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terça-feira, setembro 30, 2008

Histórias de um "Portugal perigoso"... (1)


Portugal é, tradicionalmente, um país pacato, e a violência a que assistimos nestes últimos meses é algo de novo, sem precedentes, certo?

Errado!

O sentimento de insegurança que se vive actualmente no nosso país não difere muito do que se vivia, por exemplo em 1994 ou, mais ainda em 1996.

Mas a criminalidade está, hoje, mais violenta? Usa métodos nunca antes usados em Portugal?

Talvez existam agora associações criminosas mais organizadas (e profissionalizadas), e é lícito acreditar que esses grupos vêm dos países do Leste europeu e das favelas brasileiras... Pois sim. Mas é bom lembrar que já em 1996 (por exemplo...) se usaram explosivos em atentados à vida das pessoas (este Verão de 2008, utilizaram-se explosivos no assalto a uma carrinha de valores... e foi a histeria que se viu).

O incidente em Alhos Vedros, em que "um grupo de cerca de 30 jovens" (segundo a comunicação social) agrediu indiscriminadamente pessoas num jardim (a polícia "acredita" que se tratou de um ajuste de contas) anuncia um novo tipo de delinquência juvenil?

Não sei, não... Que dizer, então, do que aconteceu entre o final da década de 1980 e o início da década seguinte, quando grupos de "cabeças rapadas" (bandos violentos de extrema-direita) começaram a bater - criteriosamente, pois claro! - em tudo o que era negro, e/ou militante de organizações de esquerda?

E que dizer da reacção, ainda mais violenta (e indiscriminada) dos grupos de jovens negros dos subúrbos que, até meados dos anos 90, espalharam um clima de insegurança - esse bem real - agredindo e roubando... tudo o que não era "negro" (e por isso eu lhes chamei, num artigo do semanário Sul Expresso, "racistas ao contrário")? Em 1992, um grupo de 30 (ou mais) desses jovenzitos suburbanos (aos quais, erradamente, alguns chamavam "gangs") desembarcou no largo de Cacilhas e arrasou tudo o que lhes apareceu à frente e não era "negro"... até que um jovem, português, branco, lhes mostrou que estava vestido com uma camisola do MPLA (eram tempos eleitorais em Angola...) e aí eles pararam: "epá, há um engano!..."

Tem piada, mas não é piada: aconteceu mesmo!

Hoje os larápios recorrem ao "carjacking" (porque, devido ao reforço dos sistemas de segurança, já não conseguem roubar carros a não ser com os proprietários lá dentro)? Pois bem: na década passada, os putos dos subúrbios recorriam mais ao "telemóveljacking", que funcionava mais ou menos assim: estavas sozinho e eras cercado por um bando e ou lhes davas, de livre vontade, o (como eles diziam) "meu telemóvel, que tens no bolso", ou levavas na boca e ficavas na mesma sem o telemóvel! Hoje és assaltado, numa estrada deserta, se tiveres um carro topo de gama?


Opá, há uns poucos anos eras assaltado (em qualquer sítio, e a qualquer hora)... se tivesses um telemóvel (e, de preferência, fosses "branco" - ou "pula", que é uma expressão angolana, derivada de "polaco", e que eles usavam sem saberem porquê...)!

Ah, não acreditam? Acham que estou a exagerar? Acham que é mais uma vitorinice das minhas?

Está bem. Então leiam o que se segue:





Que tal?

Histórias de um "Portugal Perigoso"... (2)

Parece que em 1996, houve uma vaga de crime violento... Muito violento, mesmo.






Passo os olhos pela revista do semanário Expresso de 21 de Setembro de 1996, e leio:

«Ourém, 24 de Agosto: um casal e dois filhos são mortos a tiro de caçadeira; Águas de Moura, 3 de Setembro: uma bomba explode no carro do casal Galego; Fundão, 6 de Setembro: uma bomba deflagra na escola e mata uma funcionária».


E mais: «O assassínio de toda a família de Acácio P., na madrugada de sábado, 24 de Agosto passado, em Ourém, Quinta da Granja, revestiu-se de uma tal crueza que um investigador da PJ não hesitou em abandonar a habitual circunspecção policial para declarar que os crimes «foram cometidos num quadro de grande dramatismo e demonstrando grande vileza».

(texto do jornalista Rui Pereira, na mencionada publicação)







O artigo citado (Três crimes da 'loucura normal') dramatiza - excessivamente, para o meu gosto, mas enfim... - crimes vionetos ocorridos nesse Verão de 1996... com recurso a caçadeiras, e (surpresa?) bombas (uma num carro, outra à porta de uma escola!), todos eles (convém esclarecer) cometidos por cidadãos portugueses!


Mas três crimes, por muito violentos que sejam, não nos dão o direito de dizer que estamos (estivemos) perante uma "vaga de criminalidade violenta". O sentimento de insegurança nem sempre corresponde a um aumento real dessa criminalidade.


A propósito (ainda segundo a revista do Expresso) o ano de 1994 (doias anos antes, portanto) foi muito mauzinho nesse aspecto da criminalidade violenta - as pessoas é que já não se lembravam.
Passo a citar:













"A sangue frio" - crimes do Verão de 1996, segundo a revista do Expresso


Motivos insondáveis e violência desproporcionada são comuns à maior parte dos crimes cuja coincidência no tempo põe em causa a segurança em geral


Um pai, que há muito se mostrava desavindo com o filho, matou-o por ter tropeçado nos seus pés, quando se encontrava num café. Um marido matou a mulher tetraplégica, com gás asfixiante, para se livrar dela. Um irmão e uma irmã, septuagenários, viviam sós e o primeiro considerou que o melhor para ambos era pôr fim à vida - matou a irmã e pretendia de seguida suicidar-se, tendo mesmo convocado a imprensa para um hotel, com objectivo de se explicar. Os três casos passaram-se em 1994 e tiveram lugar de destaque nas páginas de jornais e nas televisões. Grosso modo, analisadas as motivações e as circunstâncias, encontrar-se-ão mais afinidades que diferenças, em relação à recente onda de homicídios (54, entre os dias 1 de Julho e 9 de Setembro) - de 1996.


Talvez a primeira e principal diferença seja a de os crimes de 1994 estarem já esquecidos. Pelo contrário, a memória colectiva ainda está impressionada e tem bem presentes o assassínio de uma família inteira, a morte de um casal à bomba, ou a do jovem de 17 anos que se recusou a entregar 20 contos(...). Os motivos são fúteis e a violência é desproporcionada, nalguns casos refinada mesmo, com apreciável grau de planeamento e concepção. Impressionante é também a coincidência temporal. Mas sabe-se que tal não é inédito: o mês de Janeiro deste ano (1996) registou o mesmo número de crimes (24) que Agosto. Vinte e quatro foram também os homicídios verificados em Maio, Novembro e Dezembro de 1995. E em Março de 1994 o número foi ainda mais elevado: trinta e cinco casos consumados.



