sábado, março 24, 2012

Carga policial no Chiado: uma história de bons e maus?


Link
A propósito da carga policial no Chiado, Lisboa, no dia da Greve Geral (22 de março de 2012), e na sequência do que escrevi anteriormente - Informação versus "comunicação" na arena da junk food mediática - aqui ficam dois vídeos que podem ajudar a esclarecer uma história muito mal contada.

A versão da história que anda a correr mundo fala de uma carga policial e de agressões a jornalistas. Mas não conta o que aconteceu antes da carga policial. Os próprios jornalistas escondem isto. Porquê? A quem interessa todo este show off, toda esta falta de rigor? Quem quer reduzir isto a uma agressão gratuita dos "maus" (a polícia) contra os "bons" (os manifestantes)?

Esta é a versão que anda a ser divulgada. Note-se que são vídeos feitos no mesmo local, no mesmo acontecimento. Mas não parece, pois não? Porquê?



Evidentemente, nada pode justificar a violência desproporcionada da carga policial.

Mas, da mesma forma, só interesses obscuros (ou a vontade de fazer propaganda, ignorando o rigor informativo) podem "justificar" que a história tenha sido tão mal contada por quase toda a gente - pela comunicação social dominante mas também pelos que tanto a acusam de sensacionalismo e parcialidade... para a seguir fazerem exactamente aquilo que antes condenavam. E querem ser levados a sério?

sexta-feira, março 23, 2012

Informação versus "comunicação" na arena da junk food mediática


Ontem foi dia de greve geral em Portugal. Uma greve que teve grande adesão e, portanto, grande sucesso nos objectivos a que se propunha (dados sobre a greve disponíveis em http://www.grevegeral.net).

Mas ontem foi também dia de manifestações e de cargas policiais.

Portanto - logicamente? - as "notícias" de hoje dão relevo às manifestações e cargas policiais, deixando para segundo plano a greve e os seus resultados.

Mas não só as "notícias" dos grandes órgãos de comunicação social. Também na internet o que mais se vê são imagens das cargas policiais, divulgadas por pessoas que, em princípio, teriam interesse em não alinhar no sensacionalismo que a comunicação social dominante promove.

Na minha opinião, insistir em imagens de violência sem as contextualizar apenas faz com que as pessoas se habituem mais e mais às imagens de violência. Não é assim que se ganham ou se mobilizam para uma causa pessoas que não estejam já sensibilizadas. Os outros (a maioria) olham para essas imagens como olham para tantas outras que se habituaram a consumir. Mesmo que se sintam indignadas, mesmo que manifestem simpatia por um (ou outro) dos lados "em confronto", não se querem envolver. Foram condicionadas a pensar assim. Não é à toa que se diz que vivemos numa "sociedade do espectáculo".

Eu sei: é uma opinião polémica. Mas é resultado do que tenho observado e analisado ao longo dos anos (e também, naturalmente, resultado da minha praxis profissional). Espero poder desenvolver e fundamentar melhor este assunto em futuros artigos.

Entretanto, ao olhar para a forma como as fotografias e vídeos das manifestações e cargas policiais de ontem têm vindo a ser divulgadas (e como, por terem audiência garantida, servem também para vender publicidade: um dos vídeos "amadores" feito numa das manifestações está a ser divulgado no site de um diário português... mas quem tenta aceder ao vídeo leva primeiro com publicidade a uma marca de automóveis - isto para dar só um exemplo), lembrei-me do livro "Jornalismo e Sociedade", escrito há uma dúzia de anos por um dos mais prestigiados jornalistas portugueses, Fernando Correia.

Aqui ficam algumas passagens que podem - espero eu - ajudar a contextualizar isto tudo (não dispensa a leitura do livro na sua totalidade).

"Nunca como actualmente foram tão evidentes a transformação da notícia em mercadoria e a sujeição das estratégias informativas às estratégias comerciais, de que a valorização do secundário e a subvalorização do importante, o sensacionalismo, a superficialidade, a informação-espectáculo e a explosão dos excessos da imprensa cor de rosa constituem, em planos diversos, expressões concretas.

Toda esta situação, como seria inevitável, tem-se reflectido na forma de pensar e de agir dos jornalistas, considerados individualmente e como grupo profissional. À prevalência dada aos imperativos comerciais e à subordinação dos critérios jornalísticos às chamadas exigências de mercado (mas quem é que faz com que as exigências de mercado sejam estas e não outras?), juntam-se uma série de outros factores que vão quebrando e dissolvendo a anterior homogeneidade profissional.

(...)

A prevalência absoluta das leis do mercado (isto é, da capacidade dos mais poderosos estabelecerem e arbitrarem, em seu proveito, as regras do jogo económico) e a centralidade social adquirida pela comunicação em geral e pelos media em particular, juntamente com a aplicação de novas tecnologias, trouxeram consigo formas diferentes de fazer jornalismo e novos enquadramentos profissionais. Seria totalmente errado fechar os olhos às realidades e não aceitar uma necessária e indispensável evolução nos modos de conceber o jornalismo.

(...)

Por um lado, o próprio facto de as novas tecnologias proporcionarem um extraordinário aumento da realidade acessível aos media sublinha a necessidade e a importância da tarefa do jornalista enquanto mediador (investigador, revelador e criador) entre essa realidade, cada vez mais vasta e diversificada, e o público.

Por outro lado, porém, o jornalista está ameaçado nos seus fundamentos pelas novas possibilidades técnicas (informação em maior quantidade, mais rápida, se necessário em tempo real, etc) - não, naturalmente, pela própria existência dessas novas possibilidades, mas sim pela sua apropriação e utilização ao serviço de estratégias mediáticas socialmente determinadas. Estratégias prioritariamente dirigidas, nomeadamente no caso da TV, para a valorização do efémero, do distractivo e do superficial, em prejuízo do profundo, do sério e do substancial (o que não significa que toda a informação tenha que obedecer sempre a estes critérios!)

(...)

Isto implica uma concepção dos media e do jornalismo não apenas enquanto mero negócio, mas como uma actividade com deveres e obrigações de natureza social, decorrentes da sua força e capacidade ímpares para influenciar a opinião pública. Esta concepção, para ser operacional, não pode constituir apenas património dos jornalistas, tendo também que ser, de alguma maneira, partilhada pelos agentes que intervêm na produção e edição de informação.

Existe um espaço de autonomia jornalística que, no entanto, tende a estar cada vez mais circunscrito aos quadros dos valores e dos critérios vigentes. O facto de, lamentavelmente, haver cada vez mais jornalistas que, por convicção ou não, participam diligentemente na concretização de tais valores, não é mais do que um reflexo - grave e preocupante - da situação dos media no ponto de cruzamento de interesses económicos, políticos e ideológicos, sob a batuta visível ou a inspiração oculta dos senhores do dinheiro.

(...)

