhos do restelo" dos quais hoje já ninguém - felizmente ! - se lembra!...

Era isso, não era?...

Era?
Ou não era, mesmo?

Vejamos, por exemplo, dois noticiários de Dezembro de 1992:

No rescaldo do dia 30 desse mês (desse ano) as notícias (da Rádio Baía, às cinco da manhã já de dia 31) eram estas:
Em Portugal, greve dos ferroviários desconvocada porque a CP aceitou encontrar-se com os representantes dos trabalhadores, mas só em Janeiro de 1993. (Humm... enfim... adiante...)
Na Câmara de Lisboa, os vereadores do PSD criticam o presidente do executivo, Jorge Sampaio. Acusam-no de ter feito uma gestão autárquica a pensar numa futura e muito hipotética candidatura à Presidência da República (nas eleições de 1996) e dizem que, com isso, a edilidade viveu um ano de «euforia pré-eleitoralista». E quem defendia essas posições, e lançava esses ataques isso em nome do PSD? Pois nem mais nem menos que essa reminiscência política do fossilizado e, muito justamente já esquecido século 20 - eminência parda dessas eras obscuras, que dava pelo nome de Marcelo Rebelo de Sousa!
Marcelo, o próprio, não poupava críticas também ao então Presidente da República, Mário Soares (lembram-se? e o primeiro-ministro era Cavaco Silva... lembram-se também desse ilustre cavalheiro?...). Afirmava então Marcelo que «é surpreendente a forma como o Presidente se interessa agora pelas obras em curso na capital».
Mas, entretanto,a mesma autarquia anunciava uma campanha para informar os utentes do eixo rodoviário norte-sul sobre as novas acessibilidades que, no final de 1992, aquela via estruturante da cidade de Lisboa passava a oferecer aos munícipes e outros habitantes da capital. Campanha para evitar, por exemplo, os engarrafamentos ocorridos em Sete Rios quando a nova via abriu
e...
Pois, isto também já é história. Obras no eixo norte-sul, caramba!, é mesmo coisa do passado. Não é?
(Por acaso o eixo norte-sul ficou concluído só este ano mas, claro, isso não interessa nada para o caso, pois não?)
Do resto do mundo chegava a notícia de que uma sondagem realizada em França pelo jornal Le Parisien revelava que a maioria dos cidadãos desse país era favorável a uma intervenção armada na Bósnia-Herzegovina (e sabe-se o resultado que isso deu, mais tarde...).

Mas a grande notícia, a enorme notícia, era a entrada em vigor, a 1 de Janeiro de 1993, do Mercado Único Europeu!!!


Agora é que ia ser: «um cidadão da Europa que, por exemplo, apanhe um avião em Lisboa com destino a Roma não terá as bagagens revistadas; pode pedir um empréstimo bancário (por exemplo, também) em Amsterdão, mas se ali comprar um carro vai ser obrigado a pagar os impostos respectivos em Portugal». O "mercado único" arrastava «uma série de incógnitas e de vazios jurídicos», mas abria novas possibilidades» (naqueles paleolíticos tempos ainda não estava na moda a expressão "janela de oportunidade: era oportunidade, só, ou posibilidade,... enfim) «aos cerca de 340 milhões de cidadãos do espaço comunitário».







Tudo isto é tão distante, não é?
Isto e isto:

Também em Dezembro de 1992, entre questiúnculas menores - tipo reformas no Ministério da Agricultura, polémica à volta da Lei do Mecenato (apresentada por um secretário de Estado da Cultura que existia nesses paleozóicos tempos, Santana Lopes, de sua graça) e divergências entre PS e PSD sobre a Lei Eleitoral e sobre a regionalização (com Almeida Santos, um ilustre senhor desses arcaicos dias, a defender a posição do PS...) - chegavam notícias de um Presidente da República Federativa do Brasil (Fernando Collor de Melo) que ía ser julgado pelo sistema judicial do seu país, e tentava adiar a sentença... Mas a grande dúvida parecia ser: onde vai George Bush passar o Natal? Em Washington? Ou na Somália, junto das tropas americanas? Sim, os yankees também mandaram tropas para a Somalia, em 1992... Agora são os chineses... Por causa dos piratas.

Mas nesses oh tão distantes tempos, eram os americanos (por causa dos "senhores da guerra") e... pois, o Bush a que me refiro é mesmo o pai do ainda presidente...






