quinta-feira, fevereiro 23, 2023

Um editorial, um pedido, uma declaração de princípios

um princípio que estabeleci, desde sempre, nas edições que publico: os autores não pagam para ser publicados! pelo contrário, devia ser eu a pagar-lhes pelo seu trabalho. se pudesse, mas não posso.

com o Debaixo do Bulcão, não havia dúvida nenhuma em relação a isso. era grátis, "subsidiado" (com apoio em papel e impressão, não com dinheiro) eu não tinha despesas... passei a ter, no final, quando a publicação se expandiu e me vi obrigado a meter dinheiro do meu bolso para aumentar a tiragem. mas eu vivo a contar trocos! para viabilizar o Debaixo do Bulcão, precisava de mais apoios. por isso, fiz, no início de 2020, uma campanha de crowdfunding.

expliquei (e penso que terei explicado bem) ao que vinha: queria fazer, como sempre, 4 edições anuais, com um número de exemplares que fosse o suficiente para os vários postos de distribuição (chegaram a ser nove: três em Almada, três no Porto, dois na Póvoa de Varzim, um em Vila Franca de Xira). e queria manter a publicação grátis.

durante quase dois meses, divulguei a campanha de angariação de fundos. e divulguei-a o mais que me era possível, e da melhor maneira que o conseguia fazer. resultado? dez pessoas apoiaram, obtive 173 euros, muito longe do que era necessário. obviamente, a campanha não foi financiada, as verbas foram devolvidas aos apoiantes, e o Debaixo do Bulcão terminou aí.

mas as pessoas perguntavam-me: então, o Debaixo do Bulcão acabou? acabou mesmo? não vais voltar a editá-lo?

não, não vou. mas posso criar um novo projecto. só que este não será grátis. 
"este não será grátis" porquê? porque queria começá-lo onde larguei o Debaixo do Bulcão e não regredir ao ponto de partida de 1996. queria manter a qualidade das últimas edições do Debaixo do Bulcão, queria manter (expandir, se possível) a rede de distribuição, queria abrir a publicação ao maior número de autores possível. não conseguia fazer isso com uma edição completamente grátis.

e porque estava, há muito tempo, a ouvir pessoas que me são próximas - e que, aparentemente, gostam do meu trabalho - aconselhar-me a vender as publicações porque, cito, "oferecidas ninguém as valoriza".

a decisão de lançar um novo projecto pareceu acertada logo à partida: assim que o anunciei e fiz uma (discreta) chamada para colaborações, tive o prazer de receber trabalhos de três dezenas de autores! algo que nem nos melhores tempos do Debaixo do Bulcão conseguira!

ao lançar este novo projecto, eu tinha (e tenho) a garantia de que consigo fazer pelo menos uma edição. essa garantia é-me dada por uma entidade que apoiou o meu trabalho editorial, regularmente, desde 1996. no entanto, o apoio que me podem dar (e que muito agradeço) não é o suficiente para concretizar o projecto nos termos em que o concebi. será o suficiente para fazer circular o fanzine em Almada (ainda assim, num meio restrito) e para o enviar aos autores. tal como acontecia com o Debaixo do Bulcão, nas suas últimas edições. a ideia não é essa. é expandir, não retrair!

portanto, precisava de mais apoios. e lá vou eu, que nunca aprendo, fazer novamente uma proposta à PPL para que me publiquem e apoiem uma campanha de crowdfunding. eles, que não brincam em serviço (não brincam, mesmo), perguntam-me: "que garantias temos de que a campanha possa ser financiada?". e eu respondo-lhes com os meus 25 anos de experiência na edição de publicações alternativas, com a rede de contactos criada a partir do Debaixo do Bulcão e com a expectativa de que, desta vez, as coisas corram melhor, tendo em conta a grande receptividade que as pessoas "do meio" estavam a demonstrar. e sim, eu acreditava mesmo nisso! 

então, publicada a campanha, meti mãos à obra para concretizar tudo aquilo com que me tinha comprometido. a paginação está em curso, a tiragem (pequena, pelo menos para uma edição) está assegurada, a divulgação está a ser feita nas redes sociais (aqui no facebook, mas também no instagram e no twitter, embora menos). e, dos brindes prometidos aos apoiantes, um está pronto a imprimir (o Jogo do FÓNIX!) e os outros serão adquiridos assim que tiver a verba para o fazer. 

falta só atingir a meta da angariação de fundos. mas falta muito! a 13 dias do final do prazo, tenho aproximadamente um terço da quantia necessária! e fiz as contas "por baixo", esperando ainda ter de meter dinheiro "do meu bolso" numa primeira fase!

portanto, este é o momento de vos pedir, a todos e todas (autores incluídos) que sejam solidários com este projecto. que não o deixem morrer à partida. que não aconteça o que aconteceu com o Debaixo do Bulcão.

se somos 30 autores - logo numa primeira edição, no arraque de um projecto! - conseguiremos, certamente, ajudar também a financiá-lo: contribuindo, divulgando, convidando amigos. qualquer contribuição é bem vinda, e podem financiar com qualquer quantia a partir de um euro!
 
agradeço a quem já contribuiu. e, antecipadamente, também a quem vai contribuir.

nota: não é preciso fazer inscrição na plataforma PPL. se necessário, indiquem-me um email e eu faço de intermediário: a PPL gera uma referência bancária e envia- para o email que indicaram. e (para que não restem dúvidas), se a campanha não atingir o objectivo, o dinheiro será devolvido (pela PPL) aos apoiantes.

AV
23/02/2023
 
mais informação (e link para contribuições) aqui:

domingo, fevereiro 05, 2023

quinta-feira, agosto 26, 2021

OMS, sobre vacinação contra a Covid-19 e viagens (20 agosto 2021)

 Mariângela Simão, diretora-geral assistente para Acesso a Medicamentos, Vacinas e Produtos Farmacêuticos da OMS
 
Transcrição de uma entrevista publicada no site ONU News em Português

A diretora-geral assistente da Organização Mundial da Saúde para Medicamentos, Vacinação e Fármacos, destaca que a agência é contra a vacina ser pré-requisitos para viagens. De Genebra, a médica brasileira Mariângela Simão destaca que os países não devem criar ainda mais barreiras numa fase em que o acesso à vacinação contra a Covid-19 está muito desigual. Ela também falou com a ONU News sobre a imunização de adolescentes e destaca que ainda é preciso esperar para vacinar as crianças. 


