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sexta-feira, junho 15, 2012

Noam Chomsky num desenho

As "10 Estratégias De Manipulação" da opinião pública através dos meios de comunicação, de Noam Chomsky, resumidas num "desenho" que alguém teve a feliz ideia de fazer e que está a circular na internet.


O texto das "10 estratégias", por extenso:

1. A estratégia da distração. O Elemento primordial do Controle Social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do diluvio ou inundação de continuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de se interessar por conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (cita o texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo, deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante das leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar um crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3. A estratégia de gradualidade. Para fazer que se aceite um medida inaceitável, basta aplica-la gradualmente, a conta gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconomicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram entradas decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se houvessem sido aplicadas de uma só vez.

4. A estratégia de diferir. Outra maneira de aceitar uma decisão impopular é apresenta-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, neste momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro que um sacrifício imediato. Primeiro, por que o esforço não é empregado imediatamente. Logo, por que o público, a massa, tem sempre a tendência de esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso da mais tempo ao público para se acostumar à ideia da mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5. Dirigir-se ao público como criaturas de pouca idade. A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximos da demência, como se o espectador fosse um criatura de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se tenta enganar o telespectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? Se um se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então por razão da sugestionabilidade, ele tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido critico como de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)

6. Utilizar o aspecto emocional muito mais que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e finalmente ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7. Manter o público na ignorância e mediocridade. Fazer que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeia entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser alcançada pelas classes inferiores. (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Fazer o público acreditar que é moda ser estúpido, vulgar e inculto…

9. Reforçar a autoculpabilidade. Fazer o indivíduo acreditar que somente ele é culpado da sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, das suas capacidades ou de seus esforços. Assim, no lugar de rebelar-se contra o sistema económico, o indivíduo se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo, um de cujos os efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não ha revolução!

10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem. No decorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência tem gerado um crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças a biologia, a neurobiologia e a psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicológica. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que o ele conhece a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que aquele do indivíduos sobre si mesmos.


E notas de rodapé, das minhas:
Claro que o título que dei a este artigo já é uma simplificação manipulatória com a intenção de ter mais impacto e chamar mais a atenção (certamente concordarão que um título como "As 10 estratégias de manipulação da opinião pública através dos media, de Noam Chomsky, resumidas num desenho" não seria lá muito apelativo). O "mal" não está em resumir e simplificar alguns aspectos da mensagem: isso pode ser útil quando, e se, servir para chamar a atenção para o resto - como é o caso do "desenho" acima - e desde que as pessoas estejam preparadas e disponíveis para ler e entender esse "resto" (que é o essencial, o mais importante).
Infelizmente para todos nós, é cada vez mais evidente que Chomsky tem razão nesta sua teoria.
O facto de ser preciso resumi-la num "desenho" já dá que pensar.
Mas que nem assim muita gente o consiga entender (e eu sei, por experiência própria, que muita gente não o consegue entender - não porque as pessoas sejam estúpidas, mas porque foram, e estão, estupidificadas pelos processos descritos por Noam Chomsky), isso sim, é preocupante.

sexta-feira, março 16, 2012

"Kony 2012": meias verdades, manipulação, infantilização do público

Daniel Oliveira escreve no Expresso um texto muito interessante e bem fundamentado, com o título Kony 2012: para lá da comoção da moda (http://expresso.sapo.pt/kony-2012-para-la-da-comocao-da-moda=f711978)

No final do artigo acrescenta, em rodapé, o vídeo - fenómeno viral - com a suposta "reportagem". Mas acrescenta também este, com a reacção das vítimas de Joseph Kony depois de uma projecção do vídeo realizada numa localidade do norte do Uganda por uma equipa da televisão Al Jazeera.

O visionamento do (pseudo) documentário provoca, nas vítimas de Joseph Kony, irritação e revolta - por se considerarem usadas (e abusadas, digo eu).

Para contextualizar o assunto, atrevo-me a reproduzir (com a devida vénia, já se sabe...) excertos do artigo de Daniel Oliveira (encontram-no na íntegra clicando no link que coloquei no final do primeiro parágrafo deste artigo).

"O documentário pela captura de Joseph Kony, realizado e divulgado pela ONG Invisible Children, tornou-se o mais rápido vídeo viral da Net. Mesmo sem saber muito bem onde fica o Uganda, o mundo acordou para as atrocidades da Lord's Resistence Army (LRA). Mas a indignação solidária tem, como sempre, um sabor de moda. Não resulta de uma posição informada, que compreenda as contradições de uma guerra civil, onde raramente há anjos e diabos.

Como tudo o que tem grande sucesso se expõe às criticas, surgiram muitas em relação ao rigor de um documentário maniqueísta, feito para emocionar e não para pensar. Quando as causas humanitárias são tratadas como campanhas de marketing é isso que acontece. A ação tem nascer da indignação. Mas esta tem de nascer da informação. A emoção acorda para problemas, mas, se nada se acrescentar a ela, a nossa ação em defesa dos outros pode bem passar a depender da manipulação. Seremos convencidos por quem fizer o melhor spot e escolher a melhor banda sonora. Agir por uma causa não é, não pode ser, o mesmo que escolher uma marca de cereais. Nem permitir, como faz o documentário em questão, que não nos dá qualquer informação de contexto do conflito em que pretende intervir, ser tratados, como ali somos, como uma criança de cinco anos incapaz de compreender as complexidades e contradições do mundo.