Os manuais ensinam que o bom jornalista terá que ser culto, ter interesse pelas realidades humanas e curiosidade pelas coisas da vida, dominar bem as técnicas do ofício e respeitar a deontologia. Mas numa actividade como esta, tão próxima das pessoas, do seu quotidiano e dos seus problemas, e com tanta influência sobre elas, julgo indispensável, por parte do jornalista, o aprofundament da sua responsabilidade social.

Uma responsabilidade social sem a qual, ao esquecer as implicações económicas, políticas, culturais e religiosas inerentes ao jornalismo enquanto fenómeno social, o exercício da profissão se descaracteriza e empobrece, perdendo grande parte do seu significado e das suas virtualidades ao serviço da valorização e da transformação dos homens e da sociedade".

Fernando Correia
"Jornalismo e Sociedade" - Editorial Avante!, Lisboa, 2000

Entendem o que tem tudo isto a ver com a imagem acima (e com o contexto em que foi captada, e com a forma como está a ser divulgada e vulgarizada)?

quarta-feira, março 21, 2012

A marca da ditadura. E a ditadura das marcas


Imagem: cartaz de Rui Rocha (com um agradecimento ao autor)

O sistema político-económico em que vivemos tudo transformou (e transforma) em objecto de negócio. O lucro é o seu valor moral mais elevado. "Resolveu a dignidade pessoal no valor de troca, e no lugar das inúmeras liberdades bem adquiridas e certificadas pôs a liberdade única, sem escrúpulos, de comércio", escrevem Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista.

E, noutra passagem do mesmo livro "A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência." Pois que "A burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, portanto as relações sociais todas" (...) "Todas as relações fixas e enferrujadas, com o seu cortejo de vetustas representações e intuições, são dissolvidas, todas as recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo o que era dos estados e estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessagrado, e os homens são por fim obrigados a encarar com olhos prosaicos a sua posição na vida, as suas ligações recíprocas."

"Tudo o que era sagrado é dessagrado": tudo se compra, tudo se vende - até a imagem de ditadores. E mesmo a imagem de revolucionários (vejam o que se tem feito com a famosa fotografia de Che Guevara - sobre isso escrevi no "post" abaixo deste).

Vendem-se presidentes como se fossem sabonetes.

E pretende-se vender em Portugal o vinho Salazar como se vende na Austrália o gelado Magnum Cherry Guevara.

"É tudo negócio, nada de pessoal", como diziam os mafiosos dos filmes de Francis Ford Copolla. É a lógica do capital.

A ideia peregrina que a câmara municipal de Santa Comba Dão teve - criar a marca salazar - tem enfrentado a contestação de pessoas que não se esquecem que Salazar foi não uma garrafa de vinho, mas sim um ditador que manteve Portugal num regime opressivo de estilo fascista e colonial, que promoveu e defendeu a iliteracia, que convencia o povo de que a pobreza em que vivia era uma virtude e uma honra (e ao mesmo tempo mantinha os cofres do Estado cheios de ouro), que mandou jovens matar e morrer numa guerra injusta e que obrigou tantos outros a emigrar.

E é claro que temos de lutar contra isso. Contra esta e todas as tentativas de branquear a imagem do ditador e da ditadura.

Vender um "vinho salazar" pode ser acima de tudo um negócio para fascistas e saudosistas mas é, também, obviamente, uma banalização inaceitável de algo que não pode ser olhado senão como um mau exemplo, com o qual temos de aprender (para não o repetir) em vez de deixarmos passar como mais uma banalidade. Concordo que devemos combater tudo o que possa servir como pretexto para reescrever a História (ou esquecê-la, o que é quase tão mau).

Mas é boa ideia, também, tentarmos alargar o horizonte da nossa percepção. Ver para além do nevoeiro de propaganda que nos rodeia. Não agir apenas por reflexo e quando o mal já está feito ou em vias de se concretizar.

Se chegámos a este ponto não foi só porque alguém de repente se lembrou que podia fazer negócio com a "marca salazar".

Se alguém se lembrou que podia fazer negócio com isso, é porque sabe que à partida terá clientes. E se quem quer fazer uma coisa dessas acha que vai ter clientes, então sabe que há pessoas dispostas a esquecer (ou a não querer conhecer) o passado ainda não muito distante. E que haverá, até, pessoas para quem o nome Salazar não diz nada. É mais uma marca entre tantas outras. Tal como (lamento dizê-lo) é para muitos jovens por todo o mundo a marca Che Guevara: uma entre tantas outras.

Não, não estou a querer comparar o revolucionário com o ditador! Obviamente que não! Estou a comparar a apropriação que o capitalismo faz das figuras de um, de outro, e do que mais aparecer e der lucro - depois de devidamente descontextualizado e esvaziado de sentido : "A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência"

Vivemos numa ditadura de grandes multinacionais que, por todo o lado, vão impondo as suas leis e substituindo o papel que até há não muito tempo estava reservado aos estados. Os simbolos visíveis destes novos ditadores são as marcas.

Nesta sociedade consumista, as marcas substituiram (para uma grande fatia da população da Europa, América do Norte, Ásia, Austrália, e mesmo para muitos na América Latina e em África) os símbolos das ideologias.

As pessoas - os jovens, mas nao só os jovens - afirmam-se pelo que têm e podem exibir, e não pelo que pensam, pelas ideias que defendem e pela forma como lutam pelas suas ideias. Há excepções, evidentente. Há os que lutam contra este estado de coisas. Mas esses são ainda poucos.

Durante as últimas décadas as pessoas foram convencidas a acatar uma nova ideologia: a do consumo, custe o que custar e custe a quem custar.

Nos anos 90, ao mesmo tempo que se reduziam salários e se aumentava a exploração da mais-valia, dava-se às pessoas a esperança de uma vida melhor, com mais acesso a bens materiais.

Como foi isso possível?, poderão perguntar alguns. A resposta é: facilitando o crédito ao consumo! As pessoas não tinham assim tanto dinheiro, mas podiam pedir empréstimos para comprar bens de consumo. Empréstimos que, inevitavelmente, não poderiam pagar no futuro. E os bancos sabiam isso muito bem! Assim, os consumidores de ontem tornaram-se os reféns de hoje - reféns de um sistema financeiro que tem nos bancos a sua face visível e nas marcas os seus símbolos ideológicos.

Mas essa aparente prosperidade dos anos 90 não chegava a todos. Havia, ainda, uma classe média. Mas era relativamente pequena. Muita gente não acedia (ou muito dificilmente acedia) a esse paraíso consumista.

A maior parte das pessoas já não passava fome. A pobreza tinha diminuido, é certo. Mas o acesso aos bens de consumo da moda, como automóveis, telemóveis ou roupas de marca - e tê-los era sinónimo de sucesso, segundo a ideologia dominante - não era para todos.

E assim vimos, ao longo da década de 90, jovens dos subúrbios, mais ou menos organizados, a roubar e assaltar, não para comer, mas para ter acesso a esses bens. Os telemóveis e a roupa de marca eram os troféus mais apetecidos. Exibi-los era o sinal exterior de um "sucesso" ilusório.