 

ONU News (ON): A ONU News entrevista a diretora-geral assistente da Organização Mundial da Saúde para Medicamentos, Vacinação, dra. Mariângela Simão, falando conosco diretamente de Genebra. Eu queria fazer a primeira pergunta destacando um ponto interessante que a senhora mencionou em uma conferência de imprensa da OMS. A senhora disse que a terceira dose da vacina contra a Covid está causando um dilema ético. Países em desenvolvimento ou de baixa renda estão com a vacinação atrasada, mas nações desenvolvidas já consideram aplicar uma terceira dose. A senhora pode comentar este ponto?

Mariângela Simão (MS): Pergunta super interessante, porque está na mídia todos os dias. Não existem ainda estudos científicos comprovando que uma terceira dose vai ser necessária. E o segundo ponto é o que você mencionou, que eu havia falado, sobre a questão ética. Você tem um quantitativo extremamente grande de pessoas em países em desenvolvimento, em especial países de baixa renda, que tem maior risco de adoecer e de morrer por conta do SARS-Coronavírus, que não têm acesso à vacina. Ao mesmo tempo, você já está falando em países de alta renda em fornecer uma terceira dose que ainda a gente não tem a certeza de que será necessária. Uma boa parte dos países que estão discutindo a terceira dose, estão priorizando algumas populações. Saiu nos Estados Unidos, e também na semana passada na Alemanha, que estão priorizando pessoas que têm imunosupressão, que essas pessoas precisariam de uma terceira dose. Pode ser que ela seja necessária, a gente não sabe, inclusive para grupos bem específicos. Mas como medida de saúde pública geral, ainda não têm a evidência necessária para que isso ocorra.

ON: Aqui na Europa e alguns países da América do Norte, a vacinação já está num ritmo bastante acelerado, mas por exemplo, a África tem menos de 2% da população vacinada. É importante falarmos dessa divisão e não esquecermos de países africanos que precisam receber mais doses e avançar com esse processo.

MS: Esse é um ponto super importante. Nós temos 74 países que têm menos de 10% de cobertura e há países com 60%, 70% de cobertura, falando de duas doses, da cobertura completa, já que só uma das vacinas precisa de apenas uma dose, que é a vacina Janssen. A gente tem que levar isso em consideração. A grande predominância de países com muito baixa cobertura são países no continente africano, infelizmente.

ON: Vamos falar agora sobre a vacinação para os mais jovens, no caso os adolescentes. Vou citar como exemplo Portugal, que acaba de dar a luz verde para que adolescentes a partir dos 12 anos possam receber a vacina contra a Covid-19. Muitos pais ainda têm dúvidas, receio, o que a Organização Mundial da Saúde tem a dizer sobre a vacinação de adolescentes e sobre estudos para vacinação de crianças no futuro?

MS: Muita gente pergunta: por que não vacina criança? Qualquer estudo clínico para colocar um medicamento ou uma vacina no mercado não são feitos com crianças, eles são primeiro feitos com adultos e mais tarde, com crianças, adolescentes e mulheres grávidas, uma vez que tenha sido comprovado que é seguro em adultos. Às vezes demora anos, depois que um medicamento foi lançado para adultos para chegar os dados sobre crianças. Tem que levar com cuidado, principalmente por questão de segurança.
A posição da OMS em relação à vacinação de adolescentes: claro que crianças e adolescentes têm um menor risco de complicações severas pela Covid-19. Mas a gente tem duas vacinas que já têm estudos em relação à segurança em adolescentes, a vacina da Pfizer-BioNtech e a vacina da Moderna, essas duas já tem estudos. A OMS tem uma reflexão, uma recomendação de que se deve ter um cuidado com os adolescentes que têm condições associadas, doenças associadas e que por conta dessas doenças, possam ter um maior risco de desenvolver uma doença severa, um Covid severo. Então esses adolescentes que têm pré-disposição deveriam ser incluídos no estágio 2 da vacinação naqueles países onde a transmissão é alta ou onde você vê que a transmissão comunitária está aumentando. Não há indicação ainda para crianças. Eu sou pediatra e a relação de benefício e de custo em relação a aplicar vacinas em crianças ainda não está comprovada. Então é preciso ter mais dados e mais estudos em relação à segurança dessas vacinas na faixa etária menor. Vamos ter que esperar um pouco.

ON: Depois de um ano e meio de pandemia, todo mundo ficou confinado durante vários meses, há pessoas que tomam a vacina por um outro motivo, porque querem viajar, querem sair de onde estão.  Quais são as diretrizes da Organização Mundial da Saúde neste sentido? Cito como exemplo os países europeus, que aprovaram as vacinas da Pfizer, Moderna, Janssen. Alguns países da Europa já estipularam que não irão receber turistas que não tomaram estas vacinas. Será que isto poderá criar ainda mais divisão?

MS: Em primeiro lugar, a OMS é absolutamente contrária à vacinação ser pré-requisito para viagens. Porque dada a essa enorme inequidade no acesso à vacina, você não está num ponto em que todo mundo tem acesso, todos os países têm acesso. Então a OMS tem reforçado, encorajado os países a não criarem mais barreiras do que necessário, porque tem outras formas. Antes das vacinas, você tinha países, por exemplo, que exigiam um teste rápido, um PCR para poder entrar no país, fazer outras medidas como quarentena e tudo o mais. Eu acho que este é um primeiro fator de que exigir um certificado de vacina num mundo tão desigual, com acesso tão desigual, só exacerba as inequidades e as desigualdades. Este é um ponto. O outro ponto é que o Parlamento Europeu aprovou uma regulamentação para facilitar o livre trânsito entre os países da União Europeia. A situação do passaporte europeu com as vacinas que são autorizadas pela Agência Europeia de Medicamentos. E aí teve um entendimento de muitos países de que só seriam as autorizadas pela Agência Europeia, mas isso é na verdade para o trânsito entre os países da Europa. O próprio Parlamento Europeu fez uma recomendação para que os países considerassem, para autorização de entrada de pessoas de outros países que não da União Europeia, que considerassem a autorização para vacinas que estão autorizadas, emergencialmente listadas pela OMS. Vários países europeus fizeram isso. Para entrada no Espaço Schengen, cada país do espaço é livre para decidir o que aceita de fora da União Europeia e muitos deles aceitaram as vacinas listadas pela OMS. No caso do Brasil, inclui a Coronavac, que é a vacina da empresa Sinovac.
 