E dizia então alguma media norte-americana que o "ainda presidente" pode passar o Natal na Somália! «Ainda presidente», em 1992 - com Clinton eleito, mas não em funções.

(Bush foi, de facto, à Somália, mas só em 1993. E, que eu saiba, não levou com nenhum sapato.Tristes tempos esses, os do início dos anos 90...)

Muito pequenina e discreta nota de rodapé: há quem diga que eu nunca fui jornalista, nem o sou agora. É claro que um jornalista publica o seu trabalho - logo, tem maneira de demonstrar facilmente se foi, ou é, aquilo que diz ser. E isto é tão óbvio que dispensa, ou devia dispensar, explicações. Mesmo assim, há quem insista em dizer que não senhor, eu sou é um grande mentiroso (enfim, dizem mais algumas coisas, mas não aprofundemos isso agora, porque teria de desmontar algumas difamações, e isso levar-nos-ia longe, porque difamação é crime - coisa para ser tratada em tribunal - e além do mais este blogue até é um bocado "show-off",
sim senhor, como quase tudo na internet... mas não tanto, convenhamos!).
No entanto - sem aprofundar muito - concluamos: se eu sou mentiroso (é o que se diz... no mínimo) e se o que fiz, parece que afinal não o fiz (diz-se), e se o que faço agora, parece que afinal não o faço (a sério: já me vieram dizer coisas dessas!)...

Então: as pessoas para quem eutrabalhei, os meus colegas de trabalho, as pessoas com quem contactei profissionalmente, as que entrevistei, aquelas com quem convivi... É tudo mentira? Não aconteceu?
E então (paralogismo, em vez de silogismo - só porque é mais adequado para este caso, entenda-se): estes noticiários não existiram!? E os trabalhos que publiquei neste blogue, não os fiz, nunca!!? Nem os antigos, nem os recentes!!!?
E, se eu sou mentiroso (no mínimo...) as pessoas que comigo trabalham e com quem me relaciono e colaboro são mentirosas (no mínimo) também! Será isso?
Admitir isto seria anedótico, se não fosse grave.
Mas, exactamente por se tratar de um assunto grave, fico-me por aqui, agora. E sim, tenho muita paciência...

(fim de nota de rodapé)

sábado, dezembro 06, 2008

Sérgio Godinho - O elixir da Eterna Juventude




Ah que estou arrependido
De ter feito e de ter tido
Ai oração, ora seja
Como a que ouvi na igreja

Mea culpa, mea culpa
Minha máxima desculpa
É ter vindo p'ro presente
Conservado em aguardente

Quero ser p'ra sempre jovem
As munhas células movem
Uma campanha eficaz
Água benta e água-raz

O elixir da eterna juventude
Esse que quer que tudo mude
P'ra que tudo fique igual
Estava marado
Falsificado
É desleal!

Vou implorar aos apóstolos
Mas é pior, que desgoto-os
Com tanto pecado junto
Não lhes pega nem o unto

Vou recorrer aos meus santos
Esses, ao menos, são tantos
Que há-de haver um que me acuda
Senão ainda tenho o Buda

Maomé vai à montanha
O Papa, ninguém o apanha
Na Rússia, o rato rói a rolha
Venha o diabo e escolha

O elixir da eterna juventude
Esse que quer que tudo mude
P'ra que tudo fique igual
Estava marado
Falsificado
É desleal!

Misticismo agora à parte
Envelhecer é uma arte
"Arte nova", "arte final"
Numa luta desigual

Só me vou pôr de joelhos
Ante o mais velho dos velhos
E perguntar-lhe o segredo
De p'ra ele ainda ser cedo

Quando o espelho me mira
Já nem o chapéu me tira
Deito-lhe a língua de fora
Pisco o olho e vou-me embora

O elixir da eterna juventude
Esse que quer que tudo mude
P'ra que tudo fique igual
Estava marado
Falsificado
É desleal!

Estou velho!
Dói-me o joelho
Dói-me o antebraço
Dói-me a parte interna
De uma perna
A parte amiga
Da barriga
Que fadiga
O que é que eu faço?
Escolho o baço ou o almoço?
Vira o osso
Dói pescoço
É do excesso
Do ex-sexo
Alvoroço
Reboliço
Perco o viço

Já soluço
Já sobroço
Esmiuço
Os meus sintomas
E já agora, do meu médico
Os diplomas

Esmiuço
A consciência
E já agora, apresento a penitência


Sérgio Godinho

http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9rgio_Godinho
http://www.myspace.com/sergiogodinhooficial

(a propósito do meu 45º aniversário... "estou velho, dói-me o joelho"... eh eh eh!... queriam!)

domingo, novembro 02, 2008

Não havia necessidade?