Não faltam interessados nos vastos recursos do Uganda - que não têm servido para melhorar a vida dos seus cidadãos. Nesses recurso incluem-se as reservas inexploradas de gás natural e petróleo. O governo formalmente democrático (se formos insultuosamente minimalistas no que consideramos ser uma democracia) do Uganda, que gere a miséria de um dos mais pobres países do Mundo, viola, com prisão e tortura de opositores políticos, deportações forçadas, violência sobre os refugiados, os direitos humanos dos ugandeses. No entanto, tem merecido generosos, mas não muito bem intencionados, apoios externos das potências ocidentais no combate a Joseph Kony. Um dos políticos que apoia este regime, Santo Okot Lapolo, aparece no documentário em causa. É responsável por homicídios e perseguições a opositores e acusado de corrupção, por desvio de fundos que eram destinados aos refugiados vítimas da LRA.

Não deixa de ser estranho que as mesmas potências que assistiram, quietas, aos apocalípticos massacres no Ruanda, à limpeza étnica do Darfur e aos atropelos sistemáticos aos direitos humanos por parte do governo ugandês, tenham, por Kony, um interesse tão grande. Suficiente para a mobilização de raros recursos financeiros e legislativos por parte da Casa Branca e do Congresso dos EUA. Num mundo que raramente se move por razões humanitárias, é sempre razão para parar cinco minutos e pensar. Mas, acima de tudo, vale a pena desconfiar de um documentário sobre um conflito civil onde tudo pareça demasiado simples. É que uma guerra civil não se explica ao estilo preguiçoso de Hollywood. Raramente é assim tão claro quem são os bons e os maus.

Não ponho em causa, pelo contrário, a necessidade de capturar Joseph Kony e obriga-lo a responder pelos seus inúmeros crimes. Mas, nestas matérias, defendo sempre a cautela: não basta sabermos quem estamos a combater, precisamos de saber o que move aqueles que, com muito mais poder do que os cidadãos, querem fazer com o nosso combate. E tentar perceber a verdadeira complexidade do que acontece no terreno.

O nosso apoio às vítimas de um qualquer conflito exige mais do que um "like" no Facebook ou uma lágrimas em frente a um computador ou uma televisão. Exige o trabalho e a exigência da militância numa causa. As contradições não nos podem paralisar. Mas não é o simplismo que nos deve fazer mexer. Porque a nossa ingenuidade bem intencionada pode bem servir interesses contrários aos valores que pretendemos defender."

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Na Suiça não há (ainda) salário mínimo nacional



Anda a circular na internet um gráfico no qual se compara o salário mínimo português com o de outros países europeus. Segundo esse gráfico, o país onde o salário mínimo nacional é mais elevado seria a Suiça.

Mas é mentira! Na Suiça não existe salário mínimo nacional! Quem fez aquele gráfico está a brincar convosco!

Os dados verdadeiros são os do mapa abaixo, com números oficiais, do Eurostat (Gabinete de Estatística da União Europeia).


Como se pode ver, na Suiça (e em vários outros países europeus) não está regulamentado nenhum salário mínimo nacional. O que existe, sim, são salários mínimos definidos para algumas profissões, e, de acordo com a informação que consegui recolher, apenas no cantão de Neuchâtel (julgo que em mais nenhum, mas corrijam-me se estiver errado).

E existe, também, uma proposta dos sindicatos suiços, para implementar no país um salário mínimo nacional de 3.261 euros. (Proposta que, em princípio, será referendada ainda este ano.)

Actualmente, sem salário mínimo estipulado, há grandes disparidades em termos de vencimento naquele país.

Citando o site swissinfo.ch "a média dos salários na Suíça é de 5979 francos suíços por mês, mas as nuances no cálculo da média fazem grandes diferenças.

Enquanto a maior parte dos trabalhadores em Neuchâtel ganham em média 5600 francos por mês, seus colegas de Genebra recebem 7000 francos." (Podem confirmar a notícia em http://www.swissinfo.ch/por/economia/Suicos_poderao_receber_salario_minimo.html?cid=31680054&rss=true)

Portanto, os números daquele gráfico são absolutamente mentira!

Mas porque haveria alguém de querer divulgar mentiras tão fáceis de desmascarar?

Se repararem bem, aquele gráfico vem de um site de entretenimento chamado Tá Bonito. Não cita fontes, não diz onde foi buscar a "informação", mas quer que as pessoas acreditem no que publica. Um site de piadas! Que tem como símbolo um macaco (de imitação?). Tá bonito, tá.

Porque o fizeram, não sei. Mas sei que, para um site comercial, não há nada como inventar uma polémica para ter mais visitantes - e, com isso, mais anunciantes e mais lucros.

E porque é que as pessoas que não têm nada a ganhar com os negócios desse site divulgam tais mentiras e as propagam até as transformarem num fenómeno "viral?