domingo, janeiro 10, 2021

Mobilidade e medo em tempos de pandemia

 


Texto de Inês Lourinho, infografia Nuno Barbosa e Nuno Semedo

(artigo publicado na revista PRO TESTE, edição Janeiro 2021)


Ninguém o vê, mas todos o temem. O coronavírus tem condicionado as opções de mobilidade e o acesso ao espaço público. Quatro em cinco inquiridos receiam transportes públicos e eventos em recintos fechados. Quatro em dez têm medo inclusive de um simples passeio no jardim



O Verdadeiro dono disto tudo

O medo é um motor poderoso, que nos paralisa, nos leva à proteção de um esconderijo. Porque o sentimos? Por um primitivo impulso de sobrevivência, por um forte desejo de vida, ainda que inconsciente. A origem dos medos é complexa, não tem resposta de sim ou não, de preto ou branco. Mas muitos são resultados de um processo de aprendizagem.

Os últimos meses têm-nos parecido longos, como se desde aquele março, que, como todos os marços, prometia uma renovadora primavera, e ao invés nos trouxe a doença, tivéssemos vivido eternidades. Estes meses ensinaram-nos uma ampla paleta de cores do medo. Os boletins diários sobre a pandemia, as omnipresentes manchetes dos média, a desinformação na Internet propagada por incontáveis tribos de profetas pela verdade, as diretrizes das autoridades, ora para confinar, ora para desconfinar, e, em cima de tudo, a doença, o desemprego e a falta do contacto social têm construído um contexto de medo a que é difícil escapar.

Os resultados do nosso inquérito à mobilidade em tempos de pandemia não oferecem, por isso, grande surpresa. E são transversais aos países em que foi conduzido, sob os auspícios da Organização Europeia de Consumidores e do International Consumer Research and Testing: Alemanha, Áustria, Bélgica, Eslovénia, Espanha, Holanda, Itália, Lituânia, República Checa e, claro, Portugal. Os 11.273 inquiridos, dos quais 1.014 portugueses, têm uma forte perceção do risco de infeção nos transportes públicos, seja em viagens de pequena ou de longa distância. Ainda assim, portugueses e italianos são os mais receosos: 80% temem usá-los. O inquérito foi enviado em finais de outubro e abrangeu a população dos 18 aos 74 anos. As respostas recolhidas refletem as opiniões e as experiências dos inquiridos.


Teletrabalho, uma ideia com futuro?

A pandemia trouxe muitas alterações ao modo de funcionamento da sociedade. Para evitar aglomerações, sobretudo nos transportes públicos, o teletrabalho impôs-se sem pedir licença. Antes do advento da covid-19, cerca de três em quatro empresas ou empregadores não permitiam prestação dos deveres profissionais à distância. Com o confinamento, apenas uma em quatro não considerou tal possibilidade. Mas, se antes de o coronavírus nos ter sitiado em casa, as entidades patronais dos inquiridos portugueses pareciam menos adeptas do teletrabalho do que as dos outros dez países do estudo, na quarentena, tiveram das adesões mais elevadas.

Quando a Europa começou a ensaiar um desconfinamento, o teletrabalho sofreu uma quebra discreta, que se intensificou em outubro, altura em que recolhemos os dados do inquérito. Tudo sugere, porém, que, no pós-pandemia, este formato não venha a ser o Santo Graal que muitos vaticinavam. Segundo os inquiridos portugueses, as suas empresas estão dispostas estão dispostas a continuar com o teletrabalho, mas o incremento é algo modesto, nem chegando a 10 por cento. E, quando desagregamos os resultados por nível educacional, indicador de um emprego mais ou menos qualificado, vemos que as perspetivas de a empresa permitir o teletrabalho quando a pandemia se extinguir são exatamente iguais: 38% dizem que o cenário será possível.

Aos que têm a possibilidade de teletrabalho no longo prazo, abrem-se janelas de oportunidade no que se refere à organização das suas vidas. Uma percentagem apreciável gostaria de mudar de ares e habitar noutra zona do País, fosse a título permanente (13%), fosse de forma temporária ou alternada (26 por cento). São sobretudo os que vivem na região de Lisboa e Vale do Tejo a contemplar este plano, que pode aliviar a pressão sobre os grandes centros urbanos, tanto em termos de transportes, quanto no plano da habitação. E, ao analisarmos por idades, os mais novos, na faixa dos 18 aos 34 anos, e os mais seniores, dos 50 aos 74 anos, são os mais suscetíveis à ideia. Mas casos há - 22% dos inquiridos - em que a natureza do trabalho que desempenham não lhes permite pensar em cenários idílicos.


Medo omnipresente

Não podemos viver com o outro, nem sem o outro. Parece ser o lema dos nossos dias. Se temos saudades dos contactos presenciais, também os tememos, e muito. O medo da infeção passou a condicionar o tipo de meios de transporte usados por 60% dos inquiridos, assim como a periodicidade das deslocações de 82% e os lugares frequentados por 87 por cento.

Todas as formas de mobilidade diminuíram em uso, exceto os transportes próprios, como mota, bicicleta, trotinete e carro. Nota-se uma quebra de 10% nas caminhadas, entre outubro e o período anterior à pandemia. A desaceleração no uso dos transportes públicos por quem o fazia cm frequência semanal é idêntica, na ordem dos 11%, e faz-se sentir sobretudo entre os jovens da região de Lisboa e Vale do Tejo até aos 35 anos. São especialmente os que reportam um nível de estudos médio ou elevado e que vivem em zonas suburbanas ou rurais quem demonstra um temor mais acentuado. Em contrapartida, 19% dos inquiridos que usavam os transportes públicos semanalmente antes da pandemia afirmam que intensificaram o recurso ao carro próprio. A seguir a esta opção, destacam-se os jovens até aos 30 anos e com nível educacional mais elevado.


Mas, se os transportes públicos correspondem a um contexto central quanto à perceção de risco - e não falamos de perigo efetivo, que não medimos, mas daquilo que os cidadãos sentem -, outros espaços são associados a uma elevada probabilidade de infeção. Eventos em recintos fechados são receados por 79% dos participantes no estudo, enquanto bares e ginásios inspiram temos a 73 por cento. Já eventos ao ar livre, restaurantes, centros comerciais e hostels e guest houses são receados por cerca de metade. Nem mesmo os jardins públicos, onde seria possível respirar fundo face às preocupações com a covid-19, escapam aos receios de quatro em dez inquiridos.