Andar nestas coisas do jornalismo nem sempre é fácil ou gratificante, mas tem as suas vantagens.

Enquanto jornalista (ainda não encarteirado, mas isso é outra história) tive a oportunidade de conhecer pessoas muito interessantes e mentalidades muito diferentes daquelas a que estava habituado em Almada (onde convivi com gente assaz desenvolvida em termos culturais e intelectuais - mas que, como aprendi depois, era a excepção...).

Em Portalegre, por exemplo, conheci um dos melhores jornalistas com quem tive a oportunidade de trabalhar: Rui Vasco Neto, director do Jornal D'Hoje. Mas conheci-o num contexto um bocado estranho: estava ele a tentar fazer um jornal a sério, numa região do país em que isso era extremamente difícil (parece-me que hoje é extremamente difícil em todo o país, mas enfim...).

Eu vinha de um meio cultural almadense em que as pessoas tinham suficiente inteligência, auto-estima (não confundir com arrogância - que é precisamente o contrário) e sentido de humor (que não existe sem a inteligência e a auto-estima) para entenderem as questões no plano em que elas eram colocadas, e não fazerem (para usar uma expressão muito portuguesita) tempestades em copos de água.

O Jornal D'Hoje tentou - e conseguiu - fazer jornalismo a sério numa terra que estava pouco habituada a essa coisas (estou a referir-me a um período de tempo entre 1999 e 2000 - não sei como é nos dias de hoje).
Fazer jornalismo a sério já era uma coisa um bocado estranha por aquelas bandas. Mas fazer crítica... isso então era um sacrilégio!

Veja-se este exemplo: um café muito famoso na cidade (local de que eu até gostava, e frequentava) tinha, no seu wc, um aviso "a posteriori": por cima do autoclismo, que não funcionava, um papel onde se lia "quando necessário por favor peça a torneira ao balcão".

A torneira era a que abria a água do autoclismo. Ou seja: a gente primeiro deitava o excremento lá para dentro e depois ia ao balcão dizer: "olhe, estive a cagar mas não consegui despejar o autoclismo; faz-me o obséquio de me emprestar a torneira durante um bocadinho que eu já a trago de volta?".


O jornal publicou uma coisita sobre o assunto e só não caíu o Carmo e a Trindade porque isso é em Lisboa... Mas ia caindo para aí a Sé e a Praça da República!...

Mas com "melindres" desses podíamos nós bem. Uma piada é uma piada.
Pior mesmo era quando se melindravam com coisas sérias...



(Mas isso, já se sabe, são - para usar outra expressão muito portuguesita - os "ossos do ofício".)

domingo, junho 08, 2008

Como conheci, em 1981, o "Poeta Militante" José Gomes Ferreira


Em 1981 - era eu um teenager inconsciente... - fui à "Oficina de Cultura" (um espaço em Almada Velha que, anteriormente, tinha sido um mercado abastecedor e, mais tarde, foi transformado em Teatro Municipal), para apresentar um trabalho de final de ano lectivo: um espectáculo de teatro (porque estava numa turma do nono ano geral unificado, opção Teatro, com a professora Maria Santos). Não interessa muito para o caso, mas posso dizer-vos que era o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente - e posso dizer-vos, também, que naquela época "fazer teatro" não era lá muito bem visto pela população em geral, nem mesmo pelos jovens em particular (mas eu hei-de contar-vos essas histórias noutra ocasião).


Ora bem, o que interessa dizer, aqui e agora, é que, porque o espectáculo estava integrado na programação da Feira do Livro de Almada (que, nesse tempo, era organizada "a meias" pela Câmara e pelo Centro Cultural de Almada), tive a sorte de, nesse mesmo dia, encontrar-me por lá com um certo escritor chamado José Gomes Ferreira - de quem eu nunca tinha ouvido falar - e que estava a "dar autógrafos".


