domingo, agosto 29, 2010

Não é exactamente uma reentrada... porque também eu não saí!

É verdade que não tenho actualizado o blogue. Há tantas outras coisas para fazer, e até tantos outros sítios onde escrever!...

Portanto, também eu não estou a "reentrar", visto que não saí. Nem agora nem antes. Há é muita gente distraída, nisto e no resto...

E pronto, agora - despachados os recados de índole mais pessoal - apresento-vos um artigo de opinião escrito por Bruno Dias e publicado no semanário Notícias de Almada. Onde se fala de acção política, de liberdade de expressão, de Festa do Avante e do mais que terão oportunidade de ler, se assim vos aprouver.
Eu vou ali ao facebook e já volto, com outra peça (e que linda peça será...) do aludido semanário.

domingo, agosto 08, 2010

PORTUGAL PROFUNDO


Desenho de Teresa Câmara Pestana

Mais trabalhos da mesma autora em
http://www.gambuzine.com/

sexta-feira, julho 30, 2010

Tipo, uma homenagem a António Feio

António Feio (Lourenço Marques, 6 de Dezembro de 1954 — Lisboa, 29 de Julho de 2010).

Num país como Portugal, onde o génio humorístico popular é fértil mas se fica pelo nível da anedota, aparecem, de longe em longe, personalidades que agarram nessa característica lusa e a elevam a Arte. O actor (o grande actor) António Feio, que agora nos deixou, era uma dessas raras personalidades.

Recordo-o aqui numa série de 2001/2002: Paraíso Filmes (que considero ser do melhor que se fez em Portugal, em termos absolutos - e não apenas no género "humorístico"). António Feio fazia, entre outros personagens o do realizador residente da "produtora independente da Trafaria" E yá, era tipo o meu presonagem preferido.

Um longo e sonoro aplauso! Até sempre.

quarta-feira, julho 21, 2010

Festa do Avante de 2010 - uma antevisão








A lista, por ordem alfabética e com ligações para os sites respectivos: A Naifa, Abrunhosa & Comité Caviar, Adriana, Ana Laíns, António Chaínho com Isabel de Noronha e Pedro Moutinho, Baile Popular (banda de João Gil e João Monge), Bernardo Sasseti Trio, Brigada Victor Jara, Bunnyranch, Cacique 97, CambaTango, Catarina dos Santos, Claud, Dany Silva e Celina Pereira, Dazkarieh, Demian Cabaud com Quarteto Leo Genovese, Deolinda, Diabo na Cruz, Dias da Raiva, Eina, Expensive Soul, La Rumbé, Luísa Basto, Monte Lunai, Muxima (Janita, Filipa Pais, Ritinha Lobo, Yami), Orquestra de Jazz de Matosinhos com Kurt Rosenwinkel, Peste & Sida, Ricardo Pinheiro Sexteto, Roberto Pla All Stars, Sebastião Antunes e Quadrilha, Stonebones & Badspaghetti, The Flawed Cowboys, Tim e Companheiros de Aventura, Tornados, Us & Them

Fados, ritmos latinos, tangos, punk rock... Como habitualmente, o difícil será escolher entre tanta diversidade. E isto é só a primeira lista (acabada de divulgar pela organização da Festa), com os nomes "principais". Muito mais haverá a descobrir, nos dias 3, 4 e 5 de Setembro.

O site oficial da Festa do Avante é

http://www.festadovante.pcp.pt/

Encontram esta lista, com informações mais detalhadas, em

http://pcp.pt/node/245004

segunda-feira, julho 19, 2010

Uma entrevista com Adelino Moura, em 1995



Havia, na imprensa regional dos anos 90 quem fizesse jornalismo a sério. Só que, num meio pequeno e com redacções com pouca gente (não tão pouca como hoje - mas o que se faz hoje na imprensa regional não serve de exemplo para nada) os jornalistas não tinham grandes hipóteses de se "especializar". Tinham de ser pau para toda a obra.

Eu vinha da área da Cultura - onde tive formação específica, mas também suficientemente generalista para me sentir à vontade com assuntos diversificados. E, felizmente, comecei a minha carreira profissional na rádio. Felizmente porque aí, na rádio, tinhamos mesmo que nos "desenrascar" - muitas vezes em directo, sem rede - com os assuntos mais imprevistos.

Cheguei à imprensa escrita em 1994 (na revista Sem Mais) mas comecei mais a sério em 1995, no quinzenário Sul Expresso.

Aí fazia o tal trabalho "generalista" (embora ainda me deixassem dar muita atenção à cultura - coisa que já não aconteceu a partir de 1998, noutro jornal): tanto fazia investigação sobre os projectos do Governo para a travessia do Tejo ou sobre a onda de violência racista que vinha do início da década e que se foi agravando, ou sobre o processo de legalização extraordinária de imigrantes (que deixou muita gente de fora), ou sobre o longo e conflituoso desmantelamento da Lisnave, como fazia reportagens sobre o 1º Congresso dos Algarvios da Margem Sul, a reprovação do PDM de Almada e posterior aprovação com "amputações", ou a novidade que era, nesse tempo, o anteprojecto para o Metro Sul do Tejo.

E, se fosse preciso, até fazia peças da secção mais especializada (a que tinha jornalistas que só trabalhavam nessa área): o desporto!

A imprensa regional tinha realmente bons profissionais: polivalentes, flexíveis e com grande arcaboiço.

Como é óbvio, ao trabalhar em rádios e jornais, tive a oportunidade de entrevistar muita gente. Algumas dessas entrevistas eram de circunstãncia, muitas deles feitas por telefone. Mas, quando surgia a possibilidade de falar olhos nos olhos com o entrevistado o "repórter" acabava muitas vezes por ter conversas longas, interessantes e gratificantes.

Uma das entrevistas que mais gostei de realizar foi esta, com o histórico presidente do Almada Atlético Clube, Adelino Moura. Foi muito fácil dialogar com aquele homem que, sendo um líder com carisma, não precisava de fazer poses, armar-se em importante ou ter ares de sobranceria para dizer o que pensava. E dizia-o frontalmente, sem papas na língua mas sem entrar em insinuações ou armar "peixeirada".

A página e meia de texto aqui reproduzida é o que foi publicado na edição do Sul Expresso de 7 de Junho de 1995 - o resumo de uma conversa com cerca de 2 horas, muito estimulante e enriquecedora.

O mote para a entrevista era a subida do Andebol sénior do Almada à primeira divisão nacional. Mas aquele era também um tempo de grandes investimentos em estruturas desportivas. O Almada tinha já relva no seu estádio do Pragal (junto ao Cristo-Rei), mas não tinha ainda pavilhão próprio. Esse era, aliás, o próximo grande objectivo "material" de Adelino Moura. (E suponho que por isso mesmo, o equipamento que foi construído anos mais tarde se chama, precisamente, Pavilhão Adelino Moura.)

Inevitavelmente, falou-se muito de números, de verbas, de subsídios. No entanto, o que mais me impressionou foram as opiniões de Adelino Moura sobre o papel do Desporto como escola de valores humanos. Devia ser uma coisa natural, óbvia... mas já naquele tempo (os anos 90 foram, também, a década da euforia neoliberal) não o era!

O "meu entrevistado" não ignorava isso. E tinha ideias muito interessantes, com as quais não tive nenhuma dificuldade em concordar (digo-o agora - naturalmente não o disse naquele momento, nem tinha nada que o dizer, pois estava ali como jornalista e o jornalista não deve nunca confundir notícia com opinião).

Cito:

«Os clubes, pelo menos os pequenos, devem viver em função da conjugação de boas vontades e com o objectivo não apenas de competir mas de ajudar a formar desportistas e cidadãos. Um clube como o Almada deve ter também uma função social»

«Acho mal que se gastem dinheiros públicos em coisas efémeras (...) A autarquia não nos dá dinheiro para pagar despesaas correntes. Tudo o que recebemos da CMA é para ser aplicado em obras»

«o Almada, devido à sua proximidade com Lisboa, não tem outra hipótese a não ser formar os seus próprios jogadores. Tentamos ganhar alguns para a equipa principal e, por uma questão de necessidade, vender outros a clubes que nos possam proporcionar receitas. Quando isto funcionava em moldes amadores eu não tinha esta opinião, mas agora os tempos são outros e temos de ser realistas»

«as coisas andam muito deturpadas: cairam no meio desportivo alguns "paraquedistas", indivíduos sem conhecimentos de desporto. Chamam-lhes gestores e talvez sejam bons gestores nas suas empresas. Mas o desporto propriamente dito não tem nada a ver com a gestão de uma empresa: estar a encher 30 mil garrafas por dia ou estar a arranjar automóveis não é o mesmo que ver a bola bater na trave ou conhecer de perto os jogadores.»

