sábado, março 05, 2011

Almada, Janeiro de 1987


Este vídeo é da inauguração de um evento cultural, na antiga Oficina da Cultura de Almada. O momento aqui documentado aconteceu no dia 24 de Janeiro de 1987: é a "cerimónia oficial" (ou o "moscatel de honra", se vos der mais jeito) de abertura da Semana do Livro de Almada.

Tenho, no meu canal do Youtube, mais vídeos do evento. E não me apetece alongar-me agora em detalhes sobre o assunto. (Hei-de escrever mais sobre isto, mas não aqui nem agora.)

Ao divulgar este documento espero, sim, estar a contribuir para esclarecer alguns blogueiros e respectivos leitores com aspirações a "fazedores de opinião"... mas eventualmente tão mal informados que pensam (pensam?), por exemplo, que Maria Emília de Sousa é presidente da Câmara de Almada desde o 25 de Abril.

(Não, não estou a brincar: li mesmo uma coisa assim, não há muito tempo, num blogue cá da terra.)

Então, para que a História não seja esquecida (nem "reescrita" à vontade dos diversos fregueses), aqui está, neste vídeo, José Martins Vieira, primeiro presidente eleito da Câmara Municipal de Almada, manifestando o seu apoio às actividades promovidas pelo Centro Cultural de Almada, num tempo em que a Cultura era (mesmo) um parente pobre da actividade municipal. Deste município como de todos.

Vejam o vídeo, divirtam-se. E, se tiverem dúvidas, perguntem-me antes de "opinarem" com os disparates do costume, ok?

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Sobre o canibalismo mediático de uma morte recente


Eis o texto que eu gostaria de ter escrito, mas não consegui. Lúcida análise, do jornalista Rui Vasco Neto.


La hipocrisie en rose: Introdução.

Sábado, 15 Jan, 2011

O assunto é de vómito, todo ele. E de vómito maior ainda é tudo isto que o rodeia, alimenta de disparate e mantém à tona de todas as conversas. Toda esta insuflação, à falta de informação a sério, de factos confirmados, naturalmente escassos por esta altura. Mas como o assunto é assunto e a audiência é garantida então há que falar muito, dizer coisas. Mesmo que não haja nada certo para dizer há que improvisar, imaginar, especular e opinar, opinar sempre e muito, esse é o segredo. Será no fundo uma espécie de homenagem póstuma, talvez, o que acaba por fazer sentido sobretudo quando nada mais faz, neste carnaval de horrores em tons de rosa e sangue, agora ornado com as plumas e paetês da grande hipocrisia nacional. Um vómito, resume bem.

O que tenho visto e ouvido sobre esta tragédia nos últimos dias tem sido o inacreditável, palavra de honra. E mais inacreditável ainda é tudo aquilo que eu ainda não vi nem ouvi a ninguém, estranhamente ou talvez não. Por isso estou assim, aparvalhado, confesso que tão atordoado como fiquei na hora em que me chegou a notícia, de chofre: o Carlos Castro foi castrado e assassinado em Nova York. Credo, que coisa horrorosa! Que sopro gelado bate a nossa própria realidade, contemporânea da selvajaria, nesse instante de náusea! Carlos, castro e morto? Digam o que disserem eu cá digo o que disse no momento, convicção inabalável: ninguém merece morrer assim. Ninguém, nem o Carlos Castro. Ninguém.

Procurei pormenores, claro, o como e quem e quando e onde da notícia, o cerne factual vestido com o mínimo de opinião possível, tentando evitar o preconceito alheio e quedar-me pela tarefa de lidar apenas com o meu próprio, inevitável. Assim fui filtrando e digerindo toda a informação essencial para formar uma opinião sobre o sucedido, sustentada e independente do meu sentir pessoal sobre o falecido, algo que neste contexto de sofrimento e morte não tem evidentemente qualquer cabimento ou relevância. Remexi os meus sentimentos, em busca da compaixão indispensável a qualquer entendimento e também de outros pequenos nadas que entendi pôr em causa nesta hora de balanço obrigatório. E fechei o lado pessoal da questão quando no passado domingo, ao final da tarde, me sentei mais as minhas reflexões num banco da igeja onde cresci a ouvir falar de perdão e de respeito pelo próximo, para entregar o assunto a quem de direito de uma vez por todas. Saí de lá sozinho e resolvido, não sem antes ter assistido à missa das 19:00h que nessse dia, domingo 9 de Janeiro, na Igreja da Penha de França em Lisboa, foi rezada em intenção de Carlos Castro, pelo seu descanso eterno na paz que todos merecemos. Uma decisão sincera tomada de coração puro, que nada tem a ver com as minhas convicções pessoais sobre o finado, evidentemente. E que em nada interfere ou colide com a opinião que eu possa ter formado sobre aquela que é para mim a violência maior deste crime de morte, segundo facto indiscutível deste caso: este é um crime que fez duas vítimas, uma delas mortal; e outra o assassino.