E depois da pandemia? O inquérito sugere que os receios podem levar tempo a esvair-se. Uma parte dos inquiridos revela que irá deixar de usar transportes públicos, frequentar restaurantes ou fazer viagens turísticas, em Portugal ou no estrangeiro. A Ver vamos. A história ensina-nos que o medo face aos donos disto tudo, um dia, também morre.


fonte:

https://www.deco.proteste.pt/

terça-feira, outubro 16, 2018

Fabricando Jair Bolsonaro


texto: Felipe Castelo Branco em Caliban - revista de letras, artes e ideias
imagem: panfletos de apoio à candidatura de Jair Bolsonaro, Brasil, Outubro de 2018

Do antipetismo a Bolsonaro

É inegável que a principal força política de Jair Bolsonaro descende do antipetismo. Grande parte de seus eleitores, quando surgem em sua defesa, em geral empreendem um duplo trabalho: desmentir, relativizar, desconversar ou se apropriar das posições e declarações públicas de seu candidato; e afirmar a urgência de sua eleição contra o PT. Em relação a segunda tarefa, dois termos não tardam em aparecer em socorro ao argumento da ameaça iminente: ‘corrupção’ e ‘comunismo’. Em uma segunda associação imediata, o termo ‘comunismo’ e/ou ‘esquerda’ vincula-se aos dois ícones privilegiados dos eleitores do Messias: ‘Cuba’ e ‘Venezuela’.

A despeito das muitas variáveis que tem se produzido nessas associações, a construção do antipetismo inicialmente se alimentou basicamente apenas do primeiro termo, isto é, da associação entre o Partido dos Trabalhadores e o termo “corrupção”, antes mesmo que as denúncias do chamado “mensalão” tivessem atingido seus altos escalões (as punições, que começam em 2011, em sua primeira fase associavam o PT a um escândalo que atingia diversos partidos), e pelo menos um ano antes do início das operações da chamada “Lava-Jato” (em 2014). O antipetismo surge inicialmente como uma arma mobilizada pelo PSDB para minar as bases políticas da única potência eleitoral efetivamente existente no país, ou seja: Lula. Sua penetração na opinião pública foi gestada especialmente a partir de 2013 e provavelmente visava enfraquecer a força do PT na disputa eleitoral de 2014, mas, acima de tudo, visando gerar seus frutos definitivos nestas eleições de 2018, eliminando o PT da disputa.

O fato é que o poder eleitoral do antipetismo saiu do controle e das mãos do PSDB nos últimos anos, tornando-se a principal alavanca eleitoral da política partidária brasileira. Contrário às expectativas do PSDB, a apropriação do antipetismo, que a partir de 2015 passa a circular entre várias mãos, se mostrou inegavelmente mais eficaz, do ponto de vista eleitoral, pelo seu principal representante hoje: Jair Bolsonaro.

Em sua origem está a imprevisibilidade das manifestações de junho de 2013, que tomou desprevenida a organização do PSDB. Embora as pautas das ruas naquele período fossem diversificadas, a reivindicação central das manifestações orbitava em torno da rejeição ao alto valor do transporte público e da falta de qualidade e alto custo desses serviços. O tema atingia diretamente as políticas dos governos estaduais e como o epicentro dos atos emanava de São Paulo, o PSDB interpretou imediatamente as jornadas de rua como um ataque ao governador Geraldo Alckmin (governador do estado de SP na ocasião). Além de rejeitar a mobilização popular, o PSDB responsabilizou inicialmente o PCdoB pelas ações, diminuindo a importância dos atos e tentando desviar o foco das reivindicações populares para a prefeitura de Fernando Haddad, do PT: “os excessos nas manifestações [tem] um culpado: o prefeito Fernando Haddad, por não cumprir suas próprias promessas de campanha.” (https://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/06/juventude-do-psdb-lanca-nota-contra-manifestacoes-em-sp.html).

Dois dias depois de sua primeira declaração pública, quando o movimento assume dimensões nacionais, o PSDB muda de posição e de estratégia, assumindo a inevitabilidade de se pronunciar a favor dos atos públicos (https://www.revistaforum.com.br/juventude-do-psdb-paulistano-volta-atras-sobre-manifestacoes/). Havia se tornado impossível rejeitar a força das jornadas de junho e, ao mesmo tempo, a cúpula PSDBista havia se dado conta de que o movimento não havia sido organizado de forma linear e centralizada e, portanto, pulsava como uma força sem lideranças formais (inclusive partidárias, o que retirava o habitual protagonismo do PT deste tipo de ação popular).

As marchas de 2013 não pertenciam a nenhum partido. Essa, que foi a principal força dos eventos de 2013, fomentou, por outro lado, uma expectativa entre as lideranças PSDBistas em organizar um direcionamento para a força difusa dos atos públicos, cooptando a insatisfação generalizada em direção a um inimigo visível: o governo presidencial PTista. Embora já iniciadas as condenações no caso do mensalão naquele momento, o governo de Dilma Rousseff, durante a primeira metade do ano de 2013, atingia a assombrosa marca de 79% de aprovação (https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/03/19/dilma-cni-ibope.htm), e poucos efeitos das manifestações daquele ano haviam respingado sobre sua imagem.

Em 21 de junho de 2013, em um dos momentos mais críticos das jornadas de junho, a direção nacional do PSDB, em carta assinada por Aécio Neves, torna público seu “apoio” às chamadas “manifestações”, afirmando que os atos de rua seriam motivados por “uma aguda crítica à corrupção e à impunidade que persistem na base do sistema político” e denuncia “o oportunismo do alto comando do PT, que tenta se apropriar de um movimento independente, ao determinar que militantes do partido se misturem aos manifestantes com o claro intuito de diluir as cobranças feitas ao governo federal” (http://g1.globo.com/politica/noticia/2013/06/psdb-critica-oportunismo-do-pt-e-diz-que-protestos-miram-corrupcao.html). Naquele momento, a “culpa” pela insatisfação popular se desloca para o PT, somando-se a esse deslocamento a ideia de uma insatisfação popular com a corrupção PTista.