«Em Portugal, como se sabe, há 3 clubes grandes; tão grandes que até são os maiores nas dívidas. Este modelo não serve aos clubes mais pequenos. Se começam a ceder à pressão dos sócios e entram em grandes despesas vão inevitavelmente acabar por falir»

Eram "prognósticos" do presidente do Almada Atlético Clube, em 1995. O decorrer do jogo acabou por lhe dar razão.

Nota de rodapé: Parece que esta entrevista chegou a incomodar algumas pessoas (porque, como escrevi acima, Adelino Moura não fugiu às perguntas e até acrescentou matéria sobre a qual eu, por desconhecimento, não perguntei nada); no entanto alguns dos meus colegas - os especialistas em desporto - criticaram-me por alguma "ingenuidade" nas questões. Passados 15 anos, tenho um palpite que a minha ingenuidade terá consistido em não perguntar nada sobre as relações entre o andebol do Almada e o do Ginásio Clube do Sul. Sabem que mais? Ainda bem que fui ingénuo: assim posso apresentar uma peça menos datada, com mais substãncia e menos tricas e mexericos! :)

segunda-feira, julho 12, 2010

Sobre teatro em Almada - o "moral" e o Azul


Está a decorrer mais uma edição do Festival de Teatro de Almada. É a 27ª e realiza-se nas datas habituais: entre 4 e 18 de Julho.

O festival é o ponto alto da relação da Companhia de Teatro de Almada (CTA) com o público da cidade (e com todo o outro...). Mas este ano realiza-se no meio de alguma polémica sobre o "Teatro Azul" - a sala, municipal, cedida à CTA, onde esta desenvolve o seu trabalho.

Há quem questione a gestão daquele equipamento. Há quem pergunte porque está uma sala municipal "entregue" a uma única companhia. E há mesmo quem diga que a CTA não tem o direito de ocupar aquele espaço, e que, portanto, devia sair para dar lugar a outros.

A gestão da sala é assunto cujo esclarecimento compete à Câmara (proprietária) e à CTA (que usufrui da dita) - e suponho que já o têm feito.

Quanto à legitimidade que a Companhia tem para ocupar aquele espaço, penso que posso dar uma ajuda: tem legitimidade, moral (digamos assim), pois a ideia de construir aquele edifício cultural, e o empenhamento para que fosse construído, partiu, precisamente, deles!

Nesta página do Jornal da Região de Almada - de 27 de Junho de 2001 - Joaquim Benite (director da CTA) mostrava a maquete do que viria a ser o futuro "Teatro Azul". Na entrevista (feita por mim, sim...), Benite falou muito de teatro e das suas relações com o jornalismo, ou da forma como pode ser, também, desencadeador de "transformações na sociedade", enquanto "prática moral" - esta citação é de outra entrevista com Benite, mas aplica-se aqui - que tem o objectivo de "inquietar as pessoas, fazê-las perceber que há mais horizontes para lá da vida prática, quotidiana", e não deixar acomodar ninguém ("as pessoas" e "o poder") porque "a arte é problema".

Benite não falou prolongadamente sobre o projecto da futura sala (talvez porque, naquele contexto, não me pareceu interessante desenvolver muito o tema). Mas o pouco que aqui é referido - e a História contada para contextualizar o assunto - parece-me ser já o suficiente para, pelo menos, esclarecer a dúvida (se é que se trata mesmo de uma dúvida) sobre a relação intrínseca que existe, desde a primeira hora, entre o Teatro Azul e a Companhia de Teatro de Almada. A sala é municipal porque foi construida pela Câmara, e é "da" CTA porque esta tem a "propriedade" intelectual (não sei se é o termo jurídico adequado, mas de facto é mesmo assim) do projecto.

Ignorar isto é mais que falta de cultura, ou falta de memória: é falta de honestidade política. E é, portanto, imoral.

sábado, julho 10, 2010

1980: o ano em que a Festa do Avante foi em Julho


A Festa do Avante de 1980 foi há 30 anos. Dito desta forma pode parecer uma coisa óbvia: entre 1980 e 2010 decorreram trinta anos. Mas não é bem assim. Porque a Festa do Avante de 1980 não se realizou na data habitual (primeiro fim de semana de Setembro), mas sim nos dias 11, 12 e 13 de Julho. Está, portanto, a fazer 30 anos agora mesmo, no presente fim de semana de Julho.

Suponho que o adiantamento da data estará relacionado com o facto de se terem realizado nesse ano eleições legislativas (em Outubro) e presidenciais (em Dezembro, primeira volta). Mas suponho, apenas - não tenho informação mais objectiva sobre o assunto.

Dessa Festa do Avante de 1980 recordo, sobretudo, o grande espectáculo no Palco 25 de Abril, com Chico Buarque, Simone, Edu Lobo, o MPB4...

No entanto, porque as memórias são de acontecimentos de há três décadas, prefiro não me fiar muito nelas. Vejamos antes o que escreveu a imprensa da época sobre o que iria ser essa edição da Festa do Avante!


Notícia do Diário de Lisboa de sexta-feira, 11 de Julho de 1980.
"A Festa do Avante, órgão central do Partido Comunista Português, começa ao fim da tarde de hoje. Às 19 horas - e sabe-se como os comunistas são organizados... - os portões da Festa, no Casalinho da Ajuda, abrir-se-ão. E vai ser um nunca mais de gente a entrar, como aconteceu nos anos anteriores (500.000 entradas em 1979).

O jornal destacava a programação do palco principal, referindo também alguns dos outros palcos e auditórios. E, mais adiante, referia a exposição sobre o 4º centenário da morte de Luís de Camões e o lançamento de uma edição especial de "Até Amanhã, Camaradas", de Manuel Tiago, ilustrado por Rogério Ribeiro.


Noticiava "o diário" na terça-feira, 8 de Julho: "ampliando e enriquecendo a experiência do ano passado, também este ano no Pavilhão Central da Festa haverá uma exposição sobre «Arte popular e Património Cultural».

Uma semana antes da Festa, o Avante divulgava: "a música que se faz nas várias regiões do país estará presente na zona central da Festa, através da actuação de coros, ranchos e bandas"

Vinham de todo o país. E Almada também estava presente, com "Tocadores de Gaitas de Foles e do Grupo de Arte Popular, ambos do Centro Cultural de Almada"

(Note-se, a propósito, que a Banda da Incrível Almadense também actuou, durante os dias desta edição da Festa, mas noutro contexto - por exemplo, na sexta-feira, no Palco da Emigração)

Em 1980, a referência na imprensa cultural de "artes e espectáculos" era o semanário Se7e. Que, na edição de dia 9 de Julho, dedicou uma página ao evento.

"A Festa do Avante, anualmente realizada desde que a Revolução dos Cravos a tornou possível, constitui um acontecimento com a particularidade de transcender o círculo ideológico da sua organização, atraindo pessoas de variadas tendências. O programa deste ano estende-se por três dias (11, 12 e 13 de Julho) e inclui teatro, cinema, música, desporto, circo, exposições, colóquios e outras manifestações de carácter cultural e recreativo.

O se7e destacava a ainda pouco conhecida Simone (que teve a sua apresentação ao público português precisamente nessa Festa do Avante): "Simone é uma das presenças brasileiras na Festa do Avante. Ex-campeã do Mundo de basquetebol, não restam grandes dúvidas de que canta melhor do que jogava"

Ao palco instalado no Pavilhão Central (não havia ainda Avanteatro) vieram esse ano dois encenadores da RDA apresentar um trabalho com actores do Teatro de Campolide (assim se chamava, ainda, a actual Companhia de Teatro de Almada) sobre cenas de "A Mãe", de Bertolt Brecht.