(Texto de Ana Paula Azevedo, revista do Expresso, 21 de Setembro de 1996)


Em que ficamos, então?

Que tal espreitarmos o que se dizia (escrevia) sobre a criminalidade em Portugal, e o sentimento de insegurança, nesse ano de 1994?

Histórias de um "Portugal perigoso"... (3)

O "Grande Atlas do Portugal Perigoso" - jornal Público, Junho de 1994




Em 1994 havia entre a população portuguesa um sentimento de insegurança...


Estávamos no início de uma época de prosperidade económica (recebíamos muitos fundos comunitários, havia muito dinheiro a circular) e nós, portuguesitos, entrámos na onda do novo-riquismo, fartámo-nos de comprar telemóveis, computadores e roupas de marca (iam longe os anos 80, e a promessa de frigoríficos em todos os lares portugueses...). Ainda havia por aí bandos de "skinheads" a arranjar confusões, mas já tinhamos enxotado os negros e outros pobretanas para bairros periféricos e... Ops, esses mesmo começavam a revoltar-se, e a querer, também eles, telemóveis e roupa de marca!...


A maneira mais fácil (ou a única?...) de obter essas coisas, era roubar... E se fosse roubar os "pulas", melhor ainda: vingávamos 500 anos de opressão e afirmávamos melhor as nossas raízes africanas, check it out, yo! Tá-se well?


(Se não perceberam a ironia, azar!)


Mas parece que, no meio de toda esta agitação social, os portugueses - entretidos como estavam com os seus telelés, pcs e vcrs - tinham medo, sim, mas era dos "drogados"!


Isto a fazer fé no que se afirmava no jornal Público, em 19 de Junho de 1994 (e que, não desfazendo, foi talvez a primeira tentativa feita - nessa época - por um jornal português para recolher, de forma sistematizada, dados sobre a criminalidade ou, mais propriamente, o sentimento de insegurança).


Cito:


Em Portugal a noção de local perigoso está quase sempre associada à droga. Bairros e ruas onde se faz tráfico, ou que são simplesmente pontos de encontro de toxicodependentes, aparecem em quase metade da lista de locais que o Público seleccionou a nível nacional, através de um extenso inquérito em todo o país a um grupo de onze profissões.


Neste Grande Atlas do Portugal Perigoso - que destaca os pontos que aparecem mais vezes nas estatísticas do crime mas também o simples medo que certos locais promovem a quem a eles se desloca em trabalho - Lisboa vem à frente como a cidade mais perigosa. O que não espanta, num país apesar de tudo sereno, pequeno, em que as grandes cidades são raras.


Fora da capital há evidentemente locais perigosos, onde as probabilidades de haver assaltos, furtos a pessoas ou propriedades, e ofensas corporais são maiores. Mas dos 305 concelhos portugueses só em 34 apareceram lugares onde as profissões inquiridas pelo Público - Polícias (PJ, PSP e GNR), carteiros, médicos de serviço nocturno ao domicílio, assitentes sociais, bombeiros, funcionários dos telefones, transportes (públicos e taxistas) e serviços camarários - sentem receio.


Um receio que, apesar de tudo, segundo dizem, não os impede de entrar em praticamente nenhum lugar, mesmo os de pior nome. A excepção são os taxistas, da Grande Lisboa, que explicitam várias zonas onde pura e simplesmente não entram ou, se o fazem, é porque realizaram, com o cliente, acordos prévios que chegam a incluir garantias bancárias. É o caso do interior do Casal Ventoso, um dos bairros emblemáticos do tráfico de droga em Lisboa.


O espanto de muitos profissionais perante a pergunta do Público - "Quais são os locais mais perigosos em termos de crime na região em que trabalha?" - e a reacção de vários comandos distritais de polícia, que quase se ofenderam quando perguntámos "Têm medo de entrar em algum lugar?", revela a situação de pacatez nacional e explica, em parte, a ausência de várias capitais de distrito dos mapas destas páginas.


(...)


Em relação a Lisboa (...) "a confusão ajuda os ladrões. É quase mais fácil assaltar uma casa na Av. Alexandre Herculano (transversal da Av. Liberdade, centro de Lisboa) do que um apartamento em Carnaxide" (periferia de Lisboa), disse ao Público Francisco Pereira Calvão, cordenador para a área dos furtos e roubos da Polícia Judiciária.


Aliás, para a PJ é evidente que quem estiver às dez da noite na zona do Marquês de Pombal - quem for por exemplo passear para o Parque Eduardo VII, "e ainda há muitas pesoas que vão namorar para lá" - terá muito mais hipóteses de ser agredido ou assaltado do que às cinco da manhã em muitos dos locais de capitais ou vilas de província que, no contexto local, são olhados com muita desconfiança.


À cabeça de um Atlas do Portugal Perigoso deveriam estar indicados os locais onde há mais homicídios e violações. Mas o homicídio, por exemplo, "não escolhe lugar nem hora" que permitam apontar com o dedo os sítios onde há mais ocorrências, como diz o inspector João de Sousa, de departamento de homicídios e ofensas corporais da Polícia Judiciária. Restam-nos portanto as estatísticas nacionais: em 1993 houve 83 homicídios (33 no primeiro semestre, 50 no segundo), e entre 1 de Janeiro e 31 de Maio, 49.


(...)


Geograficamente, tornou-se óbvio que o crime de rua que implica violência, os assaltos a casa e lojas, é mais comum no litoral que no interior do país. Mas também é no litoral que estão concentrados a maior parte dos portugueses, muitos deles a habitar bairros periféricos e, portanto, mais pobres.


"O Grande Atlas do Portugal Perigoso"jornal Público, 19 de Junho de 1994Texto de Bárbara Dias e Rui Cardoso Martins, com David Pontes, Luís Filipe Sebastião e os correspondentes do Público que encontraram zonas de relevo nos respectivos concelhos e distritos: Alexandrina Baptista, Santarém; Carlos Camponez, Leiria; Carlos Dias, Beja; Francisco Fonseca, Barcelos; Graça Barbosa Ribeiro, Coimbra; Idálio Revez, Faro; Jorge Talixa, Vila Franca de Xira; José Parreira, Peniche; Luís Paulo Rodrigues, Famalicão; Manuel Teixeira, Matosinhos; Pedro Garcias, Vila Real; Raul Oliveira, Sines; Raul Tavares, Setúbal; Tolentino da Nóbrega, Funchal.


O método do Atlas


O Público fez uma pergunta - "Quais são os locais mais perigosos em termos de crime na região em que trabalha?" - a um grupo de profissões de Norte a Sul de Portugal, Madeira e Açores. Polícias (PJ, PSP e GNR), carteiros, médicos de serviço nocturno e ao domicílio, assitentes sociais, bombeiros, funcionários dos telefones, transportes (públicos e taxistas) e serviços camarários foram as profissões escolhidas por serem aquelas que mais directamente fazem deslocações, constantes, aos vários pontos das cidades e vilas portuguesas, independentemente de serem ou não receados.


