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sábado, maio 19, 2012

No tempo em que os jornalistas eram pagos para fazer perguntas (e publicar as respostas)

Abril de 2000, em Portalegre, concelho então sob hegemonia do PS, com poderes que dificultavam ao máximo todas as tentativas de fazer jornalismo independente... Mesmo assim, o semanário onde eu trabalhava (Jornal D'Hoje, dirigido por Rui Vasco Neto) lá ia mandado umas pedradas ao pântano.

Numa edição demos voz ao descontentamento do gestor de um programa governamental para o Norte Alentejano (Domingos e Sousa, também ele militante do PS, que geria o AVNA - Acção de Valorização do Norte Alentejano), o qual acusava o governador civil, Galinha Barreto, de o ter afastado do cargo de forma descricionária. O ex-gestor afirmava que as suas queixas não eram contra o governador enquanto tal mas sim contra a pessoa que, alegadamente, o afastara («não ponho em causa o governador civil mas sim as acções do individuo», afirmava em entrevista publicada na edição anterior do jornal)...

Assim, embora a "queixa" fosse de cariz pessoal entre dois militantes do partido no poder, ambos com responsabilidades governativas descentralizadas, acontecia no âmbito de um processo político e institucional que mexia com uma entidade pública.

Logo, o assunto não se encontrava no círculo restrito das relações pessoais ou dos jogos de poder internos deste ou daquele partido: estava no domínio da política - palavra que, como se sabe (ou devia saber) significa a gestão da "polis", ou seja, da cidade (em sentido lato: da vida comunitária, daquilo que nos é comum enquanto indivíduos que vivem e se relacionam em sociedade).

Portanto, face a essas acusações, fizemos o que nos competia enquanto jornalistas: tentámos ouvir o acusado. Fazer "o contraditório", como está na moda dizer-se. Lá consegui o contacto telefónico com o governador (o que, naquele ambiente de hegemonia "socialista" não foi nada fácil). O político decidiu que não tinha nenhum comentário a fazer sobre esse assunto - assunto político e já conhecido do público. Tinha todo o direito de não comentar, obviamente.

E nós tinhamos todo o dever de perguntar e, perante a recusa, de informar que, confrontado com a acusação de que foi alvo, o visado prefere não comentar. Porque uma atitude dessas é já uma atitude política. E é informação - ou seja, aquilo que os jornalistas eram pagos para produzir.

Antigamente, claro...

E mesmo assim, nem todos: havia já os que se preocupavam mais em criar factos políticos. Por exemplo, não publicando o "não comento" e preferindo depois armarem-se em queixinhas, dizendo que foram censurados. É o caminho mais fácil e também o mais populista.

Nós não precisávamos disso para enfrentar os poderes, quando tal fosse necessário. E muitas vezes os enfrentámos. Tanto que o jornal não durou muito tempo. Mas, enquanto durou, fez o que tinha a fazer e não o que outros queriam e desejavam que fizesse.

Em democracia é esse o papel da comunicação social: informar, sem contrangimentos (a não ser os impostos pelas regras deontológicas e legais que, supostamente, regulam o exercício da profissão), mesmo que para tal tenha que lutar contra os obstáculos que lhe são colocados pelos diversos poderes.

Armar-se em "quarto poder", em "contrapoder", em "poder alternativo", pensar que é dono da verdade, ou tomar a atitude contrária e ser megafone dos poderes é que não, obrigado.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Eu não acreditava em políticos com sentido de humor mas lá que eles existiam existiam. Pelo menos no século passado...



Em Portugal é raro encontrar um político com sentido de humor. Nas minhas lides jornalísticas raramente encontrei um que...

Mas esperem aí. Eu estou a começar mal esta crónica. Não era bem isto o que eu queria dizer.

Por acaso conheço até uma boa mão-cheia de políticos com sentido de humor - só que não o manifestam em público.
Recomeçemos, portanto. O que eu queria dizer é que em Portugal é raro encontrar um político que, no exercício das suas funções, consiga demonstrar algum sentido de humor, e... Ops! Espera aí, acabo de me lembrar de dois ministros do anterior governo que até gostavam de dizer umas chalaças, e tal... Um deles, salvo erro, fez até grande furor com uma rábula taurino- parlamentar, não foi?