Bem, isso - a forma como a internet está a fazer com que as pessoas fiquem menos informadas e mais manipuláveis - merece uma análise mais aprofundada. Fica para outra altura.

sábado, julho 10, 2010

1980: o ano em que a Festa do Avante foi em Julho


A Festa do Avante de 1980 foi há 30 anos. Dito desta forma pode parecer uma coisa óbvia: entre 1980 e 2010 decorreram trinta anos. Mas não é bem assim. Porque a Festa do Avante de 1980 não se realizou na data habitual (primeiro fim de semana de Setembro), mas sim nos dias 11, 12 e 13 de Julho. Está, portanto, a fazer 30 anos agora mesmo, no presente fim de semana de Julho.

Suponho que o adiantamento da data estará relacionado com o facto de se terem realizado nesse ano eleições legislativas (em Outubro) e presidenciais (em Dezembro, primeira volta). Mas suponho, apenas - não tenho informação mais objectiva sobre o assunto.

Dessa Festa do Avante de 1980 recordo, sobretudo, o grande espectáculo no Palco 25 de Abril, com Chico Buarque, Simone, Edu Lobo, o MPB4...

No entanto, porque as memórias são de acontecimentos de há três décadas, prefiro não me fiar muito nelas. Vejamos antes o que escreveu a imprensa da época sobre o que iria ser essa edição da Festa do Avante!


Notícia do Diário de Lisboa de sexta-feira, 11 de Julho de 1980.
"A Festa do Avante, órgão central do Partido Comunista Português, começa ao fim da tarde de hoje. Às 19 horas - e sabe-se como os comunistas são organizados... - os portões da Festa, no Casalinho da Ajuda, abrir-se-ão. E vai ser um nunca mais de gente a entrar, como aconteceu nos anos anteriores (500.000 entradas em 1979).

O jornal destacava a programação do palco principal, referindo também alguns dos outros palcos e auditórios. E, mais adiante, referia a exposição sobre o 4º centenário da morte de Luís de Camões e o lançamento de uma edição especial de "Até Amanhã, Camaradas", de Manuel Tiago, ilustrado por Rogério Ribeiro.


Noticiava "o diário" na terça-feira, 8 de Julho: "ampliando e enriquecendo a experiência do ano passado, também este ano no Pavilhão Central da Festa haverá uma exposição sobre «Arte popular e Património Cultural».

Uma semana antes da Festa, o Avante divulgava: "a música que se faz nas várias regiões do país estará presente na zona central da Festa, através da actuação de coros, ranchos e bandas"

Vinham de todo o país. E Almada também estava presente, com "Tocadores de Gaitas de Foles e do Grupo de Arte Popular, ambos do Centro Cultural de Almada"

(Note-se, a propósito, que a Banda da Incrível Almadense também actuou, durante os dias desta edição da Festa, mas noutro contexto - por exemplo, na sexta-feira, no Palco da Emigração)

Em 1980, a referência na imprensa cultural de "artes e espectáculos" era o semanário Se7e. Que, na edição de dia 9 de Julho, dedicou uma página ao evento.

"A Festa do Avante, anualmente realizada desde que a Revolução dos Cravos a tornou possível, constitui um acontecimento com a particularidade de transcender o círculo ideológico da sua organização, atraindo pessoas de variadas tendências. O programa deste ano estende-se por três dias (11, 12 e 13 de Julho) e inclui teatro, cinema, música, desporto, circo, exposições, colóquios e outras manifestações de carácter cultural e recreativo.

O se7e destacava a ainda pouco conhecida Simone (que teve a sua apresentação ao público português precisamente nessa Festa do Avante): "Simone é uma das presenças brasileiras na Festa do Avante. Ex-campeã do Mundo de basquetebol, não restam grandes dúvidas de que canta melhor do que jogava"

Ao palco instalado no Pavilhão Central (não havia ainda Avanteatro) vieram esse ano dois encenadores da RDA apresentar um trabalho com actores do Teatro de Campolide (assim se chamava, ainda, a actual Companhia de Teatro de Almada) sobre cenas de "A Mãe", de Bertolt Brecht.


Escrevia o Avante de dia 3 de Julho:

"Dois destacados encenadores da República Democrática Alemã" (Peter Kleinert e Peter Schrot, do Palastheater, de Berlim) "especialistas na obra de um dos mais importantes homens de teatro do nosso século - Bertolt Brecht - deslocaram-se a Portugal no âmbito da Festa do Avante e prepararam um espectáculo com actores do Grupo de Campolide, baseado em cenas e canções da conhecida peça de Brecht «A Mãe», que se destina a ser apresentada no auditório A do Pavilhão Central na noite do próximo sábado." (...)

"O espectáculo tem estado a ser preparado no Teatro da Academia Almadense (sede do Grupo de Campolide que, aliás, vai brevemente transformar-se em Centro Dramático de Almada - Companhia Profissional, aprofundando assim ainda mais o seu processo de radicação naquela importante zona operária da margem sul) e quando for apresentado ao público terá completado um total de 11 ensaios em apenas 5 dias (...)

terça-feira, março 09, 2010

A polícia da grande democracia norte-americana no seu melhor!?