O levantamento feito no terreno pelos jornalistas merecia, também ele, ser objecto de estudo.


Veja-se, por exemplo, o caso de Almada, que aparece com 15 entradas (o maior número de referências nesse "atlas"), enquanto, por exemplo, Setúbal é referenciada apenas 9 vezes. Eu não me sentia mais inseguro no jardim da Cova da Piedade (Almada) que na Avenida Luisa Todi (Setúbal)... E não sei o que são as "zonas escuras do Bairro do Pica Pau Amarelo": seriam as traseiras do prédio onde eu morava, no Bairro Amarelo? Mas, nesse caso, estávamos muito longe do Hospital Garcia de Orta... (Suponho que o jornalista que recolheu os dados se estaria a referir ao bairro do Valdeão... ou ao Bairro do Matadouro... ou ao Bairro Cor de Rosa... ou mesmo ao Pragal - pois são essas as zonas residenciais mais próximas do Hospital).


Sem mais comentários, aqui fica a "caracterização" das "zonas problemáticas" de Almada, segundo o Público, em 1994:


Almada
População: 151.783Desemprego: 10,8% (dados de 1994, note-se)


Zonas escuras do Bairro do Pica Pau Amarelo
Problema: Junto às traseiras do Hospital Garcia de Orta são comuns as desavenças, talvez por seu um local de tráfico de droga.


Torcatas e Pragal
Problemas: Local de concentração de consumidores de droga. Zona de assaltos também, onde os taxistas, por exemplo, não gostam de ir.


Mata de S. António, Costa da Caparica
Problemas: Zona clandestina densamente aglomerada. A própria polícia tem medo de lá entrar. Não raras vezes, embora sem eco público, verificam-se confrontos entre "gangs" de negros e cabeças rapadas.


Jardim da Cova da Piedade
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes.


Barrocas, Cova da Piedade
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos. Os taxistas sentem-se inseguros.


Quinta do Rato e Bairro da Fundação, Laranjeiro
Problemas: idem


Quinta de Sto António e Bairro de S. João, Feijó
Problemas: idem


Bairro Fundo Fomento, Vale Figueira
Problemas: idem


Charneca e Vila Nova da Caparica
Problemas: Assaltos a carros e vivendas. Os taxistas sentem-se inseguros.


Bairro Campo da Bola, na Costa de Caparica, zonas de praia na própria vila, Marisol e zona da Fonte da Telha
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos à mão armada. Os taxistas sentem-se inseguros.


S. Pedro da Trafaria, zona 2º Torrão
Problemas: Droga e assaltos. Os taxistas sentem-se inseguros.


Ruelas de acesso ao cais de embarque, Cacilhas
Problemas: Entreposto fluvial. Zona de chegada e partida de "mulheres do alterno" e "utentes" do "bas-fond".


Imediações do Asilo 28 de Maio, Porto Brandão.
Problemas: Criminalidade de todo o tipo, com predominância para o tráfico de droga.


Cova do Vapor, Trafaria
Problemas: Os taxistas receiam trabalhar naquela zona.
Bairro Amarelo, Monte da Caparica
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Histórias do "Portugal perigoso" (4)

Portugal perigoso? Onda de violência?
Perigoso mesmo era andar na rua em Almada, nos anos 90!

Recapitulando: ainda que hoje exista um novo tipo de criminalidade (não o nego: é evidente), eu não me sinto mais inseguro.

Sei que me arrisco a estar no local errado, à hora errada, e a ser vítima de algum criminoso mais violento (ou mais "profissional"). Mas, nos anos 90, esse risco era constante: bastava andar na rua, a partir do início da noite, ou apanhar um autocarro para a Costa de Caparica (ou qualquer outro, que passasse pela periferia de Almada) para correr o risco de ser assaltado por um bando de imbecis dos subúrbios.

Os autocarros eram, nesse tempo uma espécie de Kinder Surpresa (passe a publicidade): não sabiamos o que ía lá dentro antes de lá entrarmos. E às vezes a "surpresa" era pancadaria e assaltos.

O quinzenário Sul Expresso tentou, nesses tempos turbolentos, perceber que raio se estava a passar. E, entre 1995 e 1996 produzimos as seguintes peças jornalísticas - assinadas pelos jornalistas António Vitorino e Marina Caldas:








Agora que essa delinquênca juvenil quase deixou de existir (veja-se o que diz o mais recente relatório de segurança interna...), seria talvez interessante - e útil - tentar entender como (com que recursos, com que métodos...) o assunto foi trabalhado pelas intituições locais e nacionais, desde os anos 90 até à actualidade.


Mas nem sempre a comunicação social tenta encontrar explicações para os factos. É triste, existe, não é fado, mas é verdade...

sexta-feira, setembro 26, 2008

Eu sabia!


Na sequência da requalificação urbana, proporcionada pelas obras no "espaço-canal" do Metro Sul do Tejo, o comércio tradicional almadense vai criar uma marca própria «que nos defina e nos proteja, e que ofereça ao grande público uma identificação maior», como afirma à jornalista Cristina Isabel Pereira, do Jornal da Região, o presidente da delegação de Almada da Associação de Comércio e Serviços do Distrito de Setúbal, Luís Henriques.

Apetece-me dizer: eu sabia! As minhas fontes já me tinham dito!
E não estou a brincar: é mesmo a sério!
Tinha esta informação comigo desde Março (há seis meses, portanto), tal como tinha outras (por exemplo, uma longa entrevista com António Neves, presidente da Junta de Freguesia da Costa de Caparica, na qual o autarca afirma que se vai candidatar a mais um mandato, findo o qual, possivelmente, deixará o cargo, com a obra do Polis já concluída...) - matéria jornalística que, infelizmente, não tive oportunidade para publicar antes do Jornal da Região o fazer (e agora, nem antes nem depois).

A concorrência é uma coisa porreira, pá: faz-nos ter pontos de referência para melhorar o nosso próprio trabalho.

Mas, para que isso aconteça, é preciso ter onde publicar o nosso trabalho. Não é?...

segunda-feira, junho 23, 2008

Notícias da Zona:

Nesta edição, o quinzenário Notícias da Zona dá grande destaque a actividades culturais e de lazer.
Uma reportagem de Catarina Cabral sobre a festa de final de ano lectivo da Escola Básica 1 n.º1 da Quinta do Conde (estabelecimento de ensino que está a comemorar 40 anos), dá o mote para o que se segue.

A saber: uma foto-reportagem sobre o Euro 2008, com imagens da festa na Suiça, e da festa... seguida da grande desilusão que se viveu em Almada, frente ao écran do Parque Urbano. (Onde - importa referir - após o final do jogo entre Portugal e Alemanha, aconteceram, algumas "escaramuças" entre grupos de jovens, que poderiam ter descambado para algo mais grave, dada
a "falta de comparência" da polícia... Eu vi: estive lá, em serviço para o jornal... Mas isso é tema para ser tratado de forma mais desenvolvida e fundamentada, sem demagogias nem leviandades, e numa outra ocasião.)