Escrevia o Avante de dia 3 de Julho:

"Dois destacados encenadores da República Democrática Alemã" (Peter Kleinert e Peter Schrot, do Palastheater, de Berlim) "especialistas na obra de um dos mais importantes homens de teatro do nosso século - Bertolt Brecht - deslocaram-se a Portugal no âmbito da Festa do Avante e prepararam um espectáculo com actores do Grupo de Campolide, baseado em cenas e canções da conhecida peça de Brecht «A Mãe», que se destina a ser apresentada no auditório A do Pavilhão Central na noite do próximo sábado." (...)

"O espectáculo tem estado a ser preparado no Teatro da Academia Almadense (sede do Grupo de Campolide que, aliás, vai brevemente transformar-se em Centro Dramático de Almada - Companhia Profissional, aprofundando assim ainda mais o seu processo de radicação naquela importante zona operária da margem sul) e quando for apresentado ao público terá completado um total de 11 ensaios em apenas 5 dias (...)

sábado, junho 26, 2010

O Metro Sul do Tejo, ou mais uma crónica de um país onde tudo se faz muito devagarinho

O primeiro protocolo entre governo e autarquias para a implementação do Metropolitano do Sul do Tejo (MST) foi assinado há 15 anos (precisamente, no dia 18 de Abril de 1995). E previa desde logo o traçado actual, mas muito maior extensão de linhas - ainda na primeira fase devia chegar ao Barreiro e à Costa de Caparica. Não era o "metro de Almada" (como há quem lhe chame hoje). Era, e é, um projecto que se pretende estruturante para as acessibilidades (ou a mobilidade, para usar um palavrão mais na moda) das populações do "arco ribeirinho do Tejo" (concelhos de Almada, Seixal, Barreiro e Moita). Só começou a funcionar em 2008.

A Câmara de Almada, que sempre esteve na vanguarda deste projecto, tinha lançado a ideia por volta de 1985 (faz agora 25 anos, e uma década antes do primeiro protocolo). Não sei exactamente porque só dez anos mais tarde um governo e as autarquias locais chegaram a acordo. Mas lembro-me, ainda relativamente bem, desse primeiro trimestre de 1995, quando o processo parecia começar, finalmente, a entrar nos carris.

Enquanto jornalista do quinzenário Sul Expresso fui acompanhando esse assunto. Eis a cronologia dos acontecimentos de 1995, tal como apareceram nas páginas daquele periódico.

A primeira referência ao assunto aparece em Fevereiro desse ano. "A assinatura do contrato de fornecimento do Anteprojecto da Rede Base do Metropolitano Ligeiro da Margem Sul realizou-se no dia 29 de Fevereiro no edifício da Presidência da Câmara Municipal do Seixal", com a presença dos municípios envolvidos - Seixal, Moita Barreiro e Almada - do então secretário de Estado dos Transportes, Guilhermino Rodrigues, e de um representante do consórcio francês liderado pela Semaly-HP-Pret, responsável pela elaboração do "anteprojecto".

Este anteprojecto era, de facto, um estudo de viabilidade técnica e económica, uma vez que, segundo o Sul Expresso, o consórcio iria "efectuar a descrição dos previsíveis financiamentos, referindo vantagens e inconvenientes de cada, para além dois montantes de participação atribuídos a cada entidade que venha a envolver-se no referido projecto", bem como "desenvolver e complementar os aspectos geológicos e topográficos de um estudo da viabilidade da extensão da rede até ao concelho da Moita". (Artigo da jornalista Ana Isabel Borralho).

Note-se, então, que esse primeiro documento já previa a ligação - logo numa fase inicial - dos concelhos de Almada, Seixal e Barreiro, com posterior ligação à Moita.

Isso mesmo adiantava o Sul Expresso (em artigo meu, e julgo que com alguns conteúdos em "primeira mão"), na edição de 29 de Março. O jornal divulgava a planta da rede prevista, tal como fora apresentada (mas não muito divulgada) a 20 desse mesmo mês. "O estudo de viabilidade técnica e económica foi concluído e entregue ao ministro Ferreira do Amaral. No passado dia 20 foi publicamente apresentado (...) em cerimónia que contou com a presença do coordenador do estudo, Fernando Nunes da Silva".

Falou-se de números, nessa apresentação. Segundo a presidente da Câmara de Almada, Maria Emília de Sousa, esperava-se "um investimento da parte do Governo de 45 a 60 milhões de contos, com recurso a Fundos Comunitários" e o restante investimento ficaria "a cargo da empresa que vier a contruir e a explorar a rede". Note-se, então, que desde logo tinha ficado assente que a empresa que construísse a rede seria a mesma que a iria explorar. Dito de outra forma: quem explora o serviço teria a "obrigação" de construir os equipamentos.

Apontavam-se também datas. A primeira fase, "fazendo a ligação Barreiro/Almada/Pragal" devia estar concluída em 1999. Ou mesmo antes disso (por volta do final de 1997) porque "a tecnologia utilizada permite a abertura de troços quilómetro a quilómetro" , como garantia o coordenador do estudo de viabilidade.

No dia 5 de Abril, a Câmara de Almada aprovava o estudo, em sessão pública, "por unanimidade e com direito a palmas" - como reportava o Sul Expresso (Ana Isabel Borralho) - e com declarações de voto a favor do projecto por parte de vereadores da CDU e do PSD. No que dizia respeito a contas, "caberá às câmaras pagar 20%, ficando o governo, através da CP, responsabilizado em 80%, ou seja: 150 mil contos a CP e 7.500 contos cada câmara".

Faltava só formalizar a parceria governo-autarquias, com a assinatura do "protocolo para o desenvolvimento do metropolitano ligeiro na margem sul do Tejo". Esse momento tão aguardado chegou a 18 de Abril de 1995, nos Paços do Conselho da Câmara Municipal do Barreiro. E eu tive a sorte, ou o privilégio de fazer a cobertura desse acontecimento que se supunha histórico (na verdade acho que tive mas foi a lata de me oferecer - e insistir muito - para fazer esse "serviço").

Com praticamente tudo dito por parte das autarquias e dos autores do estudo, esperava-se muito da intervenção do então Ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral. E ele não defraudou as expectativas. Garantiu a disponibilidade do Governo para apoiar a concretização da obra pública. Mas fez mais. Fez uma grande declaração de intenções sobre a importãncia de investir no desenvolvimento dos caminhos de ferro para "revolucionar os meios de transporte", de forma a "transportar mais pessoas, mais frequentemente, mais utilmente e com maior comodidade".

Poucos meses mais tarde, mudava o Governo. Com o novo Executivo, todo este trabalho volta para a gaveta. E as populações do "arco ribeirinho do Tejo" continuam (até hoje!) a ter de fazer percursos estranhos e pouco lógicos para se deslocarem de transportes públicos entre dois grandes centros urbanos, ainda por cima tão próximos, como Almada e Barreiro!

Passam 4 anos. Em 1999 (ano que se previa ser o do arranque da exploração do Metro Sul do Tejo!) é assinado um novo protocolo. Mas é preciso aguardar ainda mais 2 anos até que, em 2002, a obra é finalmente adjudicada... para ficar concluída seis anos mais tarde (mas só numa ínfima parte relativamente ao projecto de 1995)!

Tudo isto já passou à História, dir-me-ão.

Pois passou. Mas era bom que a gente aprendesse alguma coisa com a História. Para quê? Para não repetirmos asneiras do passado, por exemplo. Não é uma boa razão?

Metro Sul do Tejo - o protocolo de 1995





Em 1995, Governo e autarquias de Almada, Seixal, Barreiro e Moita, assinaram o primeiro protocolo para a implementação do Metropolitano de Superfície do "arco ribeirinho do Tejo". Estas páginas são o "fac-simile" do protocolo então assinado, e que previa a concretização do projecto até 1999, com percursos entre Almada, Seixal e Barreiro (numa primeira fase) com posterior extensão ao concelho da Moita. O protocolo foi assinado nos Paços do Concelho da Câmara Municipal do Barreiro, no dia 18 de Abril de 1995, pelos presidentes das 4 câmaras envolvidas, e por: Presiudente do Conselho de Gerência da CP - Caminhos dse Ferro Portugueses; Presidente do Conselho Directivo do Gabinete do Nó Ferroviáro de Lisboa, Coordenador do Grupo de Trabalho criado pelo Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações. (Optei por rasurar as assinaturas na última página, por motivos que me parecem óbvios.)

segunda-feira, junho 21, 2010

José Saramago, excertos de uma entrevista em 1986


Em Junho de 1986, a revista Contraste publicava uma entrevista feita por Clara Ferreira Alves a José Saramago. O escritor tinha já duas obras muito aclamadas - Memorial do Convento e Jangada de Pedra - mas encontrava-se ainda muito longe do Prémio Nobel. Estava, se assim se pode dizer (e suponho que sim) a dar os primeiros passos da caminhada que o havia de lá levar.

