quarta-feira, outubro 06, 2010

Pensava-se que eram só os fascistas, mas...


afinal havia outros: elementos da JSD apanhados a vandalizar murais.

A história, tal como foi apresentada na sessão da Assembleia Municipal de Almada de 29 de Setembro de 2010, pelo deputado Bruno Dias (foto minha e sublinhados - em itálico e a bold - meus):

«Houve um tempo nesta terra em que era proibido escrever nas paredes mensagens de protesto e de luta. Quem quisesse pintar murais políticos fazia-o por sua própria conta e risco.

Houve um tempo nesta terra em que a “perturbação da ordem pública” ou a “actividade subversiva” eram ferretes que pairavam sobre aqueles que se recusavam a comer e calar, que não pactuavam com a exploração, a repressão, a miséria e a guerra. Havia fascistas, havia legionários, havia pides, havia bufos, havia expulsões das faculdades, despedimentos das empresas. E havia tinta branca para esconder o que se escrevia nas paredes.

Houve um tempo nesta terra em que as coisas eram assim. Mas depois fez-se o tempo em que as coisas ficaram diferentes.

Estão aqui nesta sala alguns dos homens e mulheres que enfrentaram esse tempo de cabeça levantada, e que construíram o tempo novo. Um tempo em que nas paredes apareciam as palavras e mensagens que podiam ser revolucionárias, ou justas, ou simplesmente verdadeiras… ou não. Mas eram livres. Para ser ditas e para serem escritas.

Em Almada essas palavras ainda são livres. E vão continuar a ser, enquanto cá estivermos. Em Almada, os estudantes em luta não são presentes a tribunal nem ficam sob medidas de coacção, por queixa da autarquia, por terem pintado murais com palavras de ordem, por exercerem os seus direitos, a sua liberdade de expressão. Em Almada, o poder local democrático não esquece as suas origens.

Sabemos que os murais políticos são há muitos, muitíssimos anos, um elemento de afirmação e testemunho da luta dos povos. Ali se expressam as aspirações dos trabalhadores, dos jovens, dos reformados, por uma vida melhor. Essa luta aparece nas paredes da cidade, e a verdade é que aqueles que querem branquear essas paredes estão acima de tudo a tentar branquear as políticas que ali se denunciam.

O Partido Comunista Português tem vindo ao longo dos meses a denunciar a sucessiva vandalização e destruição de várias pinturas murais em diversos locais do Concelho de Almada. Esse vandalismo proto-fascista e cobarde foi se repetindo uma e outra vez, sempre com a mesma resposta dos comunistas: a recuperação desses murais e a pintura de outros novos.

A pintura de murais políticos que o PCP tem realizado em Almada – tal como em tantos outros pontos do país – é uma prática que não apenas respeita a legalidade democrática e designadamente a Constituição da República: na verdade está a defender os valores constitucionalmente consagrados.

É que, das muitas lições que aprendemos com Abril, há também uma que prevalece: é que a primeira linha de defesa dos direitos conquistados está em exercer no concreto esses direitos. Não vale a pena encher a boca com banalidades balofas sobre a liberdade de expressão ou os direitos democráticos, se logo a seguir a atitude for de complacência (ou de cumplicidade!) no ataque a esses direitos. Mais do que incoerência, atitudes como essas são de cinismo e hipocrisia.

Há quem fale – aliás, como já nesta Assembleia Municipal falou o PSD, não nos esqueçamos – em “incomodar as pessoas” com os murais políticos. Pois a História já nos ensinou demasiadas vezes que, com essa conversa, surge de mansinho a repressão sobre quem luta pelos seus direitos – e assim vemos sindicalistas “visitados” pela polícia antes de manifestações, estudantes identificados pelas autoridades em acções de luta, jovens comunistas sob termo de identidade e residência por pintar murais políticos. A conversa era sempre a mesma: podem manifestar a vossa opinião, mas sem “incomodar”...

Entendamo-nos. Aqueles que bradam contra as palavras e pinturas na parede sobre a luta dos trabalhadores, sobre Lenine, sobre o PCP, sobre a Festa do “Avante!” podem dizer à vontade que estão preocupados com a brancura das paredes e a “imagem do espaço público”. A nossa resposta é: contem outra, que essa não pega.

Durante meses, tomámos posição contra os actos de vandalismo anti-democrático em que se destruíam os murais políticos do PCP e da JCP – e apenas (apenas!) os murais do PCP e da JCP. Tudo à volta permanecia intocado. Eram claramente actos de ataque político e destruição de propaganda. Eram actos de vandalismo praticados por desconhecidos, pessoas (ou organizações…) não identificadas, que não tinham a coragem de assumir a autoria dos seus actos.

Senhor Presidente, Senhores Deputados Municipais, agora o caso é diferente.

Na sexta-feira, dia 3 do corrente mês de Setembro, foram abordados e interpelados, precisamente enquanto destruíam uma pintura mural do PCP, indivíduos que logo ali se apresentaram como elementos ligados ao PSD e concretamente à JSD. Há quem tenha o seu nome registado, há quem tenha sido visto e reconhecido.

Assim, queremos aqui informar que o Partido Comunista Português irá accionar o devido procedimento criminal relativamente a estas práticas de destruição de propaganda política. A liberdade é para exercer e para defender, e a lei é para cumprir na defesa dos direitos, liberdades e garantias que a Constituição da República consagra.

Entretanto, reiteramos ainda o que publicamente já registámos: que a destruição de propaganda do PCP é também um sinal de reconhecimento. Reconhecimento do papel que o PCP tem e continuará a ter, na luta por um Portugal de progresso e justiça social. Mesmo que não seja essa a sua intenção, é esse o reconhecimento que evidenciam aqueles que pretendem ver o País recuar ao “outro” tempo.

É que já há muitos anos, nesse tal tempo que houve nesta terra, tempo de Salazar e Caetano e de muitos outros fascistas, houve quem tentasse impedir os comunistas de expressar a mensagem, a denúncia, a afirmação da luta e da alternativa. Usaram muitos pretextos – alguns idênticos aos que agora aparecem. Usaram a repressão e o terrorismo de estado. Não conseguiram branquear nem as paredes nem as consciências. E não será agora que o vão conseguir.

Desenganem-se os que pensarem que desta forma conseguem limitar a intervenção do PCP junto dos trabalhadores e do povo e a sua capacidade de mobilizar para a luta, pela ruptura com a política de direita e pela mudança que o País precisa. Como sucedeu nas outras ocasiões, voltaremos a pintar os murais destruídos, acrescentando-lhes outros novos. Conhecem mal este Partido aqueles que pensam que a intimidação resulta connosco – pelo contrário: dá-nos mais força para prosseguir o nosso combate.

Hoje foi dia de luta. Os trabalhadores, os jovens, os reformados de Almada estiveram presentes numa grande jornada de protesto e de exigência de mudança. As palavras de ordem foram ouvidas em Lisboa, no Porto – e por toda a Europa. O Governo esta noite mesmo anunciou ainda mais sacrifícios e sofrimentos para quem trabalha. Congelamentos e cortes nos salários. Progressões de carreira canceladas. Mais desemprego. Mais aumento de impostos e descontos. Investimentos cancelados.

As palavras de ordem não podem ficar caladas quando o povo é roubado desta forma. É por isso que, uma e outra vez, quantas vezes for preciso, essas palavras de luta e de futuro voltarão a aparecer.»


Nota final: Isto é, apenas, a transcrição integral de uma declaração política da CDU na AM de Almada. Tenho, contudo, informações que me permitem garantir que os acontecimentos ocorreram tal como aqui são descritos. A fotografia foi feita em Abril de 2010, em Almada; documenta um dos casos de destruição de propaganda política que têm acontecido na cidade - e não, obviamente, o caso concreto aqui assinalado.

segunda-feira, outubro 04, 2010

"Almada Antecipou a República"


Texto do escritor almadense Luís Milheiro, publicado originalmente no seu blogue Largo da Memória e reproduzido aqui, com as devidas vénia e autorização:


Almada faz jus à sua situação geográfica, na Margem Esquerda do Tejo e sempre que pode antecipa-se às revoluções, foi assim a 23 de Junho de 1833 e também a 4 de Outubro de 1910. E se recuarmos mais algum tempo, em 1580 também vendeu cara a derrota aos espanhóis...

Voltando ao 4 de Outubro, de há exactamente cem anos, a presença de dois dirigentes republicanos e a acção dos agentes políticos locais, com realce para Bartolomeu Constantino, sapateiro de profissão e ainda mais revolucionário que os próprios republicanos, graças ao seu ideário, próximo do socialismo e do anarquismo, fizeram com que Almada se tornasse republicana, antes do tempo.

Bartolomeu Constantino tinha qualidade oratórias invulgares e foram as suas palavras, junto das fábricas, que conseguiram trazer para a rua cerca de oito mil operários, que percorreram as principais artérias de Almada, com vivas à República, e claro, com outros "mimos" muito menos agradáveis, em relação ao Rei, à Monarquia e à própria Igreja.

O cortejo revolucionário só parou em frente aos Paços do Concelho, ocupados pacificamente e onde se ergueu a Bandeira do Centro Republicano Capitão Leitão e se fizeram discursos inflamados pelas principais figuras da revolta.

O Castelo de Almada também foi ocupado, com a cumplicidade da guarnição, que viu ser içada a Bandeira do Centro Republicano Elias Garcia.

E mais uma vez se fez história em Almada, antes do tempo...