Pronto, confesso que isto não está a correr bem...

Já vi que o melhor é mesmo deixar-me de rodeos, perdão, de rodeios, e ir directamente ao assunto.

Em Dezembro de 1999, fui de Portalegre a Évora, a mando do meu director Rui Vasco Neto, fazer uma entrevista com Carlos Zorrinho, político que era então apontado como futuro Alto Comissário para a Região Alentejo.


Mas - não sei se por Carlos Zorrinho ser considerado, nessa época, um político hábil e "brincalhão" ("brincalhão" no bom sentido, note-se) - não fui sozinho: fui com um colega de redacção chamado Ricardo Galha. A táctica que nos fora dada pelo "mister" Rui Vasco era a
seguinte: tu, Ricardo, conduzes a entrevista; e tu, Vitorino, fazes as perguntas mais incómodas.


Por acaso (ou não...) acabei por ser eu a fazer quase todas as perguntas... incluindo as mais incómodas.

Mas o que me interessa registar aqui é que, de facto, Zorrinho conseguiu, nessa conversa, ser brincalhão qb, sem fugir a nenhuma pergunta (contrariamente a algumas "enguias" que encontrei pelo caminho - muitas delas, curiosamente, do mesmo partido, ou seja, do PS - que só foram "brincalhões" no mau sentido), demonstrando sempre um conhecimento rigoroso dos
assuntos (dos "dossiers") e, ao mesmo tempo, uma facilidade e clareza de expressão que muito facilitou o nosso (dos jornalistas) trabalho. Ou seja: disse o que tinha a dizer, sem ser chato, monocórdico ou repetitivo, e de forma a que toda a gente entendesse. Exactamente o contrário do que estou a fazer neste texto, portanto.

Foi uma das entrevistas que me deu mais "gozo" fazer. Mesmo na rádio (onde comecei em 1992) não tivera a oportunidade - ou a sorte? - de encontrar figura política tão interessante. E não estou a ironizar, não senhor!

Deixo-vos aqui as páginas do Jornal D'Hoje com a mencionada entrevista feita ao supracitado político na referida ocasião. E, se as deixo aqui, é por mera curiosidade histórica, como é óbvio!...






Claro que, mais tarde, em Setúbal, ao serviço do Sem Mais Jornal, voltei a fazer duas ou três perguntazitas a Carlos Zorrinho - mas foi num ambiente mais formal, de conferência de imprensa. E o senhor político era, nesse tempo, já secretário de Estado. Da Administração Interna, por sinal. E com a Administração Interna não se brinca.

(Notas do redactor: Carlos Zorrinho é, na legislatura actual, secretário de Estado da Energia; nas páginas do Jornal D'Hoje aqui reproduzidas não aparece nenhuma piada que tivesse sido deliberadamente produzida na ocasião, nem tinha de aparecer: piada é piada, sentido de humor é uma coisa ligeiramente diferente e mais subtil, capisce?)

domingo, novembro 02, 2008

Não havia necessidade?


Andar nestas coisas do jornalismo nem sempre é fácil ou gratificante, mas tem as suas vantagens.

Enquanto jornalista (ainda não encarteirado, mas isso é outra história) tive a oportunidade de conhecer pessoas muito interessantes e mentalidades muito diferentes daquelas a que estava habituado em Almada (onde convivi com gente assaz desenvolvida em termos culturais e intelectuais - mas que, como aprendi depois, era a excepção...).

Em Portalegre, por exemplo, conheci um dos melhores jornalistas com quem tive a oportunidade de trabalhar: Rui Vasco Neto, director do Jornal D'Hoje. Mas conheci-o num contexto um bocado estranho: estava ele a tentar fazer um jornal a sério, numa região do país em que isso era extremamente difícil (parece-me que hoje é extremamente difícil em todo o país, mas enfim...).