Já o facto primeiro é o tal que faz a notícia e que ainda hoje pede análise, séria e urgente, a bem da verdade que não é cor-de-rosa, a bem de todos nós, no fundo: Carlos Castro morreu em Nova York, assassinado em circunstâncias sórdidas pelo rapazinho que o acompanhava. Por mim desejo paz à sua alma, dê-lhe Deus o eterno descanso e ponto final. Que encontre para si no céu a compaixão que raramente mostrou ter pelos outros aqui na terra, são os meus votos sinceros. E digo-o de coração, isso é certo. Tão certo como nunca, mas mesmo nunca ter gostado dele um nadita que fosse em vida.

publicado por Rui Vasco Neto
no blogue
Sete vidas como os gatos

segunda-feira, janeiro 24, 2011

E pronto, mais 5 anos do mesmo...


Cavaco Silva foi reeleito, com uma maioria esclarecedora.

A abstenção atingiu níveis recorde.

A utilização do cartão de cidadão deu bronca e terá contribuído para a elevada abstenção; há quem fale já em "eleições falsificadas"... (Eu votei com o meu BI, e não tive problema nenhum... mas isso sou eu, que ainda não me adaptei às modernices).

O PSD já esfrega as mãos de contente e diz que gostaria de governar com Cavaco Silva (o mesmo que, na sua primeira candidatura a PR, aconselhava os portugueses a não meter os ovos todos no mesmo cesto...).

O discurso do PSD actual faz-me lembrar o discurso de Cavaco Silva do final dos anos 80: "um governo, uma maioria, um presidente"... o que, por sua vez, me recorda vagamente um slogan dos anos 30 que era, se não me engano, "ein volk, ein reich, ein fuhrer" (mas isto sou eu, que tenho a mania de desenterrar bagatelas históricas - não liguem).

"Uma Aventura..." é o título genérico de uma colecção de livros "juvenis", escritos por Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, e ilustrados por Arlindo Fagundes, publicada durante muitos anos pela Editorial Caminho.

O Pulo do Lobo é um local no "Alentejo profundo", onde Cavaco Silva passava férias, nos seus tempos de primeiro-ministro de Portugal. Um local onde, segundo o próprio, as notícias do país não chegavam.

Às vezes apetece-me emigrar para o Pulo do Lobo. Para desenjoar um bocadinho da Boca do Lobo.

sábado, janeiro 22, 2011

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Portalegre, Dezembro de 1999


Em Dezembro de 1999, o governo tinha decretado "tolerância zero" às infracções na estrada durante a época de Natal e fim de ano. A intenção era combater o elevado número de acidentes que ocorrem habitualmente nestes períodos. Mas, para por em prática a medida, as forças de segurança viam-se obrigadas a não ter férias "normais" junto da família ou - em alguns casos - a fazer horas extraordinárias.

O Jornal D'Hoje (semanário onde eu então trabalhava) viu aí a oportunidade para fazer uma reportagem com a Brigada de Trânsito da GNR. Fizemos, então, o pedido, que foi muito bem acveite: se nós queríamos saber (e mostrar) como trabalhavam os homens da brigada, eles (pelo menos em Portalegre...) pareciam também muito interessados em mostrar o seu trabalho.

Lá fomos, num final de tarde muito frio, para as estradas em redor da capital do Norte Alentejano. E saiu isto:

Este "post" é dedicado, com muito respeito e consideração, a todos os que trabalham nesta altura do ano.

Aos outros, amigos e/ou visitantes deste blogue, desejo o dobro daquilo que me desejam a mim. E que 2011 seja aquilo que cada um de vós merecer.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

29 de Dezembro de 1990: a minha primeira exposição de fotografia


Há 20 anos estava eu a expor alguns trabalhos de fotografia numa colectiva de apoio à candidatura presidencial de Carlos Carvalhas, no Ritz Club, em Lisboa.
Essas fotos andaram perdidas até 2008. Nessa altura, decidi fazer este vídeo, para ficar com um registo da coisa, antes que se volte a perder. Divirtam-se.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

É Natal. Tempo de brincar à caridadezinha...



Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha

A senhora de não sei quem
Que é de todos e de mais alguém
Passa a tarde descansada
Mastigando a torrada
Com muita pena do pobre
Coitada

Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha

Neste mundo de instituição
Cataloga-se até o coração
Paga botas e merenda
Rouba muito mas dá prenda
E ao peito terá
Uma comenda

Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha

O pobre no seu penar
Habitua-se a rastejar
E no campo ou na cidade
Faz da sua infelicidade
Alvo para os desportistas
Da caridade

Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha

E nós que queremos ser irmãos
Mas nunca sujamos as mãos
É uma vida decente
Não passeio ou aguardente
O que é justo
E há-que dar a toda a gente

Não vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta é falsa intençãozinha
Não vamos brincar à caridadezinha

José Barata Moura

sábado, dezembro 11, 2010

Metem os carros em cima do passeio porque "não há lugares para estacionar", é isso?



Carros estacionados em cima do passeio, com um parque de estacionamento GRÁTIS (e vazio...) mesmo ali ao lado. Acontece nesta rua de Almada, todos os dias e a qualquer hora.
Além deste, existe outro parque de estacionamento, também grátis, numa praceta a cerca de 15 metros dali.
Parar ou estacionar em cima dos passeios é proibido por lei (Código da Estrada, artigo 49, alínea f), punível com a remoção do veículo e, se necessário, bloqueamento até que essa remoção se efectue.
Quando alguém decidir acabar com este descaramento e fazer cumprir a lei, não se admirem nem se venham queixar de "intolerância" ou de "caça à multa", ok?

terça-feira, novembro 30, 2010

"Jornalista desde 1992"?


