sábado, maio 19, 2012

No tempo em que os jornalistas eram pagos para fazer perguntas (e publicar as respostas)

Abril de 2000, em Portalegre, concelho então sob hegemonia do PS, com poderes que dificultavam ao máximo todas as tentativas de fazer jornalismo independente... Mesmo assim, o semanário onde eu trabalhava (Jornal D'Hoje, dirigido por Rui Vasco Neto) lá ia mandado umas pedradas ao pântano.

Numa edição demos voz ao descontentamento do gestor de um programa governamental para o Norte Alentejano (Domingos e Sousa, também ele militante do PS, que geria o AVNA - Acção de Valorização do Norte Alentejano), o qual acusava o governador civil, Galinha Barreto, de o ter afastado do cargo de forma descricionária. O ex-gestor afirmava que as suas queixas não eram contra o governador enquanto tal mas sim contra a pessoa que, alegadamente, o afastara («não ponho em causa o governador civil mas sim as acções do individuo», afirmava em entrevista publicada na edição anterior do jornal)...

Assim, embora a "queixa" fosse de cariz pessoal entre dois militantes do partido no poder, ambos com responsabilidades governativas descentralizadas, acontecia no âmbito de um processo político e institucional que mexia com uma entidade pública.

Logo, o assunto não se encontrava no círculo restrito das relações pessoais ou dos jogos de poder internos deste ou daquele partido: estava no domínio da política - palavra que, como se sabe (ou devia saber) significa a gestão da "polis", ou seja, da cidade (em sentido lato: da vida comunitária, daquilo que nos é comum enquanto indivíduos que vivem e se relacionam em sociedade).

Portanto, face a essas acusações, fizemos o que nos competia enquanto jornalistas: tentámos ouvir o acusado. Fazer "o contraditório", como está na moda dizer-se. Lá consegui o contacto telefónico com o governador (o que, naquele ambiente de hegemonia "socialista" não foi nada fácil). O político decidiu que não tinha nenhum comentário a fazer sobre esse assunto - assunto político e já conhecido do público. Tinha todo o direito de não comentar, obviamente.

E nós tinhamos todo o dever de perguntar e, perante a recusa, de informar que, confrontado com a acusação de que foi alvo, o visado prefere não comentar. Porque uma atitude dessas é já uma atitude política. E é informação - ou seja, aquilo que os jornalistas eram pagos para produzir.

Antigamente, claro...

E mesmo assim, nem todos: havia já os que se preocupavam mais em criar factos políticos. Por exemplo, não publicando o "não comento" e preferindo depois armarem-se em queixinhas, dizendo que foram censurados. É o caminho mais fácil e também o mais populista.

Nós não precisávamos disso para enfrentar os poderes, quando tal fosse necessário. E muitas vezes os enfrentámos. Tanto que o jornal não durou muito tempo. Mas, enquanto durou, fez o que tinha a fazer e não o que outros queriam e desejavam que fizesse.

Em democracia é esse o papel da comunicação social: informar, sem contrangimentos (a não ser os impostos pelas regras deontológicas e legais que, supostamente, regulam o exercício da profissão), mesmo que para tal tenha que lutar contra os obstáculos que lhe são colocados pelos diversos poderes.

Armar-se em "quarto poder", em "contrapoder", em "poder alternativo", pensar que é dono da verdade, ou tomar a atitude contrária e ser megafone dos poderes é que não, obrigado.

segunda-feira, maio 14, 2012

Catastroika





"O novo documentário da equipa responsável por Dividocracia chama-se Castastroika e faz um relato avassalador sobre o impacte da privatização massiva de bens públicos e sobre toda a ideologia neoliberal que está por detrás.

Catastroika denuncia exemplos concretos na Rússia, Chile, Inglaterra, França, Estados Unidos e, obviamente, na Grécia, em sectores como os transportes, a água ou a energia. Produzido através de contribuições do público, conta com o testemunho de nomes como Slavoj Žižek, Naomi Klein, Luis Sepúlveda, Ken Loach, Dean Baker e Aditya Chakrabortyy.

De forma deliberada e com uma motivação ideológica clara, os governos daqueles países estrangulam ou estrangularam serviços públicos fundamentais, elegendo os funcionários públicos como bodes expiatórios, para apresentarem, em seguida, a privatização como solução óbvia e inevitável. Sacrifica-se a qualidade, a segurança e a sustentabilidade, provocando, invariavelmente, uma deterioração generalizada da qualidade de vida dos cidadãos. As consequências mais devastadores registam-se nos países obrigados, por credores e instituições internacionais (como a Troika), a proceder a privatizações massivas, como contrapartida dos planos de «resgate».

Catastroika evidencia, por exemplo, que o endividamento consiste numa estratégia para suspender a democracia e implementar medidas que nunca nenhum regime democrático ousou sequer propor antes de serem testadas nas ditaduras do Chile e da Turquia. O objectivo é a transferência para mãos privadas da riqueza gerada, ao longo dos tempos, pelos cidadãos. Nada disto seria possível, num país democrático, sem a implementação de medidas de austeridade que deixem a economia refém dos mecanismos da especulação e da chantagem — o que implica, como se está a ver na Grécia, o total aniquilamento das estruturas basilares da sociedade, nomeadamente as que garantem a sustentabilidade, a coesão social e níveis de vida condignos.

Se a Grécia é o melhor exemplo da relação entre a dividocracia e a catastroika, ela é também, nestes dias, a prova de que as pessoas não abdicaram da responsabilidade de exigir um futuro. Cá e lá, é importante saber o que está em jogo — e Catastroika rompe com o discurso hegemónico omnipresente nos media convencionais, tornando bem claro que o desafio que temos pela frente é optar entre a luta ou a barbárie."

(Obs: texto copiado do canal do Youtube que disponibiliza o vídeo)

Site do documentário:
http://www.catastroika.com/indexen.php

sexta-feira, abril 27, 2012

A Torre Velha, Monumento Nacional. Finalmente!

Informa o jornal Público (26 de abril de 2012): "A Fortaleza da Torre Velha, também designada Torre de São Sebastião da Caparica, localizada em Porto Brandão, no concelho de Almada, foi hoje classificada como Monumento Nacional pelo Governo." (noticia aqui).

A Torre ("velha" por oposição à sua "irmã gémea" mais nova, e mais famosa: a Torre de Belém) foi mandada construir por D. João II. Fazia parte de um sistema de defesa de Lisboa, inovador para a época. Funcionou como local de quarentena para quem aportava à capital do império. Foi também utilizada como prisão. Um dos escritores portugueses mais famosos no século 17 - D. Francisco Manuel de Melo - escreveu a sua "Carta de Guia de Casados" durante 2 meses que ali esteve detido (e consta que, durante esse período, terá trabalhado também em "O Fidalgo Aprendiz" - dois textos deliciosos, por sinal...).

Curiosamente, a primeira vez que li algo sobre a Torre Velha e respectivo processo de classificação foi também numa edição do Jornal Público... em 1991.

E já nesse tempo o processo era, também ele, "velho": os primeiros esforços nesse sentido foram feitos pelo município de Almada e por historiadores locais nos primeiros anos da década de 1980.

Em 1998 o semanário SemMais Jornal fazia um ponto da situação (imagem acima) de um processo que se arrastava - e que se arrastou até agora. Note-se que, nesse tempo, já havia um despacho do Ministério da Cultura (de 1996) que declarava o imóvel "em vias de classificação".

Mais sobre a Torre Velha:
No site do IGESPAR - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico
http://www.igespar.pt/en/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70145/


Na Wikipédia:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Forte_de_S%C3%A3o_Sebasti%C3%A3o_da_Caparica



Leitura recomendada:
Raul Pereira de Sousa
"Pequena História da Torre Velha"
Edição Câmara Municipal de Almada, 1997


terça-feira, abril 24, 2012

Movimentos sociais e revolução

 Foto: manifestação do 25 de Abril na Avenida da Liberdade, Lisboa, em 1994. 
Na década do aparente triunfo final do capitalismo. 
Num tempo em que os arautos neoliberais anunciavam o "fim da História"...