Já tinha 50 anos de carreira. Mas o reconhecimento tardara a surgir. Nesta entrevista, Saramago falou principalmente sobre os seus métodos e as suas convicções enquanto escritor. Pouca gente se lembra desta publicação e menos gente ainda se lembrará deste texto. Por isso mesmo pareceu-me boa ideia divulgá-lo, com a devida vénia.

Começando pelo princípio...

«Lembro-me da minha primeira obra invisível, duplamente invisível. (...) Entrávamos no cinema para ver os cartazes - coisas que dantes se faziam e hoje não! - e lembro-me de que eu "inventava" (...) as histórias dos filmes através dos cartazes, sem os ter visto.»

«Aos 25 anos publiquei um romamce. Foi o editor que sugeriu o título e chamava-se, horrorosamente, Terra de Pecado, o que estava na linha dos filmes do Royal. E não era um romance à francesa, de cento e tal páginas, não, era um romance com trezentas e tal páginas. Acabou a sua existência nas padiolas, que, naquele tempo, tiveram a sua função cultural. Você já não se lembra disso.»

Clara Ferreira Alves (C.F.A.) - E quem é que pecava? A senhora?
José Saramago (J.S.) - A senhora, é evidente! Todas as senhoras pecam, com senhores, às vezes com outras senhoras... (Risos). Não é que me envergonhe de Terra de Pecado, mas achei que o livro não tinha nada que fazer na minha lista bibliográfica.

C.F.A. - Já pensou em reescrevê-lo?
J.S - Jamais reescreveria um livro. Um livro é um livro, pertence ao tempo da pessoa que o escreveu nesse tempo. Não posso retocar a minha imagem de 1947.

(...)

C.F.A - Esteve tanto tempo parado porquê?
J.S - É difícil responder. Se quisesse compor a minha imagem diria que a primeira publicação foi precipitada, que passei esses anos entregue à tarefa de viver primeiro para escrever depois. Mas é claro que não foi nada disso, não acredito que ninguém vá viver primeiro para escrever depois, é léria. (...) Ao viver o suficiente acaba-se por se ter qualquer coisa para dizer, que acho que sou capaz de dizer. Mas toda a minha vida literária considero-a fruto de circunstãncias. Se por volta dos 39, 40 anos não tivesse tido determinado choque sentimental talvez não tivesse escrito Os Poemas Possíveis. Com outro choque sentimental, talvez não es tivesse escrito assim.

(..)

C.F.A. - Em 75, o José Saramago...
J.S. - ... era director-adjunto do Diário de Notícias, fui-o de Abril ao 25 de Novembro e o escritor que eu hoje sou também resulta muito das circunstâncias. Se não tivesse vindo o 25 de Novembro, talvez não tivesse escrito o Levantado do Chão, nem o Memorial do Convento, nem O Ano da Morte de Ricardo Reis, embora seja impossível garantir isto. O escritor que hoje sou é um produto do 25 de Novembro, que me colocou até hoje na situação de desempregado. Achei-me, naquela altura, posto na rua, sem esperanças de encontrar emprego porque o meu empenhamento no DN me tinha queimado. (...) Então disse para mim: tens uns livritos escritos, tens a necessidade de escrever certas coisas, ou continuas a procurar emprego e a ser um escritor de fim-de-semana, ou então arricas.

(...)

C.F.A - Com que idade começou a ter uma consciência política?
J.S. - Com 20 e alguns anos, perto dos 30. Claro que empresta-se a casa para uma reunião da qual nada se sabe, e depois vai-se fazendo a ligação à prática de certos actos ditos subversivos, até chegar à militância. É melhor não falar porque nestas coisas seria uma história como as outras e há sempre alguém que me poderia dar lições de modéstia e descrição.

C.F.A. - O Saramago é um escritor que conheceu um êxito raro em Portugal e lá fora, sobretudo com Memorial e repetido em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Esse êxito não ameaça a sua modéstia?
J.S - Se o êxito tivesse vindo mais cedo talvez tivesse achado que tinha muito tempo de vida para gozar a falta de modéstia. Sou tão pouco modesto como era dantes, não creio ser um exemplo de modéstia. Só que como continuo um pouco desligado das coisas, posso fazer as vezes de uma modéstia praticante, militante. Acontece que não tenho as formas óbvias de vaidade. Talvez tenha outras. O que me ajuda a equilibrar tudo isto é a consciência muito aguda da relatividade das coisas, da sua pouca importância. Por outro lado, sinto a escrita, a actividade literária, como uma espécie de exercício na corda bamba, onde depois de um êxito nos espera o falhanço. E também porque para mim o livro mais importante é sempre o último, o que está mais próximo. (...) Amanhã pode sair um livro que não seja tão bom e lá vão dizer que Perdigão perdeu a pena, depois de ter subido tão alto.

C.F.A. - Podem dizer o contrário. Como é a sua relação com a crítica literária?
J.S - Tenho íntima consciência do que faço, não toda a consciência da bondade do que faço, embora possa dizer que este livro é melhor do que aquele. Estava tão certo da minha necessidade de escrever algumas coisas que a opinião alheia só me poderia trazer ou a confirmação do que achava ou coisas que não me interessavam. Claro que gosto que me façam festas.

C.F.A. - E como criador, não tem as angustiazinhas existenciais?
J.S. - Não me vejo ao espelho a escrever e não gostaria que alguém estivesse a olhar para o espelho onde eu estivesse reflectido a escrever. Não mitifico a escrita por algumas razões. Por exemplo, gosto tanto de pintura e sou incapaz de fazer um boneco, um desenho. Não mitifico, por isso, o pintor, ou o músico. O mesmo para o escritor.

(...)

C.F.A. - Escreve à máquina?
J.S. - Numa velhíssima Hermes.

C.F.A. - Já pensou em escrever num computador?
J.S. - Já me falaram nisso mas eu preciso da minha máquina, daquela. Está tão velha que quando vai para a oficina o mecânico tem de fabricar as peças que faltam porque já ninguém as fabrica. Deve ter aí uns 40 anos. Já tem as teclas marcadas, não marca espaços...

C.F.A. - Escreve noite dentro? De manhãzinha?
J.S. - Não escrevo a altas horas, no silêncio da madrugada. Escrevo a horas normais, quando uma pessoa que tem todo o tempo para trabalhar escreve. Não faço noitadas. Tenho um método de trabalho regular e tenho a impressão de que resulta.

C.F.A. - É portanto metódico...
J.S. - Metódico e pontual.

C.F.A. - Escreve em casa, nos cafés?
J.S. - Nos cafés, nem pensar nisso! Só sei escrever em casa no ambiente da casa, com as coisas nos seus lugares, a ouvir os rumores do prédio, da rua, com a luz do dia. Em férias sou incapaz de escrever uma linha. Sento-me de manhã à máquina e não sai nada.

C.F.A. - Nunca sentiu que era incapaz de preencher a célebre página em branco?
J.S. - Insisto o meu bocado e se não resulta não insisto mais. Outra solução é ir-me deitar. Durmo um quarto de hora, meia hora, e o problema resolve-se por si enquanto estou a dormir.

(...)

C.F.A. - Durante a adolescência, tendo nascido num ambiente nos antípodas do ambiente intelectual, já tinha consciência da sua diferença?
J.S. - Isso acontece sempre na adolescência, ter consciência das diferenças de cultura, de instrução. Tem-se uma visão do mundo provisória e insubstituível. Há uma coisa que me ajuda a manter uma relação com aquilo de que me achava diferente, que é o mundo da minha infância, ligado às minhas origens, a pessoas ou coisas. Mantive com os meus avós maternos uma relação para além de todas as diferenças de ordem cultural ou intelectual. E a consciência da diferença não levou nem leva a rupturas: sempre fui deles e sempre foram meus.