Em Novembro de 1992 comecei a minha carreira profissional como jornalista, no departamento de informação da Rádio Baía. Fez agora 18 anos. Permitam-me, portanto, assinalar a data.

Não me vou alongar em pormenores: apenas referir duas ou três coisitas que me parecem importantes porque correspondem a dúvidas que alguns tótós têm levantado ultimamente sobre a minha carreira e as minhas competências. São, digamos assim, as FAQ sobre a minha vida profissional.

Primeira coisita: como apareço eu no jornalismo? Que antecedentes tinha? Que formação? Caí de pára-quedas no métier?

Cheguei à Rádio Baía respondendo a um anúncio onde pediam pessoal para "fazer rádio". Apareci por lá, apresentei o meu CV, fiz uma prova de admissão e fui aprovado. Eu queria fazer rádio, mas eles precisavam era de pessoal para o departamento de informação, e foi aí mesmo que eu fiquei. Tão simples quanto isso.

E antecedentes? Formação? CV?

Vejamos: estava muito rodado a "fazer rádio" desde 1984 (tinha começado há 8 anos, portanto), primeiro em animações de recintos e em "estúdios móveis" e depois, mais a sério, numa "pirata" de Almada (a Rádio Urbana), entre 1987 e 1988, onde editei noticiários e programas de música e divulgação cultural. Mas estava também habituado ao jornalismo, não apenas por vocação, mas também por experiências práticas. Por exemplo: em 1990 fiz secretariado de redacção num jornal local chamado Almada Press... Poderia até dizer que o início da minha actividade profissional como jornalista foi aí - mas não o digo, por razões que não vale a pena estar a explicar agora (e, possivelmente, nunca).

Então e formação académica, não tinha? Pois não. Tinha melhor, mas mesmo muito melhor que isso!

Entre 1982 e 1987 estive no Centro Cultural de Almada - associação cuja actividade principal e permanente (e pioneira, para a época) era a formação de agentes culturais, através de cursos, seminários, colóquios... E essas acções de formação eram dadas pelos melhores profissionais nas suas áreas de actividade. Imaginem, nos anos 80, uma escola onde pudessem ter cursos de fotografia com o director do Museu da Fotografia (José Pessoa), de composição com um dos compositores de referência do século 20 (Jorge Peixinho), de serigrafia com o mestre do mais importante atelier da época (António Inverno)... e de jornalismo com um jornalista a sério, que fazia - e ainda faz, felizmente! - investigação e tudo (José Goulão).

Juntem a isso a oportunidade de participar em eventos onde podem conhecer (e aprender com) personalidades como Vasco Granja, António Victorino de Almeida, Manuel da Fonseca, Fernando Lopes-Graça - e já ficam com uma ideia (ainda vaga) da qualidade e diversidade da formação "não académica" que eu ganhei durante esses anos.

Mas isso não dá garantias nenhumas de que pudesse vir a ser um bom jornalista, pois não? Se há tanto licenciado que não sabe ler nem escrever...

Pois, aí está a questão! Mas essa é fácil: perguntem a quem comigo trabalhou se eu era bom profissional ou não (mas não perguntem aos medíocres e aos invejosos: perguntem aos competentes, pois é com esses que eu me comparo).

Perguntem-lhes, por exemplo, quantas vezes tive de corrigir textos de jovens jornalistas, estagiários ou mesmo já licenciados e integrados na redacção (e corrigir não apenas ortograficamente, mas - quantas vezes! - totalmente, de modo a que um texto atabalhoado passasse a ser uma notícia). Claro: já naquela altura havia, a par de jornalistas que sabiam do ofício, outros que escreviam com os pés e pensavam com dois neurónios. A diferença é que, nesse tempo, o "mercado" escolhia os melhores; os medíocres iam para outras actividades... a menos que tivessem cunhas ou fossem amigos do(s) chefe(s).

Então eu, que não possuia nenhum "canudo", nunca tive falta de trabalho até ao início desta década. Passei pela Rádio Baía, Rádio Voz de Almada, Sul Expresso, revista e jornal Sem Mais, Jornal da Região (de Almada e Setúbal), Jornal D'Hoje (de Portalegre, onde fui chefe de redacção), revista País Económico, Noticias da Zona... e acho que não me estou a esquecer de nada.

Tudo imprensa regional, claro! Era onde se podia trabalhar a sério, aprofundar os assuntos, fazer perguntas, investigar...

E isto é tudo verdade? Foi mesmo assim?

Em caso de dúvida podem também consultar o meu trabalho, que é público: existem exemplares desses jornais em bibliotecas, arquivos históricos e na internet. E há-de aparecer também uma entrevista onde falo destes e doutros assuntos, no próximo volume do livro "Almada, Gente Nossa", de Artur Vaz (com lançamento previsto, salvo erro, para o primeiro trimestre de 2011).