Eu vinha de um meio cultural almadense em que as pessoas tinham suficiente inteligência, auto-estima (não confundir com arrogância - que é precisamente o contrário) e sentido de humor (que não existe sem a inteligência e a auto-estima) para entenderem as questões no plano em que elas eram colocadas, e não fazerem (para usar uma expressão muito portuguesita) tempestades em copos de água.

O Jornal D'Hoje tentou - e conseguiu - fazer jornalismo a sério numa terra que estava pouco habituada a essa coisas (estou a referir-me a um período de tempo entre 1999 e 2000 - não sei como é nos dias de hoje).
Fazer jornalismo a sério já era uma coisa um bocado estranha por aquelas bandas. Mas fazer crítica... isso então era um sacrilégio!

Veja-se este exemplo: um café muito famoso na cidade (local de que eu até gostava, e frequentava) tinha, no seu wc, um aviso "a posteriori": por cima do autoclismo, que não funcionava, um papel onde se lia "quando necessário por favor peça a torneira ao balcão".

A torneira era a que abria a água do autoclismo. Ou seja: a gente primeiro deitava o excremento lá para dentro e depois ia ao balcão dizer: "olhe, estive a cagar mas não consegui despejar o autoclismo; faz-me o obséquio de me emprestar a torneira durante um bocadinho que eu já a trago de volta?".


O jornal publicou uma coisita sobre o assunto e só não caíu o Carmo e a Trindade porque isso é em Lisboa... Mas ia caindo para aí a Sé e a Praça da República!...

Mas com "melindres" desses podíamos nós bem. Uma piada é uma piada.
Pior mesmo era quando se melindravam com coisas sérias...



(Mas isso, já se sabe, são - para usar outra expressão muito portuguesita - os "ossos do ofício".)

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Jornal D’Hoje (Portalegre, 1999/2000)

O semanário Jornal D’Hoje foi um projecto do jornalista Rui Vasco Neto, feito em Portalegre, na transição do século 20 para o século 21.
Irreverente e desafiador dos poderes instituídos – à imagem do seu criador, aliás – o Jornal D’Hoje tinha tudo para ser um fracasso editorial, numa terra tão conservadora como era então a “capital do Norte Alentejano”.
E, como se previa (e como muitos caciques locais desejaram, e trabalharam para tal), acabou mesmo por ser um fracasso, em termos de viabilidade editorial. Mas foi, também, um grande exemplo do que deve ser a comunicação social local: informativa, atenta, interveniente, sem cedências nem compromissos.
Um jornal que, como se costuma dizer (e porque era feito à imagem do seu criador, repito), chamava os bois pelos nomes. Ou seja: fazia jornalismo. Mesmo correndo o risco de chatear alguns poderes, locais, regionais, ou mesmo nacionais.E era mesmo isso que se pretendia: dizer as verdades (revelá-las) sobre um dois distritos portugueses mais deprimidos e subdesenvolvidos (não porque “não gostássemos de Portalegre”- e, portanto, só tinhamos era que “voltar para a nossa terra”, como nos foi sugerido várias vezes pelos arautos da mentalidade “xenófoba” local – mas apenas porque era esse o âmbito territorial do periódico em questão). E propunha-mo-nos a revelar essas verdades, doesse a quem doesse.

Ora leiam este excerto do editorial do número zero (9 de Dezembro de 1999), assinado pelo director, Rui Vasco Neto:

«Em Portugal já não se usam palavras. Usam-se meias palavras para tudo, do insulto ao elogio, da ordem à sugestão.
A palavra de ordem é não hostilizar, contemporizar, dialogar, negociar, enganar, se for preciso! – mas não agitar.(...)
Ser politicamente correcto é, nos dias de hoje, tão imprescindível como o telemóvel. Quem não é não está contactável. Pior: não é contactável.(...)
Todas as suas perguntas têm cabimento no JornalD’Hoje. A nossa função é essa, perguntar e obter resposta às perguntas. E quando os senhores que se sentam na coisa pública como se fosse só deles torcerem o público nariz de desagrado pela insistência (...) há sempre uns que se calam.
Gostaria de dizer aos leitores deste jornal que há sempre uns quantos outros que perguntam outra vez o que querem saber e mais outra e outra (...) até à resposta final. E que depois vão confirmar a resposta.
Têm um nome, esses. Chamam-se jornalistas. Bem vindo ao mundo da informação regional, com qualidade nacional.»
Claro que, com esta declaração de intenções, o Jornal D’Hoje estava, logo à nascença, em “guerra” com os poderes então instituídos no “norte alentejano”. E que poderes eram esses? Bem, deixa cá ver se me lembro... eram 10 concelhos dominados pelo Partido Socialista (que estava então também no Governo do país), em 15 dos que compõem o distrito de Portalegre (os outros 5 eram “repartidos” pela CDU e pelo PSD – mas o PS tinha os mais importantes: Portalegre, Elvas, Ponte de Sôr, Campo Maior...). E não era apenas a “proporção” ou “desproporção”de forças que estava ali em causa: era uma lógica de concentração de poderes, de hegemonia. E de asfixiamento das vozes eventualmente rebeldes.
Em Portalegre... fiéis ao objectivo de fazer informação rigorosa, sem cedências e ouvido sempre todas as partes interessadas num determinado assunto... sempre que falávamos com a “oposição”, tentávamos ouvir, também, a maioria (entenda-se, os autarcas do PS). Mas era, precisamente, essa maioria (com a própria Câmara de Portalegre à cabeça) quem colocava obstáculos ao nosso dever de informar.
Era habitual eu terminar os meus trabalhos com frases como “o Jornal D’Hoje tentou ouvir a Câmara de Portalegre, que não se mostrou disponível para prestar declarações”, ou então “na Câmara de Portalegre, disseram-nos que a única pessoa autorizada a falar sobre o assunto seria o presidente, mas só marcando entrevista, e o senhor presidente não estava disponível para entrevistas”.

Não acreditam? Julgam que estou a exagerar?Leiam, então, a seguinte história real:




Ou esta, não menos verdadeira:



Pois: era assim mesmo que as coisas se passavam!
“Desculpem lá, mas é que o senhor presidente não fala para um certo órgão de comunicação social local”. E não falava, sobre nada! Ou quase: certa noite, depois nós, Jornal D’Hoje, termos noticiado, em exclusivo uma “bronca” política que tinha acontecido na Associação de Municípios do Norte Alentejano (notícia escrita por mim, a partir de fontes que não podia identificar – mas que tinhas estado nessa reunião), mandámos um jornalista esperar o senhor presidente à porta dos Paços do Conselho. E porquê? Porque ele tinha apresentado a demiossão do cargo que ocupava na Associação de Municípios, e nós julgámos que isso devia ser explicado... aos munícipes. Ouvindo a versão que nos tinha chegado da “oposição” e, depois, o que tinha o senhor presidente a dizer sobre o mesmo assunto.
Era essa a nossa obrigação, enquanto jornalistas.
E, se não foi a primeira vez (não tenho a certeza), foi certamente a última que o senhor presidente falou para o Jornal D’Hoje. Vejam lá o descaramento desses jornalistas (que, ainda por cima, nem são de cá) a querer incomodar o senhor presidente com perguntas incómodas!
Enfim, não “incomodávamos” só o presidente da Câmara de Portalegre.
Também “chateámos” um bocado outros detentores
de cargos políticos, como, por exemplo... ora deixa cá ver... pois, o senhor Governador Civil!... (Uma parte dessa história já foi contada aqui.) E, escusado será dizer – hummm... será mesmo escusado?... – que não nos movia qualquer intuito de “perseguição” a esses titulares de cargos públicos. Era, digo-vos mais uma vez, a nossa obrigação, enquanto jornalistas: informar, fazer serviço público.
Além disso, o Jornal D'Hoje teve ainda o mérito de recuperar - e logo na tão conservadora Portalegre - esta preciosa e esquecida tradição dos "ardinas". Pois, isso mesmo: uns jovens que, expressamente "contratados" para o efeito, e trajados a rigor, abanavam a letargia da cidade, com pregões, tipo "ólhó Jornal D'Hoje!". E isso é outra história que merece ser contada (mas que, por agora, fica aqui apenas brevemente referida, quase como nota de rodapé).
Bem, sobre a minha experiência profissional em Portalegre, havia tantas outras coisas interessantes para contar!...
Mas fica para a próxima, que esta dissertação – e esta série de artigos – já vão longas!