Nos tempos mais recentes, a esquerda portuguesa tem andado a radicalizar o seu discurso. Muitos dos que, durante décadas, se acomodaram às maravilhas da sociedade de consumo e não fizeram nada para contrariar a tendência para o conformismo e para o consumismo, parecem ter acordado agora, subitamente, talvez agitados pela emergência de "novas" formas de contestação e de "novos" movimentos sociais.

Esta tendência, na verdade, não é assim tão nova. Nas "redes sociais" (como o facebook - e desculpem a publicidade à marca) já há muito tempo se andam a convocar manifestações "antipartidárias", contra "o regime", contra "os políticos" e até mesmo contra "a política" em geral.

Os slogans repetidos por toda esta gente que só acordou agora (e que, pelos vistos, ainda não entende muito bem a realidade para a qual acordou) andam sempre à volta de qualuer coisa que se pode resumir usando um dos mais famosos: "revolução JÁ".

Slogans que são repetidos - à mistura com frases "contestatárias" e "revolucionárias", muitas delas sem sentido ou contradizendo-se entre si - tanto por gente de esquerda como por gente de extrema-direita. Os mesmos slogans, as mesmas frases...

Que a extrema-direita o faça não me espanta nada. Agitar a bandeira antipartidária e antiparlamentar é uma das velhas tácticas dessa gente (os nazis fizeram-no muito para chegar ao poder - e até queimaram, literalmente, o seu próprio parlamento; e em Portugal a "revolução nacional" de 1926, que instaurou um regime corporativo autoritário de direita - um regime fascista, portanto - fez-se contra a "confusão" e a "balbúrdia" dos partidos e do sistema parlamentar da 1ª República).

Que a esquerda embarque nisso já me parece mais estranho. Mas também não me surpreende muito: uma das grandes vitórias do capitalismo é, precisamente, ter conseguido infantilizar as pessoas (independentemente da sua opção política), levando-as a não pensar, a simplesmente repetir slogans (publicitários ou políticos, tanto faz - vende-se um presidente, ou um preconceito, da mesma forma como se vende um sabonete), a querer tudo e "JÁ", como se as revoluções fossem produtos que se vão buscar à prateleira do supermercado.

E assim, chegamos a um momento histórico em que a esquerda está debilitada por anos e anos (décadas e décadas) de desmantelamento do estado social, de recuperação capitalista e - igualmente importante ou, no caso presente, talvez ainda mais importante - condicionamento e conformação da sociedade aos valores capitalistas... mas não entende isso, julga que tem muita força e que, em vez de cerrar fileiras, resistir, defender o que ainda resta de democracia, o que deve fazer é passar ao ataque e fazer uma "revolução JÁ"!

Parece-me que toda esta euforia não é, na verdade, potenciada por propagandistas de esquerda. Desconfio que, pelo contrário, esta radicalização do discurso, todo este apelo à violência e ao confronto, está a ser feito por quem tem o poder (e as armas) e que são esses os principais interessados em "tumultos".

E penso que a única forma eficaz de contrariar isso é, sem ceder a intimidações, não lhes responder à letra. Não combater no terreno deles. Não nos armarmos em Dom Sebastião suicidando-se voluntariosamente nas areias de Alcácer Quibir.

Agir de forma racional, avaliando bem a correlação de forças. Não apenas reagir. Pensar, ter espírito crítico - e não apenas ir atrás de slogans. (É por isso que gosto tanto de projectos culturais de base popular, como o da Es.Col.A da Fontinha, e outros que lhe venham a seguir o exemplo, e que possam contribuir para formar cidadãos verdadeiramente atentos e críticos.)

Felizmente há quem, no meio do delírio que se está a instalar na sociedade portuguesa, ainda consiga fazer isso. Há quem, em vez de gritar frases incendiárias e vagos apelos a uma "revolução" que ninguém (a não ser, talvez, a extrema-direita) está em condições de fazer "JÁ", lembre, como o fez recentemente Mário Tomé, que a luta se faz com persistência, «luta cidadã, transformadora, contra estes chamados democratas, tecnocratas da finança, através dos movimentos sociais e através da proposta política que os partidos políticos farão, cada um à sua maneira» (artigo completo aqui)

Mas infelizmente (estranhamente?) estas declarações não foram divulgadas pelos militantes de esquerda nas "redes sociais" da internet.

Estarão à espera que algum Otelo reanime as "forças populares abril" e vá buscar uma "revolução JÁ" ao supermercado das revoluções?

quinta-feira, abril 19, 2012

Sobre a Es.Col.A da Fontinha


As imagens da desocupação da unidade educativa auto-gestionada da Fontinha, no Porto (Es.Col.A da Fontinha) estão a transformar-se em mais um fenómeno mediático, daqueles que dão muito jeito aos poderes instituídos.

Dão jeito porquê?

Porque, com isto, faz-se muito barulho, mostram-se imagens de violência, reduz-se tudo ao mediatismo de manifestações e "tumultos" (tumultos: Pedro Passos Coelho dixit), tal como aconteceu com a recente carga policial no Chiado (e como, suponho, infelizmente há-de acontecer em mais acontecimentos do mesmo género que se preparam para o futuro próximo). A "notícia", mesmo a mais aparentemente incómoda, é recuperada como objecto de consumo e de condicionamento ideológico. Caros consumidores... perdão, concidadãos (consumidores... concidadãos: Vítor Gaspar dixit), a violência vende, e muito.

No meio de tanto ruído, que informação passa para a generalidade das pessoas? Quem não sabia o que era aquela escola ficou a saber? Ou ficou só com a imagem de um grupo de anarquistas que ocuparam uma casa onde fizeram uma coisa que nem é reconhecida pelo sistema educativo nem nada?

Espero que este vídeo possa esclarecer. É a história daquele projecto educativo, contado pelos intervenientes.

Mais (in)formação e menos ruído, se faz favor.

quarta-feira, abril 04, 2012

Phylosophya


Um dia, Toniano Arclos proclamou:

- O mundo não existe, sou eu que o invento. E talvez mesmo eu não exista, se aquele que me inventou se contenta em me imaginar.

- Oh, discípulo infame, oh degenerado! - respondeu-lhe, com pesar, o severo
Mestre Rinotiv. - Julgas, pois, que em semelhantes formas de forma obtusa se pode verter o mel que te destinei?

Toniano Arclos tremeu, perante a ira do mestre. Mas Rinotiv prosseguiu:

- Julgas tu, discípulo ingrato, ter o hálito divino por guia das tuas caminhadas intelectuais? Abre a mente e não mintas ao teu próprio âmago. Isto é, se queres saber! O mundo só existe, para ti, se o quiseres. Mas isso pouco lhe adianta. Não queiras, e o mundo continua a ser o que é, tu pouco lhe importas.

- Mas, Mestre... - atreveu-se o relutante Toniano - acho em seu discurso a contradição fundamental, aquela que existe no meu medo de existir não existindo, de não existir existindo. Se eu invento, como podeis vós, minha invenção, falar assim? Se me inventais, como posso eu sentir que sou não inventado?

- Pequena cousa é essa contradição...

- Não termina neste ponto, ó meu mestre. O difícil é ter o mundo na cabeça, se quiser, e no entanto ele continuar a existir, como vós afirmais, e, existindo, existir mesmo que eu o não queira...

- É essa a tua dúvida, discípulo hesitante?

- Sem dúvida, Mestre, que esta é a minha primordial e infinita dedução do indizível.

