Respondendo a um desafio (provocação?) que o PréDatado colocou no seu (dele) blogue,
venho aqui hoje escrever umas coisitas sobre o mui polémico acordo ortográfico da língua portuguesa.
venho aqui hoje escrever umas coisitas sobre o mui polémico acordo ortográfico da língua portuguesa.Antes de mais nada: não escondo que sou favorável a este acordo (e já o referi antes aqui e também aqui). Como instrumento político para unificar documentação oficial, é muito interessante. É, assim mal comparado, uma espécie de "programa simplex" da língua portuguesa. Acho que todos os magalhães já deviam vir apetrechados com um.
Pronto, agora a sério: concordo, sim, com o acordo. Não me vai fazer escrever de maneira diferente (continuarei a redigir facto e fato, por serem palavras diferentes, mas continuarei a escrever também recepção e reacção... embora, no português de Portugal, esteja a usar consoantes desnecessárias).
É preciso ter em conta que, contrariamente ao que dizem os que são contra, este acordo não vem "alterar por decreto a língua portuguesa". É um acordo ortográfico - logo, só altera a ortografia. E - isto é, a meu ver, o mais importante - altera a ortografia para a aproximar da fonética. Ou seja: daqui a uns anos - quando estivermos todos habituados a isto - deixaremos de escrever em Portugal recepção (passaremos a escrever receção - pois é assim mesmo que dizemos a palavra!). Mas vamos continuar a escrever facto e pacto (porque dizemos facto, e não fato; pacto e não pato!). No Brasil, diz-se fato (e, por isso mesmo, é assim que se escreve) e diz-se pacto e diz-se recepção (logo, os brasileiros vão manter o "c" e o "p" nessas palavras.
Simples, não é?
Refiro estes casos porque, entre as muitas dúvidas que se levantaram em Portugal, uma das mais recorrentes (talvez mesmo a mais recorrente) era saber se vamos passar a redigir fato em vez de facto. (Mas isso é assunto que foi tão debatido, desde os anos 80, que tenho alguma dificuldade em admitir que, hoje em dia, quem apresenta essa "dúvida" esteja mesmo a falar a
sério...).
sério...).
O que me incomoda e preocupa, realmente, é a adulteração da língua portuguesa pela via das abreviaturas usadas hoje, a torto e a direito, nas msg de tlm e na net (e eu tb as uso, tão a ver?). Porque é assim: abreviaturas sempre foram utilizadas, para escrever mais depressa ou para poupar espaço (veja-se o caso de algumas inscrições lapidares da "idade média"). Mas, até
agora, soubemos sempre separar o trigo do joio: discernir o que é a escrita fluente e o que é escrita abreviada.
agora, soubemos sempre separar o trigo do joio: discernir o que é a escrita fluente e o que é escrita abreviada.
Ora - e é aqui que a porca torce o rabo - acontece que alguns professores têm andado a descobrir recentemente, nos textos dos seus alunos, essa tal "linguagem de telemóvel" escrita como se fosse a língua portuguesa correcta. Pior: quando lhes perguntam, os alunos mostram desconhecimento da regra - escrevem assim, porque foi assim que "aprenderam" e, portanto, é assim que está correcto (correto, segundo o acordo ortográfico), para eles!
Bem, e se fossem só os alunos...
Olhem para esta "pérola", encontrada numa caixa de comentários, a propósito de um artigo sobre, precisamente, o acordo ortográfico:
axo k u novo acordo ortograficovai ser algo que só vai trazer complicaçõespara com os alunos e para a população em geral!!!protesto!!!
É para rir? Talvez...
Mas não fui eu que inventei. Está aqui (podem ir lá confirmar):
Na dúvida, consultem também este artigo da Wikipédia:
Está muito completo (tanto quanto um artigo da Wikipédia o consegue ser) e, julgo eu, muito esclarecedor. Explica as alterações à grafia nos diversos países lusófonos, em que casos vamos escrever facto, fato, pacto, pato... Enfim: explica essa coisas todas.
A minha única dúvida - e a grande angústia existencial que este acordo me provoca - não fica, contudo, esclarecida nesse artigo. É esta: afinal, escrevemos cágado ou cagado? E se for um cágado cagado? É um cagado cagado? Alguém me esclarece?