Melhor: a autografar os livros que nós, jovenzinhos da Escola Secundária de Almada tinhamos como "brinde", oferta da Câmara Municipal, por irmos actuar naquele evento (a escola a que me refiro é a actual Fernão Mendes Pinto, depois de quase ter sido baptizada como Alberto Araújo... bem, um dia também vos conto essa história).


E lá estava aquele senhor já velhinho, muito simpático, de longos cabelos brancos e... Pronto, talvez eu esteja a divagar (a memória prega-nos partidas lixadas)... Mas lembro-me bem que lá conversador era ele: depois de perguntar o nome à rapariga que estava à minha frente (e que tinha nome de flor - Dália, salvo erro), lhe explica que o pai dela devia ser anarquista, porque os anarquistas rejeitavam os tradicionais nomes cristãos.


Eu, que nunca tive jeito para fazer conversa - e que, na verdade, "era" o Parvo - tenho então a brilhante ideia de lhe perguntar que tipo de pai julgava ele que chamava Vitorino a um filho (reparem que, já nesses remotos anos 80, eu - que sou um António - estava tão habituado a ser tratado como Vitorino, que já assumia isso como "nome próprio", ou quase).


Ora, o grande José Gomes - que, como fiquei a perceber mais tarde, era um "inventor" e, aparentemente, "pelava-se" por desafios destes - começa por dizer que, para eu ter um nome assim, o meu pai devia ter sido republicano (a implantação da República foi em 1910, estavamos em 1981, e eu tinha 16 anos...). Mas, melhor que isso, começa a elaborar sobre o assunto, de uma forma tão "poética", que a sua companheira (que também estava presente nessa sessão de autógrafos) se vê obrigada a fazê-lo "descer à terra", com estas palavrinhas tão singelas e - naquele momento, tão certeiras: «já estás a inventar!». Tão certeiras que ele se calou, terminámos ali a nossa conversa, eu passei à frente (com o "Poeta Militante, volume 1", onde o autor tinha escrito - salvo erro, porque esse foi um dos livros que trataram de me "extraviar" - "para o camarada Vitorino, com 2 amizades do Poeta Militante José Gomes Ferreira"), e lá fui preparar-me para a minha actuação, com muita pena de não ter o poeta a ver o "meu" espectáculo (porque, disseram-nos, ele já estava demasiadamente "velhote" para subir escadas - e nós actuávamos na sala de cima da Oficina da Cultura).


(Ah, pois: tenho também muita pena de não ter fotos dessa actuação para vos apresentar aqui. Já as tive. Mas também fazem parte do lote de coisas que me "extraviaram"... São mais histórias, que talvez vos conte um destes dias).


Depois, quando cheguei a casa e li o livro, "a minha vida mudou" (para usar uma daquelas tiradas dramáticas que nós, poetas meridionais e emotivos, muito apreciamos...). Ou seja: a influência de José Gomes Ferreira na minha primeira (e primária) produção "literária" foi tão grande, que andei a escrever coisas com títulos tais como "Elegia de Azul e Sangue (ao Tejo)" e outros que, mesmo que eu ainda os tivesse comigo (não os tenho, e nem me vou dar ao trabalho de explicar porquê...) não vos iria mostrar, de maneira nenhuma!


E, com isto, não estou a "renegar" a importância que o "poeta militante" teve na minha formação (modesta, digamos) enquanto escritor. Nada disso! Apenas segui, mais tarde, outros caminhos - mais influenciado, julgo eu, por autores como Alexandre O'Neill e Alberto Pimenta.


Não nego, também, a importância que, na minha formação cultural (e cívica...) tiveram "coisas" como o poema Acordai - musicado para a Academia dos Amadores de Música pelo Maestro Fernando Lopes-Graça - que, por acaso, também tive o privilégio de conhecer, na transição da década de '80 para a década de '90 quando fui a sua casa, na Parede (localidade da linha de Cascais), gravar em vídeo uma entrevista feita por algumas pessoas que, pouco depois, deram origem ao Coral Canto Novo...


Mas deixemos isso: conto-vos também essa hitória, noutra ocasião.

domingo, abril 13, 2008

Eu numa embarcação à vela? Só podia ser na Sagres! É a que tem nome de cerveja...