Contudo, perguntam ainda alguns tótós, tenho o direito de me considerar jornalista? Onde está o título profissional?

Pois, boa pergunta. A resposta daria um artigo pelo menos tão grande quanto este... Mas pode ser resumida citando a lei que regulamenta o Estatuto do Jornalista (lei 64/2007):

Definição de Jornalista:

1 - São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio electrónico de difusão.


2 - Não constitui actividade jornalística o exercício de funções referidas no número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover actividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial.

3 - São ainda considerados jornalistas os cidadãos que, independentemente do exercício efectivo da profissão, tenham desempenhado a actividade jornalística em regime de ocupação principal, permanente e remunerada durante 10 anos seguidos ou 15 interpolados, desde que solicitem e mantenham actualizado o respectivo título profissional.

Eu tenho mais que esses "10 anos seguidos ou 15 interpolados" de experiência profissional, referidos no parágrafo 3 deste artigo da lei. Agora, que estou a exercer funções incompatíveis com a actividade de jornalista, não posso ter carteira profissional (como é óbvio - e é por isso mesmo que o título deste artigo está entre aspas). Mas assim que regressar à profissão (espero que não demore muito) tenho - de acordo com a lei - todo o direito a pedi-la. E é isso mesmo o que farei.

Esclarecid@s?


(A foto que ilustra este "post" é de um artigo do semanário Actual, em 1994, estava eu em serviço para a Voz de Almada, a tentar fugir à objectiva do fotógrafo - porque o jornalista não tem de aparecer na notícia - mas não consegui, e ainda bem.)

terça-feira, novembro 23, 2010

Denzel Washington e a crise...


Às vezes há surpresas destas. Num jornal (a Dica da Semana) que normalmente não tem muito de interessante para ler, aparece-me uma entrevista de Denzel Washington onde, a propósito de um novo filme, o actor fala de desemprego e precariedade laboral nos EUA e receia que o fenómeno chegue também à indústria do cinema. Um exemplo:


P - foi uma rodagem difícil?
DW
- Posso dizer que foi, de certa forma, triste. Houve uma cena que filmámos em Ohio, onde eram precisos 50 figurantes e apareceram duas mil pessoas. Tinham fechado muitas fábricas e minas na zona e todas aquelas pessoas estavam sem trabalho. Nunca tinha estado nas regiões onde filmámos e foi importante conhecer a América profunda.

P - Esteve hesitante em passar do filme Assalto eo Metro 123 para Imparável?
DW
- Absolutamente! Questionei logo o Tony Scott sobre qual o motivo para fazermos dois filmes de comboios seguidos, mas ele disse-me que era um filme totalmente diferente. Ao desenvolvermos a personagem, interessei-me por abordar o que se está a passar na região dos Estados unidos da América onde decorre a acção. Há muitas regiões do país onde as pessoas estão a ser afastadas dos seus empregos. Os mais velhos estão a ficar sem trabalho para serem substituídos por mais jovens que recebem menos dinheiro e isso é o que é retratado no filme. Provavelmente vai acabar por acontecer o mesmo no mundo do cinema.

Pois é, a "crise"... Então, aqui vai um "conselho" que nunca pensei dar a ninguém: não percam a Dica da Semana! A sério: leiam esta entrevista. O que aqui vos deixei é mesmo só um aperitivo...

sexta-feira, novembro 19, 2010

"Obama will get Osama"... O RLY?

Um videozito, de uns humoristas norte-americanos, que me parece muito apropriado ao momento histórico que estamos a viver.

Mais disto em CollegeHumor.

quinta-feira, novembro 11, 2010

"Mi Mundo" - poesia do Sahara Ocidental


"Poemas de autores do Sahara Ocidental, lidos por refugiados sarahuis nos campos de refugiados da Argélia", em 2006. Em castelhano, que é a língua da antiga potência colonial daquele território - e que nós em Portugal entendemos muito bem (ainda que às vezes façamos de conta que não...).

domingo, novembro 07, 2010

Este deve pensar que o passeio em frente à minha casa é dele!


Este carro está estacionado no passeio em frente à minha casa desde sexta-feira de manhã. Está, portanto, ilegalmente (artigo 49 do Código da Estrada, nº1 alínea f) e há mais de 48 horas (cf. artigo 163 do CE).

Peço a quem conheça o proprietário desta viatura o favor de lhe dizer para a retirar daqui rapidamente (ou ao próprio, se por acaso ler isto).

Ele não tem o direito de estacionar em cima de nenhum passeio (muito menos do passeio em frente à minha casa). Em contrapartida, eu tenho o direito de pedir às autoridades para cumprirem a lei e removerem a viatura do local onde estacionou ilegalmente.

E seria muito chato se eu tivesse que exercer os meus direitos de cidadania, não seria?


(Nota: eu sei que, se fossemos mesmo cumprir a lei, não havia reboques que chegassem para remover os carros "mal" estacionados só na minha rua. Mas este senhor abusa mais que os outros: tenho fotos do ano passado onde o mesmo carro aparece estacionado exactamente no mesmo local... E não pode ser. Isto não é o estacionamento privado dele.)

quarta-feira, novembro 03, 2010

Sem comentários?