Nota: A República também foi proclamada a 4 de Outubro no Barreiro, Loures, e Aldeia Galega (Montijo).

quarta-feira, setembro 29, 2010

"Eu já lhe vou contar uma anedota"


"Já descansa mais? Não, senhor doutor: o patrão resolveu dar mais descanso às bestas, que estavam a emagrecer!"

Augusto Henriques Pinheiro, médico, no livro "Minhas senhoras e meus senhores... - vida, fome e morte nos campos de Beja durante o salazarismo":

«Eu já lhe vou contar uma anedota. Não é anedota, não é anedota!

Eu estava lá (Baleizão), às tantas comecei a ser.. o consultório começou a ser frequentado por um homem, de trabalho, tostado do sol, que se ia queixar de fraqueza, de falta de forças, de fraqueza, de falta de forças, de fraqueza. Bom... bem, como eu sabia das dificuldades de alimentação, comecei a receitar vitaminas e extractos de carne, e não sei quê... Bem, aquilo que havia na farmácia e que pudesse ajudar a pessoa... bem! O homem ia...

Eu tenho contado isto muitas vezes, sempre da mesma maneira, porque aquilo ficou-me tão vincado, quer sob o ponto de vista da memória visual, quer sob o ponto de vista da conversa que tive com ele, e ele comigo, esse homem, que não falho nada, no meu relato não falho nada, corresponde na realidade ao que se passou.

O homem continuou a consultar-me, a ir à consulta, e a dizer que estava sempre fraco.

Bom, passadas duas ou três consultas, eu disse, Ouça lá, ouça lá, qual é o seu trabalho?, e ele contou-me qual era o trabalho dele: o trabalho dele (...) era o responsável por uma parelha de bestas. E então, levantava-se antes do pôr-do-sol, para estar, antes do nascer do sol, para estar ao nascer do sol numa herdade longe. Portanto, levantava-se por volta das três da manhã. Para quê? para aparelhar, aparelhar as bestas, pô-las ao carro, dar-lhes de comer, aparelhar, pôr-lhes o... dar de comer, pô-las ao carro e ir para a propriedade, estar a começar o trabalho ao romper do sol.

Atenção, no verão o romper do sol aqui é às seis horas! (...)

Portanto, ele tinha de ir à estrebaria, preparar os animais, dar-lhe de comer, preparar os animais, esperar qie eles comessem, aparelhá-los,(...) e ir trabalhar. E então quando... e então diga-me lá, então, e depois? Depois, eu, ao pôr-do-sol, deixo o trabalho.

O pôr do sol aqui, pá, são oito e meia, nove horas, está bem! Então... então, e depois, diga lá, Bom, chego por volta das onze horas a casa, onze horas, porque tenho que ir dar-lhes de comer novamente, às bestas... E quando me vou deitar onze e meia, meia-noite.

Eh pá, eu disse, Então está explicado porque é que você não pode... porque é que você não tem forças. Pois que o senhor trabalha de mais, descansa de menos. E, ainda por cima, com a alimentação fraca como era aqui no Alentejo, que, em regra geral, os trabalhadores rurais têm, isso explica... Olhe, ouça lá, porque..., eu ingénuo, ainda, ainda, eu ingénuo, Ouça lá, porque é que você não pede ao seu patrão para lhe dar mais descanso, para... enfim, descansar mais, não é, ter um período de descanso maior! Bem, lá lhe receitei mais umas coisas e tal...

Pois ele continuou a ir ao consultório dizer que estava mal, mais umas duas ou três vezes.

E um dia aparece-me risonho no consultório. E eu, querem ver que pediu ao patrão para lhe dar mais... já descansa mais. Então diga, diga! Já descansa mais, já disse ao seu patrão, e tal?, Não, senhor doutor, é que as bestas estavam a emagrecer e o patrão resolveu dar mais descanso às bestas.

Eh pá!!! Está a ver como eu fiquei, não é? Está a ver como eu fiquei? Como é que eu vi a mentalidade dos senhores da gleba. Os servos eram da gleba, a gleba era dos senhores.

E, portanto, estava tudo dito. Estava tudo dito!»

(Relato de Augusto Henriques Pinheiro, médico, no livro e duplo CD "Minhas senhoras e meus senhores... - vida, fome e morte nos campos de Beja durante o salazarismo" - arquivo de História Oral, Rede Museológica do Município de Beja. Edição C.M. Beja / Cooperativa Cultural Alentejana, Abril de 2006)

segunda-feira, setembro 27, 2010

Debaixo do Bulcão poezine número 38

Debaixo do Bulcão poezine.
Edição número 38 - Almada, setembro de 2010
Textos de: Eloisa Meneses Pereira; Salmonela Pintassilgo; Tiago Espírito Santo; Madalena Barranco; Carolina Rodrigues; António Vitorino; Mônica Quinderé; Miguel Paulitus; Affonso Gallo; Luís Milheiro; Victor Serra; Artur Vaz.

Paginação e ilustrações: André Antunes.

Mais informação no blogue do Debaixo do Bulcão:

quarta-feira, setembro 22, 2010

A propósito de uma mentira sobre estacionamento em Almada


O novo parque de estacionamento da Avenida Bento Gonçalves acaba de ser inaugurado e, como era de esperar, já é alvo de polémica.

Uma das críticas que tenho visto repetidamente escritas em vários locais é que "o investimento não se justifica, porque antes havia ali 100 lugares de estacionamento e agora há 140, portanto só se criaram 40 novos lugares", etc. etc.

Sobre o investimento e sua justificação escreverei noutra oportunidade.

Sobre os supostos 100 lugares que ali "existiam", a única coisa que me ocorre é perguntar: existiam, onde?

Esta foto é de 2007. Como se pode ver, os lugares de estacionamento eram 57. E, desde então, nunca foram aumentados (e anteriormente, que me lembre, não eram mais do que isto).

Onde é que estavam esses tais 100 lugares de que se fala? Em que se fundamentam para ir buscar esse número?

E porque vieram agora com essa argumentação? Falta de memória? Falta de informação? Mentira deliberada?

Gostava de perceber, a sério...

O "dia sem carros", a Semana da Mobilidade e os novos parques de estacionamento em Almada


Almada aderiu, mais uma vez, à Semana Europeia da Mobilidade. Na edição deste ano inovou, com o 1º Festival da Mobilidade - que foi o primeiro, também a nível nacional... - evento que, a 18 de Setembro, encheu as praças da Liberdade e S. João Baptista com várias actividades em simultâneo. Mas manteve, também, as iniciativas já habituais ("viagens a troco de lixo" e actividades de sensibilização ambiental, por exemplo).
Como principal medida de carácter permanente, inaugurou um novo parque de estacionamento coberto, na Avenida Bento Gonçalves. E assinala o Dia Europeu Sem Carros (22 de Setembro) com uma experiência para a futura pedonalização da Rua Cândido dos Reis, em Cacilhas.
(ver programa completo no site da Câmara de Almada).

A Semana Europeia da Mobilidade teve origem em França, país onde desde 1998 começou a realizar-se um "dia sem carros". Em 2000 e 2001 a iniciativa internacionalizou-se e organizaram-se as primeiras edições do Dia Europeu Sem Carros. A partir de 2002 passa a realizar-se a Semana Europeia da Mobilidade, entre 16 e 22 de Setembro. (fonte: Agência Portuguesa do Ambiente)

Almada - município que aderiu logo em 2000 - teve, ao longo da década, importantes alterações na sua rede viária. Alterações que são consequência da implementação de um Plano de Acessibilidades (um estudo pioneiro no país, elaborado em 2002, que tem vindo a ser implementado de forma faseada, e com vicissitudes várias) e de um projecto que vinha dos anos 90: o Metropolitano do Sul do Tejo - ao qual me tenho referido diversas vezes, por exemplo aqui.

O parque de estacionamento da Avenida Bento Gonçalves era, à partida, um dos que seriam construídos - pelo "dono da obra" (Governo) ou pela concessionária (MTS) - para "apoiar" a rede de metro de superfície. No entanto, após anos em que o processo se arrastou sem que os parques fossem construídos, a Câmara de Almada decidiu assumir a implementação desses equipamentos.
(Todo este processo foi longo, complexo, não se resume em meia dúzia de linhas, e merece ser tratado com mais rigor e pormenor - e com recurso aos documentos publicados e disponíveis - noutra ocasião.)

O parque inaugurado agora (a 21 de Setembro de 2010), tem 2 pisos e capacidade para cerca de 140 viaturas. (Ver mais informação no site da ECALMA - Empresa Municipal de Estacionamento e Circulação de Almada, entidade encarregue da gestão do equipamento).

Até ao final do ano devem entrar em funcionamento novos parques em: rua Luísa Sigeia (transversal à Avenida Bento Gonçalves, perto do Centro Sul); Laranjeiro (junto ao Mercado); Rua Capitão Leitão (por baixo do edifício da antiga Bepaliz, traseiras do Quartel dos Bombeiros); Campo de São Paulo (Almada Velha, nas imediações do antigo Teatro Municipal).

Assim que tiver mais novidades sobre o(s) assunto(s), conto-as. É uma promessa. Mas, se me distrair ou me esquecer, estejam à vontade para me lembrar. Não estou aqui para outra coisa que não seja servir (com informação) os meus caros amigos.

(sorriso e piscadela de olho, mas por extenso)

quarta-feira, setembro 08, 2010

Amigos no Avante!


Este ano não vou escrever muito sobre a Festa do Avante. Já o tenho feito, em edições anteriores do evento. Todos os anos a Festa é grande, todos os anos é muito boa. Não me quero repetir.

Quero, antes, contar uma pequenina estória acontecida este ano, durante o comício de domingo.