Ora bem, deixa cá ver... Eu cá não punha os pés num navio desde 2001 (os cacilheiros não contam...), num veleiro desde os anos 80 (quando a Câmara do Seixal começou a fazer passeios no Tejo a bordo de uma embarcação tradicional do dito)... E, bem, não entrava num estaleiro (naval) talvez desde 1996, quando ainda existia a Lisnave. Doca seca... deixa ver... pois, conheci a doca grande da Lisnave (julgo que é essa a "famosa" Doca 13), mas nunca tinha descido a uma. E entrar num submarino de guerra, ainda no activo? Pois... também nunca tinha entrado num. Entrei agora. No Barracuda, pois. Só podia. Em Portugal não temos outro, o que é que vocês querem?


(Vejam a foto-reportagem desta visita guiada ao Arsenal do Alfeite, no blog Almada Cultural por extenso, ou clicando aqui. E há também uns videozitos, no canal bulcânico...)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Imagine...


Imagine o leitor que alguém que não gosta de si (ou que está, apenas, chateado consigo) resolve fazer-lhe uma partida... digamos uma partida daquelas de Carnaval.
Imagine o leitor que essa pessoa é amiga de alguém que tenha um pequenino cargo numa instituição descentralizada do Estado, tipo... deixa cá ver... tipo delegada de Saúde do Concelho de Almada.
E imagine, já agora, que essa pessoa - que não gosta de si, ou que está chateada consigo - mete uma “cunha” à delegada de Saúde do Concelho de Almada para que esta titular de um cargo do Estado apresente num tribunal uma queixa contra si, vulgar cidadão, e isto porque... porque... Hum...aqui a coisa começa a complicar-se... Uma queixa contra si, porque... Porquê??? Alguém quer dar palpites?
Ora bem... parece que o caro leitor não cometeu nenhum crime, não é suspeito de ter cometido nenhum, nem sequer existem motivos para crer que você esteja a planear fazê-lo... Portanto, uma queixa (uma queixa da delegada de Saúde, não do Zé do bar da esquina, note-se) talvez não, talvez seja demais... mas (que tal esta dica, já que estamos a falar de saúde?) porque não apresentar um pedido a esse tribunal para que o caro leitor seja presente a uma consulta psiquiátrica? Pode ser uma boa forma de o intimidar, não lhe parece?
E porque havia o caro leitor de ser presente a uma consulta psiquiátrica? O caro leitor está com problemas comportamentais? Bem... vamos admitir que a pessoa que foi meter a “cunha” à delegada de Saúde do Concelho de Almada pensa que sim, embora não saiba muito bem como fundamentar essa suspeita (e passemos, por agora, adiante no que diz respeito aos problemas comportamentais – não fictícios mas, infelizmente, bem reais - dessa mesma pessoa que faz a queixa à delegada de Saúde).
Vamos, então, admitir que sim senhor, que o caro leitor até precisa de acompanhamento psiquiátrico (algo que até nem seria de estranhar, nos dias que correm, e numa sociedade onde os problemas se “resolvem” com medicamentos que “tratam” os sintomas sem atacar a origem da doença... no caso de se tratar mesmo de uma doença). Então, para que alguém peça a um tribunal que você seja levado a uma consulta psiquiátrica... bem... isso significa que o seu caso é grave, e grave de uma forma muito evidente!... Parece que você, caro leitor, tem problemas sério, que não só o afectam a si próprio,mas também aos que o rodeiam (e que, por essa razão, se sentem ameaçados pelos seus actos).
E parece também que você se andou a baldar: não foi às consultas que (devido ao seu comportamento) aqueles que lhe estão próximos, e "só querem o seu bem", lhe marcaram, ou – pior! - recusou que lhe marcassem consultas, acha que isso de consultas psiquiátricas é só para “os malucos”... (ou então está tão mal, anda tão fora da realidade, que nem consegue tomar as suas próprias decisões – mas, sinceramente, esta última hipótese é tão extrema que nem eu próprio não quero crer que seja esse o seu caso, estimado leitor).
Não é nada disso? Nunca lhe falaram, sequer, nessa hipótese de o leitor ir a uma consulta psiquiátrica? E, se não lhe fizeram tal proposta, você também não poderia ter recusado (como é óbvio, não, é?..), logo, não o poderiam obrigar a fazer algo que era apenas para o seu bem, mas que você recusa e, por isso mesmo, tem de ser levado à força!