Só mais uma coisa, muito a propósito: eu já me tenho referido aqui ao Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses – documento aprovado em 1993, que é um exemplo de auto-regulação profissional. Ora bem: eu, que começara a minha carreira profissional em 1992, na Rádio Baía – e que já passara por outros órgãos de comunicação social – só mesmo em Portalegre, e no Jornal D’Hoje fiquei a conhecer o texto integral. Sabem porquê? Porque o director, Rui Vasco Neto, fez questão de o afixar na sala da redacção. E mais: aconselhou-nos a ter sempre presente aquele – valioso – código de conduta.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Eis que chego, finalmente, a Portalegre

Já sei que corro o risco de chatear os visitantes deste blogue, e de perder os meus fiéis leitores (podem entender isto como uma piada, se quiserem). Mas é que preciso mesmo de continuar o relato das minhas deambulações profissionais. Há por aí quem tenha feito um esforço para varrer isto para debaixo do tapete. E eu cá estou, a levantá-lo (o tapete), para mostrar o que foi escondido.

Portanto, chego agora ao ano de 1999 - e a Portalegre, essa belíssima e chatíssima capital do “Norte Alentejano”. (E com isto fica já despachada mais uma parte das “audiências”...)

Ora, andava eu cá por Almada, quando conheço uma mulher portalegrense que me convence a ir morar com ela lá para o sopé da Serra de São Mamede. E eu, tão convencido fiquei que fui mesmo. (Por isso e para ver se me livrava, finalmente, de um certo familiar que me andava a prejudicar, com roubos, destruição de património, ameaças, etc. – e que, nesse tempo, sem que eu o soubesse, era também já, ele, arguido num caso de agressões continuadas... Mas adiante.)

Então, chego a Portalegre, sem nenhum plano a não ser essa lamechice do “amor e uma cabana” – e, como já disse, muita vontede de não aturar mais criminosos.

Ainda pensei (ingénuo que eu era!...) em enviar o meu curriculum para o jornal “de referência” lá da terrinha: o Fonte Nova. (Não sabia eu que, para o Fonte Nova – e para a generalidade dos portalegrenses, como constatei depois – os “estrangeiros” baixam a bolinha, comem e calam, se não estão contentes vão lá para Lisboa, e essas coisas a que o poeta nefelibata Affonso Gallo tão espirituosamente se refere no seu Soneto Portalegrense, que é um bonito poema de 14 versos – duas quadras e dois tercetos -, escrito todo ele em decassílabos, e que podem ler acedendo ao blogue desse autor, ou simplesmente clicando em: affonsogallo.blogspot.com/2007/01/soneto-portalegrense.html.)

Mas, oh meus amigos!... Pelo menos uma vez na vida os deuses, o destino e essas coisas todas, estiveram comigo: assim que lá cheguei havia um novo projecto editorial a pedir jornalistas. E, ainda por cima, era um projecto editorial liderado por um “estrangeirado” (estrangeirado em relação à mentalidade portalegrense), de seu nome Rui Vasco Neto (jornalista que tinha passado antes pelo Tal&Qual, no tempo em que esse periódico tinha alguma qualidade – e que vocês são capazes de conhecer de um produto televisivo que ele fez mais tarde, na TVI, chamado “Vidas Reais”...).

Rui Vasco Neto e eu, António Vitorino... Deve ser difícil conjugar duas personalidades tão opostas, não é? É pois! Garanto-vos eu, que conheço ambos.