Como se sabe - e quem não sabe, não sabe o que perde - a Festa do Avante é, entre muitas outras coisas, um local para reencontrar amigos, ou para fazer novas amizades. Assim é, assim foi: reuni-me com pessoas que já não via há muito tempo e fiquei a conhecer pessoas novas.

Mas, para quem vai pela primeira vez à Festa do Avante, aquele é um local de deslumbramento. Tem sido assim com todos os meus amigos que conhecem a Festa pela primeira vez: invariavelmente (inevitavelmente?), acabam por concluir que, ainda que andem por muitos ambientes festivos, ali existe uma "qualquer coisa" que não encontram em mais lado nenhum.

Não a encontram, porque não se encontra a não ser ali mesmo! É um ambiente de camaradagem ímpar. Mais vale experimentá-lo que julgá-lo (mas julgue-o quem não quer experimentá-lo). E essa "qualquer coisa" é que é linda!

(Sim, a Festa é bonita, é poética, é comovente. Dá vontade de citar Camões, Pessoa e até Bocage. Mas, principalmente, faz acreditar que um novo mundo é possível!)

No momento mais exaltante da Festa - o comício de domingo à tarde - aconteceu a história que hoje vos quero contar.

Uma história banal, aviso já.

Andava eu pelo meio das pessoas a fazer fotos, quando ouço atrás de mim um jovem a pedir-me para o fotografar. Ora, pedidos desses ouve um gajo às centenas e, na maior parte das vezes, vêm de pessoal que, dali a umas horas já nem se lembra que andou a tentar ser fotografado. Assim, a minha primeira reacção foi recusar, como de costume.

Mas depois olhei melhor. E ouvi melhor. E combinámos:

- Eu e o meu amigo é a primeira vez que vimos ao Avante e não temos nenhuma recordação!
- Mas como é que eu vos posso mandar a foto?
- Vais ao facebook e procuras pelo meu nome. A imagem já a tens.

Era razoável e exequível. O problema é que não tomei logo nota do nome. E acabei por me esquecer. Portanto, tenho agora esta fotografia de dois amigos na Festa do Avante - foto que fiz apenas para lhes entregar - mas não tenho maneira de lhas entregar.

Se alguém que passe pelo meu blogue vir esta imagem e os conhecer, pode fazer-me o favor de lhes dizer que a foto está aqui e que a podem "roubar" à vontade? Agradeço...

Sei que as probabilidades não jogam a favor da resolução deste imbróglio. Mas "milagres" acontecem todos os dias na internet, não é? Portanto, porque não há-de acontecer mais um, aqui e agora?

quinta-feira, setembro 02, 2010

"Vinte anos, vinte festas" - artigo do Sul Expresso sobre a Festa do Avante de 1996


Em 1996 a Festa do Avante comemorava 20 anos (começou em 1976), cumpria a 20ª edição (seriam 21, mas a de 1997 não se realizou, por falta de terreno) estava pela sétima vez na margem sul do Tejo (o primeiro ano na Quinta da Atalaia foi 1990)... e, com tanta História, não deixava de ter grandes novidades para apresentar!

Consolidadas as infra-estruturas no terreno, faziam-se, nesse ano, algumas "experiências" com a disposição dos pavilhões (ver texto abaixo: reportagem de Adelaide Coelho para a Revista Sem Mais) e abria-se ao público, pela primeira vez, uma zona até então "interdita": o espaço contíguo à Baía do Seixal, com um pequeno lago dentro do recinto da Festa. Mas a grande e relevante novidade seria a actuação de uma orquestra sinfónica no Palco 25 de Abril. A experiência foi tão boa que se repete até hoje: o palco principal abre sempre, na sexta-feira, com música sinfónica!

Neste texto para o Sul Expresso, eu (que era um assíduo frequentador da Festa - nunca falhara uma, desde 1987) tentei, como me competia enquanto jornalista, escrever de forma "distanciada", sem demonstrar as minhas simpatias. Daí alguma ironia patente na peça... Talvez até demais, reconheço.

Curiosidade suplementar: a fotografia que ilustra este artigo é de uma década antes, na Festa do Avante de 1986 - a última realizada no Alto da Ajuda. É uma imagem captada por mim, no anfiteatro do palco principal, com uma máquina fotográfica Praktika MTL5 utilizando película ORWO e revelada no laboratório de fotografia do Centro Cultural de Almada.

"Os Coloridos da Festa Vermelha" - artigos da revista Sem Mais, sobre a Festa do Avante de 1996





No 20º aniversário da Festa do Avante (Setembro de 1996), a revista Sem Mais, de Setúbal, dedicou 4 páginas ao assunto. Uma reportagem de Adelaide Coelho - Os coloridos da festa "vermelha" - , e uma caixa - Vinte anos, vinte festas - com alguns acrescentos da minha lavra (aproveitando um texto que escrevi, na mesma ocasião, para o quinzenário almadense Sul Expresso).

As fotografias aqui publicadas são todas minhas, de edições muito anteriores da Festa do Avante (1988 e 1989, na Quinta do Infantado, Loures).

terça-feira, agosto 31, 2010

Almada, 31 de Agosto de 2010


Sem comentários, mas com uma nota de índole pessoal. É que, há uns tempos, fui acusado por pessoas ligadas à instituição proprietária da viatura que, na foto, está a transgredir o artigo 49º do Código da Estrada (cf. alínea f), de ser um tipo que "não cumpre regras" (e nem se deram ao trabalho de explicar a que "regras" se referiam...).

"Bem prega Frei Tomás", apetece-me dizer...

domingo, agosto 29, 2010

Não é exactamente uma reentrada... porque também eu não saí!

É verdade que não tenho actualizado o blogue. Há tantas outras coisas para fazer, e até tantos outros sítios onde escrever!...

Portanto, também eu não estou a "reentrar", visto que não saí. Nem agora nem antes. Há é muita gente distraída, nisto e no resto...

E pronto, agora - despachados os recados de índole mais pessoal - apresento-vos um artigo de opinião escrito por Bruno Dias e publicado no semanário Notícias de Almada. Onde se fala de acção política, de liberdade de expressão, de Festa do Avante e do mais que terão oportunidade de ler, se assim vos aprouver.
Eu vou ali ao facebook e já volto, com outra peça (e que linda peça será...) do aludido semanário.

domingo, agosto 08, 2010

PORTUGAL PROFUNDO


Desenho de Teresa Câmara Pestana

Mais trabalhos da mesma autora em
http://www.gambuzine.com/

sexta-feira, julho 30, 2010

Tipo, uma homenagem a António Feio

António Feio (Lourenço Marques, 6 de Dezembro de 1954 — Lisboa, 29 de Julho de 2010).

Num país como Portugal, onde o génio humorístico popular é fértil mas se fica pelo nível da anedota, aparecem, de longe em longe, personalidades que agarram nessa característica lusa e a elevam a Arte. O actor (o grande actor) António Feio, que agora nos deixou, era uma dessas raras personalidades.

Recordo-o aqui numa série de 2001/2002: Paraíso Filmes (que considero ser do melhor que se fez em Portugal, em termos absolutos - e não apenas no género "humorístico"). António Feio fazia, entre outros personagens o do realizador residente da "produtora independente da Trafaria" E yá, era tipo o meu presonagem preferido.

Um longo e sonoro aplauso! Até sempre.

quarta-feira, julho 21, 2010

Festa do Avante de 2010 - uma antevisão








A lista, por ordem alfabética e com ligações para os sites respectivos: A Naifa, Abrunhosa & Comité Caviar, Adriana, Ana Laíns, António Chaínho com Isabel de Noronha e Pedro Moutinho, Baile Popular (banda de João Gil e João Monge), Bernardo Sasseti Trio, Brigada Victor Jara, Bunnyranch, Cacique 97, CambaTango, Catarina dos Santos, Claud, Dany Silva e Celina Pereira, Dazkarieh, Demian Cabaud com Quarteto Leo Genovese, Deolinda, Diabo na Cruz, Dias da Raiva, Eina, Expensive Soul, La Rumbé, Luísa Basto, Monte Lunai, Muxima (Janita, Filipa Pais, Ritinha Lobo, Yami), Orquestra de Jazz de Matosinhos com Kurt Rosenwinkel, Peste & Sida, Ricardo Pinheiro Sexteto, Roberto Pla All Stars, Sebastião Antunes e Quadrilha, Stonebones & Badspaghetti, The Flawed Cowboys, Tim e Companheiros de Aventura, Tornados, Us & Them

Fados, ritmos latinos, tangos, punk rock... Como habitualmente, o difícil será escolher entre tanta diversidade. E isto é só a primeira lista (acabada de divulgar pela organização da Festa), com os nomes "principais". Muito mais haverá a descobrir, nos dias 3, 4 e 5 de Setembro.

O site oficial da Festa do Avante é

http://www.festadovante.pcp.pt/

Encontram esta lista, com informações mais detalhadas, em

http://pcp.pt/node/245004

segunda-feira, julho 19, 2010

Uma entrevista com Adelino Moura, em 1995



Havia, na imprensa regional dos anos 90 quem fizesse jornalismo a sério. Só que, num meio pequeno e com redacções com pouca gente (não tão pouca como hoje - mas o que se faz hoje na imprensa regional não serve de exemplo para nada) os jornalistas não tinham grandes hipóteses de se "especializar". Tinham de ser pau para toda a obra.

Eu vinha da área da Cultura - onde tive formação específica, mas também suficientemente generalista para me sentir à vontade com assuntos diversificados. E, felizmente, comecei a minha carreira profissional na rádio. Felizmente porque aí, na rádio, tinhamos mesmo que nos "desenrascar" - muitas vezes em directo, sem rede - com os assuntos mais imprevistos.