- Inefável se diz, oh desvairado! E quanto ao teu não saber do mundo, ele em si é já um pouco sábio; é sábio pelo que tem de inefável, sábio é pelo que tem de precipício, ou princípio de contradição. Perturbo-te, discípulo temeroso? Mas explico. Conheces aquele velho e brejeiro dito "se a pedra no deserto é desconhecida da minha pessoa, será lícito eu crer que ela exista?" e conheces o outro, quiçá não menos brejeiro porém superlativamente assertivo, "a pedra no meio do deserto não existe enquanto eu dela não tomar conhecimento"?. Conheces?

- Sim, Mestre, deveras conheço.

- Pois bem. Aquilo a que se chama realidade é por nós entendida segundo diversas alegorias. Há quem lhe chame labirinto, alguns preferem configurá-la como uma espiral; outros ainda dizem ser a realidade uma estória arbitrária e compulsiva, tal um diálogo interminável da mão direita do criador com o seu órgão criativo; e outros inventam... eu sei lá... Tal como o nosso computador central admite e proclama, também eu confesso que só sei nada saber. Mas, ao contrário do nosso computador central, conheço bem que a percepção das cousas que existem neste mundo é uma percepção fisiológica, logo, material, logo, o processo da percepção começa antes de a própria percepção se ter manifestado em todos e em cada um de nós. Entendes isto?

- Difícil é de entender, ó meu Mestre...

- Mas, pobre discípulo, qualquer livro básico de dialéctica psicologico-materialista te informa sobre estas cousas.

- Então, Mestre, somos apenas máquinas de perceber, e o mundo joga e brinca com as nossas fraquezas e imperfeições biológicas?

- Se assim o preferires entender, pode ser uma verdade. Mas lembra-te de entender isto: somos nós, és tu, quem faz o mundo. A pedra que vês, se a vês, não é a mesma que tocas, se lhe tocas. Porque já os átomos de pele e pedra se cruzam, se misturam. E, se a pedra é assim, tocas-lhe com os dedos e já não é; quebras e são duas pedras; imaginas e as pedras para ti se multiplicam. Afinal, a matéria do cérebro, e da mão, e da pedra, é matéria igual. Só a sua organização específica difere em pedra, mão e cérebro. Por fim, ao moldares as pedras que multiplicaste em novas pedras, crias um corpo diferente do teu, feito da mesma matéria, mas diferente por ser realidade nova.

- E a pedra que não vejo, por estar perdida no meio do deserto?

- De essa se pode dizer que tem a felicidade de não conhecer criatura tão terrível para com as pobres pedras dos desertos deste mundo.

- E devo crer que ela existe?
- E ela, deve crer que tu existes?

- Devo, então, Mestre, duvidar?
- Exacto.

- Como ela de mim duvida?
- Sem dúvida!

- Então, duvidar sempre, e de tudo?
- Sempre. E de tudo.

- De tudo?
- E sempre.

- Sempre?
- E de tudo!

- Uau!!!


Affonso Gallo

Texto publicado no poezine Debaixo do Bulcão
editado em Almada, no mês de setembro de mil novecentos e noventa e oito.

Nota: este é o único texto em prosa que se conhece desse obscuro autor almadense que assina com o pseudónimo de Affonso Gallo. De resto, pouco se sabe sobre este autor. Fernão Lopes, na primeira parte da Crónica de El Rei Dom João Primeiro de Boa Memória e dos Reis de Portugal o Décimo menciona um Affonso Gallo que, em 1384, sendo regedor da vila de Almadaã, foi capturado pelo exército castelhano e levado diante dos muros da fortaleza por um cavaleiro gascom de nome Mosse Ymam, muito homem de prol e bom homem de armas, que exigiu aos sitiados a entrega da vila pois, caso contrário, o regedor havia de morrer. E responderam-lhe os de dentro que bem os podia elRei de Castela matar se quisesse, mas que a vila não dariam por cousa alguma que fosse. E como o cavaleiro gascom não lhes deu ouvidos e continuou exigindo a rendição da vila, os de dentro fizerom prestes um trom pequeno e tiraram-lhe dantre as ameias. E foi tal sua ventura que o tiro deu com ele morto por terra e ficou Affonso Gallo vivo de pé (supõe-se, aliás, que é deste episódio que deriva a conhecida expressão popular portuguesa "grande galo!"). Além disto, existe, na toponímia almadense, uma Rua Affonso Gallo. Contudo, os estudos científicos até hoje realizados, bem como as especulações filosóficas sobre o assunto não comprovaram que se trate do mesmo Affonso Gallo - e há, de resto, razões bem fundamentadas para supor que o não seja.

segunda-feira, abril 02, 2012

Polissemia nas imagens (ou na visão dos espectadores?)



Olhemos para estes dois pares de imagens (que andam a circular na internet) . São iguais ou diferentes?

O texto é complemento da imagem? Ou faz parte da imagem?

De que forma a substituição de uma palavra por outra (e a inclusão de cores - às quais associamos significados específicos - nas palavras) altera (ou não altera?) a percepção da mensagem?

E, já agora, qual é a mensagem?

Há, a este respeito, uma frase de Roland Barthes muito citada: "toda a imagem é polissemica e pressupõe, subjacente aos seus significantes, uma “cadeia flutuante” de significados, podendo o leitor escolher alguns e ignorar outros".

Talvez por isso mesmo, o primeiro pensamento que me ocorreu quando vi o primeiro par de imagens foi qualquer coisa como: "disparate! de um lado conceitos culturais, de outro uma visão idílica da natureza... qual é a ideia?".

E só entendi (mas entendi mesmo?) ao ver, depois, o segundo par - que julgo ser o original, pelo que o outro será uma alteração (para não dizer deturpação). As imagens são as mesmas. Mas a legenda (que é imagem, também, ou não? - ou melhor: a imagem é também texto, ou não?) permitiu-me (ou possibilitou-me) uma percepção (leitura) diferente da que tivera em primeiro lugar.

EGO e ECO - o trocadilho, de alguma forma "desdramatiza" a mensagem; mas, por outro lado, torna-a (a meu ver) mais legível. ECO, de ecologia, em vez de "natureza". Ecologia, ciência que estuda as relações dos organismos com o seu meio ambiente (não apenas com os outros seres vivos... mas esqueçamos esse pormenor, para não complicar) em vez de uma "natureza" idealizada (na qual, a levar aquilo à letra, nenhum ser humano sobreviveria durante muito tempo).

Ah, pois, há também a questão de homens e mulheres separados, com o homem em cima na estrutura piramidal e ambos misturados indiscriminadamente com a restante bicharada na estrutura circular. Sim, percebi a ideia, estejam descansados. Essa era a parte mais fácil.

Num mundo em que estamos expostos (e nos expomos) a um fluxo constante de mensagens, e em que somos cada vez mais tanto emissores como receptores, há que ter atenção (ou cuidado) com as imagens que emitimos - e que podem, muito bem, ter o efeito contrário ao desejado. Nunca devemos dar como garantido que o "público alvo" da nossa mensagem tem as mesmas referências que nós e que, portanto, a vai entender tal como nós a entendemos. A descodificação é uma coisa tramada.

E isto é válido para as imagens que escolhi para ilustrar este artigo, tal como é válido, por exemplo, para cartoons que comparam vândalos urbanos com vândalos financeiros, ambos a incendiar coisas; imagens com supostas criancinhas africanas desnutridas que são postas a circular com a legenda "partilhem, pode ser que assim as multinacionais se comovam e ajudem"; ou as fotos (e vídeos) de cargas policiais e outras violências, espontâneas ou encenadas, aqui, no México, na Ucrânia ou no Cú de Judas (que, na internet, é já ali adiante).