Pois... Eu já calculava que não era nada disso! Mas então, como justificar o pedido à instituição judicial (e à policial, também) para que esta(s) tome(m) medidas preventivas contra si?... Bem, deixa ver por onde podemos pegar... Já sei: o sujeito (o prezado leitor) deve ser avaliado porque” lava muitas vezes as mãos, e não fala com ninguém” (é absurdo, como tudo o resto nesta história, mas vamos imaginar que é assim mesmo, sic – expressão latina que, como sabem, se traduz em português por “textualmente”) ... Além disso, diz que você, refractário leitor, recusa-se a ir a uma consulta, mesmo que não lhe tenham perguntado, nem proposto nada (parece que há pessoas que o conhecem melhor que você se conhece a si próprio, desprevenido leitor) portanto temos mesmo que o obrigar a ir, para que perca essas manias de lavar as mãos e não falar com ninguém (coisa que, calculo eu, a avaliar pelo que atrás ficou escrito, até nem é verdade – e, de resto, suponho que você até lava as mãos só naquelas ocasiões normais, como depois de ir à casa de banho ou antes das refeições... e não tem problemas em falar com as pessoas, mesmo que às vezes esteja farto de aturar gente parva).
Pequeno pormenor sem qualquer importância: sabe você, caro leitor, não pode chegar ao pé da delegada de Saúde do Concelho de Almada (ou de qualquer outro concelho) e pedir-lhe que accione o sistema judicial português (e uma força policial, e os bombeiros, e o sistema nacional de saúde...) para levar alguém a uma consulta psiquiátrica? Não pode, não senhor! Pelo menos, não o pode fazer com esse tipo de argumentos.
Sabia? Eu sei.
A delegada de saúde do Concelho de Almada também sabe (aliás, ela teve a amabilidade de me esclarecer esta dúvida, quando eu fui pesquisar algumas coisas para elaborar esta historieta - que já se sabe, só pode ser pura ficção... - e lhe perguntei se - imaginemos... - eu tivesse em casa alguém que colocasse sistematicamente em risco a sua saúde e a dos outros, poderia eu pedir à senhora delegada que fizesse entrar num tribunal um pedido para que essa suposta pessoa fosse intimada pelas forças policiais a apresentar-se numa consulta psiquiátrica). Foi-me respondido que, nesse caso, eu não o poderia fazer... Mas – lá está – isso é um pormenor que, se você for amigo (ou amigo de um amigo) de alguém que seja titular do cargo público, não terá importância absolutamente nenhuma. Como se viu neste caso – que, de tão estranho, só pode ser inventado, já se vê... (Deve ser por isso que se costuma dizer que um gajo sem amigos não é ninguém.)
Hummm... Depois de ler estas coisas, o caro leitor deve achar que, se calhar, quem precisa mesmo de acompanhamento psiquiátrico sou eu, que ando para aqui a disparatar alarvemente, não é?
Aliás, para inventar coisas tão parvas, tão absurdas, devo estar a delirar. Ou então estou drogado. Só posso!
Onde é que já se viu alguém chegar com argumentos desses a uma autoridade de saúde? Bem... se calhar até já se viu... Mas onde é que já se viu uma autoridade de saúde dar seguimento a uma “queixa” tão mal fundamentada? Nããão! Não pode ser!
Agora, só faltava que (imaginando nós que havia um tribunal disposto a acolher semelhante “queixa” sem fundamento) algum Meretíssimo Doutor Juíz resolvia dizer que sim senhor, o sujeito de quem se diz (diz-se, apenas, sem provas) lavar muitas vezes as mãos e não falar com ninguém deve ser notificado para ir a uma consulta de Psiquiatria, e que a notificação lhe deve ser entregue por uma autoridade policial – que, no caso do sujeito em questão – você, caro leitor - seria a GNR (Guarda Nacional Republicana).
Mas – melhor ainda – calcule que a delegada de saúde do Concelho de Almada, não sabendo o seu nome mas conhecendo a sua residência (vamos admitir que você se chama António Carlos Ferreira Vitorino, e mora na Rua Sopa de Urtigas, Lote 45, Bairro do Picapau Amarelo), pede ao tribunal que notifique um António Carlos Mota Ferreira, residente na Rua Sopa de Urtigas, Lote 45, Bairro do Picapau Amarelo (coisa que só poderia acontecer se esta história fosse real – e não pode ser, não é?), e o tribunal entrega à GNR uma notificação em nome desse António Carlos Mota Ferreira (que, pelo menos nesta história, não existe, como já vos expliquei).