Este vídeo documenta a repressão (brutal e desproporcionada, apetece dizê-lo) exercida pela Polícia de Oakland sobre manifestantes que protestavam (pacificamente, ao que parece) contra cortes orçamentais no sistema público de educação norte-americano.

Estas imagens não passaram (que eu saiba) em nenhuma televisão portuguesa. Porquê? Não é notícia? Então, sempre que acontecem "confrontos entre polícia e manifestantes", por exemplo na Coreia do Sul (e quantas vezes os vimos!...) ou nas manifestações anti-globalização, temos imagens nos telejornais - é "notícia", portanto - e, neste caso, não há nada a reportar ou noticiar?

Porquê?

O vídeo encontra-se no canal Cubadebate. Devidamente contextualizado.

Transcrevo:

«En California y en numerosas ciudades norteamericanas los estudiantes salieron a las calles para protestar contra los recortes masivos impuestos por el Gobierno de Barack Obama en todos los niveles de la educación pública.

En Oakland, miles de manifestantes se congregaron en la Plaza Frank Ogawa. Un grupo de unos 200 jóvenes marcharon por el centro de la ciudad y al intentar atravesar la carretera Interestatal 880 para alcanzar una rampa de salida de la carretera Interestatal 980, la policía antidisturbios de Oakland, sin previa alerta de dispersion, empezó a golpearlos con porras y amenzar con sus armas a la gente antes de arrestarlos.

Mientras la policía atacaba a la multitud, Francois Zimany, un joven de quince años de edad, estudiante de preuniversitario, se fracturó el cráneo al caer desde una altura de 30 pies fuera de la autopista. Han surgido preguntas sobre si se cayó, saltó, o fue empujado por la policía fuera de la autopista.»

Nota de rodapé: tomei conhecimento deste vídeo através do deputado do PCP Bruno Dias, que o colocou no Facebook, com a pergunta "viram estas imagens em algum noticiário"? Pois, boa pergunta.

sábado, janeiro 23, 2010

Mais sinalização e menos velocidade para o MST, em Almada. A notícia é essa, não é?


Informar melhor a população para os perigos associados à circulação do Metro Sul do Tejo (MST) nas zonas urbanas, reforçar a sinalização junto ao "espaço-canal" e reduzir a velocidade das composições em áreas pedonais - são medidas previstas pela Autoridade Metropolitana de Transportes, com vista a reduzir o risco de acidentes. As providências agora em estudo surgem na sequência de acidentes relacionados com a circulação do MST e devem ser apresentadas ao Ministério dos Transportes no prazo de um mês.

Isto é, pelo menos, o que consigo concluir, depois de ler com muito cuidado e muita atenção a peça do Notícias de Almada "Acidentes com o metro obrigam a adoptar medidas". No terceiro parágrafo da mencionada peça, o referido periódico cita Carlos Correia, presidente da aluída (perdão: aludida) autoridade metropolitana e coordenar (sic) do mencionado grupo de trabalho(da referida autoridade).

Diz, então, o mencionado senhor, que (e passo a transcrever, com a devida vénia): «uma das acções aponta para a preparação de uma campanha de informação para a população, bem como o reforço da sinalização vertical e horizontal, além de que nalgumas zonas com maior circulação de peões haverá moderação da velocidade do metro, além de que estão também identificadas intervenções físicas para as paragens dos autocarros, em determinados locais». (Por aqui não fico a saber que intervenções para que paragens e em que locais.)

O mesmo responsável adianta outras medidas em estudo, nomeadamente - conforme citado pelo Notícias de Almada - «a criação de um separador que impeça as pessoas de se deslocarem paralelamente ao metro» (coisa que, para mim, não faz sentido: não será antes um separador paralelo à linha de metro?) ou, suponho que em alternativa, «a marcação, a amarelo, de uma faixa de 40 centímetros onde nas zonas onde as pessoas costumam circular» (sic).

Ora bem: se percebi tudo, certinho e direitinho, vamos ter - finalmente! - o MST a circular na malha urbana a uma velocidade decente, vamos ter as linhas devidamente assinaladas e uma campanha de informação para explicar às pessoas que é preciso ter cuidado a atravessar a linha do metro - tanto cuidado como o que é preciso ter a atravessar a estrada, para não sermos atropelados por um carro ou um autocarro.

É isso, não é? Pois. Parece-me bem!

sexta-feira, novembro 06, 2009

A LATA CONTINUA?


Este PS almadense é inefável! Olhem o que eles inventaram agora: José Gonçalves, vereador reeleito nas listas da CDU, tem neste mandato a presidência dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS). Onde o senso comum (e os jornalistas eventualmente melhor informados) veriam uma "promoção" com vista à futura "candidatura" de José Gonçalves a presidente de Câmara, vê o PS cá do burgo uma penalização!

Leia-se o que dizem os "socialistas", citados pelo Notícias de Almada: «a CDU finalmente admite sacrificar» José Gonçalves!?