A orgulhosa exibição de "roupas de marca" - ou seja, a orgulhosa exibição das marcas no corpo de quem deu dinheiro, ou roubou, para as ter (leia-se: propaganda grátis às marcas feita por quem adquiriu o produto) - só por si dava um tratado. Espero que alguém, um dia, o escreva.

Tal como o crédito ao consumo "oferecido" e "facilitado" pelos bancos, o culto das marcas viciou as pessoas. Fez com que todos - ricos, pobres, classe média, enquanto existiu - aceitassem como "natural" esta religião do consumo.

A religião não deixou de ser o ópio do povo. O vinho salazar pode ser uma merda. Mas o consumismo é a droga maior. Ambos intoxicam.

E todos nós, os que não se revoltaram, não reagiram e não denunciaram a tempo, estamos intoxicados e temos culpa por nos termos deixado intoxicar.

Estamos a tempo de sair disto? E queremos?

domingo, março 18, 2012

Vinho de Santa Comba nunca mais! Agora só cerveza!


A Câmara Municipal de Santa Comba Dão quer registar o nome "Salazar" como marca comercial. O primeiro produto a ser lançado com a marca do ditador será um vinho (produção típica da região), baptizado de "Memórias de Salazar" (notícia aqui).

Não. Não estou a delirar. Não é uma piada. Bem vindos a Portugal, em 2012, século 21.

Repugna-vos a ideia? Pois, também a mim.

Mas a verdade é que isto me dá o pretexto para vir aqui falar de uma coisa que me anda a atormentar. É que quanto mais eu vejo mais eu cismo que tudo é produto de consumo, tudo é apropriado pelo capitalismo.

Mesmo o que começa por ser revolucionário, anti-capitalista.

Querem um exemplo muitíssimo esclarecedor? Vejam o que se tem feito com a imagem de Ernesto Che Guevara.
Ora, se é assim com os símbolos revolucionários, como não havia de ser com os símbolos reaccionários? A nossa indignação é legítima. Mas parece-me que temos aqui uma boa oportunidade para pensar, também, se não teremos sido, todos (revolucionários incluidos) demasiado condescendentes - para não dizer cúmplices - com o consumismo.

É claro que isto - a apropriação pelo capitalismo daquilo que, à partida, lhe era adverso - merece uma abordagem mais séria. Por isso mesmo, espero voltar ao assunto no "post" que há-de aparecer por cima deste.

(E Sérgio Godinho que me perdoe os trocadilhos... Mas o tema estava a pedi-los.)

sexta-feira, março 16, 2012

"Kony 2012": meias verdades, manipulação, infantilização do público

Daniel Oliveira escreve no Expresso um texto muito interessante e bem fundamentado, com o título Kony 2012: para lá da comoção da moda (http://expresso.sapo.pt/kony-2012-para-la-da-comocao-da-moda=f711978)

No final do artigo acrescenta, em rodapé, o vídeo - fenómeno viral - com a suposta "reportagem". Mas acrescenta também este, com a reacção das vítimas de Joseph Kony depois de uma projecção do vídeo realizada numa localidade do norte do Uganda por uma equipa da televisão Al Jazeera.

O visionamento do (pseudo) documentário provoca, nas vítimas de Joseph Kony, irritação e revolta - por se considerarem usadas (e abusadas, digo eu).

Para contextualizar o assunto, atrevo-me a reproduzir (com a devida vénia, já se sabe...) excertos do artigo de Daniel Oliveira (encontram-no na íntegra clicando no link que coloquei no final do primeiro parágrafo deste artigo).

"O documentário pela captura de Joseph Kony, realizado e divulgado pela ONG Invisible Children, tornou-se o mais rápido vídeo viral da Net. Mesmo sem saber muito bem onde fica o Uganda, o mundo acordou para as atrocidades da Lord's Resistence Army (LRA). Mas a indignação solidária tem, como sempre, um sabor de moda. Não resulta de uma posição informada, que compreenda as contradições de uma guerra civil, onde raramente há anjos e diabos.

Como tudo o que tem grande sucesso se expõe às criticas, surgiram muitas em relação ao rigor de um documentário maniqueísta, feito para emocionar e não para pensar. Quando as causas humanitárias são tratadas como campanhas de marketing é isso que acontece. A ação tem nascer da indignação. Mas esta tem de nascer da informação. A emoção acorda para problemas, mas, se nada se acrescentar a ela, a nossa ação em defesa dos outros pode bem passar a depender da manipulação. Seremos convencidos por quem fizer o melhor spot e escolher a melhor banda sonora. Agir por uma causa não é, não pode ser, o mesmo que escolher uma marca de cereais. Nem permitir, como faz o documentário em questão, que não nos dá qualquer informação de contexto do conflito em que pretende intervir, ser tratados, como ali somos, como uma criança de cinco anos incapaz de compreender as complexidades e contradições do mundo.

Não faltam interessados nos vastos recursos do Uganda - que não têm servido para melhorar a vida dos seus cidadãos. Nesses recurso incluem-se as reservas inexploradas de gás natural e petróleo. O governo formalmente democrático (se formos insultuosamente minimalistas no que consideramos ser uma democracia) do Uganda, que gere a miséria de um dos mais pobres países do Mundo, viola, com prisão e tortura de opositores políticos, deportações forçadas, violência sobre os refugiados, os direitos humanos dos ugandeses. No entanto, tem merecido generosos, mas não muito bem intencionados, apoios externos das potências ocidentais no combate a Joseph Kony. Um dos políticos que apoia este regime, Santo Okot Lapolo, aparece no documentário em causa. É responsável por homicídios e perseguições a opositores e acusado de corrupção, por desvio de fundos que eram destinados aos refugiados vítimas da LRA.

Não deixa de ser estranho que as mesmas potências que assistiram, quietas, aos apocalípticos massacres no Ruanda, à limpeza étnica do Darfur e aos atropelos sistemáticos aos direitos humanos por parte do governo ugandês, tenham, por Kony, um interesse tão grande. Suficiente para a mobilização de raros recursos financeiros e legislativos por parte da Casa Branca e do Congresso dos EUA. Num mundo que raramente se move por razões humanitárias, é sempre razão para parar cinco minutos e pensar. Mas, acima de tudo, vale a pena desconfiar de um documentário sobre um conflito civil onde tudo pareça demasiado simples. É que uma guerra civil não se explica ao estilo preguiçoso de Hollywood. Raramente é assim tão claro quem são os bons e os maus.

Não ponho em causa, pelo contrário, a necessidade de capturar Joseph Kony e obriga-lo a responder pelos seus inúmeros crimes. Mas, nestas matérias, defendo sempre a cautela: não basta sabermos quem estamos a combater, precisamos de saber o que move aqueles que, com muito mais poder do que os cidadãos, querem fazer com o nosso combate. E tentar perceber a verdadeira complexidade do que acontece no terreno.