A overdose de imagens está a fazer de nós espectadores acríticos? Confusos, sem capacidade de descodificar? Defensivos, procurando, na multiplicidade de ofertas (veja-se o caso da televisão por cabo ou das "redes sociais" da internet) apenas o que nos interessa e nos conforta (ou, alternativamente, o que nos interessa porque nos horroriza e desconforta), ignorando tudo o resto?

Não sei. Mas nunca fiando...

sábado, março 24, 2012

Carga policial no Chiado: uma história de bons e maus?


Link
A propósito da carga policial no Chiado, Lisboa, no dia da Greve Geral (22 de março de 2012), e na sequência do que escrevi anteriormente - Informação versus "comunicação" na arena da junk food mediática - aqui ficam dois vídeos que podem ajudar a esclarecer uma história muito mal contada.

A versão da história que anda a correr mundo fala de uma carga policial e de agressões a jornalistas. Mas não conta o que aconteceu antes da carga policial. Os próprios jornalistas escondem isto. Porquê? A quem interessa todo este show off, toda esta falta de rigor? Quem quer reduzir isto a uma agressão gratuita dos "maus" (a polícia) contra os "bons" (os manifestantes)?

Esta é a versão que anda a ser divulgada. Note-se que são vídeos feitos no mesmo local, no mesmo acontecimento. Mas não parece, pois não? Porquê?



Evidentemente, nada pode justificar a violência desproporcionada da carga policial.

Mas, da mesma forma, só interesses obscuros (ou a vontade de fazer propaganda, ignorando o rigor informativo) podem "justificar" que a história tenha sido tão mal contada por quase toda a gente - pela comunicação social dominante mas também pelos que tanto a acusam de sensacionalismo e parcialidade... para a seguir fazerem exactamente aquilo que antes condenavam. E querem ser levados a sério?

sexta-feira, março 23, 2012

Informação versus "comunicação" na arena da junk food mediática


Ontem foi dia de greve geral em Portugal. Uma greve que teve grande adesão e, portanto, grande sucesso nos objectivos a que se propunha (dados sobre a greve disponíveis em http://www.grevegeral.net).

Mas ontem foi também dia de manifestações e de cargas policiais.

Portanto - logicamente? - as "notícias" de hoje dão relevo às manifestações e cargas policiais, deixando para segundo plano a greve e os seus resultados.

Mas não só as "notícias" dos grandes órgãos de comunicação social. Também na internet o que mais se vê são imagens das cargas policiais, divulgadas por pessoas que, em princípio, teriam interesse em não alinhar no sensacionalismo que a comunicação social dominante promove.

Na minha opinião, insistir em imagens de violência sem as contextualizar apenas faz com que as pessoas se habituem mais e mais às imagens de violência. Não é assim que se ganham ou se mobilizam para uma causa pessoas que não estejam já sensibilizadas. Os outros (a maioria) olham para essas imagens como olham para tantas outras que se habituaram a consumir. Mesmo que se sintam indignadas, mesmo que manifestem simpatia por um (ou outro) dos lados "em confronto", não se querem envolver. Foram condicionadas a pensar assim. Não é à toa que se diz que vivemos numa "sociedade do espectáculo".

Eu sei: é uma opinião polémica. Mas é resultado do que tenho observado e analisado ao longo dos anos (e também, naturalmente, resultado da minha praxis profissional). Espero poder desenvolver e fundamentar melhor este assunto em futuros artigos.

Entretanto, ao olhar para a forma como as fotografias e vídeos das manifestações e cargas policiais de ontem têm vindo a ser divulgadas (e como, por terem audiência garantida, servem também para vender publicidade: um dos vídeos "amadores" feito numa das manifestações está a ser divulgado no site de um diário português... mas quem tenta aceder ao vídeo leva primeiro com publicidade a uma marca de automóveis - isto para dar só um exemplo), lembrei-me do livro "Jornalismo e Sociedade", escrito há uma dúzia de anos por um dos mais prestigiados jornalistas portugueses, Fernando Correia.

Aqui ficam algumas passagens que podem - espero eu - ajudar a contextualizar isto tudo (não dispensa a leitura do livro na sua totalidade).

"Nunca como actualmente foram tão evidentes a transformação da notícia em mercadoria e a sujeição das estratégias informativas às estratégias comerciais, de que a valorização do secundário e a subvalorização do importante, o sensacionalismo, a superficialidade, a informação-espectáculo e a explosão dos excessos da imprensa cor de rosa constituem, em planos diversos, expressões concretas.

Toda esta situação, como seria inevitável, tem-se reflectido na forma de pensar e de agir dos jornalistas, considerados individualmente e como grupo profissional. À prevalência dada aos imperativos comerciais e à subordinação dos critérios jornalísticos às chamadas exigências de mercado (mas quem é que faz com que as exigências de mercado sejam estas e não outras?), juntam-se uma série de outros factores que vão quebrando e dissolvendo a anterior homogeneidade profissional.

(...)

A prevalência absoluta das leis do mercado (isto é, da capacidade dos mais poderosos estabelecerem e arbitrarem, em seu proveito, as regras do jogo económico) e a centralidade social adquirida pela comunicação em geral e pelos media em particular, juntamente com a aplicação de novas tecnologias, trouxeram consigo formas diferentes de fazer jornalismo e novos enquadramentos profissionais. Seria totalmente errado fechar os olhos às realidades e não aceitar uma necessária e indispensável evolução nos modos de conceber o jornalismo.

(...)

Por um lado, o próprio facto de as novas tecnologias proporcionarem um extraordinário aumento da realidade acessível aos media sublinha a necessidade e a importância da tarefa do jornalista enquanto mediador (investigador, revelador e criador) entre essa realidade, cada vez mais vasta e diversificada, e o público.

Por outro lado, porém, o jornalista está ameaçado nos seus fundamentos pelas novas possibilidades técnicas (informação em maior quantidade, mais rápida, se necessário em tempo real, etc) - não, naturalmente, pela própria existência dessas novas possibilidades, mas sim pela sua apropriação e utilização ao serviço de estratégias mediáticas socialmente determinadas. Estratégias prioritariamente dirigidas, nomeadamente no caso da TV, para a valorização do efémero, do distractivo e do superficial, em prejuízo do profundo, do sério e do substancial (o que não significa que toda a informação tenha que obedecer sempre a estes critérios!)

(...)

Isto implica uma concepção dos media e do jornalismo não apenas enquanto mero negócio, mas como uma actividade com deveres e obrigações de natureza social, decorrentes da sua força e capacidade ímpares para influenciar a opinião pública. Esta concepção, para ser operacional, não pode constituir apenas património dos jornalistas, tendo também que ser, de alguma maneira, partilhada pelos agentes que intervêm na produção e edição de informação.

Existe um espaço de autonomia jornalística que, no entanto, tende a estar cada vez mais circunscrito aos quadros dos valores e dos critérios vigentes. O facto de, lamentavelmente, haver cada vez mais jornalistas que, por convicção ou não, participam diligentemente na concretização de tais valores, não é mais do que um reflexo - grave e preocupante - da situação dos media no ponto de cruzamento de interesses económicos, políticos e ideológicos, sob a batuta visível ou a inspiração oculta dos senhores do dinheiro.

(...)

Os manuais ensinam que o bom jornalista terá que ser culto, ter interesse pelas realidades humanas e curiosidade pelas coisas da vida, dominar bem as técnicas do ofício e respeitar a deontologia. Mas numa actividade como esta, tão próxima das pessoas, do seu quotidiano e dos seus problemas, e com tanta influência sobre elas, julgo indispensável, por parte do jornalista, o aprofundament da sua responsabilidade social.

Uma responsabilidade social sem a qual, ao esquecer as implicações económicas, políticas, culturais e religiosas inerentes ao jornalismo enquanto fenómeno social, o exercício da profissão se descaracteriza e empobrece, perdendo grande parte do seu significado e das suas virtualidades ao serviço da valorização e da transformação dos homens e da sociedade".