Quem esteve nas ruas sabe que pouco se bradava contra Dilma Rousseff. A insatisfação política era generalizada, mas as reivindicações atacavam acima de tudo os vícios estruturais da política partidária e os grandes gastos com os mega-eventos ainda por vir: a Copa do Mundo, o Pan-Americano e as Olimpíadas. No entanto, o PSDB assume uma tarefa. A tarefa de informar a própria massa que foi às ruas que ela estava sendo enganada. Que seu repúdio à classe política, na verdade, era direcionado ao PT e que o próprio partido, ao marchar nas ruas ao lado dos insatisfeitos com sua base militante, tinha a intenção de desviar a atenção do verdadeiro foco do clamor popular: a relação promíscua entre o PT e a corrupção.

Note-se que apesar da relação entre o PTismo e a corrupção moldar inicialmente a estratégia eleitoral PSDBista, o desdobramento dessa associação imediata é restrito. Nada de comunismo, nenhuma menção a Cuba, tampouco se fala no chamado “centrão” e nenhum dos outros partidos da base política do PT são mencionados. Nem mesmo o PTB, partido de Roberto Jefferson que funciona como gatilho inicial para a chuva de denúncias que deu início ao escândalo do mensalão; ou mesmo o PP, partido da base do PT que é o principal envolvido no escândalo e será o articulador central no futuro “petrolão” (https://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/2018/04/24/pp-de-ciro-nogueira-e-um-dos-mais-envolvidos-em-investigacoes-como-lava-jato-e-mensalao.ghtml).

A partir daquele momento, a associação entre o nome PT e o termo ‘corrupção’ passa a ser tantas vezes repetida e incentivada nesta estratégia, que mesmo sem ser indiciada ou mesmo investigada no início de 2014, ano em que concorreria a reeleição contra Aécio Neves, a popularidade de Dilma Rousseff cai de 79% para 39%. A estratégia PSDBista (e mais tarde reproduzida pelo próprio Ministério Público) será falar em “organização criminosa” ao referir-se ao Partido dos Trabalhadores, uma maneira de transmitir a ideia sub-reptícia de um plano oculto de corrupção que atingiria, direta ou indiretamente, todos os membros e apoiadores do partido. Embora a ideia de uma organização intentasse manchar a imagem de todos os partidários PTistas, acusados ou não formalmente de corrupção, evitou-se estrategicamente que essa associação ao tema da corrupção se estendesse aos partidos ligados a base política do PT, mesmo que ativamente participantes de seu governo no poder legislativo e nas estatais. Fala-se em “quadrilha”, em uma insinuação de que as ações do alegado “grupo criminoso” envolva todos os membros do Partido dos Trabalhadores, sem atingir nenhum de seus parceiros, aliados ou rivais.

De fato, a estratégia teve êxito. As desfiliações ao PT se produzem em massa, e jamais os membros de partidos como o PTB ou o problemático PP terão sua imagem diretamente manchada. Esse isolamento abstrato do PT foi um dos principais motivadores para a onda de aderências de políticos profissionais ao antipetismo.

Nesta mesma onda surfou o então deputado Jair Bolsonaro.

O candidato a presidência era deputado pelo PTB, sendo base do governo PTista, entre 2003 e 2005, justamente os anos em que o PTB admitidamente participou do esquema do mensalão, segundo relato do próprio presidente do partido, Roberto Jefferson. Mesmo participando do governo do PT, Bolsonaro jamais será associado ao escândalo do mensalão (ao contrário de Lula, que não foi nem mesmo indiciado no escândalo). Ao se desfiliar do PTB, Bolsonaro adere ao PP entre 2005 e 2016. Além de permanecer na base ampla do governo do PT por mais 11 anos, Bolsonaro troca um dos principais agentes do escândalo do mensalão (o PTB) pelo principal envolvido no escândalo do petrolão, o partido que mais recebeu dinheiro da JBS dos irmãos Batista e o partido mais investigado na Lava-Jato, ou seja, o PP (https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/24/politica/1524605415_828915.html?id_externo_promo=enviar_email). Ainda assim, a imagem de Bolsonaro será muito habilmente afastada do imbróglio, tanto de seu vínculo aos escândalos do mensalão e petrolão, quanto de seu vínculo com o próprio PT, que ele chega a apoiar publicamente em diversos de seus discursos (https://www.youtube.com/watch?v=1Nqrsmt980E).

Por que a estratégia de construção de um antipetismo parecia útil ao PSDB como principal oposição eleitoral ao PT? Afinal, não seria um risco para o próprio PSDB se queimar na centelha acesa do discurso da associação entre ‘corrupção’ e PT? A resposta é sim. No entanto, os riscos da estratégia poderiam ser compensados no tempo da colheita dos frutos prometidos. A estratégia PSDBista apostava na despolitização da disputa eleitoral, na medida em que insistir no embate político e na aposta privatista dos tucanos havia levado o partido a derrota em pelo menos três disputas eleitorais nacionais, até aquele momento. O fato é que, por mais grave que seja, o tema da corrupção é uma ferramenta importante de despolitização de qualquer debate.

O discurso anticorrupção se produz na generalidade. Ao alimentar a suspeita da corrupçãocomo motivador político oculto, legitima-se um debate que desconsidera números, conjuturas internacionais, posições políticas. O cenário político se transforma em massa amorfa, indiferente às nuances específicas que são fundamentais a política partidária. Com seu forte apelo moral, a ideia de corrupção desconsidera indiciados, réus, condenados e absolvidos. Desconsidera, inclusive, o respeito a ritos da normatividade jurídica. A anticorrupção é frequentemente punitivista. E o punitivismo mobiliza o mais eleitoreiro dos afetos, o ódio.

Dispensando o recurso a números ou a análise concreta dos fenômenos políticos, o discurso anticorrupção mobiliza a boa intenção moral e em troca produz seus monstros. É da massa amorfa do “todos os políticos são iguais” que um traço de distinção promete criar um destaque personalista que torne possível uma nova figura elegível. A eleição retornaria a uma espécie de “grau zero” da disputa, na dependência de quem se sair melhor no discurso do “combater tudo que está aí”. Eis a primeira aposta do antipetismo. Eis a aposta
do PMDB naquele momento.

Eis a fórmula que fabricou Bolsonaro.

texto completo em
https://revistacaliban.net/fabricando-jair-bolsonaro-f0956e865daa

segunda-feira, outubro 02, 2017

Eleições autárquicas em Almada: resultados comparados, 2017-2013

Câmara Municipal:

Assembleia Muncipal:
Assembleias de Freguesia:


Para melhor leitura destes resultados:

Legislativas 2015: Almada e distrito de Setúbal

Eleições autárquicas em Almada: comparação 2013-2009
(os links direccionam para as páginas com a informação respectiva)

sábado, julho 22, 2017

Entretanto na cidade inteligente...