O nosso apoio às vítimas de um qualquer conflito exige mais do que um "like" no Facebook ou uma lágrimas em frente a um computador ou uma televisão. Exige o trabalho e a exigência da militância numa causa. As contradições não nos podem paralisar. Mas não é o simplismo que nos deve fazer mexer. Porque a nossa ingenuidade bem intencionada pode bem servir interesses contrários aos valores que pretendemos defender."

quinta-feira, março 08, 2012

Problemas antigos...

Um trabalho jornalístico publicado em dezembro de 1995. A Lusoponte preparava-se para assumir a concessão exclusiva das futuras travessias do Tejo até Vila Franca de Xira. E havia, ainda, um grande movimento de contestação às portagens (embora já não intenso como o que, em 1994, deu início à derrota do governo PSD - Cavaco Silva).
A História não se repete: continua.

domingo, março 04, 2012

Greve ao consumo!


Greve ao consumo de produtos de "entertainment" (de lazer ou culturais): uma iniciativa convocada não sei por quem, mas que subscrevo e apoio activamente.

A tradução para português é, mais ou menos, a seguinte:

Com as campanhas continuadas para censurar internet e pelo encerramento de sites como o Megaupload sob a alegação de pirataria e conspiração, chegou a hora de tomar uma posição contra os lobys das empresas de mídia.

A única maneira de atingi-los é onde realmente dói.
Suas margens de lucro.

O apelo é para uma greve ao consumo a nível mundial durante este mês (março de 2012).

Não comprem um único registo. Não façam download, legal ou ilegal, de uma única música. Não vejam um único filme nos cinemas, nem façam downloads de filmes. Não comprem um dvd nas lojas, nem jogos de vídeo, nem livros ou revistas.

Esperem até ao final destas 4 semanas para comprá-los em abril: vejam o filme mais tarde, etc

Fazendo greve ao consumo durante estas 4 semanas, o resultado será uma lacuna, um buraco nos lucros das companhias de entretenimento durante o primeiro trimestre deste ano.

Um sucesso económico que, por sua vez, será observado pelos governos como uma perda significativamente grande de rendimentos.

Esta ação pode dar uma declaração de intenções:

"Não vamos tolerar que as indústrias de mídia continuem a exercer pressão para aprovar leis que censurem a internet"

Concordo. É tempo de partir para formas de luta verdadeiramente eficazes, em vez de andarmos simplesmente a repetir slogans ou ficar à espera de justiceiros mascarados que lutem pelos nossos direitos. Greve ao consumo é das melhores armas que conheço. E todos a podemos utilizar. Só precisamos de sair um bocadinho (só um bocadinho) da nossa zona de conforto.

Desconfio é que pouca gente estará para aqui virada. E é pena. Porque podia ser uma coisa grande e com efeitos sérios.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

O tratado mais triste


O tratado de Maastricht (conhecido pelos portugueses na época mais propriamente como o tratado mais triste) foi assinado em fevereiro de 1992. É habitualmente considerado o documento que cria a União Europeia (UE), a partir do que era até então a Comunidade Económica Europeia (CEE).

Encontrei este cartoon numa edição do jornal Avante! dessa época - 1991 ou 1992, não tenho a certeza.

Lembrar que, tal como D'Artagnan, fomos avisados e não fizemos caso pareceu-me uma boa maneira de comemorar. Vivemos tempos grotescos, de tragicomédia.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Os bancos portugueses têm prejuízos? Boa piada...


Há certas ocasiões em que um tipo - por muito que queira ser imparcial, por muito que tente não andar para aqui a repetir slogans e não entrar em euforias ou depressões - não pode deixar de rir (para não chorar) perante o descaramento de quem lhe tenta atirar areia para os olhos. Neste caso, o descaramento da banca privada portuguesa que, aparentemente, terá tido "prejuízos" de milhões de euros durante o ano de 2011. Coitadinhos dos "nossos" banqueiros, não é?

Este vídeo é de uma conferência de imprensa do PCP, na qual Jorge Pires explica as manobras contabilísticas que levam a este resultado só aparentemente desastroso para bancos que - ainda por cima e sem se preocuparem com a contradição - se dizem de tão boa saúde!

Uma "contabilidade criativa" que, no fundo, contribui para o objectivo da política neoliberal em curso: tirar ao Estado (a todos nós) para dar aos especuladores privados. Mais do mesmo, portanto. Mas cada vez com maior à-vontade e descaramento.

Felizmente há quem os denuncie, e com esta clareza e objectividade.

O texto completo está em:
http://www.pcp.pt/divulga%C3%A7%C3%A3o-dos-resultados-da-banca-obtidos-em-2011-uma-opera%C3%A7%C3%A3o-ideol%C3%B3gica-com-objectivos-muito-prec

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Ao Terreiro do Paço, claro!

"Estamos perante uma política de terrorismo económico e social que exige uma resposta de grande dimensão a nível nacional.

O Governo do PSD-CDS e o grande patronato pretendem:

- colocar o Estado ao serviço das empresas;
- pôr a segurança social a financiar os patrões para pagar menos e precariezar as relações de trabalho;
- facilitar os despedimentos e diminuir as indemnizações e o valor do subsídio de desemprego;
- flexibilizar os horários de trabalho e reduzir a retribuição;
- atacar a contratação colectiva e promover o trabalho gratuito com a redução de feriados e dias de férias.

Esta é um política que é preciso combater. Dia 11 vamos manifestar todos os descontentamentos, protestos e indignações contra a política que rouba aos trabalhadores e ao povo ao mesmo tempo que empurra o país para o precipício."

(Texto de um comunicado da CGTP - Intersindical Nacional.)



Foto: Manifestação no Terreiro do Paço em junho de 1980; Centro de Arquivo e Documentação da CGTP-IN.
Vídeo: tempo de antena da CGTP em 9 fevereiro 2012; http://www.youtube.com/cgtpin/

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Sound bites

«Greve geral? Qual greve geral? Fui à janela e vi passar um eléctrico!...»

«É a vida!»

«Deixaram o país de tanga!»

«Habituem-se!»

«Porreiro, pá»

«Piegas...»


«Alguém viu o meu cão?»

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Na Suiça não há (ainda) salário mínimo nacional



Anda a circular na internet um gráfico no qual se compara o salário mínimo português com o de outros países europeus. Segundo esse gráfico, o país onde o salário mínimo nacional é mais elevado seria a Suiça.

Mas é mentira! Na Suiça não existe salário mínimo nacional! Quem fez aquele gráfico está a brincar convosco!

Os dados verdadeiros são os do mapa abaixo, com números oficiais, do Eurostat (Gabinete de Estatística da União Europeia).


Como se pode ver, na Suiça (e em vários outros países europeus) não está regulamentado nenhum salário mínimo nacional. O que existe, sim, são salários mínimos definidos para algumas profissões, e, de acordo com a informação que consegui recolher, apenas no cantão de Neuchâtel (julgo que em mais nenhum, mas corrijam-me se estiver errado).