Trocando em miúdos, o que o PS parece querer dizer é que José Gonçalves portou-se mal enquanto presidente da ECALMA e, portanto, vai de castigo para os SMAS. No lugar dele fica Rui Jorge Martins (suponho eu que por ter maior paciência para aturar disparates de tamanho quilate... mas isto é só um palpite meu).

Ora bem. O PS sabe - ou devia saber, se até eu sei!... - que os argumentos que apresenta são falsos. Ou, dizendo de forma mais abreviada: são mentira! Ou, usando uma expressão popular: é preciso ter uma grande lata para dizer isso!

O que aconteceu, de facto, para que José Gonçalves passasse da ECALMA para os SMAS foi a necessidade de substituir o anterior presidente dos Serviços Municipalizados, Nuno Vitorino.

Este era o sexto nome da lista da CDU nas eleições para a Câmara de Almada, e não foi eleito.

Era preciso encontrar uma solução. Sugeriu-se a hipótese de a Nuno Vitorino ser confiado um cargo como o de administrador-delegado, mesmo não escrutinado pelo voto popular (o que - julgo eu - seria novidade na Câmara de Almada, embora seja prática comum em muitos serviços descentralizados da Administração Central). A maioria (relativa, está bem) CDU decidiu não o fazer. "Perdeu-se" um quadro competente e experiente no que diz respeito à gestão pública da água e saneamento básico. Mas, por outro lado, respeitou-se o mandato popular.

Havia, então, que escolher alguém com o "perfil" adequado para aquelas funções. Do lote de vereadores disponíveis, José Gonçalves parecia o mais indicado. Foi o escolhido. E muito bem, na minha opinião.

Na minha opinião, também, a ECALMA e o Plano de Mobilidade ficam muito bem entregues ao vereador Rui Jorge Martins. Pode o PS tirar o cavalinho da chuva: a mudança de vereador não implica mudanças substanciais na política seguida até agora nesta área do ordenamento do território urbano de Almada. A CDU não tem nenhuma intenção de reabrir ao trânsito automóvel as avenidas centrais da cidade. E ainda bem - porque a solução não passa por aí, mas pelo aumento do número de lugares de estacionamento, pelo incentivo à utilização dos transportes públicos e pela dinamização do comércio tradicional.

É isso mesmo que a Câmara de Almada tem vindo a fazer. E vai continuar. Digo eu, que em muitos anos de jornalismo nunca fiquei à espera que as notícias me fossem oferecidas de bandeja. Vocês, leitores deste blogue, acreditem em quem quiserem.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Propaganda encapuzada, estilo PS, em Almada


Há um bom par de anos atrás (que é como quem diz, no século passado) havia, em Almada, um jornal "do PS" (e PS neste caso é mesmo Partido Socialista). Era "do PS" porque foi criado por dirigentes desse partido e mantido durante alguns anos (entre 1993 e 1997) por accionistas que eram, também eles, militantes e dirigentes da estrutura local "socialista".


Tinha reportagem, investigação, noticiário qb, artigos de opinião... e um "anónimo" que mandava as suas "bocas" à Câmara de Almada, sem assinar e como se não tivesse nenhuma relação com o PS - embora tivesse, e muita. Qualquer semelhança com blogues que se publicam nos dias de hoje talvez não seja simples coincidência...

Mas vamos por partes.

O periódico chamava-se Sul Expresso. Era um jornal "do PS", porque os patrões eram desse partido. Mas era um jornal feito por jornalistas: um jornal onde se fazia jornalismo, portanto. Na redacção, os patrões não metiam prego nem estopa. E, embora a maior parte dos jornalistas que lá trabalhavam fossem também do PS (nem todos: eu, por exemplo, não era), o jornal mantinha uma assinalável independência editorial.

Havia, no entanto, alguns cronistas especialmente convidados para defender as posições dos seus partidos. E, sobretudo, do PS - como é natural e seria de esperar num jornal "do PS".

Até aí, tudo bem...

Mas havia um, em particular, que gostava muito de "malhar" na Câmara de Almada. Tinha muita piada, mas não assinava os seus textos. Não se assumia: escondia-se atrás do pseudónimo "Rosinha dos Limões".

Claro que no jornal toda a gente (até eu, o "comuna" da redacção) sabia quem era essa "rosinha": era um homem com responsabilidades políticas na estrutura local do PS, deputado na Assembleia Municipal de Almada e, julgo eu (mas já não me lembro e não consegui confirmar) ex-vereador, num dos raros mandatos em que a CDU não teve maioria absoluta.

Isto já faz lembrar alguma coisa da actualidade blogosférica almadense, não é?

Mas a nossa amiga "rosinha" (o nosso "amigo" deputado municipal "socialista") fazia bem mais e melhor.

No exemplo de cima, respondia, muito sarcástico, a quem ousara discordar dele nas páginas do mesmo jornal. E nem tinha problemas em chamar "menino" ao seu oponente - demonstrando, assim, a capacidade de diálogo e maturidade democrática muito típicas de certos "socialistas" almadenses.


O outro exemplo é ainda mais interessante. Veja-se como o senhor deputado municipal se fazia passar por um cidadão anónimo que, fingindo não saber de nada, fazia perguntas a um funcionário da Câmara de Almada. E veja-se, a talhe de foice, a brilhante conclusão a que o cronista chega.