Cheguei à imprensa escrita em 1994 (na revista Sem Mais) mas comecei mais a sério em 1995, no quinzenário Sul Expresso.

Aí fazia o tal trabalho "generalista" (embora ainda me deixassem dar muita atenção à cultura - coisa que já não aconteceu a partir de 1998, noutro jornal): tanto fazia investigação sobre os projectos do Governo para a travessia do Tejo ou sobre a onda de violência racista que vinha do início da década e que se foi agravando, ou sobre o processo de legalização extraordinária de imigrantes (que deixou muita gente de fora), ou sobre o longo e conflituoso desmantelamento da Lisnave, como fazia reportagens sobre o 1º Congresso dos Algarvios da Margem Sul, a reprovação do PDM de Almada e posterior aprovação com "amputações", ou a novidade que era, nesse tempo, o anteprojecto para o Metro Sul do Tejo.

E, se fosse preciso, até fazia peças da secção mais especializada (a que tinha jornalistas que só trabalhavam nessa área): o desporto!

A imprensa regional tinha realmente bons profissionais: polivalentes, flexíveis e com grande arcaboiço.

Como é óbvio, ao trabalhar em rádios e jornais, tive a oportunidade de entrevistar muita gente. Algumas dessas entrevistas eram de circunstãncia, muitas deles feitas por telefone. Mas, quando surgia a possibilidade de falar olhos nos olhos com o entrevistado o "repórter" acabava muitas vezes por ter conversas longas, interessantes e gratificantes.

Uma das entrevistas que mais gostei de realizar foi esta, com o histórico presidente do Almada Atlético Clube, Adelino Moura. Foi muito fácil dialogar com aquele homem que, sendo um líder com carisma, não precisava de fazer poses, armar-se em importante ou ter ares de sobranceria para dizer o que pensava. E dizia-o frontalmente, sem papas na língua mas sem entrar em insinuações ou armar "peixeirada".

A página e meia de texto aqui reproduzida é o que foi publicado na edição do Sul Expresso de 7 de Junho de 1995 - o resumo de uma conversa com cerca de 2 horas, muito estimulante e enriquecedora.

O mote para a entrevista era a subida do Andebol sénior do Almada à primeira divisão nacional. Mas aquele era também um tempo de grandes investimentos em estruturas desportivas. O Almada tinha já relva no seu estádio do Pragal (junto ao Cristo-Rei), mas não tinha ainda pavilhão próprio. Esse era, aliás, o próximo grande objectivo "material" de Adelino Moura. (E suponho que por isso mesmo, o equipamento que foi construído anos mais tarde se chama, precisamente, Pavilhão Adelino Moura.)

Inevitavelmente, falou-se muito de números, de verbas, de subsídios. No entanto, o que mais me impressionou foram as opiniões de Adelino Moura sobre o papel do Desporto como escola de valores humanos. Devia ser uma coisa natural, óbvia... mas já naquele tempo (os anos 90 foram, também, a década da euforia neoliberal) não o era!

O "meu entrevistado" não ignorava isso. E tinha ideias muito interessantes, com as quais não tive nenhuma dificuldade em concordar (digo-o agora - naturalmente não o disse naquele momento, nem tinha nada que o dizer, pois estava ali como jornalista e o jornalista não deve nunca confundir notícia com opinião).

Cito:

«Os clubes, pelo menos os pequenos, devem viver em função da conjugação de boas vontades e com o objectivo não apenas de competir mas de ajudar a formar desportistas e cidadãos. Um clube como o Almada deve ter também uma função social»

«Acho mal que se gastem dinheiros públicos em coisas efémeras (...) A autarquia não nos dá dinheiro para pagar despesaas correntes. Tudo o que recebemos da CMA é para ser aplicado em obras»

«o Almada, devido à sua proximidade com Lisboa, não tem outra hipótese a não ser formar os seus próprios jogadores. Tentamos ganhar alguns para a equipa principal e, por uma questão de necessidade, vender outros a clubes que nos possam proporcionar receitas. Quando isto funcionava em moldes amadores eu não tinha esta opinião, mas agora os tempos são outros e temos de ser realistas»

«as coisas andam muito deturpadas: cairam no meio desportivo alguns "paraquedistas", indivíduos sem conhecimentos de desporto. Chamam-lhes gestores e talvez sejam bons gestores nas suas empresas. Mas o desporto propriamente dito não tem nada a ver com a gestão de uma empresa: estar a encher 30 mil garrafas por dia ou estar a arranjar automóveis não é o mesmo que ver a bola bater na trave ou conhecer de perto os jogadores.»

«Em Portugal, como se sabe, há 3 clubes grandes; tão grandes que até são os maiores nas dívidas. Este modelo não serve aos clubes mais pequenos. Se começam a ceder à pressão dos sócios e entram em grandes despesas vão inevitavelmente acabar por falir»

Eram "prognósticos" do presidente do Almada Atlético Clube, em 1995. O decorrer do jogo acabou por lhe dar razão.

Nota de rodapé: Parece que esta entrevista chegou a incomodar algumas pessoas (porque, como escrevi acima, Adelino Moura não fugiu às perguntas e até acrescentou matéria sobre a qual eu, por desconhecimento, não perguntei nada); no entanto alguns dos meus colegas - os especialistas em desporto - criticaram-me por alguma "ingenuidade" nas questões. Passados 15 anos, tenho um palpite que a minha ingenuidade terá consistido em não perguntar nada sobre as relações entre o andebol do Almada e o do Ginásio Clube do Sul. Sabem que mais? Ainda bem que fui ingénuo: assim posso apresentar uma peça menos datada, com mais substãncia e menos tricas e mexericos! :)

segunda-feira, julho 12, 2010

Sobre teatro em Almada - o "moral" e o Azul


Está a decorrer mais uma edição do Festival de Teatro de Almada. É a 27ª e realiza-se nas datas habituais: entre 4 e 18 de Julho.

O festival é o ponto alto da relação da Companhia de Teatro de Almada (CTA) com o público da cidade (e com todo o outro...). Mas este ano realiza-se no meio de alguma polémica sobre o "Teatro Azul" - a sala, municipal, cedida à CTA, onde esta desenvolve o seu trabalho.

Há quem questione a gestão daquele equipamento. Há quem pergunte porque está uma sala municipal "entregue" a uma única companhia. E há mesmo quem diga que a CTA não tem o direito de ocupar aquele espaço, e que, portanto, devia sair para dar lugar a outros.

A gestão da sala é assunto cujo esclarecimento compete à Câmara (proprietária) e à CTA (que usufrui da dita) - e suponho que já o têm feito.

Quanto à legitimidade que a Companhia tem para ocupar aquele espaço, penso que posso dar uma ajuda: tem legitimidade, moral (digamos assim), pois a ideia de construir aquele edifício cultural, e o empenhamento para que fosse construído, partiu, precisamente, deles!

Nesta página do Jornal da Região de Almada - de 27 de Junho de 2001 - Joaquim Benite (director da CTA) mostrava a maquete do que viria a ser o futuro "Teatro Azul". Na entrevista (feita por mim, sim...), Benite falou muito de teatro e das suas relações com o jornalismo, ou da forma como pode ser, também, desencadeador de "transformações na sociedade", enquanto "prática moral" - esta citação é de outra entrevista com Benite, mas aplica-se aqui - que tem o objectivo de "inquietar as pessoas, fazê-las perceber que há mais horizontes para lá da vida prática, quotidiana", e não deixar acomodar ninguém ("as pessoas" e "o poder") porque "a arte é problema".

Benite não falou prolongadamente sobre o projecto da futura sala (talvez porque, naquele contexto, não me pareceu interessante desenvolver muito o tema). Mas o pouco que aqui é referido - e a História contada para contextualizar o assunto - parece-me ser já o suficiente para, pelo menos, esclarecer a dúvida (se é que se trata mesmo de uma dúvida) sobre a relação intrínseca que existe, desde a primeira hora, entre o Teatro Azul e a Companhia de Teatro de Almada. A sala é municipal porque foi construida pela Câmara, e é "da" CTA porque esta tem a "propriedade" intelectual (não sei se é o termo jurídico adequado, mas de facto é mesmo assim) do projecto.

Ignorar isto é mais que falta de cultura, ou falta de memória: é falta de honestidade política. E é, portanto, imoral.

sábado, julho 10, 2010

1980: o ano em que a Festa do Avante foi em Julho


A Festa do Avante de 1980 foi há 30 anos. Dito desta forma pode parecer uma coisa óbvia: entre 1980 e 2010 decorreram trinta anos. Mas não é bem assim. Porque a Festa do Avante de 1980 não se realizou na data habitual (primeiro fim de semana de Setembro), mas sim nos dias 11, 12 e 13 de Julho. Está, portanto, a fazer 30 anos agora mesmo, no presente fim de semana de Julho.

Suponho que o adiantamento da data estará relacionado com o facto de se terem realizado nesse ano eleições legislativas (em Outubro) e presidenciais (em Dezembro, primeira volta). Mas suponho, apenas - não tenho informação mais objectiva sobre o assunto.

Dessa Festa do Avante de 1980 recordo, sobretudo, o grande espectáculo no Palco 25 de Abril, com Chico Buarque, Simone, Edu Lobo, o MPB4...

No entanto, porque as memórias são de acontecimentos de há três décadas, prefiro não me fiar muito nelas. Vejamos antes o que escreveu a imprensa da época sobre o que iria ser essa edição da Festa do Avante!