E existe, também, uma proposta dos sindicatos suiços, para implementar no país um salário mínimo nacional de 3.261 euros. (Proposta que, em princípio, será referendada ainda este ano.)

Actualmente, sem salário mínimo estipulado, há grandes disparidades em termos de vencimento naquele país.

Citando o site swissinfo.ch "a média dos salários na Suíça é de 5979 francos suíços por mês, mas as nuances no cálculo da média fazem grandes diferenças.

Enquanto a maior parte dos trabalhadores em Neuchâtel ganham em média 5600 francos por mês, seus colegas de Genebra recebem 7000 francos." (Podem confirmar a notícia em http://www.swissinfo.ch/por/economia/Suicos_poderao_receber_salario_minimo.html?cid=31680054&rss=true)

Portanto, os números daquele gráfico são absolutamente mentira!

Mas porque haveria alguém de querer divulgar mentiras tão fáceis de desmascarar?

Se repararem bem, aquele gráfico vem de um site de entretenimento chamado Tá Bonito. Não cita fontes, não diz onde foi buscar a "informação", mas quer que as pessoas acreditem no que publica. Um site de piadas! Que tem como símbolo um macaco (de imitação?). Tá bonito, tá.

Porque o fizeram, não sei. Mas sei que, para um site comercial, não há nada como inventar uma polémica para ter mais visitantes - e, com isso, mais anunciantes e mais lucros.

E porque é que as pessoas que não têm nada a ganhar com os negócios desse site divulgam tais mentiras e as propagam até as transformarem num fenómeno "viral?

Bem, isso - a forma como a internet está a fazer com que as pessoas fiquem menos informadas e mais manipuláveis - merece uma análise mais aprofundada. Fica para outra altura.

sábado, janeiro 28, 2012

Pois é...

Ao fim de 5 anos, decido finalmente mudar o nome deste blogue. Chamava-se coisitas do vitorino, porque originalmente não era mais do que isso mesmo: um blogue onde metia esporadicamente umas coisitas em forma de poesia. Era pouco mais que uma brincadeira para complementar o blogue onde pretendo divulgar e manter vivo o meu principal projecto: o Debaixo do Bulcão.

Mal adivinhava eu que este acabaria por suscitar mais interesse que o do bulcão.

Mas pronto, foi isso mesmo o que aconteceu. O interesse suscitado por este blogue levou-me também a colocar aqui outro tipo de conteúdos. E assim, mais tarde ou mais cedo, teria que mudar também o título. Isto já tinha deixado de ser apenas um espaço para floreados poéticos ou desabafos pessoais.

A mudança acontece agora, mais tarde que cedo. Hesitei muito, porque este blogue já era conhecido - e mencionado - como coisitas do vitorino. E não tenho muito jeito para desenrascar títulos porreiros para blogues, confesso.

A nova designação pode não ser grande coisa. Mas, pelo menos, deixa de induzir em erro. Penso que a partir de agora ninguém virá aqui parar por ter procurado qualquer homónimo que tenha ganho notoriedade já depois de eu começar a assinar os meus trabalhos literários e jornalísticos como António Vitorino.

Só vantagens, portanto.

domingo, janeiro 22, 2012

De que falamos quando falamos de SOPA e de PIPA


As tentativas de censurar a internet por parte do governo norte-americano - e também (ou talvez principalmente) das corporações norte-americanas - são um dos assuntos da actualidade. Siglas como SOPA e PIPA andam nas bocas do mundo... Mas sabem o que realmente significam? Este vídeo explica.

Claro que o assunto dava pano para mangas... Só o ataque de falsa bandeira a que os "anónimos" se prestaram, tipo bins ladens da internet, merecia uma análise desenvolvida. Mas ando sem tempo para essas coisas. Por isso, deixo só uma perguntinha: acham mesmo que o governo norte-americano mandava o FBI fechar um site com tanto alarido, logo no momento em que a SOPA está a ser votada, e não se preparava para retaliações? Os tipos que criaram a internet são assim tão ingénuos e indefesos e os anónimos tão poderosos? Pensem nisso...

terça-feira, janeiro 03, 2012

Bem vindos a 2012. Ou a 5126, se preferirem.


«Na profecia dos Maias está: no final do 12º Baktun (12ºciclo do calendário de contagem longa) regressam os ancestrais, os sábios. Que amanheça, que se faça aurora, para que o povo tenha paz e seja feliz. Não tomem medo ao mundo. A chegada deste tempo é igual à mudança do ano novo: hoje é 31 de dezembro, amanhã 1º de janeiro, feliz ano novo. E assim vai ser quando vier esse dia. Não é a primeira vez que acontece. Quantas vezes aconteceu antes, quando os nossos ancestrais prepararam os seus calendários... Passou um periodo do sol, depois outro e outro, em cada 5200 anos. Estamos no 4º período do sol. Não é a criação do mundo... Não tenham medo, meus irmãos. Não acreditem no que dizem esses homens mentirosos que não são maias e que andam a aterrorizar o mundo.»

Quem diz isto é o senhor que aparece no vídeo. E quem é ele? Don Alejandro Perez Oxlaj, a mais alta autoridade religiosa do povo Maia. Deve saber do que fala, mais e melhor que os profetas da desgraça que por aí pululam, não vos parece?

(Num outro vídeo - que podem encontrar no youtube - don Alejandro afirma que nem pode dar como certa a data de 21 de dezembro de 2012 como o dia em que a profecia será cumprida e que receia que o mundo se possa virar contra os maias, acusá-los de terem mentido porque "vão perceber que no dia 21 de dezembro de 2012 afinal não se passou nada")

O meu objectivo ao escrever este post é desafiar-vos a não se deixarem levar pelas tretas desses "homens mentirosos que não são maias e que andam a aterrorizar o mundo" e a procurarem informação nas melhores fontes: os investigadores científicos e, naturalmente, os próprios maias. Há coisas interessantes a descobrir. Por exemplo: no calendário maia estamos no ano 5126, como afirmam os estudiosos nossos contemporâneos? Mas don Alejandro não fala em ciclos de 5200 anos? E qual o siginificado da outra "profecia", para março de 2013 ("On March 31, 2013 the sun will be hidden for a period of 60-70 hours and this is when we shall enter the period of the Fifth Sun.", conforme citado num dos links abaixo)?

Sejam curiosos. Aqui ficam umas dicas:





E os diversos vídeos que existem no youtube (incluindo mais excertos da entrevista)


E, já agora: não, não sou seguidor da religião dos maias. Nem de qualquer outra. Ainda assim, desejo-vos um feliz ano novo! ;)

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Padre Ricardo Gameiro Lopes (1929 - 2011)

O Padre Ricardo Gameiro faleceu no dia 19 de Dezembro de 2011, aos 82 anos de idade.