Pois, eu sei: os jornalistas também usam muitas vezes esse tipo de expedientes. Principalmente quando fazem investigação. Mas os jornalistas assumem o que dizem e assinam os seus textos... (enfim, nem todos - mas isso dará outro "post" numa ocasião apropriada).

Parece, em suma, que este "género" de "crónica política" e de "opinião" que se praticava em alguns jornais do século passado fez escola, em Almada - mas transitou para este admirável mundo novo da internet. Não sei se a ex-"rosinha" (e ainda dirigente político do PS almadense) tem alguma coisa a haver com isso. Tenha ou não, eu - como se costuma dizer- tiro-lhe o meu chapéu (e nem me importo que me vejam a careca, se já tanta gente a tem visto).


Mas uma coisa vos garanto: é que não voto nele no próximo domingo!

quinta-feira, junho 25, 2009

Como (não) vivi a revolta na Ponte 25 de Abril (Junho de 1994)


Na noite de 23 para 24 de Junho de 1994 (há 15 anos) estava eu a fazer o último turno no departamento de informação da Rádio Voz de Almada. Terminado o serviço (o último noticiário era, salvo erro, à meia-noite), verifico as eventuais novidades recebidas via fax, para deixar aos meus colegas na manhã do dia seguinte. Procedimento normal e quotidiano...

Nos faxes, nada de especial: era véspera de feriado em Almada, poucas notícias e apenas uma convocatória de camionistas que convidavam a comunicação social a aparecer no Centro Sul na manhã seguinte...

Pois... Embora aquilo fugisse um pouco ao "normal", confesso que não adivinhei o que aí vinha. Deixei, portanto, os faxes (incluindo esse) no local do costume, para os meus colegas verem na manhã seguinte. E lá fui à minha vida: era noite de São João, havia arraiais por toda a cidade (94 e 95 foram, de resto - desde que me lembro, e se bem me lembro - os anos em que se fizeram mais arraiais populares em Almada), e no dia seguinte até estava de folga.

Portanto, depois de um dia de trabalho duro, festejei bravamente (work hard, party harder, lembram-se?).

Dia seguinte: rádio primeiro, têvê depois (já havia quatro canais... - ou melhor: ainda só havia quatro canais) surpreendem-me com directos da Praça da Portagem. Camiões a bloquear o trânsito, povo a aplaudir e a apoiar, Governo (liderado pelo PSD do então primeiro-ministro Cavaco Silva) nervoso, ministro da Administração Interna (Dias Loureiro) a desembarcar de helicóptero para comandar, no local, as "tropas" que haviam de desimpedir o local - à bastonada - e desmobilizar o protesto (contra o aumento das portagens, para quem não se lembra ou não sabe).





Penso eu com os meus botões, e em vernáculo: porra, devia ter adivinhado isto! Ao telefone com a directora de informação da Voz de Almada, comento o que se passa. Pergunta-me ela: gostavas de estar lá, não? E eu faço como os políticos: não confirmo nem desminto, antes pelo contrário (claro que gostava de ter estado a fazer a cobertura desse dia histórico - mas uma cabeça iluminada daquela rádio tinha-me proibido de fazer trabalho fora das horas de serviço!).


Sorte a minha: aquilo foi apenas o princípio da grande contestação popular que - em última análise - teve como consequência a derrota do PSD nas legislativas de 1996, após dois mandatos de maioria absoluta (e arrogância se não absoluta pelo menos muito... arrogante!). Felizmente para mim, consegui acompanhar, ainda, as movimentações que se seguiram: a criação de dois movimentos de utentes, os protestos em forma de "buzinão" ou de complicação de trocos e, no final, um certo pedido de desculpas aos portageiros pelos incómodos causados - porque, afinal, o alvo dos protestos era o governo, não os "pobres" funcionários.


Felizmente para o país, a derrota do PSD nas eleições de 1996 levou ao poder um PS preocupado em repôr alguma justiça social (embora numa versão "beata" ao estilo António Guterres) e não um PS tecnocrata e mais-do-mesmo.


Dúvida final, em jeito de nota de rodapé:O ano passado, por esta altura, a comunicação social comemorou a preceito mais um aniversário da "revolta da ponte". Este ano, népia. Porquê?

(Obs: as fotografias - de autor que desconheço - foram publicadas na Revista Sem Mais, número 7, de Agosto de 1994. Reproduzo-as aqui, com a devida vénia - e mencionando a fonte, porque é assim mesmo que se deve fazer.)





PS - Reportagem da carga policial, transmitida em directo pela SIC, disponível em

quarta-feira, junho 03, 2009

«Deontologia, quem te viu e quem TV»


Ora aqui está um programa que não quero perder: a emissão de hoje do Clube de Jornalistas.