Sem comentários, mas com a devida contextualização.

Esta imagem foi captada no dia 3 de Novembro de 2010, por volta das 18h30. É em Almada Velha, perto do Arquivo Histórico. Uma das viaturas que está estacionada em cima do passeio costuma estar ali todos os dias, em cima daquele mesmo passeio. Estacionar em cima do passeio é proibido pelo Código da Estrada (como qualquer automobilista devia saber). Mesmo que não o fosse: aquela placa que ali está é mesmo um sinal de estacionamento proibido (sim, estão a ver bem, é mesmo).

E tudo isto porque não havia lugar para estacionar? Mentira: havia lugares, e muitos numa praceta que fica a pouco mais de 10 metros dali!!!

Ainda se admiram por eu andar tão farto de chicos espertos?

segunda-feira, novembro 01, 2010

Que bom não há ECALMA (nem polícia, pelos vistos...)!


Neste fim de semana prolongado, os passeios e a zona pedonal de Almada foram invadidas por carros. (Suponho, então, que a facturação dos comerciantes da cidade - os tais que reivindicam a reabertura ao trânsito da zona pedonal - tenha aumentado em flecha... mas adiante.)

Desde sábado, há carros estacionados por todo o lado onde o estacionamento é proibido. E hoje, dia 1 de Novembro, há até um que armou banca na Praça do MFA: estacionaou ali a viatura, abriu a porta de trás e fez dela um ponto de venda de legumes!
O descaramento é tanto, que nem me parece necessário acrescentar mais nada.

A não ser um pequenino pormenor (sem importância nenhuma, já se vê):

"É proibido parar ou estacionar:

f) Nas pistas de velocípedes, nos ilhéus direccionais, nas placas centrais das rotundas, nos passeios e demais locais destinados ao trânsito de peões"

Código da Estrada, artigo 49º Proibição de paragem ou estacionamento (cf aqui).

Não sei que parte de "é proibido parar ou estacionar" e "nos passeios e demais locais destinados ao trânsito de peões" esta gente toda não entende.
Sei, sim, que estou muito farto da falta de civismo e da esperteza saloia que, principalmente nos últimos anos, anda a proliferar na minha cidade!

sábado, outubro 30, 2010

quinta-feira, outubro 14, 2010

soneto incompleto em memória de sísifo


se quero levar água ao meu moinho
a baldes a carrego desde a fonte
e devagar penoso subo o monte
tropeçando nas pedras do caminho

que aqui alguém as pôs como empecilho.
tropeço entorno a água volto à fonte
e novamente vou subindo o monte.
ainda bem que é água em vez de vinho!

Affonso Gallo (poema)
André Antunes (ilustração)

Na edição 38 do Debaixo do Bulcão poezine.
http://debaixodobulçcao.blogspot.com/

sábado, outubro 09, 2010

John Lennon

Assinalam-se este ano duas "datas redondas" relacionadas com John Lennon: o seu nascimento, a 9 de outubro de 1940, e a sua morte - melhor dizendo: o seu assassinato - em Nova Iorque, a 8 de Dezembro de 1980.

Hoje comemoramos a vida: o nascimento do que viria a ser uma das figuras mais marcantes da música popular do século 20.

Confesso que nunca apreciei devidamente a sua obra a solo. Ouvi sempre a sua música "diluída" na obra fenomenal que os Beatles nos legaram. Dos seus trabalhos posteriores conheci apenas o último, "Double Fantasy" (composto a meias com Yoko Ono - como não podia deixar de ser...) publicado em 1980.

Não vou, portanto, escrever sobre John Lennon. Vou sim aproveitar a efeméride para divulgar - com a devida vénia, claro! - este texto de Bernardo Brito e Cunha, publicado em Janeiro de 1981 na Música & Som (revista mensal, editada entre 1977 e 1987 - fonte: http://anos80.no.sapo.pt/imprensa.htm).


(Nota: a revista Música & Som tem actualmente uma edição online, em http://www.musicaesom.pt/)

E, porque a melhor maneira de homenagear um artista é disfrutar da sua obra, ei-lo em pleno processo de gravação do referido álbum:

E nos Beatles:



sexta-feira, outubro 08, 2010

dia de chuva na cidade



Dia de chuva na cidade
triste como não haver liberdade.
Dia infeliz
com varões de água
a fecharem o mundo numa prisão.
E alguém a meu lado com voz múrmura que diz:
"está a cair pão"
Ah! que vontade de gritar àquela criança seminua
sem pão nem sol de roupa:
"Eh! pequena! Deita-te na rua
E abre a boca..."
Dia em que urdo
este sonho absurdo.

José Gomes Ferreira


(Muitas foram as razões que me fizeram recordar hoje este poema de José Gomes Ferreira,
o "poeta militante" e um dos que mais influenciou as minhas primeiras tentativas literárias, há coisa de 3 décadas atrás...)

quarta-feira, outubro 06, 2010

Pensava-se que eram só os fascistas, mas...


afinal havia outros: elementos da JSD apanhados a vandalizar murais.