Não sei bem o que dizer sobre o Padre Ricardo. Não tenho muito jeito para fazer homenagens póstumas. Conheci-o em 1994, na Rádio Voz de Almada (emissora de que ele foi um dos fundadores e de que era um dos directores e a principal figura de referência). E, como é natural, não fiquei indiferente à sua personalidade marcante (e um bocado intimidante no seu "papel" de director, para dizer a verdade). Não tinha por ele a maior das simpatias (até porque ele não procurava ser simpático, pelo menos quando o conheci). Mas sempre admirei uma sua rara e preciosa qualidade: a frontalidade!

Este artigo é de uma entrevista que lhe fiz em 2001 para o Jornal da Região (publicada também no Sem Mais Jornal). Ele resistiu bastante à ideia de falar sobre si próprio. Aliás, só consegui a entrevista prometendo-lhe que, mais tarde, faria uma reportagem aprofundada sobre a obra social do Centro Paroquial da Cova da Piedade. Infelizmente não cheguei a cumprir a promessa: poucos meses após a publicação desta peça deixei de colaborar com o Jornal da Região (e com a empresa do Sem Mais Jornal).

Tinha isto guardado para outra ocasião (e para outro blogue). Mas a vida prega-nos estas partidas de mau gosto...

sexta-feira, dezembro 23, 2011

três poemas de natal


RESPOSTA DA VAIDADE HUMANA AO MENINO JEJUM

o menino jejum nasceu a 25 de dezembro desse ano
e veio a falecer (morreu portanto) a 25 de dezembro desse mesmo ano.
a sua fugaz passagem por este mundo breve
apenas serviu para confrontar a vaidade humana
com as humildes perspectivas de quem muito poderia fazer
neste mundo se aqui tivesse vivido mais tempo.
a vaidade humana encolhe os ombros
e diz que viver neste mundo mais tempo
sem fazer nada
é bem melhor que morrer apressadamente
sem fazer tudo aquilo que poderia vir a fazer
e ainda por cima em jejum.



RESPOSTA DO MENINO JEJUM À VAIDADE HUMANA

aqui do alto assunto a que ascendi
vejo bem o quanto és vã ó vaidade humana
e só não te perdoo porque tu lá sabes
muito bem aquilo que fazes.
(aliás é essa a única coisa que tu sabes.)
muito eu te poderia ensinar sobre o não ser
mas sei também que tu não queres aprender
porque aprender implica trabalhar, como bem sabes.
apenas te digo que já não estou em jejum
pois agora que ascendi a um alto assunto
aqui me alimento com todas as palavras do mundo:
sou um poeta.
e mais não digo
porque no alto assunto a que ascendi o meu latim é muito caro.
ó vaidade humana que te contentas em ser apenas
a vaidade humana:
continua a dormir bem vaidade humana
que eu fico acordado a aprender
e a escrever
mas sei que quando me for deitar
também dormirei bem
embora sonhe sonhos um bocado bem diferentes
dos sonhos que tu sonhas ó vaidade humana.



RESPOSTA DA VAIDADE HUMANA À RESPOSTA DO MENINO JEJUM À VAIDADE HUMANA

a inveja exacerbada (companheira de quarto da vaidade humana)
acordou ao meio dia e vinte e três a vaidade humana
do sonho hiperactivo no qual como habitualmente hiperagia
para lhe dizer que do planeta alto assunto a que ascendeste
recebera uma comunicação urgente do menino jejum.
a vaidade humana refilou um pouco não muito com a inveja exacerbada
(a vaidade humana refila sempre com qualquer um
ou qualquer uma que a acorde ao meio dia e vinte e três)
e por uma vez na sua hiperactiva vida
dispôs-se a fingir que ouvia uma comunicação
vinda do planeta alto assunto a que ascendeste.
depois disse eu quero é que te vás f*der
e voltou para o seu sonho hiperactivo
onde sempre hiperage
queira ou não queira o menino jejum
ou qualquer outro habitante do planeta alto assunto a que ascendeste.



A.V., 2003

Imagem: "Um theatro de marionettes no parque de Vienna"
(Jornal do Domingo, Lisboa 1887)

sábado, dezembro 10, 2011

Atacar o parlamento é lutar contra o sistema? Ou é ajudar a acabar com o que resta da democracia?


Como sabem, o modelo neoliberal em que vivemos foi aplicado em primeiro lugar numa ditadura sem partidos (o Chile de Pinochet). A economia neoliberal passa muito bem sem partidos, sem parlamentos, sem democracia. Mas ainda precisa dos governos.

Como certamente já notaram, na Europa está em curso um processo de centralização à volta de um governo europeu (a Comissão Europeia), vassalo do poder financeiro e dirigido politicamente pela Alemanha. Esse governo dá orientações (chamadas directivas comunitárias) aos governos dos estados-membros. Nesse processo foram retirados poderes às instituições democraticamente eleitas: ao Parlamento Europeu mas, principalmente, aos parlamentos nacionais.

A cadeia de comando é: capital financeiro --> comissão europeia --> governos dos estados-membros. Os parlamentos são impecilhos neste processo. Para os neoliberais quanto menos "política" a atrapalhar a mão invisível das forças de mercado, melhor.

E eu sei que os meus esclarecidos e revolucionários amigos sabem isto muito bem. Não quero ensinar a missa ao padre.

Quero é que me expliquem porque - sabendo isto tão bem - não atacam os verdadeiros poderes (o capital financeiro e os seus mandatários do governo) e insistem antes em denegrir o parlamento, a política e os partidos.

Não é para fazerem a vontade ao capitalismo neoliberal, pois não?
Então é para quê?

Nota: escrevi este texto na "rede social" da internet em que participo, e não tinha a intenção de o publicar aqui. Mas decidi dar-lhe mais visibilidade porque até agora ninguém soube (ou quis) responder às perguntas que faço. E estou mesmo interessado em entender. Alguém me esclarece?

(A imagem é do documentário "The Story of Stuff

quinta-feira, novembro 10, 2011

Almada, Gente Nossa - volume 3


Foi lançado no dia 28 de Outubro o livro "Almada, Gente Nossa - volume III", do escritor almadense - e investigador de História Local - Artur Vaz (edição Junta de Freguesia de Almada).

Neste volume Artur Vaz entrevista 19 personalidades ligadas a Almada pela sua intervenção em áreas de actividade tão diversificadas como o desporto, música, pintura, arqueologia, movimento associativo, jornalismo... (ver lista completa no final deste artigo).

Sobre os objectivos da obra, escreve o autor, em nota de abertura:

«Estas entrevistas são, acima de tudo, um mosaico de revelações de afectos e de ideias, num discurso acentuadamente emotivo, fruto de vidas e de cumplicidades com a própria cidade.

Neste terceiro e último volume de ALMADA - GENTE NOSSA, bem como nos anteriores, limitamo-nos a utilizar a escrita como meio de perpetuar a memória destas gentes de Almada, num diálogo onde - acima de tudo - através de uma conversa amena entre gerações tão diferentes, podemos partilhar momentos de inegável prazer e de uma riqueza ímpar de conhecimentos.