Notícia do Diário de Lisboa de sexta-feira, 11 de Julho de 1980.
"A Festa do Avante, órgão central do Partido Comunista Português, começa ao fim da tarde de hoje. Às 19 horas - e sabe-se como os comunistas são organizados... - os portões da Festa, no Casalinho da Ajuda, abrir-se-ão. E vai ser um nunca mais de gente a entrar, como aconteceu nos anos anteriores (500.000 entradas em 1979).

O jornal destacava a programação do palco principal, referindo também alguns dos outros palcos e auditórios. E, mais adiante, referia a exposição sobre o 4º centenário da morte de Luís de Camões e o lançamento de uma edição especial de "Até Amanhã, Camaradas", de Manuel Tiago, ilustrado por Rogério Ribeiro.


Noticiava "o diário" na terça-feira, 8 de Julho: "ampliando e enriquecendo a experiência do ano passado, também este ano no Pavilhão Central da Festa haverá uma exposição sobre «Arte popular e Património Cultural».

Uma semana antes da Festa, o Avante divulgava: "a música que se faz nas várias regiões do país estará presente na zona central da Festa, através da actuação de coros, ranchos e bandas"

Vinham de todo o país. E Almada também estava presente, com "Tocadores de Gaitas de Foles e do Grupo de Arte Popular, ambos do Centro Cultural de Almada"

(Note-se, a propósito, que a Banda da Incrível Almadense também actuou, durante os dias desta edição da Festa, mas noutro contexto - por exemplo, na sexta-feira, no Palco da Emigração)

Em 1980, a referência na imprensa cultural de "artes e espectáculos" era o semanário Se7e. Que, na edição de dia 9 de Julho, dedicou uma página ao evento.

"A Festa do Avante, anualmente realizada desde que a Revolução dos Cravos a tornou possível, constitui um acontecimento com a particularidade de transcender o círculo ideológico da sua organização, atraindo pessoas de variadas tendências. O programa deste ano estende-se por três dias (11, 12 e 13 de Julho) e inclui teatro, cinema, música, desporto, circo, exposições, colóquios e outras manifestações de carácter cultural e recreativo.

O se7e destacava a ainda pouco conhecida Simone (que teve a sua apresentação ao público português precisamente nessa Festa do Avante): "Simone é uma das presenças brasileiras na Festa do Avante. Ex-campeã do Mundo de basquetebol, não restam grandes dúvidas de que canta melhor do que jogava"

Ao palco instalado no Pavilhão Central (não havia ainda Avanteatro) vieram esse ano dois encenadores da RDA apresentar um trabalho com actores do Teatro de Campolide (assim se chamava, ainda, a actual Companhia de Teatro de Almada) sobre cenas de "A Mãe", de Bertolt Brecht.


Escrevia o Avante de dia 3 de Julho:

"Dois destacados encenadores da República Democrática Alemã" (Peter Kleinert e Peter Schrot, do Palastheater, de Berlim) "especialistas na obra de um dos mais importantes homens de teatro do nosso século - Bertolt Brecht - deslocaram-se a Portugal no âmbito da Festa do Avante e prepararam um espectáculo com actores do Grupo de Campolide, baseado em cenas e canções da conhecida peça de Brecht «A Mãe», que se destina a ser apresentada no auditório A do Pavilhão Central na noite do próximo sábado." (...)

"O espectáculo tem estado a ser preparado no Teatro da Academia Almadense (sede do Grupo de Campolide que, aliás, vai brevemente transformar-se em Centro Dramático de Almada - Companhia Profissional, aprofundando assim ainda mais o seu processo de radicação naquela importante zona operária da margem sul) e quando for apresentado ao público terá completado um total de 11 ensaios em apenas 5 dias (...)

sábado, junho 26, 2010

O Metro Sul do Tejo, ou mais uma crónica de um país onde tudo se faz muito devagarinho

O primeiro protocolo entre governo e autarquias para a implementação do Metropolitano do Sul do Tejo (MST) foi assinado há 15 anos (precisamente, no dia 18 de Abril de 1995). E previa desde logo o traçado actual, mas muito maior extensão de linhas - ainda na primeira fase devia chegar ao Barreiro e à Costa de Caparica. Não era o "metro de Almada" (como há quem lhe chame hoje). Era, e é, um projecto que se pretende estruturante para as acessibilidades (ou a mobilidade, para usar um palavrão mais na moda) das populações do "arco ribeirinho do Tejo" (concelhos de Almada, Seixal, Barreiro e Moita). Só começou a funcionar em 2008.

A Câmara de Almada, que sempre esteve na vanguarda deste projecto, tinha lançado a ideia por volta de 1985 (faz agora 25 anos, e uma década antes do primeiro protocolo). Não sei exactamente porque só dez anos mais tarde um governo e as autarquias locais chegaram a acordo. Mas lembro-me, ainda relativamente bem, desse primeiro trimestre de 1995, quando o processo parecia começar, finalmente, a entrar nos carris.

Enquanto jornalista do quinzenário Sul Expresso fui acompanhando esse assunto. Eis a cronologia dos acontecimentos de 1995, tal como apareceram nas páginas daquele periódico.

A primeira referência ao assunto aparece em Fevereiro desse ano. "A assinatura do contrato de fornecimento do Anteprojecto da Rede Base do Metropolitano Ligeiro da Margem Sul realizou-se no dia 29 de Fevereiro no edifício da Presidência da Câmara Municipal do Seixal", com a presença dos municípios envolvidos - Seixal, Moita Barreiro e Almada - do então secretário de Estado dos Transportes, Guilhermino Rodrigues, e de um representante do consórcio francês liderado pela Semaly-HP-Pret, responsável pela elaboração do "anteprojecto".

Este anteprojecto era, de facto, um estudo de viabilidade técnica e económica, uma vez que, segundo o Sul Expresso, o consórcio iria "efectuar a descrição dos previsíveis financiamentos, referindo vantagens e inconvenientes de cada, para além dois montantes de participação atribuídos a cada entidade que venha a envolver-se no referido projecto", bem como "desenvolver e complementar os aspectos geológicos e topográficos de um estudo da viabilidade da extensão da rede até ao concelho da Moita". (Artigo da jornalista Ana Isabel Borralho).

Note-se, então, que esse primeiro documento já previa a ligação - logo numa fase inicial - dos concelhos de Almada, Seixal e Barreiro, com posterior ligação à Moita.

Isso mesmo adiantava o Sul Expresso (em artigo meu, e julgo que com alguns conteúdos em "primeira mão"), na edição de 29 de Março. O jornal divulgava a planta da rede prevista, tal como fora apresentada (mas não muito divulgada) a 20 desse mesmo mês. "O estudo de viabilidade técnica e económica foi concluído e entregue ao ministro Ferreira do Amaral. No passado dia 20 foi publicamente apresentado (...) em cerimónia que contou com a presença do coordenador do estudo, Fernando Nunes da Silva".

Falou-se de números, nessa apresentação. Segundo a presidente da Câmara de Almada, Maria Emília de Sousa, esperava-se "um investimento da parte do Governo de 45 a 60 milhões de contos, com recurso a Fundos Comunitários" e o restante investimento ficaria "a cargo da empresa que vier a contruir e a explorar a rede". Note-se, então, que desde logo tinha ficado assente que a empresa que construísse a rede seria a mesma que a iria explorar. Dito de outra forma: quem explora o serviço teria a "obrigação" de construir os equipamentos.

Apontavam-se também datas. A primeira fase, "fazendo a ligação Barreiro/Almada/Pragal" devia estar concluída em 1999. Ou mesmo antes disso (por volta do final de 1997) porque "a tecnologia utilizada permite a abertura de troços quilómetro a quilómetro" , como garantia o coordenador do estudo de viabilidade.

No dia 5 de Abril, a Câmara de Almada aprovava o estudo, em sessão pública, "por unanimidade e com direito a palmas" - como reportava o Sul Expresso (Ana Isabel Borralho) - e com declarações de voto a favor do projecto por parte de vereadores da CDU e do PSD. No que dizia respeito a contas, "caberá às câmaras pagar 20%, ficando o governo, através da CP, responsabilizado em 80%, ou seja: 150 mil contos a CP e 7.500 contos cada câmara".

Faltava só formalizar a parceria governo-autarquias, com a assinatura do "protocolo para o desenvolvimento do metropolitano ligeiro na margem sul do Tejo". Esse momento tão aguardado chegou a 18 de Abril de 1995, nos Paços do Conselho da Câmara Municipal do Barreiro. E eu tive a sorte, ou o privilégio de fazer a cobertura desse acontecimento que se supunha histórico (na verdade acho que tive mas foi a lata de me oferecer - e insistir muito - para fazer esse "serviço").

Com praticamente tudo dito por parte das autarquias e dos autores do estudo, esperava-se muito da intervenção do então Ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral. E ele não defraudou as expectativas. Garantiu a disponibilidade do Governo para apoiar a concretização da obra pública. Mas fez mais. Fez uma grande declaração de intenções sobre a importãncia de investir no desenvolvimento dos caminhos de ferro para "revolucionar os meios de transporte", de forma a "transportar mais pessoas, mais frequentemente, mais utilmente e com maior comodidade".

Poucos meses mais tarde, mudava o Governo. Com o novo Executivo, todo este trabalho volta para a gaveta. E as populações do "arco ribeirinho do Tejo" continuam (até hoje!) a ter de fazer percursos estranhos e pouco lógicos para se deslocarem de transportes públicos entre dois grandes centros urbanos, ainda por cima tão próximos, como Almada e Barreiro!