Mas (julgo que por isso mesmo, justiça lhe seja feita) ele, Rui Vasco Neto (ou o Senhor Rui, como lhe chamavam os seus empregados...) aceitou a minha candidatura. E mais: convidou-me para ser “coordenador de redacção” do projecto que estava a nascer: o semanário Jornal D’Hoje. Uma parceria (melhor: uma relação suserano-vassalo) algo “contra-natura” que, mais tarde ou mais cedo, teria que dar para o torto.

E deu.
Mas, entretanto, fez-se (fizémos) uma espécie de “revolução” na comunicação social daquela terra.

Não sei se teve consequências. Não sei como está, hoje, o panorama editorial portalegrense.
Mas sei que até o Fonte Nova (jornal “oficioso”, alinhado pelos poderes da região) mudou, para melhor, nesse tempo, com a concorrência que “nós”, Jornal D’Hoje, lhe fizémos.

Agora, após estes anos todos, olho para o Fonte Nova e fico com vontade de rir (como podem ver, aquele sou eu, estou – após estes anos todos - a ler o Fonte Nova, e estou a rir-me). Mas é um riso ternurento, garanto-vos. Até porque a minha passagem por Portalegre teve, também, o efeito de me fazer olhar com menos arrogância para coisas que eu anteriormente considerava extremamente pirosas, insignificantes, de mau gosto, próprias de gente sub-desenvolvida... Enfim, aprendi a ter mais calma com essas coisas.

Foi, em suma, o meu “banho” de “país real”.

terça-feira, outubro 09, 2007

E agora uma piada, só para desenjoar, e antes de voltarmos às coisas sérias.

Em Março de 2000, o então ministro do Ambiente, José Sócrates, foi a Avis (no distrito de Portalegre), encerrar solenemente uma lixeira e, não menos solenemente, inaugurar um aterro sanitário.
Nesses tempos, especulava-se muito sobre a possibilidade do território de Portugal continental vir a sofrer um período de seca. E isso, numa região onde ainda há (ou havia...) agricultura e pecuária, constituía uma grande preocupação. De resto, até o abastecimento de água para consumo das populações poderia ficar comprometido (porque existiam graves deficiências a esse nível, nomeadamente na própria cidade de Portalegre...). Isto, é claro, no caso de se concretizar a perspectiva de seca. O que não veio a acontecer: passadas algumas semanas caiu uma carga de água tão grande que a preocupação passou a ser o risco de inundações e enxurradas.
Mas esperem aí, a piada não é essa.
Aliás, isso não tem piada nenhiuma.

A piada é que, pouco antes, o então primeiro-ministro, António Guterres, tinha solenemente fechado as comportas da então recém-terminada barragem de Alqueva, e...
Pronto, está bem, isso também não teve piada.
A piada (agora a sério) é que, em Avis, no acto de encerramento da lixeira e inauguração do aterro sanitário, uma jornalista, de um órgão de comunicação social nacional (ainda por cima!...) lembra-se de fazer ao senhor ministro do Ambiente a seguinte brilhantíssima pergunta:

- Não receia, Senhor Ministro (bem, talvez eu esteja a exagerar e ela não tenha dito Senhor Ministro, mas apenas senhor ministro... adiante...), que a seca que se perspectiva possa vir a afectar o enchimento da barragem do Alqueva?

Esperem aí, que a piada ainda não acabou.
O senhor ministro, sem pestanejar nem perder a compostura, responde qualquer coisa como «não, uma vez que o processo de enchimento leva vários anos, e mesmo que exista agora seca, o que aliás é apenas uma possibilidade(...)» e por aí adiante.

Quando cheguei à redacção do Jornal D'Hoje para escrever o artigo que já viram ali em cima, conto a história ao directot, Rui Vasco Neto. E ele (depois de ter a reacção que calculam...) comenta: «Pois. O sentido de humor não é o ponto forte do Sócrates».

Mas pronto, isso foi no tempo em que "o Sócrates" era apenas Ministro do Ambiente, e a gente ainda podia contar factos reais acontecidos com ele, sem nos arriscarmos a que nos acontecesse qualquer coisinha má.
Portanto, façam de conta que eu não vos contei nada, está bem?