Na cultura, vários destaques: actividades para os mais novos no concelho do Seixal - e, em Almada, o incontornável Festival de Teatro... (há também uma interessante crónica de Artur Vaz, sobre um certo Benfica).
E, como não quero terminar este texto sem ter a certeza de que a minha sardinha tem direito à merecida brasa (estamos no São João, não é?...), aqui fica mais um destaque desta edição do NZ. Neste caso, sobre o Prémio Literário Sesimbra Jovem "A Força das Palavras", de cujo júri tive a honra de fazer parte, por convite do Artur Vaz - que, além de colaborador do NZ é, nem mais nem menos que o presidente da ECOSDART, associação cultural sedeada na Quinta do Conde.

(E, aqui para nós, a Quinta do Conde bem precisa de uma associação cultural... Mas também isso é assunto para outro artigo, que escreverei numa outra oportunidade.)

quinta-feira, maio 29, 2008

Notícias da Zona:

Nesta edição, fomos avaliar o estado das praias da península de Setúbal: preparadas para a época balnear, que começa domingo?





Em Sesimbra, tudo parece a postos. Mas em Almada, na frente de praias da Caparica, há um paradoxo interessante. É que o programa Polis, que vai reconverter e requalificar toda aquela zona, está a causar polémicas várias. E ajudou mesmo a que, este ano, a Caparica perdesse algumas bandeiras azuis.





António Neves, o presidente da Junta de Freguesia da Costa da Caparica, defende, no entanto, que os incómodos do presente são “males necessários” para que a sua cidade venha a ter o futuro que, há muito, os habitantes (e os cerca de 8 milhões de turistas) merecem.
Já as praias de Setúbal continuam sem hastear nenhuma bandeira azul…


O Notícias da Zona entrevista também um experimentado nadador salvador, que tem um projecto para melhorar a vigilância nas praias – e não só durante a época balnear (época que, como se sabe, em Portugal decorre entre e Junho e Setembro).



Diz Telmo Rodrigues que o nosso país ficaria a ganhar se os nadadores salvadores criassem clubes – ou associações sem fins lucrativos – de ‘surf life saving’. Organizações que, afirma, poderiam funcionar como uma espécie de “escuteiros do mar”.

quinta-feira, maio 22, 2008

A Expo 98 não traz... O QUÊ ???


Em 1998, a poucos dias da abertura do grandioso evento que seria a Exposição Mundial, este vosso servo, armado em jornalista do Sem Mais Jornal e do Jornal da Região (edição Almada), lembrou-se de perguntar a alguns agentes económicos do concelho de Almada o que esperavam ganhar com o acima referido grandioso evento.

Pergunta natural, não é? Almada fica na outra margem do Tejo, mesmo em frente à capital do império... Portanto, seria de esperar que alguns dos visitantes da Expo aproveitassem para vir conhecer esta banda.

(Ah, e não me venham cá com a treta da cidade esventrada e desfigurada: estávamos em 1998, ainda existia em Cacilhas o penico... hããã, perdão, a Fonte Luminosa, a estátua dos Perseguidos ainda se encontrava naquela rotunda central da cidade, cercada de trânsito... enfim, estava a maravilhosa cidade de Almada no seu melhor, sem estas tristezas arquitectónicas que esses energúmenos da Câmara estão a implantar agora, abusivamente, e só para desfeiar esta antes tão belíssima urbe...

Adiante...)

Ora bem: se a pergunta (será de esperar que a a Expo 98 traga visitantes a Almada?) era pertinente, toca então de agarrar no telefone e ligar para restaurantes da Trafaria, de Porto Brandão e da Costa de Caparica. (Era assim que se fazia: ligava-se, a partir da redacção - em Setúbal, nas instalações da Sem Mais - e, curiosamente, conseguia-se muitas vezes falar com as pessoas que atendiam do outro lado da linha. Outros tempos...)

Feitos os primeiros contactos, fiquei a saber que, no sector da restauração ninguém esperava aumento de afluência nos meses seguintes.
Bem... e então se diversificarmos a busca de depoimentos, falando, por exemplo, com uma associação representativa de agentes económicos da zona mais turística do concelho?

Boa! Diga lá então, senhor representante da Associação de Desenvolvimento Turístico da Costa de Caparica. E ele disse: havia muito turismo, sim senhor - mas isso é habitual e, aparentemente, não se verificaria nenhum aumento substancial de visitas, ou estadias, por influência da realização da Expo 98.

Ora bolas!

Então, a Exposição Mundial, o Grande Evento que ia devolver o Orgulho Pátrio à Nação Portuguesa... não trazia nenhum valor acrescentado a Almada?!

Mas como era isso possível? Não podia ser!!!

Quem talvez possa ajudar a entender isso será a própria organização da Expo. Fala-se, então, com o gabinete de imprensa, e diz o respectivo porta-voz: «se não há muitos estrangeiros que tenham procurado hospedagem no concelho de Almada, isso deve-se à estratégia de instalação dos operadores turísticos».

O que, trocado em miúdos, significa que os operadores turísticos se estavam bem a borrifar para Almada.

Então, de quem é a culpa? Porque é que os operadores turísticos não se interessam por Almada, mesmo em tempos de Expo 98?

Já sei: a culpa deve ser da Câmara. Em Almada, a culpa é sempre da Câmara...

Perguntemos, pois, à Câmara. «A Expo não vai, certamente, resolver os problemas estruturais das actividades económicas do concelho», respondeu, então o chefe da Divisão de Informação municipal.

O quê?... A Expo não vai resolver os problemas estruturais?!!!... Mas não é para isso mesmo que serve a Expo? Não é isso mesmo que a Expo vai fazer no país inteiro: criar empregos, requalificar e diversificar o tecido produtivo, fazer crescer a economia portuguesa de forma continuada e sustentada?

Isto só em Almada, senhores!

Mas pronto, que havia eu de fazer mais? Se toda a gente me diz que não espera maior afluência de turistas ao concelho durante a realização da Expo 98, só me resta concluir que, precisamente, não se espera que a Expo 98 traga turistas ao concelho.
E, assim, o título escolhido para a peça foi - como parecia óbvio - "Comerciantes de Almada aguardam o Verão com Reservas - Expo'98 não traz turistas"

O QUE EU FUI DIZER (aliás, escrever...) MEUS CAROS!

O Grande Evento Lusitano não traz turistas? Heresia! - berraram, de Lisboa, algumas chefias da empresa que editava o semanário gratuito. E o chefe de redacção, coitado (era sempre o chefe de redacção que aturava essas coisas... coitado), lá teve de aturar o "orgulho ferido" de uma alma lusa que, candidamente, acreditava que a Expo 98 era um símbolo intocável.

E disse-me: «deviamos ter escolhido como título "Expo 98 não traz muitos turistas"». Porque, enfim, era a Expo 98. Alguns turistas havia de trazer, não?...