(...)

Depois, a propósito do livro que preparava, A Jangada de Pedra: «em termos de projecto é tão coerente como os anteriores, mas acho que corro o risco que toda a gente corre».

C.F.A. - É como um jogo, esse risco?
J.S. - Não, que ideia... Um comprador de lotaria não corre risco nenhum, não arrisca nada, só perder o dinheiro com que a comprou. Não sou um jogador, nunca joguei nada, excepto "King" durante algumas semanas e algum xadres, quer dizer, empurrei as pedras. Fazer da criação um jogo é complicar as coisas. Isso pode ser interessante para os outros, não para mim.

C.F.A. - O Saramago, de facto, nunca se fez interessante, no mau sentido...
J.S. - Nunca me fiz interessante antes, não me faço interessante agora. Mas, agora, é mais difícil de garantir porque estando os projectores cá virados para esta lado, qualquer gesto pode ser assim interpretado. Tendo a viver com a naturalidade de sempre. Aqueles que me conhecem mais de perto sabem que sou a mesma pessoa, digo as mesmas piadas.

C.F.A. - Nos seus romances, escapa a essa moda temível do confessionalismo agudo, que deu em tantos autores portugueses deste tempo. O que pensa da mania?
J.S. - Acho um pouco tonto, a vida dos outros não me interessa nada. Interessa-me saber aquilo que é impossível saber, aquilo que falta saber. Vivemos num mundo de tal modo vertiginoso, de tamanha complexidade que, em rigor, dele dela nada sabemos. Não sabemos em que mundo vivemos.

(...)

C.F.A - Ao aliar a ficção à História acha que a ficção pode funcionar como correctivo da História?
J.S. - O que vem a ser a História? As viagens na História comparo-as com as viagens no espaço. Eu tenho aquele livro da Viagem a Portugal e agora poderia escrever outro em que teria como preocupação não passar por nenhum daqueles lugares do primeiro livro. No tempo pode e deve fazer-se a mesma coisa.

Prossegue depois falando de História, a propósito de Memorial do Convento:

J.S. - De facto, todo o romance é um romance histórico. Agora estamos aqui, neste lugar, e se daqui a 100 anosalguém escrevesse um romance que nos tomasse como personagens, aqui, com estes conflitos, estas experiências, estaria a escrever um romance histórico só porque se projectava num tempo anterior? A partir de que altura é que o passado passa a ser História? Eu não sei o que é o presente. Estamos aqui há mais de uma hora e faço a mesma diferença entre o que se passou há uma hora e o que se passou há 100 anos. Tenho idêntica dificuldade em reconstituir ambos os momentos. Quanto ao futuro, ele é apenas tempo não vivido. Agora o presente, como fixá-lo? Ele é tão fluido.

C.F.A. - Quando está a escrever um livro tem pressa de o acabar?
J.S. - Vivo em angústia, tenho mau viver. Vivo no silêncio, é um não estar cá, um modo de não estar cá.

C.F.A. - Tem dúvidas sobre o que escreve?
J.S. - Não, sou suficientemente inconsciente.

(...)

C.F.A. - Como é que pode dizer que é inconsciente? Já sabe o que vai escrever nos próximos anos... Será que essa é ainda uma maneira de não correr riscos? Ir para o Alentejo escrever, quando ficou desempregado, foi um risco? Ser militante do PC é um risco?
J.S. - Tenho pouca imaginação para correr riscos. Quanto ao risco de ser militante do PC resumo-o assim: dantes diziam: ele é bom mas é comunista. Agora dizem: ele é comunista mas é bom!

sexta-feira, junho 18, 2010

A lucidez de José Saramago



«Não é pelo facto de as coisas serem novas ou modernas que elas são necessariamente boas. E isto não é defender o antigo. É simplesmente considerar que não tenho nenhuma razão para acreditar que no momento em que eu estou a viver é o momento em que todas as coisas que se estão a fazer, as de agora e as que vão ter efeitos no futuro, são as únicas e as melhores que podiam estar a ser feitas e a ser pensadas, imaginadas e aplicadas. Não tenho qualquer razão para isso. pelo contrário: tenho muitas razões que me dizem que nós tomámos por um caminho errado.»

«A ditadura já não precisa de militares mal-encarados. Já não precisa de políticos corruptos. Já não precisa de batalhões da morte. Ainda os usa, claro está. Mas de um modo geral já não precisa disso. A ditadura de hoje é económica. Vivemos numa situação que se poderia chamar também de capitalismo autoritário.»

«O conceito de cidadão foi substituído pelo de cliente. A nós conveteram-nos em clientes. Somos consumidores, nada mais.»

quinta-feira, junho 17, 2010

Uma questão de "bolhas" no Facebook? Ou algo mais - tipo, censura!?


Há pessoas que têm visto os seus perfis do facebook desaparecer de forma misteriosa. São pessoas que veem as suas contas desactivadas depois de meterem comentários no mural de uma página que se chama "não resisto a estoirar as bolhas do plástico de bolhas de ar".


Eu vou lá meter um comentário. Mas receio que o meu perfil seja apagado logo a seguir. E não, não estou a brincar!

Há mesmo aqui um caso de censura. Absurda e fútil - porque, como verão, tudo se resume a...bolhas! Mas censura, de facto!
Vou contar-vos a história, de forma breve, resumida e muito factual.

Como possivelmente saberão, um dos "passatempos" mais bem sucedidos entre os utilizadores dessa rede social, é rebentar, ou estoirar, plástico-bolha. Grupos e páginas sobre bubble wrap - ou equivalentes, em inglês, francês, italiano, alemão, espanhol... - havia aos pontapés e tinham muitos membros e fãs. Não havia era nada disso em português. Não havia, até Dezembro passado, quando apareceu o primeiro grupo tuga sobre o assunto. Chama-se REBENTAR PLÁSTICO DE BOLHAS? FIXE! - e, já agora, convido-vos a visitarem-na aqui http://www.facebook.com/group.php?gid=227026504318&ref=ts.

Em Março deste ano aparece uma página que começa a fazer muito sucesso (de forma muito rápida e, para mim, ainda muito misteriosa: chegaram a ter, segundo os próprios, 1 novo fã por minuto, o que me parece estranho, mas adiante...). Um dos administradores do grupo mais antigo (um utilizador do fb chamado Miki Sorraia) foi lá, deu-lhes os parabéns e aproveitou para dizer "visitem o nosso grupo, já que temos algo em comum mas não fazemos concorrência".

Resultado? A pessoa que escreveu isso foi impedida de fazer comentários na página. Ainda tem a conta activada, continua "fã" da página, mas não visualiza a janela de comentários nem o botão "gosto".
Estranho, não é?

A seguir aconteceu pior com dois administradores desse primeiro grupo. Um deles (Carlos Martinez), viu o seu perfil apagado logo após ter feito um comentário na página. Mas foi "logo após", literalmente: escreveu, terminou sessão, foi à sua vida e, pouco depois, quando tentou entrar no fb viu que tinha a conta desactivada!!!

O outro, Álvaro Santos, também viu a sua conta desactivada, mas "só" ao segundo comentário. No primeiro comentário que fez perguntava porque razão as referências ao grupo eram constantemente e imediatamente apagadas adquela página (quando links para outros grupos e páginas e perfis não são apagados e ficam lá durante dias).

Ele ainda teve uma resposta: que a página apaga os links de outros porque optou por não aceitar spam; e que não são os administradores do grupo quem desactiva perfis, mas sim o facebook!

Mas, se passarem agora mesmo por essa página encontram lá, muito provavelmente, ligações (spam, portanto?), que não foram apagadas, e que ficam lá durante muitos dias! É ou não uma tentativa de ocultar e atacar, apenas, os membros do grupo que apareceu entes e que, aparentemente, tanto incomoda os administradores da página - pergunto eu

Ora bem, isto foi da primeira vez que ele comentou. A seguir, fui lá eu fazer umas perguntas e manifestar as minhas dúvidas.

Ele (Álvaro Santos) comenta o meu post (no dia 27 de Maio) e acontece o quê? Acontece que, logo no dia seguinte, ele fica sem a sua conta do fb!!! Que coincidência extraordinária!