Ainda melhor: e que tal se for interpelado pela GNR, na via pública, porque os dois agentes da autoridade, depois de muito olharem para si, ficam convencidos que você é mesmo a pessoa que eles procuram (repare o caro leitor que você, supostamente, não é suspeito de nada – porque não cometeu nenhum crime, tem o seu cadastro limpo, e nunca manifestou intenção de fazer nenhum acto ilegal - mas a GNR “identifica-o” visualmente na rua, como se tivesse a sua foto em algum ficheiro, ou como se alguém o tivesse apontado a dedo - ou seja, denunciado, por um crime que você não cometeu, não se preparava para cometer, e, aliás, nem isso sequer lhe tinha passado pela cabeça!) .
E então, perguntam-lhe se você é o tal António Carlos Mota Ferreira, residente na Rua Sopa de Urtigas, Lote 45, Bairro do Picapau Amarelo e se não se importa de os acompanhar até ao posto, onde têm um papel para você assinar, coisa que não demora nada e até o lhe dão boleia depois, de regresso ao local onde o encontraram – ou seja, à tal paragem de autocarro (o que siginifica também uma de duas coisas: ou eles são espertos e você, leitor, é estúpido; ou então convenceram-nos mesmo que iam levar um maluquinho ao hospital – o que deve ser mais ou menos a mesma coisa, não é?...)
Imagine agora, prezado leitor, que nesse dia você até estava sem documentos de identificação. Quer dizer: você assegurava que não senhor, o seu nome não correspondia ao da suposta pessoa que eles procuravam. E perguntavam-lhe, então, se a morada era a mesma. E o leitor, como não queria mentir à autoridade, respondia que sim, a morada correspondia, embora o nome fosse diferente. E, porque não queria ser acusado de resistir à autoridade, lá ía... assinar o tal “papelinho” e ficar à espera que os agentes o levassem de volta ao local onde o interpelaram (ingénuo leitor!...).
Coisa tão estúpida, não é? Obviamente, assim que o desprevenido leitor chegasse ao posto da GNR, tal excesso de zelo seria logo rectificado: você não tem o nome que está no tal “papelinho” (emanado pelo tribunal), portanto, o tal “papelinho” não seria válido, não é?
Afinal, vivemos num Estado de Direito, e mesmo que, por hipótese absurda, a delegada de Saúde tivesse pedido ao tribunal para emitir essa ordem (coisa que, nessas circusntâncias, não tem legitimidade para fazer), e se, por hipótese ainda mais absurda, o tribunal tivesse emitido tal ordem, ela não seria válida, porque a pessoa notificada não existe... pelo menos não existe naquela residência. Logo, o mais natural seria rectificar o erro, e mandar embora o “suspeito” (de quê?) identificado visualmente (como?) por engano. Seria, não seria?
Pois. Mas então, se em vez disso os agentes da autoridade “corrigissem” o seu nome, alegando que “se a morada era aquela, então você é a pessoa que procuramos”?
E então lá o faziam esperar, suponhamos que no posto da GNR da Trafaria, e – ah, pois, já me esquecia – sem nunca lhe dizerem exactamente onde o levavam (apenas “a uma consulta” – embora você, leitor, que não é estúpido, já tivesse percebido qual a “especialidade”).
E isso durante cerca de uma hora, sentado num banco de madeira, à espera de uma ambulância dos Bombeiros que tinha sido “fretada” expressamente para o levar (é que os bombeiros, tal como a GNR, tal como os tribunais, tal como a delegada de Saúde, não têm, aparentemente, coisas importantes com as quais se preocupar), a ver os senhores agentes embevecidos pelo serviço bem cumprido (levar um maluquinho ao hospital) e, ainda por cima, perguntando-lhe (pergunta retórica, já se vê...): “você sabe a que consulta vai, não sabe, senhor António?”.
Perguntará agora o caro leitor como terminaria esta história, se fosse real.Alguém que é levado, desta forma, escoltado por um elemento da GNR e dois bombeiros, a uma consulta de Psiquiatria (urgência psiquiátrica do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, no dia 2 de Outubro de 2007), tem certamente problemas graves – mesmo que escreva num blogue uma historieta em jeito de auto-justificação, não é assim?
Será?
Imagine, caro leitor, que esta história tinha acontecido mesmo, e que tinha acontecido consigo (é tão absurda que parece não ser possível, mas, mesmo assim, imagine).
Você ficava, impávido e sereno, à espera que lhe fizessem a próxima?