(Afinal, estávamos nos anos 90, tinhamos dinheiro à borla da Europa, andávamos contentinhos da vida porque tinhamos conseguido chamar a atenção do mundo para um pedaço de Lisboa todo modernaço, a economia estava em franco crescimento, havia empregos, havia animação cultural, e agora é que ia ser.
E foi: foi o que se viu... Até hoje.)

quarta-feira, abril 30, 2008

"Imigrantes: integrados ou excluídos?"

Em véspera do 1º de Maio - Dia do Trabalhador - o jornal Notícias da Zona quis avaliar a importância dos trabalhadores imigrantes na sociedade portuguesa. (Clique nas imagens para ampliar e ler o texto)
Pedro Santarém, dirigente da Frente Anti-Racista, sustenta, nesta entrevista, a necessidade de alterar as leis da imigração - embora considere, também, que a legislação já foi bem mais desfavorável aos imigrantes. Em artigo de opinião, Fernando Soares Reis lembra que Portugal é, desde há muito, um país de emigrantes - e conta a sua experiência pessoal nos Estados Unidos da América...

A entrevista foi feita na sede da Associação Moitense dos Amigos de Angola (AMAA), no Vale da Amoreira. E contou com a presença de Pedro Santarém e do dirigente da AMAA, Caiano Dias. Obedecendo a critérios editoriais - que não tenho tempo nem vontade de explicar agora - decidimos, no jornal, que o entrevistado seria Pedro Santarém (Caiano aparece na reportagem sobre o mesmo tema) e que - porque o espaço em papel, não estica - teria de ser muito resumida. E assim foi...

O que se segue: reportagem de Catarina Cabral e António Vitorino, que falaram com trabalhadores imigrantes e com dirigentes de associações; uma entrevista de Fernando Soares Reis com um ucraniano, professor de música (a trabalhar nas obras...); e as opiniões dos deputados eleitos pelo círculo de Setúbal (das quais, com a vossa permissão - e porque não estou aqui na qualidade de jornalista, mas sim de blogueiro - destaco as palavras do comunista Bruno Dias: «Enquanto se olhar para a 'criação de emprego' como um favor e não como um factor essencial de crescimento e desenvolvimento, o problema estará sempre visto de pernas para o ar»).



Site do jornal Notícias da Zona:



terça-feira, abril 15, 2008

Notícias da Zona:

Apresento-vos, finalmente, o jornal Notícias da Zona. É um quinzenário regional, editado na Quinta do Conde (uma terreola do concelho de Sesimbra…) e abrange, por agora, apenas o concelho onde está sedeado e o município vizinho, do Seixal. O Notícias da Zona é dirigido pelo jornalista António José Ribeiro. Ou melhor: pelo grande Tozé Ribeiro – que era paginador (aliás, criador do grafismo) do “almadense” Sul Expresso, onde, a bem dizer, comecei a minha actividade “jornaleira” a sério, nos idos dos anos noventa… Nesta edição (a primeira em que participo) um dos destaques vai para a apresentação, pela primeira vez, de espectáculos do Festival Sementes em Sesimbra.E isto é, para mim, “juntar o útil ao agradável”, como se costuma dizer.
É que, além de estar a trabalhar para o meu amigo Tozé Ribeiro, reencontro (e entrevisto) também velhos amigos (ou conhecidos, sei lá eu…) como, por exemplo (neste caso) Rui Cerveira e Bruno Neves.

Bem… Por outro lado, há que ter em consideração que, nestas coisas de relacionamentos entre jornalistas e instituições (ou representantes de instituições) não há cá amigos. Se, algum dia, tivermos de nos chatear por questões de serviço… chatear-nos-emos! (E depois, espero, continuamos amigos na mesma.)

Até porque, como se dizia no meu tempo: trabalho é trabalho; conhaque é conhaque

terça-feira, janeiro 08, 2008

Tive a honra de trabalhar, também, na primeira edição de uma revista de Economia!


Em Abril de 2002 eu, que não percebo nada de finanças (nem consta que tenha biblioteca), fui convidadado para integrar a primeira redacção da revista País Económico – uma publicação dirigida por Jorge Alegria (que tinha então terminado a sua parceria no projecto Sem Mais). Claro que aceitei: uma coisa são finanças, outra é Economia!

Eu, que até nem percebia muito nem de uma coisa nem de outra, lá fui - para aprender, trabalhando nessa matéria.

A minha passagem pelo País Económico foi, também, a oportunidade de voltar a trabalhar com o grande Armando Faria (um jornalista que, desde o tempo do Sem Mais Jornal, sempre conheci como meu chefe de redacção), e... Bem, foi mais que isso: foi fazer uma revista inteira “a meias” com ele. E foi estar um mês a morar em Setúbal (como se eu tivesse saudades dessa terreola, desse lugarejo...) em casa dele e da respectiva esposa (a quem, aproveitando o ensejo, quero saudar cordialmente).

Depois, por razões que não vou explicar agora para não vos dar seca (mas que talvez tenha de explicar mais tarde), fiquei, outra vez, sem condições para trabalhar. E pronto: até hoje nunca mais fui o mesmo (ainda experimentei tele-marketing e derivados, mas – contrariamente ao que acontece com a minha família mais “chegada” – eu cá não tenho jeitinho nenhum para enganar as pessoas).

Eu, no Sem Mais Jornal, pela segunda (e última) vez


Durante o ano de 2001, estive a trabalhar no jornal Sem Mais, em Setúbal. Foi um regresso à casa que eu conhecia já desde o arranque desse projecto (o que aconteceu em 1998, como vos disse aqui).

Esse ano de 2001 foi o meu período profissional mais profícuo. Já tinha aprendido muito, nos locais por onde tinha passado anteriormente (e com algumas das pessoas com quem tinha trabalhado). Estava, então, a atingir o auge da minha carreira profisional. Mas, para lá chegar, tive de fazer algumas cedências (e não temos todos que as fazer?...).
Tive, por exemplo, que ir morar para Setúbal. Foi essa a maior exigência – ou, melhor dizendo: a condição "sine qua non" – que os contratadores me impuseram.
E porquê? Porque não acreditavam que, se eu ficasse em Almada, conseguisse desempenhar com lealdade as funções que me eram confiadas.
(Claro que eles tinham razão. Só que não era pelos motivos que eles pensavam: era porque, em Almada, eu estava “refém” dos caprichos de alguns familiares, que sempre me prejudicaram a vida e pouco me ajudaram... mas não vou, por agora, dar-vos mais "seca" com esse assunto.)
Um post scriptum: em Setúbal, nessa segunda passagem pelo Sem Mais – jornal e revista – e, já agora, pelo Jornal da Região, onde voltei a escrever, mas em circunstâncias já muito diferentes daquelas que anteriormente vos contei aqui – fiquei a conhecer mais dois profissionais com quem gostei muito de trabalhar: o Carlos Carvalho, que ainda lá está, e a Mariana Moreira, que era fotógrafa é das poucas pessoas com quem trabalhei a quem posso hoje chamar amigo, ou, no caso, amiga.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Jornal D’Hoje (Portalegre, 1999/2000)