Fernando Correia
"Jornalismo e Sociedade" - Editorial Avante!, Lisboa, 2000

Entendem o que tem tudo isto a ver com a imagem acima (e com o contexto em que foi captada, e com a forma como está a ser divulgada e vulgarizada)?

quarta-feira, março 21, 2012

A marca da ditadura. E a ditadura das marcas


Imagem: cartaz de Rui Rocha (com um agradecimento ao autor)

O sistema político-económico em que vivemos tudo transformou (e transforma) em objecto de negócio. O lucro é o seu valor moral mais elevado. "Resolveu a dignidade pessoal no valor de troca, e no lugar das inúmeras liberdades bem adquiridas e certificadas pôs a liberdade única, sem escrúpulos, de comércio", escrevem Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista.

E, noutra passagem do mesmo livro "A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência." Pois que "A burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, portanto as relações sociais todas" (...) "Todas as relações fixas e enferrujadas, com o seu cortejo de vetustas representações e intuições, são dissolvidas, todas as recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo o que era dos estados e estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessagrado, e os homens são por fim obrigados a encarar com olhos prosaicos a sua posição na vida, as suas ligações recíprocas."

"Tudo o que era sagrado é dessagrado": tudo se compra, tudo se vende - até a imagem de ditadores. E mesmo a imagem de revolucionários (vejam o que se tem feito com a famosa fotografia de Che Guevara - sobre isso escrevi no "post" abaixo deste).

Vendem-se presidentes como se fossem sabonetes.

E pretende-se vender em Portugal o vinho Salazar como se vende na Austrália o gelado Magnum Cherry Guevara.

"É tudo negócio, nada de pessoal", como diziam os mafiosos dos filmes de Francis Ford Copolla. É a lógica do capital.

A ideia peregrina que a câmara municipal de Santa Comba Dão teve - criar a marca salazar - tem enfrentado a contestação de pessoas que não se esquecem que Salazar foi não uma garrafa de vinho, mas sim um ditador que manteve Portugal num regime opressivo de estilo fascista e colonial, que promoveu e defendeu a iliteracia, que convencia o povo de que a pobreza em que vivia era uma virtude e uma honra (e ao mesmo tempo mantinha os cofres do Estado cheios de ouro), que mandou jovens matar e morrer numa guerra injusta e que obrigou tantos outros a emigrar.

E é claro que temos de lutar contra isso. Contra esta e todas as tentativas de branquear a imagem do ditador e da ditadura.

Vender um "vinho salazar" pode ser acima de tudo um negócio para fascistas e saudosistas mas é, também, obviamente, uma banalização inaceitável de algo que não pode ser olhado senão como um mau exemplo, com o qual temos de aprender (para não o repetir) em vez de deixarmos passar como mais uma banalidade. Concordo que devemos combater tudo o que possa servir como pretexto para reescrever a História (ou esquecê-la, o que é quase tão mau).

Mas é boa ideia, também, tentarmos alargar o horizonte da nossa percepção. Ver para além do nevoeiro de propaganda que nos rodeia. Não agir apenas por reflexo e quando o mal já está feito ou em vias de se concretizar.

Se chegámos a este ponto não foi só porque alguém de repente se lembrou que podia fazer negócio com a "marca salazar".

Se alguém se lembrou que podia fazer negócio com isso, é porque sabe que à partida terá clientes. E se quem quer fazer uma coisa dessas acha que vai ter clientes, então sabe que há pessoas dispostas a esquecer (ou a não querer conhecer) o passado ainda não muito distante. E que haverá, até, pessoas para quem o nome Salazar não diz nada. É mais uma marca entre tantas outras. Tal como (lamento dizê-lo) é para muitos jovens por todo o mundo a marca Che Guevara: uma entre tantas outras.

Não, não estou a querer comparar o revolucionário com o ditador! Obviamente que não! Estou a comparar a apropriação que o capitalismo faz das figuras de um, de outro, e do que mais aparecer e der lucro - depois de devidamente descontextualizado e esvaziado de sentido : "A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência"

Vivemos numa ditadura de grandes multinacionais que, por todo o lado, vão impondo as suas leis e substituindo o papel que até há não muito tempo estava reservado aos estados. Os simbolos visíveis destes novos ditadores são as marcas.

Nesta sociedade consumista, as marcas substituiram (para uma grande fatia da população da Europa, América do Norte, Ásia, Austrália, e mesmo para muitos na América Latina e em África) os símbolos das ideologias.

As pessoas - os jovens, mas nao só os jovens - afirmam-se pelo que têm e podem exibir, e não pelo que pensam, pelas ideias que defendem e pela forma como lutam pelas suas ideias. Há excepções, evidentente. Há os que lutam contra este estado de coisas. Mas esses são ainda poucos.

Durante as últimas décadas as pessoas foram convencidas a acatar uma nova ideologia: a do consumo, custe o que custar e custe a quem custar.

Nos anos 90, ao mesmo tempo que se reduziam salários e se aumentava a exploração da mais-valia, dava-se às pessoas a esperança de uma vida melhor, com mais acesso a bens materiais.

Como foi isso possível?, poderão perguntar alguns. A resposta é: facilitando o crédito ao consumo! As pessoas não tinham assim tanto dinheiro, mas podiam pedir empréstimos para comprar bens de consumo. Empréstimos que, inevitavelmente, não poderiam pagar no futuro. E os bancos sabiam isso muito bem! Assim, os consumidores de ontem tornaram-se os reféns de hoje - reféns de um sistema financeiro que tem nos bancos a sua face visível e nas marcas os seus símbolos ideológicos.

Mas essa aparente prosperidade dos anos 90 não chegava a todos. Havia, ainda, uma classe média. Mas era relativamente pequena. Muita gente não acedia (ou muito dificilmente acedia) a esse paraíso consumista.

A maior parte das pessoas já não passava fome. A pobreza tinha diminuido, é certo. Mas o acesso aos bens de consumo da moda, como automóveis, telemóveis ou roupas de marca - e tê-los era sinónimo de sucesso, segundo a ideologia dominante - não era para todos.

E assim vimos, ao longo da década de 90, jovens dos subúrbios, mais ou menos organizados, a roubar e assaltar, não para comer, mas para ter acesso a esses bens. Os telemóveis e a roupa de marca eram os troféus mais apetecidos. Exibi-los era o sinal exterior de um "sucesso" ilusório.

A orgulhosa exibição de "roupas de marca" - ou seja, a orgulhosa exibição das marcas no corpo de quem deu dinheiro, ou roubou, para as ter (leia-se: propaganda grátis às marcas feita por quem adquiriu o produto) - só por si dava um tratado. Espero que alguém, um dia, o escreva.

Tal como o crédito ao consumo "oferecido" e "facilitado" pelos bancos, o culto das marcas viciou as pessoas. Fez com que todos - ricos, pobres, classe média, enquanto existiu - aceitassem como "natural" esta religião do consumo.

A religião não deixou de ser o ópio do povo. O vinho salazar pode ser uma merda. Mas o consumismo é a droga maior. Ambos intoxicam.

E todos nós, os que não se revoltaram, não reagiram e não denunciaram a tempo, estamos intoxicados e temos culpa por nos termos deixado intoxicar.

Estamos a tempo de sair disto? E queremos?

domingo, março 18, 2012

Vinho de Santa Comba nunca mais! Agora só cerveza!


A Câmara Municipal de Santa Comba Dão quer registar o nome "Salazar" como marca comercial. O primeiro produto a ser lançado com a marca do ditador será um vinho (produção típica da região), baptizado de "Memórias de Salazar" (notícia aqui).

Não. Não estou a delirar. Não é uma piada. Bem vindos a Portugal, em 2012, século 21.