A história, tal como foi apresentada na sessão da Assembleia Municipal de Almada de 29 de Setembro de 2010, pelo deputado Bruno Dias (foto minha e sublinhados - em itálico e a bold - meus):

«Houve um tempo nesta terra em que era proibido escrever nas paredes mensagens de protesto e de luta. Quem quisesse pintar murais políticos fazia-o por sua própria conta e risco.

Houve um tempo nesta terra em que a “perturbação da ordem pública” ou a “actividade subversiva” eram ferretes que pairavam sobre aqueles que se recusavam a comer e calar, que não pactuavam com a exploração, a repressão, a miséria e a guerra. Havia fascistas, havia legionários, havia pides, havia bufos, havia expulsões das faculdades, despedimentos das empresas. E havia tinta branca para esconder o que se escrevia nas paredes.

Houve um tempo nesta terra em que as coisas eram assim. Mas depois fez-se o tempo em que as coisas ficaram diferentes.

Estão aqui nesta sala alguns dos homens e mulheres que enfrentaram esse tempo de cabeça levantada, e que construíram o tempo novo. Um tempo em que nas paredes apareciam as palavras e mensagens que podiam ser revolucionárias, ou justas, ou simplesmente verdadeiras… ou não. Mas eram livres. Para ser ditas e para serem escritas.

Em Almada essas palavras ainda são livres. E vão continuar a ser, enquanto cá estivermos. Em Almada, os estudantes em luta não são presentes a tribunal nem ficam sob medidas de coacção, por queixa da autarquia, por terem pintado murais com palavras de ordem, por exercerem os seus direitos, a sua liberdade de expressão. Em Almada, o poder local democrático não esquece as suas origens.

Sabemos que os murais políticos são há muitos, muitíssimos anos, um elemento de afirmação e testemunho da luta dos povos. Ali se expressam as aspirações dos trabalhadores, dos jovens, dos reformados, por uma vida melhor. Essa luta aparece nas paredes da cidade, e a verdade é que aqueles que querem branquear essas paredes estão acima de tudo a tentar branquear as políticas que ali se denunciam.

O Partido Comunista Português tem vindo ao longo dos meses a denunciar a sucessiva vandalização e destruição de várias pinturas murais em diversos locais do Concelho de Almada. Esse vandalismo proto-fascista e cobarde foi se repetindo uma e outra vez, sempre com a mesma resposta dos comunistas: a recuperação desses murais e a pintura de outros novos.

A pintura de murais políticos que o PCP tem realizado em Almada – tal como em tantos outros pontos do país – é uma prática que não apenas respeita a legalidade democrática e designadamente a Constituição da República: na verdade está a defender os valores constitucionalmente consagrados.

É que, das muitas lições que aprendemos com Abril, há também uma que prevalece: é que a primeira linha de defesa dos direitos conquistados está em exercer no concreto esses direitos. Não vale a pena encher a boca com banalidades balofas sobre a liberdade de expressão ou os direitos democráticos, se logo a seguir a atitude for de complacência (ou de cumplicidade!) no ataque a esses direitos. Mais do que incoerência, atitudes como essas são de cinismo e hipocrisia.

Há quem fale – aliás, como já nesta Assembleia Municipal falou o PSD, não nos esqueçamos – em “incomodar as pessoas” com os murais políticos. Pois a História já nos ensinou demasiadas vezes que, com essa conversa, surge de mansinho a repressão sobre quem luta pelos seus direitos – e assim vemos sindicalistas “visitados” pela polícia antes de manifestações, estudantes identificados pelas autoridades em acções de luta, jovens comunistas sob termo de identidade e residência por pintar murais políticos. A conversa era sempre a mesma: podem manifestar a vossa opinião, mas sem “incomodar”...

Entendamo-nos. Aqueles que bradam contra as palavras e pinturas na parede sobre a luta dos trabalhadores, sobre Lenine, sobre o PCP, sobre a Festa do “Avante!” podem dizer à vontade que estão preocupados com a brancura das paredes e a “imagem do espaço público”. A nossa resposta é: contem outra, que essa não pega.

Durante meses, tomámos posição contra os actos de vandalismo anti-democrático em que se destruíam os murais políticos do PCP e da JCP – e apenas (apenas!) os murais do PCP e da JCP. Tudo à volta permanecia intocado. Eram claramente actos de ataque político e destruição de propaganda. Eram actos de vandalismo praticados por desconhecidos, pessoas (ou organizações…) não identificadas, que não tinham a coragem de assumir a autoria dos seus actos.

Senhor Presidente, Senhores Deputados Municipais, agora o caso é diferente.

Na sexta-feira, dia 3 do corrente mês de Setembro, foram abordados e interpelados, precisamente enquanto destruíam uma pintura mural do PCP, indivíduos que logo ali se apresentaram como elementos ligados ao PSD e concretamente à JSD. Há quem tenha o seu nome registado, há quem tenha sido visto e reconhecido.

Assim, queremos aqui informar que o Partido Comunista Português irá accionar o devido procedimento criminal relativamente a estas práticas de destruição de propaganda política. A liberdade é para exercer e para defender, e a lei é para cumprir na defesa dos direitos, liberdades e garantias que a Constituição da República consagra.