"(...) somos Cidade Educadora; Cidade de Cultura de Desporto e do Movimento Associativo; Cidade Moderna, Segura e Solidária de Liberdade e Tolerância (...)

Com a mesma inteligência com que venceu e vence obstáculos no passado e no presente, Almada está em condições de continuar a construir o seu Futuro, com Juventude, com Beleza, com Bondade, com Conforto, Bem-estar, Saúde e Felicidade. Almada onde todos têm lugar; construção em que todos podem participar."

(Mensagem eleitoral assinada pelo actual Presidente e recandidato à Câmara Municipal de Almada)

Resumindo: se a mensagem é bonita, há quem se empenhe muito em destruí-la. Não ganhem juízo, depois admirem-se com os resultados (em 2013 tiveram a pior votação de sempre, mas parece que ainda não perceberam).

Não julguem é que me intimidam. Sei do que a casa gasta. Tenho a mesma escola.

E sim, sei muito bem o que é jornalismo. Quem supostamente conhece tão bem Almada devia estar devidamente informado sobre isso.

Estou farto destes trauliteiros.

quarta-feira, junho 07, 2017

António Vitorino e Ondina Pires escangalham poesia

Debaixo do Bulcão 4*5 from Debaixo do Bulcão on Vimeo.

Lançamento da edição 4*5 do Debaixo do Bulcão poezine, na livraria Meia Volta de Úrano - Casa das Artes, em Cacilhas, Almada. 3 de Junho de 2017.

segunda-feira, abril 03, 2017

Debaixo do Bulcão 44

A edição número 44 de Debaixo do Bulcão poezine já circula, em papel e na internet.

Informação detalhada em:
http://debaixodobulcao.blogspot.pt/2017/04/edicao-44-marco-de-2017.html

Versão online:
https://issuu.com/debaixodobulcao/docs/debaixo_do_bulc__o_44_-_mar__o_2017

sábado, outubro 29, 2016

A Cidade do Teatro - livro sobre a Mostra de Teatro de Almada no seu 20.º aniversário


Nos 20 anos da Mostra de Teatro de Almada, um livro conta a história do fenómeno sociologicamente rico que faz de Almada uma frente nacional do teatro. Percorrendo os contextos histórico, político e social que o explicam, trata-se do primeiro estudo sobre o teatro e as artes performativas no Concelho. Inclui um levantamento fotográfico das salas de espectáculos e outros lugares que têm acolhido as criações da grande família teatral que a Mostra integra, um vasto conjunto de depoimentos testemunhais e faz a recensão biográfica dos cerca de meia-centena de grupos de teatro que participaram na Mostra desde a sua 1.ª edição.

A CIDADE DO TEATRO
Lançamento 19 NOVEMBRO | CASA DA CERCA | SÁBADO | 15h00
Com textos de Sarah Adamopoulos, Nuno Bernardo, Isabel Mões, António Vitorino e Xico Braga, fotografias de Vítor Cid e ilustrações de Rui Silvares, Luís Miranda, Ângela Luzia e João Lima.

terça-feira, maio 03, 2016

sexta-feira, outubro 23, 2015

Debaixo do Bulcão regressa em Dezembro de 2015

Depois de 2 anos de ausência, Debaixo do Bulcão poezine regressa com uma edição comemorativa do 19.º aniversário. Como sempre, aberta à participação de todos os interessados.

Mais informação:
http://debaixodobulcao.blogspot.pt/2015/10/debaixo-do-bulcao-regressa-em-dezembro.html

quarta-feira, outubro 07, 2015

Legislativas 2015: Almada e distrito de Setúbal

Resultados no concelho de Almada

Resultados no distrito de Setúbal

Números oficiais.
Fonte:
http://www.legislativas2015.mai.gov.pt

segunda-feira, junho 22, 2015

Proposta para a promoção da literacia mediática (operativa e crítica) em Almada

Educação, cultura e informação na sociedade em rede - proposta para a promoção da literacia mediática  (operativa e crítica) em Almada (*)


Apresento esta comunicação com o propósito de contribuir para a concretização dos objectivos estratégicos 4 e 5 do PDM de Almada,  nomeadamente no que se referem a "desenvolvimento de uma política de formação de agentes culturais para o movimento associativo" e "diversificação e aprofundamento das formas de participação dos cidadãos na vida do município".

Parto da observação - empírica, mas sustentada pelos poucos dados estatísticos disponíveis - de que as literacias operativa (funcional) e crítica (a que permite questionar as linguagens no plano ideológico) se encontram, presentemente longe do desejável e necessário para uma efectiva cultura de cidadania e participação informada.

Almada é, na actualidade, um dos concelhos da Área Metropolitana de Lisboa com piores índices de circulação e leitura de periódicos e um dos que mais piorou, a esse nível, nas últimas décadas (fonte: Pordata). Entretanto, não existem - ou, se existem, não se encontram publicados - estudos e dados estatísticos sobre os hábitos culturais e a literacia dos almadenses. Tal carência de dados dificulta a tentativa de avaliar o problema objectivamente, com rigor e sustentação científica.

Não existe no concelho comunicação social que faça investigação jornalística e privilegie a reportagem junto das "forças vivas" (reportagem é mais que a simples divulgação ou cobertura noticiosa de eventos) ou que estimule e promova o debate de ideias.

Nem sempre foi assim: na segunda metade da década de 1980 existiam no concelho pelo menos 4 rádios locais; na década de 1990, duas rádios locais e pelo menos um jornal vocacionado para reportagem, investigação e estímulo ao debate de ideias. Os novos órgãos de comunicação social e as novas plataformas não apresentam essas características (exceptuando a possibilidade que abrem ao debate de ideias - possibilidade pouco aproveitada na prática, devido a vários factores, entre os quais o excesso de "ruído" provocado por "notícias" falsas e opinão mal informada).

Nos anos mais recentes verificou-se, a par do desaparecimento desses órgãos de comunicação social, um decréscimo acentuado - aparente (faltam os estudos no que diz respeito a Almada...) - da literacia crítica e mesmo da literacia operativa, da população do concelho.