O semanário Jornal D’Hoje foi um projecto do jornalista Rui Vasco Neto, feito em Portalegre, na transição do século 20 para o século 21.
Irreverente e desafiador dos poderes instituídos – à imagem do seu criador, aliás – o Jornal D’Hoje tinha tudo para ser um fracasso editorial, numa terra tão conservadora como era então a “capital do Norte Alentejano”.
E, como se previa (e como muitos caciques locais desejaram, e trabalharam para tal), acabou mesmo por ser um fracasso, em termos de viabilidade editorial. Mas foi, também, um grande exemplo do que deve ser a comunicação social local: informativa, atenta, interveniente, sem cedências nem compromissos.
Um jornal que, como se costuma dizer (e porque era feito à imagem do seu criador, repito), chamava os bois pelos nomes. Ou seja: fazia jornalismo. Mesmo correndo o risco de chatear alguns poderes, locais, regionais, ou mesmo nacionais.E era mesmo isso que se pretendia: dizer as verdades (revelá-las) sobre um dois distritos portugueses mais deprimidos e subdesenvolvidos (não porque “não gostássemos de Portalegre”- e, portanto, só tinhamos era que “voltar para a nossa terra”, como nos foi sugerido várias vezes pelos arautos da mentalidade “xenófoba” local – mas apenas porque era esse o âmbito territorial do periódico em questão). E propunha-mo-nos a revelar essas verdades, doesse a quem doesse.

Ora leiam este excerto do editorial do número zero (9 de Dezembro de 1999), assinado pelo director, Rui Vasco Neto:

«Em Portugal já não se usam palavras. Usam-se meias palavras para tudo, do insulto ao elogio, da ordem à sugestão.
A palavra de ordem é não hostilizar, contemporizar, dialogar, negociar, enganar, se for preciso! – mas não agitar.(...)
Ser politicamente correcto é, nos dias de hoje, tão imprescindível como o telemóvel. Quem não é não está contactável. Pior: não é contactável.(...)
Todas as suas perguntas têm cabimento no JornalD’Hoje. A nossa função é essa, perguntar e obter resposta às perguntas. E quando os senhores que se sentam na coisa pública como se fosse só deles torcerem o público nariz de desagrado pela insistência (...) há sempre uns que se calam.
Gostaria de dizer aos leitores deste jornal que há sempre uns quantos outros que perguntam outra vez o que querem saber e mais outra e outra (...) até à resposta final. E que depois vão confirmar a resposta.
Têm um nome, esses. Chamam-se jornalistas. Bem vindo ao mundo da informação regional, com qualidade nacional.»
Claro que, com esta declaração de intenções, o Jornal D’Hoje estava, logo à nascença, em “guerra” com os poderes então instituídos no “norte alentejano”. E que poderes eram esses? Bem, deixa cá ver se me lembro... eram 10 concelhos dominados pelo Partido Socialista (que estava então também no Governo do país), em 15 dos que compõem o distrito de Portalegre (os outros 5 eram “repartidos” pela CDU e pelo PSD – mas o PS tinha os mais importantes: Portalegre, Elvas, Ponte de Sôr, Campo Maior...). E não era apenas a “proporção” ou “desproporção”de forças que estava ali em causa: era uma lógica de concentração de poderes, de hegemonia. E de asfixiamento das vozes eventualmente rebeldes.
Em Portalegre... fiéis ao objectivo de fazer informação rigorosa, sem cedências e ouvido sempre todas as partes interessadas num determinado assunto... sempre que falávamos com a “oposição”, tentávamos ouvir, também, a maioria (entenda-se, os autarcas do PS). Mas era, precisamente, essa maioria (com a própria Câmara de Portalegre à cabeça) quem colocava obstáculos ao nosso dever de informar.
Era habitual eu terminar os meus trabalhos com frases como “o Jornal D’Hoje tentou ouvir a Câmara de Portalegre, que não se mostrou disponível para prestar declarações”, ou então “na Câmara de Portalegre, disseram-nos que a única pessoa autorizada a falar sobre o assunto seria o presidente, mas só marcando entrevista, e o senhor presidente não estava disponível para entrevistas”.

Não acreditam? Julgam que estou a exagerar?Leiam, então, a seguinte história real:




Ou esta, não menos verdadeira:



Pois: era assim mesmo que as coisas se passavam!
“Desculpem lá, mas é que o senhor presidente não fala para um certo órgão de comunicação social local”. E não falava, sobre nada! Ou quase: certa noite, depois nós, Jornal D’Hoje, termos noticiado, em exclusivo uma “bronca” política que tinha acontecido na Associação de Municípios do Norte Alentejano (notícia escrita por mim, a partir de fontes que não podia identificar – mas que tinhas estado nessa reunião), mandámos um jornalista esperar o senhor presidente à porta dos Paços do Conselho. E porquê? Porque ele tinha apresentado a demiossão do cargo que ocupava na Associação de Municípios, e nós julgámos que isso devia ser explicado... aos munícipes. Ouvindo a versão que nos tinha chegado da “oposição” e, depois, o que tinha o senhor presidente a dizer sobre o mesmo assunto.
Era essa a nossa obrigação, enquanto jornalistas.
E, se não foi a primeira vez (não tenho a certeza), foi certamente a última que o senhor presidente falou para o Jornal D’Hoje. Vejam lá o descaramento desses jornalistas (que, ainda por cima, nem são de cá) a querer incomodar o senhor presidente com perguntas incómodas!
Enfim, não “incomodávamos” só o presidente da Câmara de Portalegre.
Também “chateámos” um bocado outros detentores
de cargos políticos, como, por exemplo... ora deixa cá ver... pois, o senhor Governador Civil!... (Uma parte dessa história já foi contada aqui.) E, escusado será dizer – hummm... será mesmo escusado?... – que não nos movia qualquer intuito de “perseguição” a esses titulares de cargos públicos. Era, digo-vos mais uma vez, a nossa obrigação, enquanto jornalistas: informar, fazer serviço público.
Além disso, o Jornal D'Hoje teve ainda o mérito de recuperar - e logo na tão conservadora Portalegre - esta preciosa e esquecida tradição dos "ardinas". Pois, isso mesmo: uns jovens que, expressamente "contratados" para o efeito, e trajados a rigor, abanavam a letargia da cidade, com pregões, tipo "ólhó Jornal D'Hoje!". E isso é outra história que merece ser contada (mas que, por agora, fica aqui apenas brevemente referida, quase como nota de rodapé).
Bem, sobre a minha experiência profissional em Portalegre, havia tantas outras coisas interessantes para contar!...
Mas fica para a próxima, que esta dissertação – e esta série de artigos – já vão longas!