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Eu & a minha mochila


Até aqui, tenho falado dos projectos em que participei desde os finais da década de 80 e início dos noventas.... Ora, antes de avançar para o final do milénio (e porque estou – excepcionalmente – bem humorado, sem precisar de morfexes, nem de xanaxes, nem nada disso...), resolvi desvendar hoje um dos mistérios que tanto tem intrigado sucessivas gerações de almadenses.
Sim, adivinharam: venho, neste artigo, falar acerca da(s) minha(s) mochila(s)!

Então é assim: comecei a usar esse “adereço” precisamente no início da década de 90, quando ainda não se viam muitos trabalhadores eslavos do sector da Construção Civil carregando às costas “adereços” semelhantes. Portanto, não estava ainda “na moda”. E isso causava estranheza. E, como devem calcular, era motivo de chacota (isto, note-se, num tempo pré-gatofedorento – ou seja, num tempo em que o Humor que se fazia em Portugal era, de facto, inteligente... embora, se calhar, não parecesse... mas enfim... hoje até parece e, se calhar, não é, não é?).

E comecei a usar esse “adereço” porquê, perguntam vocês?
Bem (respondo eu), porque precisava de uma coisa qualquer onde pudesse transportar as garrafas de uma mistela caseira com vinho, sumo de limão, açúcar e bagaceira (de moscatel ou de cana, dependendo dos dias), à qual eu, jocosamente, chamava “sangria”.

Por isso e porque, andando lá por casa um certo familiar a partir coisas, a berrar com as pessoas, a ameaçar, a roubar o salário dos outros, e essas coisas engraçadas e inteligentes... eu saía de casa antes desse menino chegar, e para não ter que o aturar, metia-me no Ponto de Encontro (Casa Municipal da Juventude de Cacilhas), ficava por lá com os meus amigos daquela época, e só voltava no último autocarro. O que significa que precisava, também, de um sítio onde transportar, por exemplo, uma camisola de manga comprida, ou mesmo um casaco, para o caso de fazer frio à noite, estão a ver?
Claro que, quando estava a trabalhar (e estive quase sempre, durante essa década), acontecia muitas vezes ficar o dia inteiro na rua. De manhã até à hora do tal último autocarro (saída às 2h50, de Cacilhas).

Portanto, a mochila servia para transportar álcool, camisolas e... Bem, algumas vezes serviu para transportar, também, resmas de papel para imprimir o Debaixo do Bulcão. Ou a edição do dito, já dobrada e agrafada, para distribuir.

Mas isso interessa o quê? Cultura? Bah!

Se um gajo se mete nessas coisas, ainda acaba a falar sozinho (como podem ver, é o que estou a fazer naquela foto, não é?), e arrisca-se a ser interpelado, a pedido de uma qualquer autoridade de Saúde concelhia, por uma qualquer força policial, em plena rua, para ser levado a uma urgência psiquiátrica num qualquer hospital de Lisboa.

Portanto, o melhor mesmo é fazer coisas que não dêm nas vistas. Tipo trepar aos terraços das casas para as ir assaltar muito discretamente, ou.. sei lá, deixa cá ver... viver em união de facto com alguma gaja que se sujeite a levar tareias brutais, segundo aquele tão típico princípio luso que manda ninguém meter a colher entre marido e mulher. Isso sim, é de homem! E não faz mal, desde que ninguém saiba!

Não é?
É, pois!...

Nota de rodapé 1: Antes de chamarem os senhores de bata branca para me levar, pensem duas vezes se sou mesmo eu quem devem levar. E depois, pensem ainda mais uma vez. É que eu não digo as coisas só “da boca para fora”. O que afirmo é fundamentado em factos reais, vividos, e (o que é melhor) devidamente documentados. Venham desmentir-me, se puderem.

Nota de rodapé 2: Se, mesmo assim, acharem que estou a disparatar... Epá, é que eu estou em véspera de cumprir mais um aniversário (é a 6 de Dezembro, e faço 44, idade suficiente para já não ter de aturar certas “normalidades”). Portanto, sou pequenino e essas coisas. Gugu dádá... Podem ser simpáticos comigo, oferecer-me um bolo com velinhas, cantar os parabéns a você, e tal...? Notem que nem sequer estou a pedir quinze dias de férias em Tróia! Aliás, para quê... se não fiz mal a ninguém?