Repugna-vos a ideia? Pois, também a mim.

Mas a verdade é que isto me dá o pretexto para vir aqui falar de uma coisa que me anda a atormentar. É que quanto mais eu vejo mais eu cismo que tudo é produto de consumo, tudo é apropriado pelo capitalismo.

Mesmo o que começa por ser revolucionário, anti-capitalista.

Querem um exemplo muitíssimo esclarecedor? Vejam o que se tem feito com a imagem de Ernesto Che Guevara.
Ora, se é assim com os símbolos revolucionários, como não havia de ser com os símbolos reaccionários? A nossa indignação é legítima. Mas parece-me que temos aqui uma boa oportunidade para pensar, também, se não teremos sido, todos (revolucionários incluidos) demasiado condescendentes - para não dizer cúmplices - com o consumismo.

É claro que isto - a apropriação pelo capitalismo daquilo que, à partida, lhe era adverso - merece uma abordagem mais séria. Por isso mesmo, espero voltar ao assunto no "post" que há-de aparecer por cima deste.

(E Sérgio Godinho que me perdoe os trocadilhos... Mas o tema estava a pedi-los.)

sexta-feira, março 16, 2012

"Kony 2012": meias verdades, manipulação, infantilização do público

Daniel Oliveira escreve no Expresso um texto muito interessante e bem fundamentado, com o título Kony 2012: para lá da comoção da moda (http://expresso.sapo.pt/kony-2012-para-la-da-comocao-da-moda=f711978)

No final do artigo acrescenta, em rodapé, o vídeo - fenómeno viral - com a suposta "reportagem". Mas acrescenta também este, com a reacção das vítimas de Joseph Kony depois de uma projecção do vídeo realizada numa localidade do norte do Uganda por uma equipa da televisão Al Jazeera.

O visionamento do (pseudo) documentário provoca, nas vítimas de Joseph Kony, irritação e revolta - por se considerarem usadas (e abusadas, digo eu).

Para contextualizar o assunto, atrevo-me a reproduzir (com a devida vénia, já se sabe...) excertos do artigo de Daniel Oliveira (encontram-no na íntegra clicando no link que coloquei no final do primeiro parágrafo deste artigo).

"O documentário pela captura de Joseph Kony, realizado e divulgado pela ONG Invisible Children, tornou-se o mais rápido vídeo viral da Net. Mesmo sem saber muito bem onde fica o Uganda, o mundo acordou para as atrocidades da Lord's Resistence Army (LRA). Mas a indignação solidária tem, como sempre, um sabor de moda. Não resulta de uma posição informada, que compreenda as contradições de uma guerra civil, onde raramente há anjos e diabos.

Como tudo o que tem grande sucesso se expõe às criticas, surgiram muitas em relação ao rigor de um documentário maniqueísta, feito para emocionar e não para pensar. Quando as causas humanitárias são tratadas como campanhas de marketing é isso que acontece. A ação tem nascer da indignação. Mas esta tem de nascer da informação. A emoção acorda para problemas, mas, se nada se acrescentar a ela, a nossa ação em defesa dos outros pode bem passar a depender da manipulação. Seremos convencidos por quem fizer o melhor spot e escolher a melhor banda sonora. Agir por uma causa não é, não pode ser, o mesmo que escolher uma marca de cereais. Nem permitir, como faz o documentário em questão, que não nos dá qualquer informação de contexto do conflito em que pretende intervir, ser tratados, como ali somos, como uma criança de cinco anos incapaz de compreender as complexidades e contradições do mundo.

Não faltam interessados nos vastos recursos do Uganda - que não têm servido para melhorar a vida dos seus cidadãos. Nesses recurso incluem-se as reservas inexploradas de gás natural e petróleo. O governo formalmente democrático (se formos insultuosamente minimalistas no que consideramos ser uma democracia) do Uganda, que gere a miséria de um dos mais pobres países do Mundo, viola, com prisão e tortura de opositores políticos, deportações forçadas, violência sobre os refugiados, os direitos humanos dos ugandeses. No entanto, tem merecido generosos, mas não muito bem intencionados, apoios externos das potências ocidentais no combate a Joseph Kony. Um dos políticos que apoia este regime, Santo Okot Lapolo, aparece no documentário em causa. É responsável por homicídios e perseguições a opositores e acusado de corrupção, por desvio de fundos que eram destinados aos refugiados vítimas da LRA.

Não deixa de ser estranho que as mesmas potências que assistiram, quietas, aos apocalípticos massacres no Ruanda, à limpeza étnica do Darfur e aos atropelos sistemáticos aos direitos humanos por parte do governo ugandês, tenham, por Kony, um interesse tão grande. Suficiente para a mobilização de raros recursos financeiros e legislativos por parte da Casa Branca e do Congresso dos EUA. Num mundo que raramente se move por razões humanitárias, é sempre razão para parar cinco minutos e pensar. Mas, acima de tudo, vale a pena desconfiar de um documentário sobre um conflito civil onde tudo pareça demasiado simples. É que uma guerra civil não se explica ao estilo preguiçoso de Hollywood. Raramente é assim tão claro quem são os bons e os maus.

Não ponho em causa, pelo contrário, a necessidade de capturar Joseph Kony e obriga-lo a responder pelos seus inúmeros crimes. Mas, nestas matérias, defendo sempre a cautela: não basta sabermos quem estamos a combater, precisamos de saber o que move aqueles que, com muito mais poder do que os cidadãos, querem fazer com o nosso combate. E tentar perceber a verdadeira complexidade do que acontece no terreno.

O nosso apoio às vítimas de um qualquer conflito exige mais do que um "like" no Facebook ou uma lágrimas em frente a um computador ou uma televisão. Exige o trabalho e a exigência da militância numa causa. As contradições não nos podem paralisar. Mas não é o simplismo que nos deve fazer mexer. Porque a nossa ingenuidade bem intencionada pode bem servir interesses contrários aos valores que pretendemos defender."

quinta-feira, março 08, 2012

Problemas antigos...

Um trabalho jornalístico publicado em dezembro de 1995. A Lusoponte preparava-se para assumir a concessão exclusiva das futuras travessias do Tejo até Vila Franca de Xira. E havia, ainda, um grande movimento de contestação às portagens (embora já não intenso como o que, em 1994, deu início à derrota do governo PSD - Cavaco Silva).
A História não se repete: continua.

domingo, março 04, 2012

Greve ao consumo!


Greve ao consumo de produtos de "entertainment" (de lazer ou culturais): uma iniciativa convocada não sei por quem, mas que subscrevo e apoio activamente.

A tradução para português é, mais ou menos, a seguinte:

Com as campanhas continuadas para censurar internet e pelo encerramento de sites como o Megaupload sob a alegação de pirataria e conspiração, chegou a hora de tomar uma posição contra os lobys das empresas de mídia.

A única maneira de atingi-los é onde realmente dói.
Suas margens de lucro.

O apelo é para uma greve ao consumo a nível mundial durante este mês (março de 2012).

Não comprem um único registo. Não façam download, legal ou ilegal, de uma única música. Não vejam um único filme nos cinemas, nem façam downloads de filmes. Não comprem um dvd nas lojas, nem jogos de vídeo, nem livros ou revistas.

Esperem até ao final destas 4 semanas para comprá-los em abril: vejam o filme mais tarde, etc

Fazendo greve ao consumo durante estas 4 semanas, o resultado será uma lacuna, um buraco nos lucros das companhias de entretenimento durante o primeiro trimestre deste ano.

Um sucesso económico que, por sua vez, será observado pelos governos como uma perda significativamente grande de rendimentos.