Só mais uma coisa, muito a propósito: eu já me tenho referido aqui ao Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses – documento aprovado em 1993, que é um exemplo de auto-regulação profissional. Ora bem: eu, que começara a minha carreira profissional em 1992, na Rádio Baía – e que já passara por outros órgãos de comunicação social – só mesmo em Portalegre, e no Jornal D’Hoje fiquei a conhecer o texto integral. Sabem porquê? Porque o director, Rui Vasco Neto, fez questão de o afixar na sala da redacção. E mais: aconselhou-nos a ter sempre presente aquele – valioso – código de conduta.

sábado, dezembro 08, 2007

Sem Mais Jornal (Setúbal, 1998)

Em Abril de 1998, nascia em Setúbal o semanário Sem Mais Jornal. Liderado por Raul Tavares - e também por Jorge Alegria – o novo projecto editorial reunia jornalistas da redacção da revista Sem Mais (que estava em actividade desde 1993) e do extinto Sul Expresso.
Eu, que tinha participado na “aventura” que foi o almadense Sul Expresso, tive a honra de ser convidado, por Raul Tavares, para a primeira equipa redactorial daquele que era então um novo (e muito ambicioso) projecto.
A “filosofia” do Sem Mais Jornal não me era estranha: jornalismo de investigação e reportagem, num esforço constante para informar com credibilidade, tentando sempre não deixar “pontas soltas” e transmitir, assim, não só o “essencial da informação” (como se dizia, e se tentava praticar, nos meus tempos de jornalista da rádio), mas “toda a informação” que fosse possível recolher sobre um determinado assunto. Ou seja: o que, já anteriormente, se tinha tentado (e, às vezes, conseguido) no Sul Expresso e na revista Sem Mais.
Para concretizar esses objectivos, não faltava “mão-de-obra” qualificada (não se esqueçam, se fazem favor, que os jornalistas são, em geral, trabalhadores assalariados, ou seja,“mão-de-obra” como qualquer outra – embora especializada e com responsabilidades sociais acrescidas). Estavam, nessa primeira redacção, jornalistas como Humberto Lameiras, Etelvina Baía, Armando Faria (que era o chefe de redacção e – não por ser chefe, mas porque sim – era, também, um dos jornalistas mais competentes, e com maior capacidade de trabalho, que tive o gosto de conhecer)... e, como já vos disse, este vosso amigalhaço, António Vitorino, fazia parte dessa mesma redacção.
Estava por lá, também, o director, Viriato Soromenho-Marques...
Pronto, está bem... O director “de facto” passou a ser, muito rapidamente, Raul Tavares (e a ideia era mesmo essa). No entanto, vi muitas vezes Viriato Soromenho-Marques nos fechos de edição dos primeiros números do jornal, levando muito a sério o seu papel de director: acompanhando o trabalho dos jornalistas, dando sugestões para melhorar os conteúdos e esclarecendo dúvidas (lembro-me, por exemplo, da explicação científica que ele me tentou dar sobre hidrocarbonetos, quando eu apenas queria encontrar uma expressão mais “acessível” ao público, como, deixa cá ver... “produtos derivados do petróleo”, que tal?...).
O Sem Mais Jornal é, ainda hoje, um projecto de sucesso: continua a ser publicado (e só isso, numa publicação de âmbito regional, é obra) e, aparentemente, está até numa fase de expansão. Ora, eu saí desse jornal em 1999, regressei em 2001 e voltei a sair nesse mesmo ano. Quero dizer: a minha relação com esse projecto é (foi) de grande afectividade, com períodos muito produtivos e fases mais depressivas e mesmo de algum litígio. É por isso que não me sinto muito à vontade para falar de maneira mais desenvolta sobre este assunto.
Que mais posso dizer, então?
Aprendi muita coisa por lá. Fiz alguns (poucos) amigos. Tenho a agradecer ao Raul Tavares (e ao Jorge Alegria, e ao Armando Faria) a confiança que depositaram em mim (ou, para ser mais rigoroso, na minha capacidade de trabalho). Mas também, deixem-me dizer-vos, alguma incompreensão, na maneira como acabei por ser “dispensável” no final da minha segunda passagem por lá. É que, caros Raul Tavares e Jorge Alegria, não conheço ninguém que, na situação em que eu então me encontrava (por questões familiares, mais uma vez...) conseguisse fazer melhor. Estive, então, quase dois meses sem conseguir trabalhar. É verdade. Mas isso aconteceu porque os problemas que me foram criados eram, então, ainda mais graves que o habitual.
Eu sei que vocês tinham dificuldade em acreditar nisso. E sei que a empresa não tinha culpa nenhuma dos meus problemas. Mas gostava que percebessem, finalmente, que eu não me queixava por ninharias. Tudo o que disse era verdade.
E cá estou, ainda, para o demonstrar.
Não contra vocês (não tenho essa pretensão e, se calhar, nem tenho esse direito).
Mas, finalmente, a meu favor.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

SUL EXPRESSO, um projecto editorial almadense, na década de 90


Tenho agora a honra e o prazer de vos apresentar aquele que foi (na minha modestíssima opinião) o melhor projecto editorial (pelo menos da imprensa escrita) que existiu em Almada nas últimas décadas: o Sul Expresso.

Jornal generalista, de periodicidade quinzenal, o Sul Expresso foi, no seu tempo, um projecto controverso (por não ter medo de incomodar os poderes, se tal fosse necessário) e, no entanto, ignorado da população em geral (porque nunca teve um circuito de distribuição eficaz, e porque os vendedores – ou, se preferirem, as “bancas” de jornais – não o punham à mostra porque “não vendia”... e, é claro, se não o punham à mostra, as pessoas não o conheciam, logo...“não vendia”).
Eu não acompanhei o nascimento do Sul Expresso (estava, então, ainda a trabalhar na rádio). Mas sei que as primeiras edições sairam em 1993. Posso dizer-vos, também, que o primeiro director foi Óscar Soares. E que as pessoas que estavam na origem deste projecto eram quadros e dirigentes do Partido Socialista em Almada. Talvez por essa razão, o Sul Expresso ficou rapidamente conhecido como “um jornal do PS”... e (desculpem lá a franqueza) talvez esse epíteto fosse adequado, nos seus primeiros tempos.
(Aliás, ninguém me tira da cabeça a ideia de que o Sul Expresso apareceu como “resposta” a outro semanário – também de qualidade, editado no vizinho concelho do Seixal – chamado Outra Banda, e geralmente apontado como “simpatizante” do PCP. De resto - e simpatias à parte - em termos puramente jornalísticos, esses dois títulos foram, no decorrer dos anos 90, o melhor que se fez na região. Aliás, faziam concorrência um ao outro. E, no que diz respeito a qualidade, não tinham quem lhes fizesse frente.)
Depois dessa primeira fase, que não acompanhei, o Sul Expresso foi objecto de uma “remodelação” já no ano de 1995. Por razões que desconheço, Óscar Soares sai da direcção do jornal, que passa então a ter um novo director (curiosamente, também ele professor do Ensino Secundário), chamado Luís Maia.