Quarta-feira, 3, na RTP2, às 23 e 30

A discussão entre Manuela Moura Guedes e António Marinho Pinto, em directo, no Jornal de 6.ª, veio dar razão a quem chama a atenção há muito tempo para a degradação progressiva do jornalismo português. A credibilidade tem-se esvaído entre a mediocridade técnica e o aviltamento deontológico. É urgente um debate alargado que envolva todas as componentes do processo jornalístico. O Clube de Jornalistas espera que o programa desta semana possa dar um contributo sério para esse debate.

Convidados:

Francisco Sarsfield Cabral – Jornalista;
João Miguel Tavares – Jornalista;
António Marinho Pinto – Bastonário da Ordem dos Advogados
(Nota: Manuela Moura Guedes não aceitou o convite para participar no programa)

Depoimentos:

Estrela Serrano – Vogal do Conselho Regulador da ERC
Orlando César – Presidente do Conselho Deontológico dos Jornalistas
Moderador: João Alferes Gonçalves

Informação recolhida em:

quinta-feira, maio 21, 2009

"O Praticante": uma revista sobre desportos (e também sobre futebol...)



"O Praticante" é uma revista bimestral, sedeada no Casal do Marco, concelho do Seixal. Divulga um vasto leque de modalidades e apresenta informação diversificada sobre múltiplos aspectos relacionados com a prática desportiva.

Na edição de Abril (comemorativa do seu 1º aniversário), tem artigos sobre modalidades desportivas e actividade físicas diversas. A saber: atletismo, basquetebol, BTT, esgrima, ginástica, hóquei, judo, paraquedismo, kickboxing, lutas amadoras, nautimodelismo, motocross, musculação, natação, orientação, duatlo, yoga, paintball e até mesmo futebol!

No editorial deste número (assinado pela directora, Amália Mendes), explica-se que a publicação «nasceu com o objectivo de divulgar/dinamizar/apoiar as modalidades que têm vindo ao longo dos anos a reclamar um espaço na comunicação social».

É, portanto, uma boa alternativa à "imprensa desportiva" que temos - e que pouco mais divulga a não ser futebol profissional (ou melhor: o folclore o os "fait-divers" à volta do dito).

Ainda por cima é grátis. E tem um site: http://www.opraticante.net/

(Mas é pena serem tão picuinhas no que diz respeito a "direitos de imagem" - aliás, é por isso mesmo que não arrisco divulgar aqui nenhum conteúdo gráfico da dita - só o logotipo, e vamos lá ver se eles não se chateiam... por lhes estar a fazer divulgação à borla.)

quarta-feira, outubro 29, 2008

Tremideiras...


O Estuário do Tejo e o Algarve são, como se sabe, as duas zonas de maior risco sísmico em Portugal continental (em teoria, porque nestas coisas de terramotos há ainda mais dúvidas que certezas e nunca se sabe quando e onde vai ser o próximo e que estragos irá causar).

Por viver numa zona de elevado risco, sempre me preocupei com o facto de não ver esforços para implementar uma cultura de prevenção. De vez em quando lá aparecem uns folhetos a explicar o que fazer para minimizar riscos e como proceder em caso de terramoto. Mas nunca se viu - eu, pelo menos, nunca vi - acções mais consistentes de sensibilização e alerta.

Pior: não existia, até agora, um plano de emergência que defina a forma como as diversas entidades de protecção civil se entendam e colaborem num cenário de sismo de grande intensidade.

Isso é realmente preocupante.

Mas parece que, finalmente, o plano de emergência está elaborado e, melhor ainda, vai ser testado no terreno.

De acordo com o semanário Sem Mais Jornal (SMJ) - edição de 11 de Outubro, artigo assinado por António Luís - o plano visa "planear o socorro às populações em caso de terramotos de magnitude elevada e encontrar alternativas para o comando de operações para que não haja interrupção no auxílio", conta com meios de 26 municípios e "vai ser testado nos três distritos (Setúbal, Lisboa e Santarém), entre os dias 21 e 23 do próximo mês (Novembro), através de vários simulacros" nos quais "vão estar envolvidas mais de duzentas entidades, além das forças de segurança, bombeiros, entidades de saúde e operadores de transporte".
Podemos, então, começar a ter algumas garantias de que as pessoas e entidades que zelam pela nossa segurança estão agora mais atentas e preparadas para acorrer a cenários de catástrofe?

Talvez. Mas parece que, nesta matéria há ainda muito - muitíssimo - por fazer.
É que, de acordo com o mesmo periódico (SMJ, 25 de Outubro, artigo assinado por Vera Mariano) o plano de emergência não prevê, por exemplo, a possibilidade de a nossa costa ser atingida por um maremoto. Possibilidade que, note-se, é muito plausível em caso de grandes sismos com epicentro numa falha que passa pela zona do Estreito de Gibraltar, ou no Banco de Gorring, a sudoeste do Cabo de São Vicente (e é dessas zonas que têm vindo os grandes terramotos que afectaram o nosso território continental - diz-se que, em 1755 o "tsunami" matou mais pessoas que o terramoto que lhe terá dado origem).

Citado pelo mesmo jornal, um responsável da protecção civil afirma que o plano tem por base um simulador que «não prevê a ocorrência de um tsunami». E porquê? «Os dados introduzidos no simulador estão relacionados com a falha sísmica ao largo do rio Tejo, a qual, geralmente, não provoca tsunami», diz a mesma fonte ao SMJ.