Passam 4 anos. Em 1999 (ano que se previa ser o do arranque da exploração do Metro Sul do Tejo!) é assinado um novo protocolo. Mas é preciso aguardar ainda mais 2 anos até que, em 2002, a obra é finalmente adjudicada... para ficar concluída seis anos mais tarde (mas só numa ínfima parte relativamente ao projecto de 1995)!

Tudo isto já passou à História, dir-me-ão.

Pois passou. Mas era bom que a gente aprendesse alguma coisa com a História. Para quê? Para não repetirmos asneiras do passado, por exemplo. Não é uma boa razão?

Metro Sul do Tejo - o protocolo de 1995





Em 1995, Governo e autarquias de Almada, Seixal, Barreiro e Moita, assinaram o primeiro protocolo para a implementação do Metropolitano de Superfície do "arco ribeirinho do Tejo". Estas páginas são o "fac-simile" do protocolo então assinado, e que previa a concretização do projecto até 1999, com percursos entre Almada, Seixal e Barreiro (numa primeira fase) com posterior extensão ao concelho da Moita. O protocolo foi assinado nos Paços do Concelho da Câmara Municipal do Barreiro, no dia 18 de Abril de 1995, pelos presidentes das 4 câmaras envolvidas, e por: Presiudente do Conselho de Gerência da CP - Caminhos dse Ferro Portugueses; Presidente do Conselho Directivo do Gabinete do Nó Ferroviáro de Lisboa, Coordenador do Grupo de Trabalho criado pelo Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações. (Optei por rasurar as assinaturas na última página, por motivos que me parecem óbvios.)

segunda-feira, junho 21, 2010

José Saramago, excertos de uma entrevista em 1986


Em Junho de 1986, a revista Contraste publicava uma entrevista feita por Clara Ferreira Alves a José Saramago. O escritor tinha já duas obras muito aclamadas - Memorial do Convento e Jangada de Pedra - mas encontrava-se ainda muito longe do Prémio Nobel. Estava, se assim se pode dizer (e suponho que sim) a dar os primeiros passos da caminhada que o havia de lá levar.

Já tinha 50 anos de carreira. Mas o reconhecimento tardara a surgir. Nesta entrevista, Saramago falou principalmente sobre os seus métodos e as suas convicções enquanto escritor. Pouca gente se lembra desta publicação e menos gente ainda se lembrará deste texto. Por isso mesmo pareceu-me boa ideia divulgá-lo, com a devida vénia.

Começando pelo princípio...

«Lembro-me da minha primeira obra invisível, duplamente invisível. (...) Entrávamos no cinema para ver os cartazes - coisas que dantes se faziam e hoje não! - e lembro-me de que eu "inventava" (...) as histórias dos filmes através dos cartazes, sem os ter visto.»

«Aos 25 anos publiquei um romamce. Foi o editor que sugeriu o título e chamava-se, horrorosamente, Terra de Pecado, o que estava na linha dos filmes do Royal. E não era um romance à francesa, de cento e tal páginas, não, era um romance com trezentas e tal páginas. Acabou a sua existência nas padiolas, que, naquele tempo, tiveram a sua função cultural. Você já não se lembra disso.»

Clara Ferreira Alves (C.F.A.) - E quem é que pecava? A senhora?
José Saramago (J.S.) - A senhora, é evidente! Todas as senhoras pecam, com senhores, às vezes com outras senhoras... (Risos). Não é que me envergonhe de Terra de Pecado, mas achei que o livro não tinha nada que fazer na minha lista bibliográfica.

C.F.A. - Já pensou em reescrevê-lo?
J.S - Jamais reescreveria um livro. Um livro é um livro, pertence ao tempo da pessoa que o escreveu nesse tempo. Não posso retocar a minha imagem de 1947.

(...)

C.F.A - Esteve tanto tempo parado porquê?
J.S - É difícil responder. Se quisesse compor a minha imagem diria que a primeira publicação foi precipitada, que passei esses anos entregue à tarefa de viver primeiro para escrever depois. Mas é claro que não foi nada disso, não acredito que ninguém vá viver primeiro para escrever depois, é léria. (...) Ao viver o suficiente acaba-se por se ter qualquer coisa para dizer, que acho que sou capaz de dizer. Mas toda a minha vida literária considero-a fruto de circunstãncias. Se por volta dos 39, 40 anos não tivesse tido determinado choque sentimental talvez não tivesse escrito Os Poemas Possíveis. Com outro choque sentimental, talvez não es tivesse escrito assim.

(..)

C.F.A. - Em 75, o José Saramago...
J.S. - ... era director-adjunto do Diário de Notícias, fui-o de Abril ao 25 de Novembro e o escritor que eu hoje sou também resulta muito das circunstâncias. Se não tivesse vindo o 25 de Novembro, talvez não tivesse escrito o Levantado do Chão, nem o Memorial do Convento, nem O Ano da Morte de Ricardo Reis, embora seja impossível garantir isto. O escritor que hoje sou é um produto do 25 de Novembro, que me colocou até hoje na situação de desempregado. Achei-me, naquela altura, posto na rua, sem esperanças de encontrar emprego porque o meu empenhamento no DN me tinha queimado. (...) Então disse para mim: tens uns livritos escritos, tens a necessidade de escrever certas coisas, ou continuas a procurar emprego e a ser um escritor de fim-de-semana, ou então arricas.

(...)

C.F.A - Com que idade começou a ter uma consciência política?
J.S. - Com 20 e alguns anos, perto dos 30. Claro que empresta-se a casa para uma reunião da qual nada se sabe, e depois vai-se fazendo a ligação à prática de certos actos ditos subversivos, até chegar à militância. É melhor não falar porque nestas coisas seria uma história como as outras e há sempre alguém que me poderia dar lições de modéstia e descrição.

C.F.A. - O Saramago é um escritor que conheceu um êxito raro em Portugal e lá fora, sobretudo com Memorial e repetido em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Esse êxito não ameaça a sua modéstia?
J.S - Se o êxito tivesse vindo mais cedo talvez tivesse achado que tinha muito tempo de vida para gozar a falta de modéstia. Sou tão pouco modesto como era dantes, não creio ser um exemplo de modéstia. Só que como continuo um pouco desligado das coisas, posso fazer as vezes de uma modéstia praticante, militante. Acontece que não tenho as formas óbvias de vaidade. Talvez tenha outras. O que me ajuda a equilibrar tudo isto é a consciência muito aguda da relatividade das coisas, da sua pouca importância. Por outro lado, sinto a escrita, a actividade literária, como uma espécie de exercício na corda bamba, onde depois de um êxito nos espera o falhanço. E também porque para mim o livro mais importante é sempre o último, o que está mais próximo. (...) Amanhã pode sair um livro que não seja tão bom e lá vão dizer que Perdigão perdeu a pena, depois de ter subido tão alto.

C.F.A. - Podem dizer o contrário. Como é a sua relação com a crítica literária?
J.S - Tenho íntima consciência do que faço, não toda a consciência da bondade do que faço, embora possa dizer que este livro é melhor do que aquele. Estava tão certo da minha necessidade de escrever algumas coisas que a opinião alheia só me poderia trazer ou a confirmação do que achava ou coisas que não me interessavam. Claro que gosto que me façam festas.

C.F.A. - E como criador, não tem as angustiazinhas existenciais?
J.S. - Não me vejo ao espelho a escrever e não gostaria que alguém estivesse a olhar para o espelho onde eu estivesse reflectido a escrever. Não mitifico a escrita por algumas razões. Por exemplo, gosto tanto de pintura e sou incapaz de fazer um boneco, um desenho. Não mitifico, por isso, o pintor, ou o músico. O mesmo para o escritor.

(...)

C.F.A. - Escreve à máquina?
J.S. - Numa velhíssima Hermes.

C.F.A. - Já pensou em escrever num computador?
J.S. - Já me falaram nisso mas eu preciso da minha máquina, daquela. Está tão velha que quando vai para a oficina o mecânico tem de fabricar as peças que faltam porque já ninguém as fabrica. Deve ter aí uns 40 anos. Já tem as teclas marcadas, não marca espaços...

C.F.A. - Escreve noite dentro? De manhãzinha?
J.S. - Não escrevo a altas horas, no silêncio da madrugada. Escrevo a horas normais, quando uma pessoa que tem todo o tempo para trabalhar escreve. Não faço noitadas. Tenho um método de trabalho regular e tenho a impressão de que resulta.

C.F.A. - É portanto metódico...
J.S. - Metódico e pontual.

C.F.A. - Escreve em casa, nos cafés?
J.S. - Nos cafés, nem pensar nisso! Só sei escrever em casa no ambiente da casa, com as coisas nos seus lugares, a ouvir os rumores do prédio, da rua, com a luz do dia. Em férias sou incapaz de escrever uma linha. Sento-me de manhã à máquina e não sai nada.

C.F.A. - Nunca sentiu que era incapaz de preencher a célebre página em branco?
J.S. - Insisto o meu bocado e se não resulta não insisto mais. Outra solução é ir-me deitar. Durmo um quarto de hora, meia hora, e o problema resolve-se por si enquanto estou a dormir.

(...)

C.F.A. - Durante a adolescência, tendo nascido num ambiente nos antípodas do ambiente intelectual, já tinha consciência da sua diferença?
J.S. - Isso acontece sempre na adolescência, ter consciência das diferenças de cultura, de instrução. Tem-se uma visão do mundo provisória e insubstituível. Há uma coisa que me ajuda a manter uma relação com aquilo de que me achava diferente, que é o mundo da minha infância, ligado às minhas origens, a pessoas ou coisas. Mantive com os meus avós maternos uma relação para além de todas as diferenças de ordem cultural ou intelectual. E a consciência da diferença não levou nem leva a rupturas: sempre fui deles e sempre foram meus.