Esta ação pode dar uma declaração de intenções:

"Não vamos tolerar que as indústrias de mídia continuem a exercer pressão para aprovar leis que censurem a internet"

Concordo. É tempo de partir para formas de luta verdadeiramente eficazes, em vez de andarmos simplesmente a repetir slogans ou ficar à espera de justiceiros mascarados que lutem pelos nossos direitos. Greve ao consumo é das melhores armas que conheço. E todos a podemos utilizar. Só precisamos de sair um bocadinho (só um bocadinho) da nossa zona de conforto.

Desconfio é que pouca gente estará para aqui virada. E é pena. Porque podia ser uma coisa grande e com efeitos sérios.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

O tratado mais triste


O tratado de Maastricht (conhecido pelos portugueses na época mais propriamente como o tratado mais triste) foi assinado em fevereiro de 1992. É habitualmente considerado o documento que cria a União Europeia (UE), a partir do que era até então a Comunidade Económica Europeia (CEE).

Encontrei este cartoon numa edição do jornal Avante! dessa época - 1991 ou 1992, não tenho a certeza.

Lembrar que, tal como D'Artagnan, fomos avisados e não fizemos caso pareceu-me uma boa maneira de comemorar. Vivemos tempos grotescos, de tragicomédia.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Os bancos portugueses têm prejuízos? Boa piada...


Há certas ocasiões em que um tipo - por muito que queira ser imparcial, por muito que tente não andar para aqui a repetir slogans e não entrar em euforias ou depressões - não pode deixar de rir (para não chorar) perante o descaramento de quem lhe tenta atirar areia para os olhos. Neste caso, o descaramento da banca privada portuguesa que, aparentemente, terá tido "prejuízos" de milhões de euros durante o ano de 2011. Coitadinhos dos "nossos" banqueiros, não é?

Este vídeo é de uma conferência de imprensa do PCP, na qual Jorge Pires explica as manobras contabilísticas que levam a este resultado só aparentemente desastroso para bancos que - ainda por cima e sem se preocuparem com a contradição - se dizem de tão boa saúde!

Uma "contabilidade criativa" que, no fundo, contribui para o objectivo da política neoliberal em curso: tirar ao Estado (a todos nós) para dar aos especuladores privados. Mais do mesmo, portanto. Mas cada vez com maior à-vontade e descaramento.

Felizmente há quem os denuncie, e com esta clareza e objectividade.

O texto completo está em:
http://www.pcp.pt/divulga%C3%A7%C3%A3o-dos-resultados-da-banca-obtidos-em-2011-uma-opera%C3%A7%C3%A3o-ideol%C3%B3gica-com-objectivos-muito-prec

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Ao Terreiro do Paço, claro!

"Estamos perante uma política de terrorismo económico e social que exige uma resposta de grande dimensão a nível nacional.

O Governo do PSD-CDS e o grande patronato pretendem:

- colocar o Estado ao serviço das empresas;
- pôr a segurança social a financiar os patrões para pagar menos e precariezar as relações de trabalho;
- facilitar os despedimentos e diminuir as indemnizações e o valor do subsídio de desemprego;
- flexibilizar os horários de trabalho e reduzir a retribuição;
- atacar a contratação colectiva e promover o trabalho gratuito com a redução de feriados e dias de férias.

Esta é um política que é preciso combater. Dia 11 vamos manifestar todos os descontentamentos, protestos e indignações contra a política que rouba aos trabalhadores e ao povo ao mesmo tempo que empurra o país para o precipício."

(Texto de um comunicado da CGTP - Intersindical Nacional.)



Foto: Manifestação no Terreiro do Paço em junho de 1980; Centro de Arquivo e Documentação da CGTP-IN.
Vídeo: tempo de antena da CGTP em 9 fevereiro 2012; http://www.youtube.com/cgtpin/

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Sound bites

«Greve geral? Qual greve geral? Fui à janela e vi passar um eléctrico!...»

«É a vida!»

«Deixaram o país de tanga!»

«Habituem-se!»

«Porreiro, pá»

«Piegas...»


«Alguém viu o meu cão?»

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Na Suiça não há (ainda) salário mínimo nacional



Anda a circular na internet um gráfico no qual se compara o salário mínimo português com o de outros países europeus. Segundo esse gráfico, o país onde o salário mínimo nacional é mais elevado seria a Suiça.

Mas é mentira! Na Suiça não existe salário mínimo nacional! Quem fez aquele gráfico está a brincar convosco!

Os dados verdadeiros são os do mapa abaixo, com números oficiais, do Eurostat (Gabinete de Estatística da União Europeia).


Como se pode ver, na Suiça (e em vários outros países europeus) não está regulamentado nenhum salário mínimo nacional. O que existe, sim, são salários mínimos definidos para algumas profissões, e, de acordo com a informação que consegui recolher, apenas no cantão de Neuchâtel (julgo que em mais nenhum, mas corrijam-me se estiver errado).

E existe, também, uma proposta dos sindicatos suiços, para implementar no país um salário mínimo nacional de 3.261 euros. (Proposta que, em princípio, será referendada ainda este ano.)

Actualmente, sem salário mínimo estipulado, há grandes disparidades em termos de vencimento naquele país.

Citando o site swissinfo.ch "a média dos salários na Suíça é de 5979 francos suíços por mês, mas as nuances no cálculo da média fazem grandes diferenças.

Enquanto a maior parte dos trabalhadores em Neuchâtel ganham em média 5600 francos por mês, seus colegas de Genebra recebem 7000 francos." (Podem confirmar a notícia em http://www.swissinfo.ch/por/economia/Suicos_poderao_receber_salario_minimo.html?cid=31680054&rss=true)

Portanto, os números daquele gráfico são absolutamente mentira!

Mas porque haveria alguém de querer divulgar mentiras tão fáceis de desmascarar?

Se repararem bem, aquele gráfico vem de um site de entretenimento chamado Tá Bonito. Não cita fontes, não diz onde foi buscar a "informação", mas quer que as pessoas acreditem no que publica. Um site de piadas! Que tem como símbolo um macaco (de imitação?). Tá bonito, tá.

Porque o fizeram, não sei. Mas sei que, para um site comercial, não há nada como inventar uma polémica para ter mais visitantes - e, com isso, mais anunciantes e mais lucros.

E porque é que as pessoas que não têm nada a ganhar com os negócios desse site divulgam tais mentiras e as propagam até as transformarem num fenómeno "viral?

Bem, isso - a forma como a internet está a fazer com que as pessoas fiquem menos informadas e mais manipuláveis - merece uma análise mais aprofundada. Fica para outra altura.

sábado, janeiro 28, 2012

Pois é...

Ao fim de 5 anos, decido finalmente mudar o nome deste blogue. Chamava-se coisitas do vitorino, porque originalmente não era mais do que isso mesmo: um blogue onde metia esporadicamente umas coisitas em forma de poesia. Era pouco mais que uma brincadeira para complementar o blogue onde pretendo divulgar e manter vivo o meu principal projecto: o Debaixo do Bulcão.

Mal adivinhava eu que este acabaria por suscitar mais interesse que o do bulcão.

Mas pronto, foi isso mesmo o que aconteceu. O interesse suscitado por este blogue levou-me também a colocar aqui outro tipo de conteúdos. E assim, mais tarde ou mais cedo, teria que mudar também o título. Isto já tinha deixado de ser apenas um espaço para floreados poéticos ou desabafos pessoais.

A mudança acontece agora, mais tarde que cedo. Hesitei muito, porque este blogue já era conhecido - e mencionado - como coisitas do vitorino. E não tenho muito jeito para desenrascar títulos porreiros para blogues, confesso.

A nova designação pode não ser grande coisa. Mas, pelo menos, deixa de induzir em erro. Penso que a partir de agora ninguém virá aqui parar por ter procurado qualquer homónimo que tenha ganho notoriedade já depois de eu começar a assinar os meus trabalhos literários e jornalísticos como António Vitorino.