Isso verifica-se na forma como, por exemplo, as mensagens da CMA dificilmente são recepcionadas e entendidas por sectores significativos do público a quem, supostamente, se destinam. Verificamos essa deficiência nas comunicações sobre o Metro Sul do Tejo, o Plano de Mobilidade Acessibilidades XXI, ou as funções e competências da ECALMA - para mencionar só 3 dos casos mais evidentes.

É verdade que, no que diz respeito ao Metro Sul do Tejo e ao Plano de Mobilidade, a CMA produziu e divulgou abundante informação, algumas vezes de assinalável qualidade. Mas a experiência ensina-nos que produzir e divulgar informação não é o suficiente para que a mensagem que pretendemos transmitir seja recepcionada e entendida.

É preciso fazer da informação assunto de debate público, e não apenas em eventos pontuais, mas criando hábitos de debate nas comunidades locais e nos meios de comunicação disponíveis (órgãos de comunicação social, redes sociais da internet, etc.)

E é fundamental avaliar permanentemente a eficácia da divulgação e os resultados do debate.

Esses processos (informação, debate, avaliação) devem envolver o poder local - Juntas de Freguesia, Assembleia Municipal, Câmara e outras estruturas com competência nas matérias em questão - bem como a comunidade educativa, os agentes culturais e os comunicadores (incluindo aqui os órgãos de comunicação social e os órgãos de informação, a par de outras personalidades que trabalhem nos diversos aspectos da comunicação).

E, para sustentar o debate em termos rigorosos e científicos - não meramente teóricos ou opinativos - permitindo a expressão de opiniões informadas, é necessário incentivar a produção e divulgação de estudos nos âmbitos das ciências sociais, da psicologia social (incluindo neurociências e ciências da evolução) e das ciências da comunicação. Fazendo-o numa perspectiva que terá de ser integrada e multidisciplinar, geradora de sinergia, não dirigista mas entendida como ferramenta para elevar as formas de literacia e, consequentemente, para melhorar a capacidade de intervenção democrática dos cidadãos e das suas estruturas e, em última análise, ajudar ao melhor desempenho dos próprios órgãos do poder local.

Uma vez entendida e assumida a necessidade de integrar estas propostas numa estratégia de desenvolvimento socio-cultural, seria importante começar, desde logo, a perspectivar formas práticas e efectivas de reunir as estruturas e personalidades interessadas na sua concretização e deixar que sejam estas a decidir qual a melhor forma e a melhor solução orgânica para concretizar tais projectos.
(Na minha opinião, a melhor solução orgânica passa por estabelecer parcerias com as melhores instituições universitárias e centros de investigação de todo o país, sedeando em Almada uma estrutura flexível e pouco pesada, capaz de trabalhar em rede com todos para produzir dados científicos úteis e informação relevante e de disponibilizar o resultado do seu trabalho aos agentes socio-culturais, particularmente aos do concelho.)



Almada, 04 de Junho de 2015

António Vitorino


(*) Apresentada ao 1º Congresso Almada, em Junho de 2014

Fonte da imagem: Pordata.

sábado, novembro 08, 2014

Contribuição para a história do Centro Cultural de Almada



O Centro Cultural de Almada foi uma associação cultural que existiu nesta cidade portuguesa entre 1979 e a primeira década do século 21. Dedicava a sua actividade permanente à formação de agentes culturais através de cursos técnicos e artísticos, para os quais contava com a colaboração de alguns dos mais reputados especialistas portugueses nas respectivas matérias.

Mas o Centro era mais conhecido do grande público pelas organizações (em colaboração com a Câmara Municipal de Almada) de eventos como feiras do livro, animação de espaços públicos, cinema ao ar livre, festivais de música, etc.

Contudo, esta instituição tinha sido criada por decisão da Assembleia Popular do Concelho de Almada, em 1978. E a ideia era, então, criar uma estrutura coordenadora do movimento associativo. O projecto acabou por não se concretizar dessa forma. 

Nesta entrevista que a Radiodifusão Portuguesa veio fazer a Almada, em 1978, para o programa Contraponto, três elementos do grupo de trabalho da Assembleia Popular para a criação do futuro Centro Cultural faziam o ponto da situação e apontavam objectivos para o futuro.

Entrevistados:

Maria Emília de Sousa (na altura representante do secretariado da Assembleia Popular do Concelho de Almada; mais tarde autarca e presidente da Câmara Municipal de Almada desde 1986

Dina Bastos, então vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Almada

Luís Marques, que viria a ser o coordenador-geral do Centro Cultural de Almada

terça-feira, setembro 02, 2014

Pedido de esclarecimento à ECALMA

Pedido de esclarecimento à ECALMA sobre outros doze (!) pedidos de esclarecimento, nunca respondidos por essa empresa municipal de Almada até à data.

Isto é uma longa história de mentiras e incompetência, à qual já me tenho referido aqui várias vezes. E a que talvez valha a pena voltar mais adiante, de forma mais explícita e desenvolvida.

Da mesma forma, e pelas mesmas razões, talvez valha a pena, também, começar a questionar a sério todos os mitos sobre a "boa gestão" desta câmara...

Um dia destes. Por enquanto, fico à epera de resposta (ou, mais provavelmente, da falta dela). Sentadinho, para não me cansar muito.

terça-feira, julho 22, 2014

O Vôo 007: uma história de "bons" e "maus"

Imagem: fotografia e gráfico copiados do livro 'L'Année de la Photo - Le grand show de l'actualité', edição Love Me Tender - Sipa Press, Novembro de 1983

Em Setembro de 1983, o mundo foi surpreendido e chocado com a tragédia do vôo KAL007 (rapidamente abreviado na comunicação social para "vôo 007"). Um avião, da Korean Airlines, saiu do aeroporto norte-americano de Anchorage, no Alasca, em direcção a Seoul, Coreia do Sul. A meio da viagem, foi abatido por um caça da força aérea da União Soviética. Morreram todas as 269 pessoas que iam a bordo.

Essa foi a notícia que nos foi dada e que deixou todos em choque. Uns incrédulos - "não pode ser! os nossos camaradas da pátria do socialismo nunca fariam tal coisa!" - enquanto não foram vencidos pelas evidências.

Outros, é claro, aproveitaram logo para, sem perder tempo e sem esperar por mais informação, passar ao ataque: "estão a ver como são esses malvados desses comunas!?".

Outros ainda, reconhecendo o evidente, sentiam-se amargurados, desapontados e até traídos. Houve quem me dissesse que, apesar de ser comunista, depois daquilo não poderia continuar a apoiar a União Soviética e os países socialistas.