Eu não sei se foi mesmo o fb que apagou as contas dos administradores do grupo Rebentar Plástico de Bolhas? Fixe!. Acho é muito estranho que isso tenha acontecido logo após comentarem numa página chamada "não resisto a estoirar as bolhas do plástico de bolhas de ar". E sim, neste momento, depois de dedicar bastante tempo a investigar o assunto, tenho a certeza do que afirmo! Comentas naquela página e, se dizes alguma coisa que não lhes agrada, a tua conta desaparece misteriosamente!!!

Como disse um dos administradores do grupo (o mais antigo, o Rebentar Plástico de Bolhas? Fixe! - que apereceu em Dezembro de 2009), parece que os tipos que criaram a página (que apareceu só em Março deste ano) têm o medo ridículo que se saiba que, afinal, não foram eles quem teve a ideia. Foi o Alvaar Santux quem escreveu isto, mas escreveu-o num comentário que já ninguém volta a ler - porque a conta dele foi desactivada!

Agora, como vos disse, irei lá manifestar - mais uma vez - a minha estranheza. Mas tenho medo que a minha conta leve o mesmo destino da dos outros dois.

Por tudo isto, aconselho-vos a terem muito cuidado com aquela página.

E -porque, como já entenderam, também estou no facebook e também tenho por lá amigos virtuais - cheguei mesmo a pensar sugerir aos meus amigos que se desvinculem da dita (caso tenham aderido) e/ou que a denunciem por dirigir ataques a terceiros ou por permitir spam (isso - denunciar conteúdos ou atitudes - faz-se num botão que existe no fundo da barra lateral esquerda da página).

Mas pensei melhor, e afinal não vou sugerir nada. Cada qual que pense no assunto e faça o que entender.

Nota de rodapé - se decidirem fazer alguma coisa, não fiquem baralhados: o grupo foi a vítima, o agressor (enfim, "alegado" agressor.. bah!) foi quem administra a página. Não se enganem, ok?

terça-feira, junho 15, 2010

Por favor não estacione em cima do passeio e, já agora, não o faça à minha porta, pode ser? Obrigadinho e desculpe lá o incómodo.


Este senhor andou à procura de um sítio para estacionar o carro em Almada Velha e, pelos vistos, não encontrou melhor que o passeio em frente à minha porta embora existam outros locais: por exemplo, um parque de estacionamento de utilização livre, numa praceta mesmo ali ao lado - mas que, admito isso, o senhor possa não conhecer).
E, enfim, que estacione em cima do passeio ainda vá... É ilegal, segundo o Código da Estrada - mas como eu não sou fiscal da ECALMA nem polícia municipal não posso fazer o que a lei prevê para casos destes (e que é, simplesmente, a remoção do veículo).

Agora, estacionar em frente a um portão, quando tinha tanto espaço (ilegal na mesma mas ainda assim um bocadinho menos menos incómodo para quem precisa de circular a pé) noutros bocados de passeio ali à volta?! Não me parece lá muito bem!

Eu entendo que, por enquanto, ainda não existem muitos lugares para estacionamento nesta zona. Suponho que, assim que os dois novos parques de estacionamento da ECALMA (Capitão Leitão e Campo de São Paulo) entrarem em funcionamento , os automobilistas vão deixar de ocupar abusivamente os passeios.

Acredito que, com civismo. respeito pelas regras e boa vontade, imagens como estas irão em breve passar à História.

Espero não me enganar.

sábado, junho 12, 2010

O meu curso de vídeo (1985)

Eu sei que hoje, no século 21, todas as criancinhas conseguem editar vídeo. Qualquer telemóvel grava imagens em movimento que podem, depois, ser editadas em computador e publicadas na internet. Faz-se muito disso, algumas vezes com talento, outras só com vontade. Até eu, que não sou nenhuma criancinha, o tenho feito, sem grande talento (claro!...) mas com muita vontade (como é óbvio). Olhem para o meu canal - http://www.youtube.com/bulcanico e digam lá se não está perfeitamente ao nível do que faz qualquer criancinha desenvolvida deste glorioso século 21!

Acontece que, há 25 anos atrás, quando comecei a trabalhar com vídeo, não havia internet, computadores era coisa que só víamos no cinema, as máquinas fotográficas usavam rolos (não faziam filmes, portanto), as câmaras de vídeo que existiam eram daquelas de usar ao ombro e funcionavam com cassetes de fita magnética. E tudo isso era tão caro que a maior parte das pessoas não lhe conseguiam chegar.

Felizmente existiam já algumas - poucas, ainda - instituições que promoviam o acesso democratizado à formação, técnica e artística, para quem quisesse trabalhar com as "novas tecnologias" daquele tempo (na verdade, o vídeo não era tecnologia nada nova - mas a maior parte daquelas a que hoje chamamos "novas" também não o são).

Existia, por exemplo, o Centro Cultural de Almada - que começou a fazer cursos de vídeo, salvo erro por volta de 1986. E existia o FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis - instituição da administração central, com delegações distritais, antecessora do actual Instituto Português da Juventude). Eu estava no Centro Cultural de Almada e fiz o meu curso de vídeo no FAOJ de Setúbal.

Essa acção de formação decorreu entre 9 de Fevereiro e 27 de Março de 1985 (um ano antes do Centro Cultural de Almada as começar a fazer), com aulas teóricas e práticas, em Setúbal e no Montijo (onde fomos fazer captação de imagem para o trabalho final). Decorria entre as 15h00 e as 22h00 e custou a módica quantia de 1.300 escudos (podem ver aqui quanto dá isso em euros).

É claro que hoje as técnicas e as tecnologias são diferentes (não necessariamente "novas", mas sim evoluções do que já existia) e que os conhecimentos adquiridos neste curso podem estar obsoletos (estranho seria se não estivessem). Mas que foi muito engraçado ver três focos de luz (os projectores de vídeo dessa época tinham 3 lentes) incidirem numa superfície branca - o azul primeiro, depois o vermelho e a seguir o verde - para formarem luz branca, lá isso foi! Aprendizagem prática, de conceitos que, à partida podem parecer estranhos, estás a ver? Pois, no "meu tempo" já se fazia.

E toda esta conversa a propósito de quê? Bem, em primeiro lugar, isto é só um blogue pessoal - portanto serve também para falar de experiências pessoais que poderão depois ter interesse para outras pessoas (ou não...).

Para os mais espertos que não ficaram satisfeitos com a explicação anterior, aqui vai a verdadeira explicação: é que eu estou farto de levar com gente que diz que eu nunca fiz nada na vida, não tenho formação nenhuma, etc. etc. etc. (sendo os três etc. resumo do chorrilho de disparates que tenho ouvido e que, de tão grande, precisaria de um blogue inteiro para ser explanado na íontegra). Portanto, lá tenho eu de ir buscar - assim de longe em longe e como quem não quer a coisa - mais alguns "exemplos" (necessariamente avulsos e incompletos) ao fundo do meu baú.

A minha "sorte" (e o azar dos que se esforçam por provar que eu não fiz o que fiz e que não sei o que sei) é que quanto mais procuro mais encontro. Porque, na realidade, ainda há muito que encontrar.

quinta-feira, junho 10, 2010

A verdade (quase toda) sobre a bandeira portuguesa


Nós aprendemos o que significam os símbolos da Bandeira Nacional portuguesa: o verde é a esperança, o vermelho o sangue derramado, os castelos simbolizam conquistas militares, os círculos dentro das quinas simbolizam as chagas de Cristo... Aprendemos também que o fundo verde-rubro foi invenção dos republicanos para substituir o azul e branco da monarquia. Certo? Errado. Muito errado, mesmo. Querem ver?

Então vejamos, antes de mais, como era a última Bandeira Nacional da Monarquia (bandeira de D. Pedro IV, em 1830).


Ali está: escudo (com todos os elementos que nele existem hoje) encimado pela coroa, sobre fundo azul e branco, ocupando uma das faixas (a branca) dois terços da bandeira - proporção quase igual à que vemos na bandeira dos nossos dias (2/5 de verde e 3/5 de vermelho).