Testemunhos onde a frontalidade desencadeia um arquivo de memórias, onde se comunga a intimidade dos entrevistados, anfitriões desta janela aberta sobre ALMADA.GENTE NOSSA que ao intervirem na arte, na cultura, no desporto e na cidadania, tem enriquecido a identidade e o pulsar de um concelho que representa uma referência num país que continua - cada vez - mais distanciado da sua realidade.

Infelizmente, dadas as circunstâncias da intensa globalização em que estamos a ser submetidos no dia-a-dia, é urgente rasgarmos certos espartilhos e escrevermos sempre cientes que este sublime acto de criação é algo de apaixonante.

Esperamos que a leitura deste trabalho vos encante, levando nele sentimentos que os seus protagonistas nos tentaram ofertar através das suas revelações, sobre as quais tentámos delinear - o mais fiel possível - o seu perfil biográfico.

O que está do outro lado da entrevista, poderá o leitor pressentir ao lê-la.

Assim espero...»

Artur Vaz

Entrevistados, pela ordem em que aparecem no livro (com a data de realização das entrevistas entre parêntesis):

Anabela - cantora e actriz
(março 2009)
António Cabrita - dramaturgo, poeta e argumentista de cinema
(fevereiro 2009)
António Vitorino - jornalista e poeta
(junho 2008)
Elsa de Sousa - pintora
(setembro 2007)
Feliciano Oleiro - professor do ensino primário
(dezembro 2009)
Henrique L. da Costa Mota - dirigente associativo
(maio 2009)
José Luís Covita - ensaista
(novembro 2009)
José Nascimento - provedor da Misericórdia de Almada
(janeiro 2009)
Luís Barros - historiador e arqueólogo
(outubro 2008)
Margarida Botelho - escritora e ilustradora
(agosto 2007)
Maria Amélia Campos - investigadora independente
(dezembro 2008)
Maria de Lourdes Durães - professora de educação física e técnica de ginástica rítmica
(janeiro 2010)
Mário Nery - pintor
(novembro 2007)
Mário Silva Neves - escritor e pintor
(fevereiro 2008)
Naide Gomes - desportista
(abril 2009)
Rosa Reis - fotógrafa
(outubro 2007)
Rui Diniz - poeta
(junho 2007)
Rui Manuel Guimarães - jornalista
(novembro 2007)
Telma Monteiro - judoca
(julho 2008)

A entrevista comigo (António Vitorino - jornalista e poeta) pode ser lida também em

http://vitorinices.blogspot.com/p/antonio-vitorino-entrevistado-por-artur.html

terça-feira, outubro 18, 2011

Com Ecalma e sem Ecalma





A Ecalma começou, finalmente, a fiscalizar o estacionamento ilegal na rua das piscinas da Academia Almadense. Finalmente, mas com um atraso que continuo sem entender (e que continuam sem me explicar, uma vez que ainda não responderam - nem sei se pensam responder... - às perguntas que, há quase dois meses, lhes fiz sobre o assunto!).

Claro que a intervenção da Ecalma não resolve o problema de fundo: a falta de civismo e de respeito pelos outros que é quotidianamente demonstrada até à exaustão por quem vem aqui fazer dos passeios o seu "parque de estacionamento" (e note-se que nesta rua e nas imediações ninguém "precisa mesmo" de meter o carro em cima do passeio: há muitos lugares de estacionamento legal, à superfície e subterrâneo, muitos dos quais GRÁTIS! - como estou farto de explicar.)

Vejam as fotos. No primeiro caso (17 de setembro, a meio da tarde), estava a Ecalma de serviço, a maior parte dos passeios estava desimpedida mas mesmo assim havia quem metesse o carro "só um bocadinho" em cima do passeio (o que continua a ser ilegal - cf. Código da Estrada, artigo 49, alínea f - mas não é só por ser ilegal que isso que me incomoda... já lá vamos).

Nas fotos do meio; dia 18 de outubro, às 17h30, já fora do horário de serviço da Ecalma, começam a aparecer carros em cima do passeio; na foto seguinte, às 18h40, já se vê os passeios começando a ficar, mais uma vez, atafulhados de carros.

Na foto de baixo: dia 22 de setembro de 2011, uma situação que era habitual, todos os dias e praticamente a toda a hora, antes da intervenção da Ecalma.

A intervenção da Ecalma é bem vinda e resolve temporariamente alguma coisa. Mas é apenas um remendo, enquanto as pessoas continuarem a achar que podem desrespeitar a lei (e os direitos dos outros) à vontade desde que não haja nenhuma autoridade por perto.

Porque é isso mesmo o que acontece! Tem acontecido sempre, aqui!

Só começaram a respeitar o Código da Estrada e a meter o carro em lugares de estacionamento legais quando foram obrigados a isso!

E penso que, enquanto for mesmo necessária a intervenção da Ecalma, essa empresa não deve pactuar (e aqui não tem pactuado, felizmente) com facilitismos e porreirismos do género "tenho só dois pneus em cima do passeio, não estou a incomodar ninguém".

Porque é assim que começa a falta de respeito:

primeiro metem só dois pneus em cima do passeio porque "ainda passa um carrinho de bébé ou uma cadeira de rodas"...

depois ocupam o passeio todo porque "não há lugar para estacionar" e "até tive o cuidado de não meter o carro em frente a nenhum portão ou garagem, o que é que você quer?"

e por fim, chegam à situação documentada na última foto: carros por todo o lado, incluindo em frente a portões e a garagens porque "onde é que está o sinal de estacionamento proibido? não vi nenhum!"

Não, não estou a inventar: ouvi esse tipo de "argumentos" muitas vezes, nos últimos tempos - antes de a Ecalma começar a intervir nesta rua.

E como é que isto se resolve, então?

Há quem defenda a extinção da Ecalma e a sua substituição por uma polícia municipal... Mas uma polícia municipal teria exactamente as mesmas competências que a Ecalma, com a diferença que não teria horário de serviço: poderia, portanto, actuar a qualquer hora, mesmo depois das 17h30. Será isso mesmo o que querem os que defendem essa solução?

Eu penso que o problema resolve-se com menos medidas repressivas (que devem ser só as necessárias e só mesmo para quem insiste em não cumprir regras de cidadania) e mais ordenamento (e alguma pedagogia, também... embora, como se tem visto, aqui a pedagogia tenha pouco efeito).

Mais ordenamento e medidas permanentes, preventivas. Por exemplo, barreiras físicas que impeçam o estacionamento em cima do passeio (os chamados pilaretes).

E isso não é nenhuma ideia nova. Está no Plano de Mobilidade Acessibilidades 21, aprovado pela Câmara de Almada há 10 anos!!!