Só vantagens, portanto.

domingo, janeiro 22, 2012

De que falamos quando falamos de SOPA e de PIPA


As tentativas de censurar a internet por parte do governo norte-americano - e também (ou talvez principalmente) das corporações norte-americanas - são um dos assuntos da actualidade. Siglas como SOPA e PIPA andam nas bocas do mundo... Mas sabem o que realmente significam? Este vídeo explica.

Claro que o assunto dava pano para mangas... Só o ataque de falsa bandeira a que os "anónimos" se prestaram, tipo bins ladens da internet, merecia uma análise desenvolvida. Mas ando sem tempo para essas coisas. Por isso, deixo só uma perguntinha: acham mesmo que o governo norte-americano mandava o FBI fechar um site com tanto alarido, logo no momento em que a SOPA está a ser votada, e não se preparava para retaliações? Os tipos que criaram a internet são assim tão ingénuos e indefesos e os anónimos tão poderosos? Pensem nisso...

terça-feira, janeiro 03, 2012

Bem vindos a 2012. Ou a 5126, se preferirem.


«Na profecia dos Maias está: no final do 12º Baktun (12ºciclo do calendário de contagem longa) regressam os ancestrais, os sábios. Que amanheça, que se faça aurora, para que o povo tenha paz e seja feliz. Não tomem medo ao mundo. A chegada deste tempo é igual à mudança do ano novo: hoje é 31 de dezembro, amanhã 1º de janeiro, feliz ano novo. E assim vai ser quando vier esse dia. Não é a primeira vez que acontece. Quantas vezes aconteceu antes, quando os nossos ancestrais prepararam os seus calendários... Passou um periodo do sol, depois outro e outro, em cada 5200 anos. Estamos no 4º período do sol. Não é a criação do mundo... Não tenham medo, meus irmãos. Não acreditem no que dizem esses homens mentirosos que não são maias e que andam a aterrorizar o mundo.»

Quem diz isto é o senhor que aparece no vídeo. E quem é ele? Don Alejandro Perez Oxlaj, a mais alta autoridade religiosa do povo Maia. Deve saber do que fala, mais e melhor que os profetas da desgraça que por aí pululam, não vos parece?

(Num outro vídeo - que podem encontrar no youtube - don Alejandro afirma que nem pode dar como certa a data de 21 de dezembro de 2012 como o dia em que a profecia será cumprida e que receia que o mundo se possa virar contra os maias, acusá-los de terem mentido porque "vão perceber que no dia 21 de dezembro de 2012 afinal não se passou nada")

O meu objectivo ao escrever este post é desafiar-vos a não se deixarem levar pelas tretas desses "homens mentirosos que não são maias e que andam a aterrorizar o mundo" e a procurarem informação nas melhores fontes: os investigadores científicos e, naturalmente, os próprios maias. Há coisas interessantes a descobrir. Por exemplo: no calendário maia estamos no ano 5126, como afirmam os estudiosos nossos contemporâneos? Mas don Alejandro não fala em ciclos de 5200 anos? E qual o siginificado da outra "profecia", para março de 2013 ("On March 31, 2013 the sun will be hidden for a period of 60-70 hours and this is when we shall enter the period of the Fifth Sun.", conforme citado num dos links abaixo)?

Sejam curiosos. Aqui ficam umas dicas:





E os diversos vídeos que existem no youtube (incluindo mais excertos da entrevista)


E, já agora: não, não sou seguidor da religião dos maias. Nem de qualquer outra. Ainda assim, desejo-vos um feliz ano novo! ;)

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Padre Ricardo Gameiro Lopes (1929 - 2011)

O Padre Ricardo Gameiro faleceu no dia 19 de Dezembro de 2011, aos 82 anos de idade.

Não sei bem o que dizer sobre o Padre Ricardo. Não tenho muito jeito para fazer homenagens póstumas. Conheci-o em 1994, na Rádio Voz de Almada (emissora de que ele foi um dos fundadores e de que era um dos directores e a principal figura de referência). E, como é natural, não fiquei indiferente à sua personalidade marcante (e um bocado intimidante no seu "papel" de director, para dizer a verdade). Não tinha por ele a maior das simpatias (até porque ele não procurava ser simpático, pelo menos quando o conheci). Mas sempre admirei uma sua rara e preciosa qualidade: a frontalidade!

Este artigo é de uma entrevista que lhe fiz em 2001 para o Jornal da Região (publicada também no Sem Mais Jornal). Ele resistiu bastante à ideia de falar sobre si próprio. Aliás, só consegui a entrevista prometendo-lhe que, mais tarde, faria uma reportagem aprofundada sobre a obra social do Centro Paroquial da Cova da Piedade. Infelizmente não cheguei a cumprir a promessa: poucos meses após a publicação desta peça deixei de colaborar com o Jornal da Região (e com a empresa do Sem Mais Jornal).

Tinha isto guardado para outra ocasião (e para outro blogue). Mas a vida prega-nos estas partidas de mau gosto...

sexta-feira, dezembro 23, 2011

três poemas de natal


RESPOSTA DA VAIDADE HUMANA AO MENINO JEJUM

o menino jejum nasceu a 25 de dezembro desse ano
e veio a falecer (morreu portanto) a 25 de dezembro desse mesmo ano.
a sua fugaz passagem por este mundo breve
apenas serviu para confrontar a vaidade humana
com as humildes perspectivas de quem muito poderia fazer
neste mundo se aqui tivesse vivido mais tempo.
a vaidade humana encolhe os ombros
e diz que viver neste mundo mais tempo
sem fazer nada
é bem melhor que morrer apressadamente
sem fazer tudo aquilo que poderia vir a fazer
e ainda por cima em jejum.



RESPOSTA DO MENINO JEJUM À VAIDADE HUMANA

aqui do alto assunto a que ascendi
vejo bem o quanto és vã ó vaidade humana
e só não te perdoo porque tu lá sabes
muito bem aquilo que fazes.
(aliás é essa a única coisa que tu sabes.)
muito eu te poderia ensinar sobre o não ser
mas sei também que tu não queres aprender
porque aprender implica trabalhar, como bem sabes.
apenas te digo que já não estou em jejum
pois agora que ascendi a um alto assunto
aqui me alimento com todas as palavras do mundo:
sou um poeta.
e mais não digo
porque no alto assunto a que ascendi o meu latim é muito caro.
ó vaidade humana que te contentas em ser apenas
a vaidade humana:
continua a dormir bem vaidade humana
que eu fico acordado a aprender
e a escrever
mas sei que quando me for deitar
também dormirei bem
embora sonhe sonhos um bocado bem diferentes
dos sonhos que tu sonhas ó vaidade humana.



RESPOSTA DA VAIDADE HUMANA À RESPOSTA DO MENINO JEJUM À VAIDADE HUMANA

a inveja exacerbada (companheira de quarto da vaidade humana)
acordou ao meio dia e vinte e três a vaidade humana
do sonho hiperactivo no qual como habitualmente hiperagia
para lhe dizer que do planeta alto assunto a que ascendeste
recebera uma comunicação urgente do menino jejum.
a vaidade humana refilou um pouco não muito com a inveja exacerbada
(a vaidade humana refila sempre com qualquer um
ou qualquer uma que a acorde ao meio dia e vinte e três)
e por uma vez na sua hiperactiva vida
dispôs-se a fingir que ouvia uma comunicação
vinda do planeta alto assunto a que ascendeste.
depois disse eu quero é que te vás f*der
e voltou para o seu sonho hiperactivo
onde sempre hiperage
queira ou não queira o menino jejum
ou qualquer outro habitante do planeta alto assunto a que ascendeste.



A.V., 2003

Imagem: "Um theatro de marionettes no parque de Vienna"
(Jornal do Domingo, Lisboa 1887)