Porquê essa proporção? Por razões muito pouco teóricas ou ideológicas: simplesmente "pelo facto de se damnificarem muito, na parte opposta à adriça, as bandeiras dos navios, como, em geral, todas as que fluctuam permanentemente; (...). A bandeira nacional portugueza, usada pelos navios de guerra e do commercio, assim como pelas fortalezas e estabelecimentos do Estado, é pois, um terço azul e dois terços branco." (ver aqui) Trocando em miudos: porque o lado "de fora" - o branco na bandeira da Monarquia, ou o vermelho na bandeira da República - está mais sujeito a desgaste!

A última bandeira monárquica é, portanto - como se pode ver - uma bandeira muito semelhante à actual, com a diferença de ter a esfera armilar a substituir a coroa real, e das cores de fundo serem verde e vermelho, em vez do "tradicional" azul e branco.
Mas mesmo essa alteração de cores não foi, de todo, "invenção" dos republicanos. As cores verde e vermelha conjugadas já eram, há muitos anos, usadas em símbolos da Nação.

"A bandeira naval representando a Cruz da Ordem de Cristo em fundo verde foi também um pavilhão usado durante o reinado de Dom Manuel, um uso a que não terá sido estranho prestígio que as explorações marítimas detinham nesta época.", e voltou a ser muito utilizada durante o período da Restauração da Independência.

Temos, portanto, a disposição dos elementos sobre o fundo, e a proporção do fundo, não como inovações republicanas mas como ajustamentos e actualizações da bandeira anterior; as cores de fundo são (como vimos) "recuperadas" de um estandarte régio (naval e nacional) do século XVI.

Estas informações - e outras, muito interessantes, como a origem das "quinas", dos círculos brancos ou dos castelos - encontram-se aqui:

http://www.tuvalkin.web.pt/terravista/guincho/1421/bandeira/pt_hist.htm

Chamo-lhes a verdade "quase toda", não porque esteja a omitir (ou tentar omitir) algo, mas porque esta "versão" da História é polémica (embora me pareça mais credível que aquela que me foi sempre "ensinada"). É que aqui - como em quase toda a investigação histórica - há muitas dúvidas, muitas "leituras" e opiniões, e poucas certezas. (Veja-se, a propósito, o que diz a Wikipédia sobre o mesmo assunto)

E não quero - de forma alguma! - manifestar desagrado com a República ou simpatia com "ideais monárquicos". Quero, sim, aproveitar o Dia de Portugal para lembrar que tudo o que nos é ensinado, tudo o que damos como certo ou adquirido, deve ser sempre questionado à luz da História - ou, se preferirem, analisado em perspectiva, dialecticamente (no sentido marxista do termo).

É assim que eu penso. Sou laico, republicano e socialista. Mas socialista, mesmo!

Um "retrato" de Camões


Luís de Camões, serigrafia editada pelo Centro Cultural de Almada, no 4º centenário da morte do poeta, 10 de Junho de 1980. Reprodução do "Retrato feito por Fernando Gomes, o único retrato do poeta que se diz ter sido tirado do natural"

terça-feira, junho 01, 2010

Recordar o Ano Internacional da Criança (1979)


Eu tenho um baú cheio de coisas antigas. E outro cheio de coisas ainda mais antigas. Esta, de 1979, veio quase do fundo do segundo baú.

Ando sem muito tempo para actualizar este blogue. Hoje não é excepção. Mas pensei que seria boa ideia não esquecer o Dia Mundial da Criança. À falta de melhor, deixo-vos aqui este documento: um comunicado da Comissão Municipal criada para as comemorações, em Almada, do Ano Internacional da Criança.

Isto merece ser melhor trabalhado e enquadrado? Pois merece. Mas (repito) não tenho, por agora, disponibilidade para isso.

E haverá, certamente, quem tenha mais tempo e mais talento para o fazer. Fica a sugestão (ou,se preferirem, o desafio).

domingo, maio 30, 2010

Um "esforço patriótico e nacional"?


Num tempo em que o Governo impõe medidas de austeridade, e em que o próprio primeiro-ministro, José Sócrates, veio pedir a todos um esforço "patriótico e nacional" (leia-se: apertar o cinto), a revista Sábado teve a feliz e brilhante ideia de fazer algumas contas às despesas do Estado (Governo, autarquias e Assembleia da República).

Vale a pena ler, para concluir, por exemplo, que em 2006, o gabinete de José Sócrates "tinha gasto 219 mil euros em comunicações móveis; este ano pagou 63 mil euros em flores naturais para a sua residência oficiaL, mais 43.800 euros que em 2009".

Adianta ainda a Sábado que "todo o Estado" gastou em 2008 "90,8 milhões de euros em combustível para utilizar nos seus 29 mil carros. Agora serão 29.006: em 2009 e 2010, o Banco de Portugal pagou à BMW mais de 210 mil euros por seis veículos". Lendo o artigo ficamos a conhecer, também, as despesas do Estado (e do Governo, em particular) com assessorias e consultorias, estudos e pareceres (mais que muitos...) efemérides e brindes...

Tudo isto apenas no que diz respeito a ajustes directos.

É óbvio que cortar nestas despesas não seria o suficiente para resolver a crise. Mas que dava uma ajuda, lá isso dava.

E era um bom exemplo. Assim, já poderíamos fazer o mesmo "esforço patriótico" que eles fazem e não apenas o que nos dizem para fazer. Se o fizessem...

terça-feira, maio 25, 2010

Podiam não estacionar em cima dos passeios? Podiam. Mas não era a mesma coisa...


Eu gostaria muito de viver num mundo em que todos nos respeitássemos. Num mundo em que todos nos regulássemos apenas por aquela máxima de que "a minha liberdade acaba onde começa a liberdade dos outros". Num mundo assim não seriam necessários polícias nem empresas municipais de fiscalização de trânsito.

Mas o mundo em que vivo é este.

Um mundo em que, assim que os agentes de autoridade viram costas, há sempre chicos espertos prontos a fazer o que bem lhes apetece, cagando-se (perdoem-me a expressão, mas é a mais adequada) para os direitos e liberdades dos outros... E mesmo que - como é o caso - tivessem outras alternativas (um lugar de estacionamento ali mesmo ao lado), preferem sempre a que mais lhes convém. E eu (ou você), se quiser que mude de passeio ou que vá pelo meio da rua!

O que vos mostro é um caso concreto. Um entre muitos com me deparo todos os dias (embora menos, ultimamente - porque há quem fiscalize, cada vez mais, estas infracções). A foto é de dia 24 de Maio de 2010, na rua Armeiro Mor, Cova da Piedade, Almada.

E depois, se foram multados, ainda se queixam? Pois eu - cidadão como eles, e também utilizador do espaço público - queixo-me e reclamo se não forem responsabilizados por isto! E tenho todo o direito!

quarta-feira, maio 12, 2010

"Avante, avante p’lo Benfica" - o hino original, censurado pelo fascismo português.

O original hino do Benfica não é aquele que todos conhecemos (o tal "ser benfiquista", das "papoilas saltitantes"...). O original - que, de acordo com as fontes que consultei, será (ou devia ser) também o oficial - é este.

Foi "composto por ocasião do vigésimo quinto aniversário do Clube (1929) e censurado pelo Estado Novo fascista em 1942". Música de Alves Coelho, com letra de Félix Bermudes. Terão sido as palavras deste hino que o tornaram inaceitável para a ditadura fascista.

Ei-las:

"Todos por um!" eis a divisa,
Do velho Clube Campeão,
Que um nobre esforço imortaliza,
Em gloriosa tradição.

Olhando altivo o seu passado,
Pode ter fé no seu futuro.
Pois conservou imaculado
Um ideal sincero e puro.

REFRÃO
Avante, avante p'lo Benfica,
Que uma aura triunfante Glorifica!
E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,
Honrai agora os ases
Que nos honraram o passado!

Olhemos fitos essa Águia altiva,
Essa Águia heráldica e suprema,
Padrão da raça ardente e viva,
Erguendo ao alto o nosso emblema!

Com sacrifício e devoção
Com decisão serena e calma,
Dêmos-lhe o nosso coração!
Dêmos-lhe a fé, a alma!


Como aparece, então, o "Ser Benfiquista", para substituir o hino original?

"A 16 de Abril de 1953 foi apresentado num sarau de angariação de fundos para a construção do Estádio da Luz, no Pavilhão dos Desportos, com a presença de cerca de 6 mil benfiquistas o tema "Ser Benfiquista" escrito por Paulino Gomes Júnior (letra e música) e interpretado pelo cristalino tenor Luís Piçarra, muitas vezes tomado, erradamente, pelo hino oficial do Clube."