Vejam aqui os documentos do relatório-síntese desse plano:

http://www.almadadigital.pt/xportal/xmain?xpid=cmav2&xpgid=genericPage&genericContentPage_qry=BOUI=46665

Parece-me que só falta vontade política para o aplicar. Ou falta mais alguma coisa?

segunda-feira, setembro 26, 2011

Estacionamento em Almada: quando a propaganda e a realidade vivem em mundos diferentes (parte 2)

(Nas fotos: Rua Leonel Duarte Ferreira, Almada, Setembro de 2011. O parque "Conde Ferreira" fica ao fundo desta rua; o parque da Capitão Leitão fica a cerca de 50 metros do local onde foi captada a imagem de cima e a menos de 150 metros de qualquer localização nesta rua.)

Chegou-me hoje à caixa do correio o boletim da Junta de Freguesia de Almada, em cuja contra-capa se encontra este delicioso pedaço de prosa poética:

"Inaugurou no dia, 1 de Junho o último dos 5 novos parques de estacionamento previstos para Almada, designado Parque Capitão Leitão, que será gerido pela ECALMA. O novo parque, à semelhança do Parque Conde Ferreira, em pleno coração de Almada Velha trará decerto grandes benefícios tanto aos residentes, como ao comércio local, aos que usufruem dos serviços e da oferta cultural desportiva, ou apenas ao convívio, das diversas colectividades que enriquecem esta zona, como aos que trazem os seus filhos à escola, como ainda aos turistas que nos visitam e que obrigatoriamente incluem a zona histórica no seu roteiro".

Eu moro na Rua Leonel Duarte Ferreira (rua do incorrectamete chamado "parque Conde Ferreira, em pleno coração de Almada Velha") e até gosto muito de poesia, como se sabe. Mas esta prosa poética é de muito mau gosto e dá vontade de rir, no mínimo. Porque a realidade que toda a gente encontra aqui, há muito tempo - antes, mas também depois da construção dos novos parques - é o que se vê na imagem acima. E Ecalma nem vê-la, na rua do seu próprio parque de estacionamento. Aliás, dizem até que têm "ordens superiores" para não intervir aqui!!!

Mas espera aí... Estou a repetir-me, não estou? Já escrevi isto antes (em Maio) não escrevi?

Pois. Mas o boletim da Junta de Freguesia de Almada também vem agora com a mesma conversa (corte e cola, praticamente) que publicou em Maio passado.

E a verdade - a tal realidade, que todos conseguem ver mas que alguns julgam que se pode tapar com uma peneira - é que o problema, em vez de se resolver, agravou-se! É para isto que se gasta dinheiro em parques de estacionamento: para aumentar - e incentivar! - a utilização ilegal dos passeios e ter às moscas o parque que foi pago com dinheiro de todos nós? E a Ecalma, afinal, serve para quê? (A propósito: continuo à espera de resposta a duas perguntinhas muito simples que fiz à Ecalma. E fiz essas perguntas no dia 25 de Agosto. Há um mês...)

São ceguinhos, perderam a noção da realidade, ou andam só a gozar com os munícipes?

sexta-feira, setembro 23, 2011

A primeira grande angústia da era espacial


Um satélite artificial desgovernado vem a caminho da Terra. Apesar dos esforços de monitorização da NASA, ninguém sabe ao certo onde vai cair. A humanidade, angustiada, liga-se aos órgãos de comunicação social (e aos deuses, quem os tem...) e suspende a respiração, esperando que o satélite norte-americano - que é dos grandes, ainda por cima - não provoque nenhum fim do mundo. E tudo isto é novo: é o primeiro drama global da era espacial.

Falo-vos, obviamente, da queda da estação espacial Skylab, há 32 anos!

"Skylab designa a estação espacial estadunidense que foi lançada ao espaço em 14 de maio de 1973, a uma altitude de 435 km, e reentrou na atmosfera, destruindo-se prematuramente, em 1979." (Wikipédia)



Como qualquer objecto que entra na atmosfera terrestre, desintegrou-se. Mas era um objecto realmente grande. Alguns pedaços chegaram intactos e acabaram por atingir território da Austrália - sem vítimas nem grandes danos a registar. Vejam a reportagem:

quarta-feira, setembro 21, 2011

Jamaica, Cais do Sodré

Como certamente todos saberão (uns por experiência própria, outros por ouvir falar), a "discoteca" Jamaica - em Lisboa, Cais do Sodré - foi um dos locais de culto das noites lisboetas, principalmente durante a oh tão mítica década de 80 do século passado - embora a então "boite" tivesse começado a fazer a diferença uns anos antes, muito devido à cuidada (e "culta") selecção musical dos seus residentes DJs (disc-jockeys, como se dizia então, por extenso).

Por acaso eu fazia parte, nos anos 80, de um grupinho de amigos de um dos DJs do Jamaica - e, quanto mais não fosse por isso (mas não era só por isso, claro!), frequentava muito aquele espaço que para mim era um bar (pé de chumbo que sou eu, raramente usufruia da pista de dança).

Mais tarde, já na década de 90, fiquei a conhecer também um dos gerentes do barzito. E pronto, lá voltei eu a frequentar a casa...

Mas a ideia não era vir aqui contar-vos estórias banais. Era só assinalar e festejar a recentíssima reabertura do Jamaica (ver notícia clicando neste link). E mostrar-vos aquela imagem ali em cima, recuperada do fundo do meu baú: é a parte da frente de um calendário do ano de 1988. Do tempo em que o Jamaica era "boite" e estava aberta "até às 3.30h da madrugada".

Ai, as secas que eu (e companhias) apanhei (apanhámos) na estação fluvial do Cais do Sodré, à espera do primeiro barco para Cacilhas...

Belos tempos, pois. (E temporais, algumas vezes.)

sexta-feira, setembro 16, 2011

Pra não dizer que não falei da mobilidade

Está a decorrer - entre 16 e 22 de setembro - mais uma Semana Europeia da Mobilidade.
Almada é uma das cidades portuguesas que participa, desde a primeira edição. Há cada vez menos municípios portugueses a participar nesta iniciativa. Mas os autarcas cá da terra têm boas intenções, boas ideias e bons projectos - e não perdem uma oportunidade para os propagandear. Todos os projectos? Bem, nem todos...

O Plano de Mobilidade Acessibilidades 21 - estudo estruturante realizado há uma década, antevendo a implementação do metro de superfície - anda estranhamente esquecido. Não sei porquê. Pois se é a prova de que em Almada as coisas não se fazem à toa, a reboque de interesses eleitoralistas ou cedendo a pressões demagógicas de partidos derrotados nas últimas eleições autárquicas... Pois não?

Mas pronto, iniciativas de sensibilização como a Semana da Mobilidade fazem falta e são sempre de aplaudir.

Consultem a informação sobre a edição deste ano, no site da Câmara de Almada:
Semana da Mobilidade 2011

E fiquem, como eu, à espera que o bom trabalho continue depois desta semana. Eu estou à espera, mas sentado. Querem que vos vá buscar um banquinho?