(...)

Depois, a propósito do livro que preparava, A Jangada de Pedra: «em termos de projecto é tão coerente como os anteriores, mas acho que corro o risco que toda a gente corre».

C.F.A. - É como um jogo, esse risco?
J.S. - Não, que ideia... Um comprador de lotaria não corre risco nenhum, não arrisca nada, só perder o dinheiro com que a comprou. Não sou um jogador, nunca joguei nada, excepto "King" durante algumas semanas e algum xadres, quer dizer, empurrei as pedras. Fazer da criação um jogo é complicar as coisas. Isso pode ser interessante para os outros, não para mim.

C.F.A. - O Saramago, de facto, nunca se fez interessante, no mau sentido...
J.S. - Nunca me fiz interessante antes, não me faço interessante agora. Mas, agora, é mais difícil de garantir porque estando os projectores cá virados para esta lado, qualquer gesto pode ser assim interpretado. Tendo a viver com a naturalidade de sempre. Aqueles que me conhecem mais de perto sabem que sou a mesma pessoa, digo as mesmas piadas.

C.F.A. - Nos seus romances, escapa a essa moda temível do confessionalismo agudo, que deu em tantos autores portugueses deste tempo. O que pensa da mania?
J.S. - Acho um pouco tonto, a vida dos outros não me interessa nada. Interessa-me saber aquilo que é impossível saber, aquilo que falta saber. Vivemos num mundo de tal modo vertiginoso, de tamanha complexidade que, em rigor, dele dela nada sabemos. Não sabemos em que mundo vivemos.

(...)

C.F.A - Ao aliar a ficção à História acha que a ficção pode funcionar como correctivo da História?
J.S. - O que vem a ser a História? As viagens na História comparo-as com as viagens no espaço. Eu tenho aquele livro da Viagem a Portugal e agora poderia escrever outro em que teria como preocupação não passar por nenhum daqueles lugares do primeiro livro. No tempo pode e deve fazer-se a mesma coisa.

Prossegue depois falando de História, a propósito de Memorial do Convento:

J.S. - De facto, todo o romance é um romance histórico. Agora estamos aqui, neste lugar, e se daqui a 100 anosalguém escrevesse um romance que nos tomasse como personagens, aqui, com estes conflitos, estas experiências, estaria a escrever um romance histórico só porque se projectava num tempo anterior? A partir de que altura é que o passado passa a ser História? Eu não sei o que é o presente. Estamos aqui há mais de uma hora e faço a mesma diferença entre o que se passou há uma hora e o que se passou há 100 anos. Tenho idêntica dificuldade em reconstituir ambos os momentos. Quanto ao futuro, ele é apenas tempo não vivido. Agora o presente, como fixá-lo? Ele é tão fluido.

C.F.A. - Quando está a escrever um livro tem pressa de o acabar?
J.S. - Vivo em angústia, tenho mau viver. Vivo no silêncio, é um não estar cá, um modo de não estar cá.

C.F.A. - Tem dúvidas sobre o que escreve?
J.S. - Não, sou suficientemente inconsciente.

(...)

C.F.A. - Como é que pode dizer que é inconsciente? Já sabe o que vai escrever nos próximos anos... Será que essa é ainda uma maneira de não correr riscos? Ir para o Alentejo escrever, quando ficou desempregado, foi um risco? Ser militante do PC é um risco?
J.S. - Tenho pouca imaginação para correr riscos. Quanto ao risco de ser militante do PC resumo-o assim: dantes diziam: ele é bom mas é comunista. Agora dizem: ele é comunista mas é bom!

sexta-feira, junho 18, 2010

A lucidez de José Saramago



«Não é pelo facto de as coisas serem novas ou modernas que elas são necessariamente boas. E isto não é defender o antigo. É simplesmente considerar que não tenho nenhuma razão para acreditar que no momento em que eu estou a viver é o momento em que todas as coisas que se estão a fazer, as de agora e as que vão ter efeitos no futuro, são as únicas e as melhores que podiam estar a ser feitas e a ser pensadas, imaginadas e aplicadas. Não tenho qualquer razão para isso. pelo contrário: tenho muitas razões que me dizem que nós tomámos por um caminho errado.»

«A ditadura já não precisa de militares mal-encarados. Já não precisa de políticos corruptos. Já não precisa de batalhões da morte. Ainda os usa, claro está. Mas de um modo geral já não precisa disso. A ditadura de hoje é económica. Vivemos numa situação que se poderia chamar também de capitalismo autoritário.»

«O conceito de cidadão foi substituído pelo de cliente. A nós conveteram-nos em clientes. Somos consumidores, nada mais.»

quinta-feira, junho 17, 2010

Uma questão de "bolhas" no Facebook? Ou algo mais - tipo, censura!?


Há pessoas que têm visto os seus perfis do facebook desaparecer de forma misteriosa. São pessoas que veem as suas contas desactivadas depois de meterem comentários no mural de uma página que se chama "não resisto a estoirar as bolhas do plástico de bolhas de ar".


Eu vou lá meter um comentário. Mas receio que o meu perfil seja apagado logo a seguir. E não, não estou a brincar!

Há mesmo aqui um caso de censura. Absurda e fútil - porque, como verão, tudo se resume a...bolhas! Mas censura, de facto!
Vou contar-vos a história, de forma breve, resumida e muito factual.

Como possivelmente saberão, um dos "passatempos" mais bem sucedidos entre os utilizadores dessa rede social, é rebentar, ou estoirar, plástico-bolha. Grupos e páginas sobre bubble wrap - ou equivalentes, em inglês, francês, italiano, alemão, espanhol... - havia aos pontapés e tinham muitos membros e fãs. Não havia era nada disso em português. Não havia, até Dezembro passado, quando apareceu o primeiro grupo tuga sobre o assunto. Chama-se REBENTAR PLÁSTICO DE BOLHAS? FIXE! - e, já agora, convido-vos a visitarem-na aqui http://www.facebook.com/group.php?gid=227026504318&ref=ts.

Em Março deste ano aparece uma página que começa a fazer muito sucesso (de forma muito rápida e, para mim, ainda muito misteriosa: chegaram a ter, segundo os próprios, 1 novo fã por minuto, o que me parece estranho, mas adiante...). Um dos administradores do grupo mais antigo (um utilizador do fb chamado Miki Sorraia) foi lá, deu-lhes os parabéns e aproveitou para dizer "visitem o nosso grupo, já que temos algo em comum mas não fazemos concorrência".

Resultado? A pessoa que escreveu isso foi impedida de fazer comentários na página. Ainda tem a conta activada, continua "fã" da página, mas não visualiza a janela de comentários nem o botão "gosto".
Estranho, não é?

A seguir aconteceu pior com dois administradores desse primeiro grupo. Um deles (Carlos Martinez), viu o seu perfil apagado logo após ter feito um comentário na página. Mas foi "logo após", literalmente: escreveu, terminou sessão, foi à sua vida e, pouco depois, quando tentou entrar no fb viu que tinha a conta desactivada!!!

O outro, Álvaro Santos, também viu a sua conta desactivada, mas "só" ao segundo comentário. No primeiro comentário que fez perguntava porque razão as referências ao grupo eram constantemente e imediatamente apagadas adquela página (quando links para outros grupos e páginas e perfis não são apagados e ficam lá durante dias).

Ele ainda teve uma resposta: que a página apaga os links de outros porque optou por não aceitar spam; e que não são os administradores do grupo quem desactiva perfis, mas sim o facebook!

Mas, se passarem agora mesmo por essa página encontram lá, muito provavelmente, ligações (spam, portanto?), que não foram apagadas, e que ficam lá durante muitos dias! É ou não uma tentativa de ocultar e atacar, apenas, os membros do grupo que apareceu entes e que, aparentemente, tanto incomoda os administradores da página - pergunto eu

Ora bem, isto foi da primeira vez que ele comentou. A seguir, fui lá eu fazer umas perguntas e manifestar as minhas dúvidas.

Ele (Álvaro Santos) comenta o meu post (no dia 27 de Maio) e acontece o quê? Acontece que, logo no dia seguinte, ele fica sem a sua conta do fb!!! Que coincidência extraordinária!

Eu não sei se foi mesmo o fb que apagou as contas dos administradores do grupo Rebentar Plástico de Bolhas? Fixe!. Acho é muito estranho que isso tenha acontecido logo após comentarem numa página chamada "não resisto a estoirar as bolhas do plástico de bolhas de ar". E sim, neste momento, depois de dedicar bastante tempo a investigar o assunto, tenho a certeza do que afirmo! Comentas naquela página e, se dizes alguma coisa que não lhes agrada, a tua conta desaparece misteriosamente!!!

Como disse um dos administradores do grupo (o mais antigo, o Rebentar Plástico de Bolhas? Fixe! - que apereceu em Dezembro de 2009), parece que os tipos que criaram a página (que apareceu só em Março deste ano) têm o medo ridículo que se saiba que, afinal, não foram eles quem teve a ideia. Foi o Alvaar Santux quem escreveu isto, mas escreveu-o num comentário que já ninguém volta a ler - porque a conta dele foi desactivada!

Agora, como vos disse, irei lá manifestar - mais uma vez - a minha estranheza. Mas tenho medo que a minha conta leve o mesmo destino da dos outros dois.

Por tudo isto, aconselho-vos a terem muito cuidado com aquela página.

