segunda-feira, abril 02, 2012

Polissemia nas imagens (ou na visão dos espectadores?)



Olhemos para estes dois pares de imagens (que andam a circular na internet) . São iguais ou diferentes?

O texto é complemento da imagem? Ou faz parte da imagem?

De que forma a substituição de uma palavra por outra (e a inclusão de cores - às quais associamos significados específicos - nas palavras) altera (ou não altera?) a percepção da mensagem?

E, já agora, qual é a mensagem?

Há, a este respeito, uma frase de Roland Barthes muito citada: "toda a imagem é polissemica e pressupõe, subjacente aos seus significantes, uma “cadeia flutuante” de significados, podendo o leitor escolher alguns e ignorar outros".

Talvez por isso mesmo, o primeiro pensamento que me ocorreu quando vi o primeiro par de imagens foi qualquer coisa como: "disparate! de um lado conceitos culturais, de outro uma visão idílica da natureza... qual é a ideia?".

E só entendi (mas entendi mesmo?) ao ver, depois, o segundo par - que julgo ser o original, pelo que o outro será uma alteração (para não dizer deturpação). As imagens são as mesmas. Mas a legenda (que é imagem, também, ou não? - ou melhor: a imagem é também texto, ou não?) permitiu-me (ou possibilitou-me) uma percepção (leitura) diferente da que tivera em primeiro lugar.

EGO e ECO - o trocadilho, de alguma forma "desdramatiza" a mensagem; mas, por outro lado, torna-a (a meu ver) mais legível. ECO, de ecologia, em vez de "natureza". Ecologia, ciência que estuda as relações dos organismos com o seu meio ambiente (não apenas com os outros seres vivos... mas esqueçamos esse pormenor, para não complicar) em vez de uma "natureza" idealizada (na qual, a levar aquilo à letra, nenhum ser humano sobreviveria durante muito tempo).

Ah, pois, há também a questão de homens e mulheres separados, com o homem em cima na estrutura piramidal e ambos misturados indiscriminadamente com a restante bicharada na estrutura circular. Sim, percebi a ideia, estejam descansados. Essa era a parte mais fácil.

Num mundo em que estamos expostos (e nos expomos) a um fluxo constante de mensagens, e em que somos cada vez mais tanto emissores como receptores, há que ter atenção (ou cuidado) com as imagens que emitimos - e que podem, muito bem, ter o efeito contrário ao desejado. Nunca devemos dar como garantido que o "público alvo" da nossa mensagem tem as mesmas referências que nós e que, portanto, a vai entender tal como nós a entendemos. A descodificação é uma coisa tramada.

E isto é válido para as imagens que escolhi para ilustrar este artigo, tal como é válido, por exemplo, para cartoons que comparam vândalos urbanos com vândalos financeiros, ambos a incendiar coisas; imagens com supostas criancinhas africanas desnutridas que são postas a circular com a legenda "partilhem, pode ser que assim as multinacionais se comovam e ajudem"; ou as fotos (e vídeos) de cargas policiais e outras violências, espontâneas ou encenadas, aqui, no México, na Ucrânia ou no Cú de Judas (que, na internet, é já ali adiante).

A overdose de imagens está a fazer de nós espectadores acríticos? Confusos, sem capacidade de descodificar? Defensivos, procurando, na multiplicidade de ofertas (veja-se o caso da televisão por cabo ou das "redes sociais" da internet) apenas o que nos interessa e nos conforta (ou, alternativamente, o que nos interessa porque nos horroriza e desconforta), ignorando tudo o resto?

Não sei. Mas nunca fiando...

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