Entretanto, reiteramos ainda o que publicamente já registámos: que a destruição de propaganda do PCP é também um sinal de reconhecimento. Reconhecimento do papel que o PCP tem e continuará a ter, na luta por um Portugal de progresso e justiça social. Mesmo que não seja essa a sua intenção, é esse o reconhecimento que evidenciam aqueles que pretendem ver o País recuar ao “outro” tempo.

É que já há muitos anos, nesse tal tempo que houve nesta terra, tempo de Salazar e Caetano e de muitos outros fascistas, houve quem tentasse impedir os comunistas de expressar a mensagem, a denúncia, a afirmação da luta e da alternativa. Usaram muitos pretextos – alguns idênticos aos que agora aparecem. Usaram a repressão e o terrorismo de estado. Não conseguiram branquear nem as paredes nem as consciências. E não será agora que o vão conseguir.

Desenganem-se os que pensarem que desta forma conseguem limitar a intervenção do PCP junto dos trabalhadores e do povo e a sua capacidade de mobilizar para a luta, pela ruptura com a política de direita e pela mudança que o País precisa. Como sucedeu nas outras ocasiões, voltaremos a pintar os murais destruídos, acrescentando-lhes outros novos. Conhecem mal este Partido aqueles que pensam que a intimidação resulta connosco – pelo contrário: dá-nos mais força para prosseguir o nosso combate.

Hoje foi dia de luta. Os trabalhadores, os jovens, os reformados de Almada estiveram presentes numa grande jornada de protesto e de exigência de mudança. As palavras de ordem foram ouvidas em Lisboa, no Porto – e por toda a Europa. O Governo esta noite mesmo anunciou ainda mais sacrifícios e sofrimentos para quem trabalha. Congelamentos e cortes nos salários. Progressões de carreira canceladas. Mais desemprego. Mais aumento de impostos e descontos. Investimentos cancelados.

As palavras de ordem não podem ficar caladas quando o povo é roubado desta forma. É por isso que, uma e outra vez, quantas vezes for preciso, essas palavras de luta e de futuro voltarão a aparecer.»


Nota final: Isto é, apenas, a transcrição integral de uma declaração política da CDU na AM de Almada. Tenho, contudo, informações que me permitem garantir que os acontecimentos ocorreram tal como aqui são descritos. A fotografia foi feita em Abril de 2010, em Almada; documenta um dos casos de destruição de propaganda política que têm acontecido na cidade - e não, obviamente, o caso concreto aqui assinalado.

segunda-feira, outubro 04, 2010

"Almada Antecipou a República"


Texto do escritor almadense Luís Milheiro, publicado originalmente no seu blogue Largo da Memória e reproduzido aqui, com as devidas vénia e autorização:


Almada faz jus à sua situação geográfica, na Margem Esquerda do Tejo e sempre que pode antecipa-se às revoluções, foi assim a 23 de Junho de 1833 e também a 4 de Outubro de 1910. E se recuarmos mais algum tempo, em 1580 também vendeu cara a derrota aos espanhóis...

Voltando ao 4 de Outubro, de há exactamente cem anos, a presença de dois dirigentes republicanos e a acção dos agentes políticos locais, com realce para Bartolomeu Constantino, sapateiro de profissão e ainda mais revolucionário que os próprios republicanos, graças ao seu ideário, próximo do socialismo e do anarquismo, fizeram com que Almada se tornasse republicana, antes do tempo.

Bartolomeu Constantino tinha qualidade oratórias invulgares e foram as suas palavras, junto das fábricas, que conseguiram trazer para a rua cerca de oito mil operários, que percorreram as principais artérias de Almada, com vivas à República, e claro, com outros "mimos" muito menos agradáveis, em relação ao Rei, à Monarquia e à própria Igreja.

O cortejo revolucionário só parou em frente aos Paços do Concelho, ocupados pacificamente e onde se ergueu a Bandeira do Centro Republicano Capitão Leitão e se fizeram discursos inflamados pelas principais figuras da revolta.

O Castelo de Almada também foi ocupado, com a cumplicidade da guarnição, que viu ser içada a Bandeira do Centro Republicano Elias Garcia.

E mais uma vez se fez história em Almada, antes do tempo...

Nota: A República também foi proclamada a 4 de Outubro no Barreiro, Loures, e Aldeia Galega (Montijo).

quarta-feira, setembro 29, 2010

"Eu já lhe vou contar uma anedota"


"Já descansa mais? Não, senhor doutor: o patrão resolveu dar mais descanso às bestas, que estavam a emagrecer!"

Augusto Henriques Pinheiro, médico, no livro "Minhas senhoras e meus senhores... - vida, fome e morte nos campos de Beja durante o salazarismo":

«Eu já lhe vou contar uma anedota. Não é anedota, não é anedota!

Eu estava lá (Baleizão), às tantas comecei a ser.. o consultório começou a ser frequentado por um homem, de trabalho, tostado do sol, que se ia queixar de fraqueza, de falta de forças, de fraqueza, de falta de forças, de fraqueza. Bom... bem, como eu sabia das dificuldades de alimentação, comecei a receitar vitaminas e extractos de carne, e não sei quê... Bem, aquilo que havia na farmácia e que pudesse ajudar a pessoa... bem! O homem ia...