Claro que havia, também, uns poucos que preferiram não reagir a quente, e ficar à espera de mais informação para tentar entender o que realmente acontecera. Os que conseguiam ter tal tipo de atitude eram poucos, já nesse tempo (e parece que hoje são ainda menos, mas adiante...).

À medida que mais informação foi revelada, ficámos a perceber que, como sempre, a história não era assim tão simples.

Por alguma razão, até hoje nunca esclarecida, o vôo foi desviado da sua rota normal. Estava a passar por cima de bases militares soviéticas (e note-se que aquela era uma zona - a única - em que as duas superpotências militares da época faziam fronteira; logo, era uma zona altamente militarizada). Primeiro, sobrevoou a península de Kamchatka, utilizada pelos soviéticos para testar armamento. Depois, entrou no espaço aéreo da ilha de Sakhalin, onde existiam aeroportos militares e uma base naval da URSS.

Quando foi abatido, já estava, supostamente, na parte final desse percurso. E, supostamente (foi o que disseram os soviéticos, na altura), depois de ser avisado várias vezes... O que, no fim de contas, nos tranquilizava um pouco. Afinal, apesar de todas as vítimas e de toda a tragédia, a URSS teria uma boa desculpa. Era um avião civil usado para espiar as bases militares soviéticas. Foi avisado. Os soviéticos tinham o direito de se defender. A culpa, portanto, era mais de quem o enviou para essa missão suicida do que de quem o abateu em legítima defesa..

Entretanto, o piloto que abateu o avião civil, foi entrevistado pela televisão da URSS. Excertos dessa entrevista passaram nas televisões do "ocidente". O que ajudou a tranquilizar os que queriam continuar a acreditar na "bondade" dos soviéticos, mas também deu argumentos aos que defendiam que, pelo contrário, os soviéticos eram os "maus" da história.

Dizia o piloto que tinha sido enviado numa "missão de combate" (e que bem me lembro destas palavras!...) para defender o seu território, como competia a um militar, e que se limitara a obedecer a ordens. E mostrava-se convencido de que tinha defendido a sua pátria e o seu povo e evitado um mal maior.

Não sei se alguém alguma vez terá feito uma análise científica do vídeo dessa entrevista na perspectiva da psicologia. Gostaria de ver tal análise. Porque acredito que o homem estivesse convencido da justeza (e é de propósito que não uso a palavra "justiça") daquilo que afirmava. Quem abateu um avião civil e matou 269 pessoas que tinham o azar de estar no local errado à hora errada não tinha de ser, necessariamente, um facínora psicopata. Podia ser uma pessoa como outra qualquer, ainda por cima, agindo com a melhor das intenções. Quem estuda essas coisas diz que a percentagem de "verdadeiros" psicopatas (os que têm todas as características associadas a essa patologia) são cerca de 1% da população. Na União Soviética o serviço militar era obrigatório. Logicamente (estatisticamente) a possibilidade de aquele piloto ser um psicopata era, portanto, muito reduzida. Podia ser. Ou não. Mas isso não interessa.

Talvez não seja na sua argumentação (na convicção com que dizia que foi numa "missão de combate" derrubar um avião civil) e na de outros como ele que devemos procurar "o mal".

Passados uns anos, já no tempo pós-URSS, na presidência de Ieltsin, apareceu uma nova versão para explicar o que teria acontecido. De acordo com a nova versão, os soviéticos, afinal, terão confundido o avião civil com um avião espião norte-americano que, no dia anterior, andara pelo mesmo espaço aéreo. E, como não queriam ser apanhados desprevenidos uma segunda vez, terão disparado logo, sem aviso prévio nem nada  - apesar de o avião, quando foi abatido, já andar por ali há bastante tempo, e já ter sobrevoado a tal península militarizada ali perto, e estar já quase a sair do espaço aéreo soviético... (Duvido que os soviéticos confundissem um avião civil com um militar, e duvido que, se queriam mesmo abatê-lo sem aviso prévio, tivessem demorado tanto tempo, e deixado que ele sobrevoasse tanto território militar soviético, mas pronto... é a versão que parece hoje mais aceite).

Perante isto, o que parece serem factos não refutados: o avião foi desviado da sua rota comercial e estava sobrevoar bases militares soviéticas; havia aviões espiões dos EUA que faziam o mesmo; a União Soviética tinha consciência da vulnerabilidade daquele território - que faz fronteira com os EUA (com o Alasca) e, naturalmente, encarava essas incursões como uma ameaça (os EUA teriam o mesmo tipo de desconfiança com qualquer aeronave que, vinda da URSS, invadisse o seu espaço aéreo, ainda por cima sobrevoando bases militares).

Isso justifica o abate do avião e a morte daquelas 269 pessoas? Penso que não. Mas havia alternativas? Não sei. A culpa é de quem? De quem disparou sobre o avião ou de quem o meteu naquele espaço aéreo? Também não sei.

Tenho muita dificuldade em lidar com categorias filosóficas ou religiosas como "bem" e "mal". E, mais ainda, com a ideia de "bons" e "maus".

Quando separamos as pessoas em "bons" e "maus" e olhamos para o que fazem como manifestações do "bem" ou do "mal", acabamos a medir os narizes uns dos outros. Os de nariz grande são os "maus". Ou o contrário. Depende da nossa noção do que é o "bem" e do que é o "mal".

(Em tempos que já lá vão, a definição de "bem" e "mal" era prerrogativa das religiões; desde a revolução insustrial, e cada vez mais, tal prerrogativa tem sido transferida para os meios de comunicação e a cultura pop, que nos "ensinam" como devemos pensar... Mas isso, como se costuma dizer, são outros quinhentos.)

Prefiro falar de agressores e vítimas, porque é mais objectivo. E, nesse caso, penso que as vitimas têm o direito de se defender dos seus agressores. Mas, quando passam de vítimas a agressores, continuam a ter o direito?

Parece que há quem pense que sim. Porque, se os agressores são "maus", as vítimas, para se defenderem, têm o direito de lhes fazer mal. E as vítimas passam a agressores e os agressores passam a vítimas. Os "bons" têm todo o direito de ser cruéis quando se trata de castigar os "maus". E assim infinitamente, in saecula saeculorum...

(Não sei se vale a pena acrescentar que não contribuo para esse peditório.)