Fontes:

http://5dias.net
http://www.youtube.com/user/antonio00maia

domingo, abril 25, 2010

... Sempre !!!




Comemorações do 25 de Abril em Almada.

sábado, abril 24, 2010


Poema de José João da Costa Mota, publicado em Debaixo do Bulcão poezine, número 25, Abril de 2004

segunda-feira, março 29, 2010

Almada de regresso à rua?

Foi um fim de semana de grande actividade em Almada. Com as múltiplas actividades da Quinzena da Juventude (graffiti com WallMada, animação de rua com Jardins Sonoros e a Celebração da Lua Cheia Solar), ainda o Almada Stock Market (espécie de feira do comércio local: um "ovo de colombo" que não foi feito antes não sei porquê - mas calculo...). E a iniciativa que acompanhei melhor: o 1º Encontro de Poetas do Mundo em Almada - http://poetasdomundoemalmada.blogspot.com/ (sobre isso escreverei noutra ocasião).O movimento associativo juvenil e a "sociedade civil" desta cidade, que há vários anos (desde o início desta década) me pareciam algo hibernantes, dão agora sinais de terem acordado. Chegou a Primavera?

A este propósito, comentou um amigo, numa dessas "redes sociais" da net, que, aparentemente, Almada está a "acordar da ressaca dos anos 90". Será?

É que, francamente, já não era sem tempo de acabar com as choradeiras, arregaçar as mangas e fazer pela vida!

sábado, março 27, 2010

No Dia Mundial do Teatro... poesia!

Actores e declamadores dizem poesia de autores lusófonos, na abertura de um dos painéis do 1º Encontro de Poetas do Mundo em Almada, que está a decorrer no Convento dos Capuchos. É lá, também, que está a ser distribuída a mais recente edição do mais vetusto poezine de Almada - quiçá do país... - Debaixo do Bulcão.

quinta-feira, março 25, 2010

"Atenção putos de Almada e arredores! Querem aprender música?"


Tenham a gentileza de olhar para este recorte de imprensa. É a notícia de um curso de "iniciação musical" para crianças de Almada "e arredores". Se vocês se sentem com queda para a música e têm vontade de desenvolver esse atributo, insistam com os vossos paisinhos para vos inscreverem no curso (...)".

Ora bem, "queda para a música" - digamos assim, já que é assim que está na notícia - é algo que, em Almada, existe, e muito, há muito tempo. Nesta cidade (neste Concelho), as principais colectividades, e as mais antigas, tiveram a suas raizes, precisamente, em grupos de música. Veja-se o emblemático caso da mais que centenária Incrível Almadense (e da "sucedânea" - e rival, durante muitas décadas - Academia Almadense). Ou o caso da SFUAP (para não esquecer a outra das "três grandes" do associativismo "tradicional" em Almada).

Cito, a propósito, o site da SFUAP (porque é aquele onde encontrei esta ideia melhor explicada, e só mesmo por isso, ok, pessoal das outras colectividades?):

"A SFUAP deve a sua fundação, em 23 de Outubro de 1889, a um grupo de residentes da Cova da Piedade, na sua maioria operários corticeiros, de um modo geral imbuídos do espírito da época: criar uma banda de música.
No fundo, impulsionada, protegida mesmo, pelo vigoroso amor dos seus fundadores, a colectividade surgiu, precisamente, quando as ideias liberais agitavam os homens de Almada, sofrendo a sua benéfica influência.
Começou com a música, logo alargando a sua actividade ao teatro. Alguns anos mais tarde, face às inúmeras carências de instrução que afligiam a população, a SFUAP enveredou pela instrução criando uma escola com aulas diurnas para crianças e nocturnas para adultos. Três semanas após a abertura da escola nas instalações da sede, as aulas já tinham uma frequência de 110 alunos."

Isto era, por assim dizer, o princípio (aliás, um dos inícios) do que viria a ser um movimento associativo forte, influente e criativo em Almada, cidade e concelho.

A música esteve sempre presente nessa caminhada.

Assim, não é de estranhar que, no princípio dos anos 80 do século 20, quando aparece o chamado "boom" do chamado "rock português", Almada seja - com o Porto - uma das "capitais" do fenómeno. Lembremo-nos de bandas como UHF, Xutos e Pontapés, Iodo, Roquivárius - todas "de referência" nessa época, e algumas ainda em actividade - que nasceram em Almada ou que, de alguma forma, estiveram fortemente ligadas a esta terra.

Ora, o recorte de imprensa é (não sei se já repararam...) de 1982, mais precisamente de dia 25 de Março - ou seja: faz hoje 28 anos que foi publicado. Eu, que gosto muito de aproveitar as "efemérides", lembrei-me de o (re)publicar agora. Mas não é para falar do passado. É para, tendo o passado (a História) como referência, reflectir sobre o que temos hoje, olhando em frente.

Há 28 anos, quem estava a promover aquele curso era uma associação de "novos" (na época) agentes culturais. Uma estrutura que lutava - arduamente e com escassos recursos - em prol de uma mudança de mentalidades na maneira de encarar os assuntos da Cultura e, particularmente, a formação dos animadores culturais. Era uma estrutura que defendia e promovia um trabalho de base, muitas vezes ignorado ou mal visto, para dar formação às pessoas que - em áreas tão distintas como sindicatos, comissões de moradores ou de trabalhadores, escolas, empresas - tentavam, com o que tinham à mão (e muitas vezes sem os conhecimentos técnicos necessários), fazer "trabalho cultural" junto das suas comunidades.

Chamava-se, essa associação, Centro Cultural de Almada. (Eu estive lá, e hei-de contar um pouco da sua história. Mas não aqui nem agora.)

Em 1982, o (ou a) jornalista que escreveu a notícia a que me tenho vindo a referir, julgou importante dar umas "dicas" - com sentido de humor, note-se - para convencer os papás a inscrever as criancinhas no curso. A acção formativa até nem seria muito cara, mas vivia-se um tempo de crise económica, que afectava, muito severamente, o distrito de Setúbal (os anos 80 foram quase tão maus como esta década, nesse aspecto). Ou seja, não havia "massa" - traduzindo: "guito" - para essas coisas do Ensino e da Cultura!

Mas o (ou a) articulista insistia: "Aproveitem uma altura em que eles estejam hipnotizados diante do aparelho de televisão e comecem a falar-lhes no tal curso, garantindo-lhes que ficareis traumatizados para toda a vida se eles se opuserem ao vosso legítimo direito de aprender música. É preciso insistir tanto que eles se vejam perante o risco de perder o programa televisivo".

Que sábias palavras e que douto conselho, ó meus amigos!

Em 1982 eram "os paisinhos" quem ficava frente à televisão - os putos queriam era rua!

Hoje, são "os putos" quem fica frente ao écran. Estão a ver como - citando o Grande Vate - "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"?

Noto que "os putos" daquele tempo estão, supostamente, em vantagem. Porquê? Pois, por isso mesmo: já devem conhecer a técnica para tirar partido de alguém que esteja hipnotizado por um écran. Se, nos oitentas faziam isso com os pais, não conseguem agora fazê-lo com os filhos?

Pois bem, era isto, apenas, o que eu queria dizer. Reflectir sobre o passado para, olhando em frente, avaliar melhor a actualidade (como já referi antes). Ou, citando outro grande poeta, ter em conta que "só as lições da realidade nos podem ensinar a transformar a realidade".

Mas - e desta vez é mesmo para concluir - não acredito que assim seja: que, em Portugal, as lições da realidade nos ensinem alguma coisa. Somos muito imediatistas. Sempre fomos. É uma evidência histórica. Até mesmo da História recente: na década de 90, com tanto dinheiro, com tantos apoios "da Europa", com tanta criatividade de súbito desatada... preferimos continuar com o nosso mau fado, com o nosso choradinho. E agora, amiguinhos, vivemos um tempo de retrocesso civilizacional. Felizmente há sinais, ainda ténues, que indicam que podemos estar a sair desse retrocesso. Digo eu, mas eu sou um optimista incorrigível. Com a tendência bipolar e a falta de memória histórica do bom povo português, não sei, não...