Eu tenho contado isto muitas vezes, sempre da mesma maneira, porque aquilo ficou-me tão vincado, quer sob o ponto de vista da memória visual, quer sob o ponto de vista da conversa que tive com ele, e ele comigo, esse homem, que não falho nada, no meu relato não falho nada, corresponde na realidade ao que se passou.

O homem continuou a consultar-me, a ir à consulta, e a dizer que estava sempre fraco.

Bom, passadas duas ou três consultas, eu disse, Ouça lá, ouça lá, qual é o seu trabalho?, e ele contou-me qual era o trabalho dele: o trabalho dele (...) era o responsável por uma parelha de bestas. E então, levantava-se antes do pôr-do-sol, para estar, antes do nascer do sol, para estar ao nascer do sol numa herdade longe. Portanto, levantava-se por volta das três da manhã. Para quê? para aparelhar, aparelhar as bestas, pô-las ao carro, dar-lhes de comer, aparelhar, pôr-lhes o... dar de comer, pô-las ao carro e ir para a propriedade, estar a começar o trabalho ao romper do sol.

Atenção, no verão o romper do sol aqui é às seis horas! (...)

Portanto, ele tinha de ir à estrebaria, preparar os animais, dar-lhe de comer, preparar os animais, esperar qie eles comessem, aparelhá-los,(...) e ir trabalhar. E então quando... e então diga-me lá, então, e depois? Depois, eu, ao pôr-do-sol, deixo o trabalho.

O pôr do sol aqui, pá, são oito e meia, nove horas, está bem! Então... então, e depois, diga lá, Bom, chego por volta das onze horas a casa, onze horas, porque tenho que ir dar-lhes de comer novamente, às bestas... E quando me vou deitar onze e meia, meia-noite.

Eh pá, eu disse, Então está explicado porque é que você não pode... porque é que você não tem forças. Pois que o senhor trabalha de mais, descansa de menos. E, ainda por cima, com a alimentação fraca como era aqui no Alentejo, que, em regra geral, os trabalhadores rurais têm, isso explica... Olhe, ouça lá, porque..., eu ingénuo, ainda, ainda, eu ingénuo, Ouça lá, porque é que você não pede ao seu patrão para lhe dar mais descanso, para... enfim, descansar mais, não é, ter um período de descanso maior! Bem, lá lhe receitei mais umas coisas e tal...

Pois ele continuou a ir ao consultório dizer que estava mal, mais umas duas ou três vezes.

E um dia aparece-me risonho no consultório. E eu, querem ver que pediu ao patrão para lhe dar mais... já descansa mais. Então diga, diga! Já descansa mais, já disse ao seu patrão, e tal?, Não, senhor doutor, é que as bestas estavam a emagrecer e o patrão resolveu dar mais descanso às bestas.

Eh pá!!! Está a ver como eu fiquei, não é? Está a ver como eu fiquei? Como é que eu vi a mentalidade dos senhores da gleba. Os servos eram da gleba, a gleba era dos senhores.

E, portanto, estava tudo dito. Estava tudo dito!»

(Relato de Augusto Henriques Pinheiro, médico, no livro e duplo CD "Minhas senhoras e meus senhores... - vida, fome e morte nos campos de Beja durante o salazarismo" - arquivo de História Oral, Rede Museológica do Município de Beja. Edição C.M. Beja / Cooperativa Cultural Alentejana, Abril de 2006)

segunda-feira, setembro 27, 2010

Debaixo do Bulcão poezine número 38

Debaixo do Bulcão poezine.
Edição número 38 - Almada, setembro de 2010
Textos de: Eloisa Meneses Pereira; Salmonela Pintassilgo; Tiago Espírito Santo; Madalena Barranco; Carolina Rodrigues; António Vitorino; Mônica Quinderé; Miguel Paulitus; Affonso Gallo; Luís Milheiro; Victor Serra; Artur Vaz.

Paginação e ilustrações: André Antunes.

Mais informação no blogue do Debaixo do Bulcão:

quarta-feira, setembro 22, 2010

A propósito de uma mentira sobre estacionamento em Almada


O novo parque de estacionamento da Avenida Bento Gonçalves acaba de ser inaugurado e, como era de esperar, já é alvo de polémica.

Uma das críticas que tenho visto repetidamente escritas em vários locais é que "o investimento não se justifica, porque antes havia ali 100 lugares de estacionamento e agora há 140, portanto só se criaram 40 novos lugares", etc. etc.

Sobre o investimento e sua justificação escreverei noutra oportunidade.

Sobre os supostos 100 lugares que ali "existiam", a única coisa que me ocorre é perguntar: existiam, onde?

Esta foto é de 2007. Como se pode ver, os lugares de estacionamento eram 57. E, desde então, nunca foram aumentados (e anteriormente, que me lembre, não eram mais do que isto).

Onde é que estavam esses tais 100 lugares de que se fala? Em que se fundamentam para ir buscar esse número?

E porque vieram agora com essa argumentação? Falta de memória? Falta de informação? Mentira deliberada?

Gostava de perceber, a sério...