E -porque, como já entenderam, também estou no facebook e também tenho por lá amigos virtuais - cheguei mesmo a pensar sugerir aos meus amigos que se desvinculem da dita (caso tenham aderido) e/ou que a denunciem por dirigir ataques a terceiros ou por permitir spam (isso - denunciar conteúdos ou atitudes - faz-se num botão que existe no fundo da barra lateral esquerda da página).

Mas pensei melhor, e afinal não vou sugerir nada. Cada qual que pense no assunto e faça o que entender.

Nota de rodapé - se decidirem fazer alguma coisa, não fiquem baralhados: o grupo foi a vítima, o agressor (enfim, "alegado" agressor.. bah!) foi quem administra a página. Não se enganem, ok?

terça-feira, junho 15, 2010

Por favor não estacione em cima do passeio e, já agora, não o faça à minha porta, pode ser? Obrigadinho e desculpe lá o incómodo.


Este senhor andou à procura de um sítio para estacionar o carro em Almada Velha e, pelos vistos, não encontrou melhor que o passeio em frente à minha porta embora existam outros locais: por exemplo, um parque de estacionamento de utilização livre, numa praceta mesmo ali ao lado - mas que, admito isso, o senhor possa não conhecer).
E, enfim, que estacione em cima do passeio ainda vá... É ilegal, segundo o Código da Estrada - mas como eu não sou fiscal da ECALMA nem polícia municipal não posso fazer o que a lei prevê para casos destes (e que é, simplesmente, a remoção do veículo).

Agora, estacionar em frente a um portão, quando tinha tanto espaço (ilegal na mesma mas ainda assim um bocadinho menos menos incómodo para quem precisa de circular a pé) noutros bocados de passeio ali à volta?! Não me parece lá muito bem!

Eu entendo que, por enquanto, ainda não existem muitos lugares para estacionamento nesta zona. Suponho que, assim que os dois novos parques de estacionamento da ECALMA (Capitão Leitão e Campo de São Paulo) entrarem em funcionamento , os automobilistas vão deixar de ocupar abusivamente os passeios.

Acredito que, com civismo. respeito pelas regras e boa vontade, imagens como estas irão em breve passar à História.

Espero não me enganar.

sábado, junho 12, 2010

O meu curso de vídeo (1985)

Eu sei que hoje, no século 21, todas as criancinhas conseguem editar vídeo. Qualquer telemóvel grava imagens em movimento que podem, depois, ser editadas em computador e publicadas na internet. Faz-se muito disso, algumas vezes com talento, outras só com vontade. Até eu, que não sou nenhuma criancinha, o tenho feito, sem grande talento (claro!...) mas com muita vontade (como é óbvio). Olhem para o meu canal - http://www.youtube.com/bulcanico e digam lá se não está perfeitamente ao nível do que faz qualquer criancinha desenvolvida deste glorioso século 21!

Acontece que, há 25 anos atrás, quando comecei a trabalhar com vídeo, não havia internet, computadores era coisa que só víamos no cinema, as máquinas fotográficas usavam rolos (não faziam filmes, portanto), as câmaras de vídeo que existiam eram daquelas de usar ao ombro e funcionavam com cassetes de fita magnética. E tudo isso era tão caro que a maior parte das pessoas não lhe conseguiam chegar.

Felizmente existiam já algumas - poucas, ainda - instituições que promoviam o acesso democratizado à formação, técnica e artística, para quem quisesse trabalhar com as "novas tecnologias" daquele tempo (na verdade, o vídeo não era tecnologia nada nova - mas a maior parte daquelas a que hoje chamamos "novas" também não o são).

Existia, por exemplo, o Centro Cultural de Almada - que começou a fazer cursos de vídeo, salvo erro por volta de 1986. E existia o FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis - instituição da administração central, com delegações distritais, antecessora do actual Instituto Português da Juventude). Eu estava no Centro Cultural de Almada e fiz o meu curso de vídeo no FAOJ de Setúbal.

Essa acção de formação decorreu entre 9 de Fevereiro e 27 de Março de 1985 (um ano antes do Centro Cultural de Almada as começar a fazer), com aulas teóricas e práticas, em Setúbal e no Montijo (onde fomos fazer captação de imagem para o trabalho final). Decorria entre as 15h00 e as 22h00 e custou a módica quantia de 1.300 escudos (podem ver aqui quanto dá isso em euros).

É claro que hoje as técnicas e as tecnologias são diferentes (não necessariamente "novas", mas sim evoluções do que já existia) e que os conhecimentos adquiridos neste curso podem estar obsoletos (estranho seria se não estivessem). Mas que foi muito engraçado ver três focos de luz (os projectores de vídeo dessa época tinham 3 lentes) incidirem numa superfície branca - o azul primeiro, depois o vermelho e a seguir o verde - para formarem luz branca, lá isso foi! Aprendizagem prática, de conceitos que, à partida podem parecer estranhos, estás a ver? Pois, no "meu tempo" já se fazia.

E toda esta conversa a propósito de quê? Bem, em primeiro lugar, isto é só um blogue pessoal - portanto serve também para falar de experiências pessoais que poderão depois ter interesse para outras pessoas (ou não...).

Para os mais espertos que não ficaram satisfeitos com a explicação anterior, aqui vai a verdadeira explicação: é que eu estou farto de levar com gente que diz que eu nunca fiz nada na vida, não tenho formação nenhuma, etc. etc. etc. (sendo os três etc. resumo do chorrilho de disparates que tenho ouvido e que, de tão grande, precisaria de um blogue inteiro para ser explanado na íontegra). Portanto, lá tenho eu de ir buscar - assim de longe em longe e como quem não quer a coisa - mais alguns "exemplos" (necessariamente avulsos e incompletos) ao fundo do meu baú.

A minha "sorte" (e o azar dos que se esforçam por provar que eu não fiz o que fiz e que não sei o que sei) é que quanto mais procuro mais encontro. Porque, na realidade, ainda há muito que encontrar.

quinta-feira, junho 10, 2010

A verdade (quase toda) sobre a bandeira portuguesa


Nós aprendemos o que significam os símbolos da Bandeira Nacional portuguesa: o verde é a esperança, o vermelho o sangue derramado, os castelos simbolizam conquistas militares, os círculos dentro das quinas simbolizam as chagas de Cristo... Aprendemos também que o fundo verde-rubro foi invenção dos republicanos para substituir o azul e branco da monarquia. Certo? Errado. Muito errado, mesmo. Querem ver?

Então vejamos, antes de mais, como era a última Bandeira Nacional da Monarquia (bandeira de D. Pedro IV, em 1830).


Ali está: escudo (com todos os elementos que nele existem hoje) encimado pela coroa, sobre fundo azul e branco, ocupando uma das faixas (a branca) dois terços da bandeira - proporção quase igual à que vemos na bandeira dos nossos dias (2/5 de verde e 3/5 de vermelho).

Porquê essa proporção? Por razões muito pouco teóricas ou ideológicas: simplesmente "pelo facto de se damnificarem muito, na parte opposta à adriça, as bandeiras dos navios, como, em geral, todas as que fluctuam permanentemente; (...). A bandeira nacional portugueza, usada pelos navios de guerra e do commercio, assim como pelas fortalezas e estabelecimentos do Estado, é pois, um terço azul e dois terços branco." (ver aqui) Trocando em miudos: porque o lado "de fora" - o branco na bandeira da Monarquia, ou o vermelho na bandeira da República - está mais sujeito a desgaste!

A última bandeira monárquica é, portanto - como se pode ver - uma bandeira muito semelhante à actual, com a diferença de ter a esfera armilar a substituir a coroa real, e das cores de fundo serem verde e vermelho, em vez do "tradicional" azul e branco.
Mas mesmo essa alteração de cores não foi, de todo, "invenção" dos republicanos. As cores verde e vermelha conjugadas já eram, há muitos anos, usadas em símbolos da Nação.

"A bandeira naval representando a Cruz da Ordem de Cristo em fundo verde foi também um pavilhão usado durante o reinado de Dom Manuel, um uso a que não terá sido estranho prestígio que as explorações marítimas detinham nesta época.", e voltou a ser muito utilizada durante o período da Restauração da Independência.

Temos, portanto, a disposição dos elementos sobre o fundo, e a proporção do fundo, não como inovações republicanas mas como ajustamentos e actualizações da bandeira anterior; as cores de fundo são (como vimos) "recuperadas" de um estandarte régio (naval e nacional) do século XVI.

Estas informações - e outras, muito interessantes, como a origem das "quinas", dos círculos brancos ou dos castelos - encontram-se aqui:

http://www.tuvalkin.web.pt/terravista/guincho/1421/bandeira/pt_hist.htm

Chamo-lhes a verdade "quase toda", não porque esteja a omitir (ou tentar omitir) algo, mas porque esta "versão" da História é polémica (embora me pareça mais credível que aquela que me foi sempre "ensinada"). É que aqui - como em quase toda a investigação histórica - há muitas dúvidas, muitas "leituras" e opiniões, e poucas certezas. (Veja-se, a propósito, o que diz a Wikipédia sobre o mesmo assunto)

E não quero - de forma alguma! - manifestar desagrado com a República ou simpatia com "ideais monárquicos". Quero, sim, aproveitar o Dia de Portugal para lembrar que tudo o que nos é ensinado, tudo o que damos como certo ou adquirido, deve ser sempre questionado à luz da História - ou, se preferirem, analisado em perspectiva, dialecticamente (no sentido marxista do termo).

É assim que eu penso. Sou laico, republicano e socialista. Mas socialista, mesmo!