PS (já sabem que isto significa Post Scriptum, e não se refere a nenhum partido político): tenho pena que, quando o actual primeiro-ministro, reagindo a uma manifestação de representantes dos trabalhadores do sector da Educação, se considerou "insultado", não estivesse lá a tal jornalista (ou outra do mesmo quilate) para lhe perguntar porque razão se sentiu ele insultado. É que, pelo que passou na reportagem eu, sinceramente, não entendi.
Mas, pronto, os tempos são outros. Já passaram 7 anos, o actual primeiro-ministro não é o "banana" do Guterres, e o jornalismo também já não é o que era.
Aliás, começo a ficar convencido de que, simplesmente, já não é.
E isso para quem sempre levou esta coisa do jornalismo a sério, é muito chato. No mínimo.)

domingo, julho 29, 2007

Como fica mal ser juiz em causa própria...

permito-me reproduzir aqui um texto publicado no site da Escola Superior de Educação de Portalegre, sobre o Jornal D'Hoje, semanário daquele distrito, no qual colaborei entre Dezembro de 1999 e Abril de 2000.

«Acerca das pressões sobre os media de âmbito local/regional
António Garraio

No actual cenário de Portalegre, ou de outra localidade qualquer do interior do país, a viabilidade financeira dos meios de comunicação é extremamente débil. Mas os meios de comunicação existem… portanto subsistem. Como? E a que preço?

Há alguns anos, Rui Vasco Neto chegou a Portalegre e abriu o Jornal d’Hoje. Uma lufada de ar fresco invadiu o Norte Alentejano, pensei, na altura. Só que alguém não partilhava essa opinião, e mais que brisa, considerou que se estava a aproximar um ciclone.

A pluma esclarecida e directa do Rui depressa se tornou numa pedra no sapato para o poder estabelecido. Porque publicou em cada momento aquilo que se devia publicar, as suas crónicas nunca tiveram a preocupação de agradar a gregos ou a troianos.
Este acerto jornalístico foi a morte do Jornal d’Hoje. Porque os media de dimensão local só podem sobreviver economicamente com o apoio da publicidade institucional, das publicações de grandes editais, anúncios de grandes concursos, etc. E numa terra onde não existem outros recursos publicitários com a mesma repercussão, quem publica anúncios a toda a página que
permitam pagar os ordenados no fim do mês tem o poder na mão. E não admite críticas, sob nenhum conceito. Foi essa mão que estrangulou um projecto de jornalismo local que certamente teria merecido a pena acompanhar… Porque essa mão não só fechou a porta ao Jornal d’Hoje, como também deu indicações para que outras portas se fechassem.

Antes do Jornal d’Hoje, Portalegre já contava com outros meios de comunicação. Que continuam a existir. A qualidade de alguns brilha pela sua ausência. Mas eles estão cá de pedra e cal. Porque se arrastam pelo chão perante o poder. Porque sabem a quem lamber as botas. Não fazem jornalismo. Rastejam em busca da sobrevivência, a qualquer preço.

Nunca conheci pessoalmente o Rui Vasco Neto… Mas ainda não perdi as esperanças de um dia lhe dar um abraço. Pela coragem que teve quando fundou o Jornal d´Hoje, um projecto que, desde a nascença estava condenado ao fracasso.»



Considerando que não há necessidade de acrescentar muita coisa a este texto, deixem-me apenas dizer-vos que (como é óbvio) um jornal não se faz apenas com o director, por muito bom jornalista que ele seja (e era).


E, como demonstrar factos é sempre melhor que esgrimir argumentos (pelo menos eu penso assim...), aqui vai um episódio da vida do Jornal d'Hoje (e dos entraves à actividade jornalística, a que se refere António Garraio), relatada nas páginas do próprio, pelo respectivo director, Rui Vasco Neto:

(Penso que não será necessário propor-vos que "adivinhem" quem é o António Vitorino referido neste episódio, não é?)


Voltarei a referir-me aqui ao Jornal d'Hoje. E - porque não? - a outros órgãos de comunicação social nos quais trabalhei...

A.V.