É como vos digo: não sei o que esteve na origem dessas alterações. Mas sei que, de aí em diante, o Sul Expresso teve tudo (bem, quase tudo...) para ser o órgão de comunicação social “de referência” que ambicionava ser (e que merecia ter sido). Teve um director que não pactuava com “arranjinhos” partidários, mas queria fazer jornalismo responsável e sério (sinceramente, fiquei com essa ideia a respeito do Luís Maia, e mantenho-a até hoje). Tinha jornalistas de qualidade (dois exemplos: Raul Tavares e Marina Caldas). Tinha colaboradores como Fernando Rebelo e Artur Vaz. Até tinha, vejam lá, um paginador do Expresso (o original), chamado António José Ribeiro!
E, a partir de 1995, passou a ter também este vosso humílimo servo, chamado António Vitorino.
Com o objectivo de informar, sem concessões, sem ceder a pressões, políticas ou económicas, o Sul Expresso investiu (enquanto foi possível) em reportagem, em actualidade política e social, e na investigação de assuntos relevantes para os concelhos-alvo (Almada, Seixal e Sesimbra).
Quando, em resposta a acções de bandos da extrema-direita (resposta desporporcionada e tão estúpida quanto a provocação, digo eu), os grupos de “negros” dos subúrbios de Almada fizeram da cidade uma das mais inseguras do país, o Sul Expresso não escamoteou essa realidade, e tentou entender as origens do “fenómeno”, os seus “motivos” e as eventuais soluções para o problema.

Quando o Asilo 28 de Maio ruiu, causando vítimas entre a população que morava (de forma precária, para não dizer miserável) naquele espaço, o Sul Expresso acompanhou sde perto o problema, e os esforços que foram feitos para o resolver.

E quando, durante um inverno rigoroso, as escarpas de Porto Brandão e do eixo ribeirinho Ginjal-Arealva cederam (provocando, também, vítimas mortais) o Sul Expresso não poupou esforços para fazer a reportagem, mas também para, ouvindo as “partes” envolvidas no prtocesso, tentar entender os porquês do problema então criado e, mais uma vez, quais as soluções apontadas.

O Sul Expresso conseguiu mesmo, embora em ocasiões pontuais, chagar a notícias de grande relevância antes dos órgãos de comunicação social nacionais. Um exemplo (e - deixem-me lá ser vaidoso - um dos meus triunfos como jornalista) foi a divulgação, em primeira mão e em exclusivo, de um “pacote” de medidas governamentais para minorar os incómodos que as obras de reforço da Ponte 25 de Abril iriam causar na mobilidade das populações da Margem Sul. É verdade: o Sul Expresso foi o primeiro a divulgar essa notícia. E não foi por encomenda de nenhum ministro: foi mesmo por insistência e persistência (e alguma “ratice” jornalística), deste vosso amigo.








Sul Expresso: dois editoriais e um (triste) epílogo

Como já vos disse, entrei para o Sul Expresso em 1995, quando esse jornal passou a ter Luís Maia como director. (Aproveito agora para acrescentar que quem me levou para lá foi a jornalista Ana Isabel Borralho, directora de informação da rádio onde eu antes trabalhava.)
Também já vos disse que o Sul Expresso apareceu conotado com o Partido Socialista (e nunca se livrou do rótulo “jornal do PS”).
No entanto, Luís Maia tentou (e, até certo ponto, conseguiu mesmo) fazer com que o jornal se afastasse de qualquer linha político-partidária. Neste editorial, e a propósito de uma qualquer “trica” política da época, o director deixava um recado aos críticos do jornal e, eventualmente, a quem ainda pretendesse fazer dele uma espécie de “correia de transmissão”: «o Sul Expresso nunca foi muito alinhado pelos poderes da região e apesar de ter surgido com uma determinada coloração política, conseguiu afastá-la e ganhar o seu espaço de pluralidade e aberto às mais variadas ideologias e cores, sejam elas maioritárias ou minoritárias no país ou nos concelhos que pretende abranger. Conseguiu ser um espaço aberto ao debate de ideias e à intervenção (escrita, obviamente) ideológica).»

Entretanto, Luís Maia sai do jornal (e, neste caso, não sei bem se alguma vez cheguei a entender porquê – por isso mesmo, não comento a sua saída) e, para ocupar o seu lugar, surge Raul Tavares (que já era um dos principais responsáveis pela revista Sem Mais, de Setúbal, e fazia parte da redacção do Sul Expresso).

Não se tratou, contudo, de uma simples mudança de director. As informações de que disponho (enfim, não serão muitas, mas julgo que são credíveis) permitem-me dizer que, nessa fase da vida do Sul Expresso (em meados de 1996) os accionistas (com o empresário almadense Artur Cortez à cabeça) estavam descontentes com o rumo que o jornal estava a tomar e decidiram, por isso mesmo, pôr um ponto final na edição.

Para salvar o Sul Expresso, alguns jornalistas (entre eles, Raul Tavares e Humberto Lameiras) e o paginador (António José Ribeiro – hoje director do jornal Notícias da Zona, de Sesimbra), assumem a edição, comprometendo-se também a viabilizar o projecto, de maneira a que pudesse continuar a ser sustentado pelos accionistas.
É dessa fase o editorial em que Raul Tavares assumia a liderança de «um jornal que quer prosseguir uma linha editorial acima de todas as lógicas políticas, que não aloinha em credos e não se deixa quedar por razões economicistas».

Bem, não deverei ser eu (que, embora apenas como jornalista “assalariado”, estive sem medos e sem reservas com o projecto Sul Expresso) quem vos poderá dizer se esses objectivos foram ou não conseguidos. Até porque já disse que, na minha opinião, o Sul Expresso foi o melhor projecto editorial almadense das últimas décadas.

Digo-vos, sim, que a publicação teve um final inglório. Primeiro, foi assaltada (a redacção ficava num terraço de um prédio na Praceta Capitães de Abril, muito perto da zona que hoje é conhecida como “triângulo da Ramalha” – e, por sinal, era muito fácil de arrombar). Depois, aconteceu um incêndio misterioso (que, felizmente, foi detectado antes de consumir por completo todo o espólio do jornal).

Por fim, já numa fase em que, para salvar o que era (ainda) possível, a publicação tinha passado a mensal, um outro assalto acabou de vez co o projecto.
Por acaso, eu até estava sozinho na redacção pouco antes desse segundo assalto ter sido consumado, e julgo que até sei quem foi o “menino” (um dos “meninos”, aliás) que assaltou: terá sido alguém que me conhecia muito bem, e que já muito me tinha prejudicado (e que eu julgo ter reconhecido), mas, enfim... é apenas uma suspeita e eu não quero levantar falsos testemunhos.

O Sul Expresso acabou, de uma vez por todas, em 1997. Havia ainda a esperança (e uma remota promessa...) de recomeçar, com uma nova redacção (aliás, eu fui, no último número, “chefe” de uma redacção que não existia). Tudo terminou quando, numa reunião em que estava eu, o director demissionário Raul Tavares e o “patrão” Artur Cortez, este nos comunica que o Sul Expresso já era.

Assim, sem mais. Ponto final.