Portanto, se bem entendi - e de acordo com a notícia do SMJ - o plano de emergência sísmica para a região de Lisboa e Vale do Tejo (que inclui a península de Setúbal) baseia-se num estudo sobre a falha do vale inferior do Tejo! Será isso?

E, se for, é caso para ficarmos mais descansados?

Mas tenho outras dúvidas. Por exemplo: quais são as zonas identificadas como as de maior risco,

e porquê.

Recorrendo novamente ao artigo de 11 de Outubro do SMJ: Alcino Marques (comandante do Centro Distrital de Operações de Socorro) refere que "as áreas mais sujeitas a aventuais sismos são as zonas ribeirinhas de Almada, Barreiro e Seixal".

Mas serão só essas?

A propósito (e por via das dúvidas, como se costuma dizer) lembro um trabalho que fiz sobre o assunto, em Maio de 2001, para o mesmo Sem Mais Jornal, no qual os responsáveis da protecção civil apontavam como pontos críticos "a zona industrial do Barreiro e os depósitos de combustível de Almada, entre as localidades de Trafaria e Banática". Suponho que, pelo menos no caso do Barreiro esse risco já não existe.


Mas, porque não tenho informação actual sobre o que, nesse aspecto, existe ou não em Almada, limito-me a reproduzir, sem mais comentários, as páginas do SMJ de 2001.








Para conferir (se for caso disso, para comparar) e, eventualmente, reflectir um bocadinho sobre o assunto.

sábado, outubro 25, 2008

Música Moderna em Almada (retrospectiva, 1995-2008) - exposição na Biblioteca Municipal


Há uma exposição sobre as bandas de "música moderna" almadenses, sobre o Concurso de Música Moderna de Almada (que, a propósito, está a decorrer este fim de semana, no Centro Cultural Juvenil de Santo Amaro - vulgo Casa Amarela - no Laranjeiro) e sobre as "mostras" que estiveram na origem deste concurso. A exposição pode ser visitada, até 31 de Outubro, na sala de audiovisuais do Fórum Municipal Romeu Correia.

(Um aviso aos mais distraídos: não vale a pena irem à procura da sala de audiovisuais do Almada Fórum. Até pode ser que exista uma, mas aqui estou a referir-me ao edifício da Bibiloteca Central de Almada - que, por acaso, fica na mesma praça do Mc Donalds, mas do outro lado, estão a ver?... pois, é aí - e que, por acaso, até se chamava "fórum" antes do outro. Adiante...)

Esta exposição - "13 anos de Música Moderna em Almada: uma retrospectiva" - apresenta cartazes, folhetos e outros materiais informativos e de divulgação das mostras e concursos de "música moderna"; também alguns CDs (maquetes) gravados pelas bandas na década de 90, e recortes de imprensa sobre as diversas edições do certame, desde a "Mostra Zero", em 1995, até à actualidade.



E é aí mesmo que eu entro. Se os meus estimados leitores e/ou visitantes deste blogue esiverem interessados no assunto, e se quiserem passar por lá para dar uma vista de olhos na exposição, vão encontrar cópias de trabalhos que fiz para o semanário Sul Expresso, e para a Revista Sem Mais, com as bandas almadenses, a propósito das edições de 1995 e 1996 da "Mostra". E também uma entrevista com o vereador da Cultura, António Matos, a propósito da primeira edição da Quinzena da Juventude de Almada (1995), da "Mostra Zero" e do apoio que as bandas locais revindicavam (nomeadamente a construção de um "rockódromo" no edifício que hoje é conhecido como "Casa Amarela" - e que é o local onde, com toda a lógica deste mundo, se realiza agora o Concurso de Música Moderna de Almada...).



A propósito: também podem encontrar essa informação, e outras relacionadas com o assunto, no Almada Cultural (por extenso) :




(As fotos que acompanham este texto foram feitas, a pedido meu, pelo Rui Tavares. Visitem o blogue dele, que também vale
muito a pena:http://fotografiacriativaruitavares.blogspot.com/)

terça-feira, setembro 30, 2008

Histórias de um "Portugal perigoso"... (1)


Portugal é, tradicionalmente, um país pacato, e a violência a que assistimos nestes últimos meses é algo de novo, sem precedentes, certo?

Errado!

O sentimento de insegurança que se vive actualmente no nosso país não difere muito do que se vivia, por exemplo em 1994 ou, mais ainda em 1996.

Mas a criminalidade está, hoje, mais violenta? Usa métodos nunca antes usados em Portugal?

Talvez existam agora associações criminosas mais organizadas (e profissionalizadas), e é lícito acreditar que esses grupos vêm dos países do Leste europeu e das favelas brasileiras... Pois sim. Mas é bom lembrar que já em 1996 (por exemplo...) se usaram explosivos em atentados à vida das pessoas (este Verão de 2008, utilizaram-se explosivos no assalto a uma carrinha de valores... e foi a histeria que se viu).

O incidente em Alhos Vedros, em que "um grupo de cerca de 30 jovens" (segundo a comunicação social) agrediu indiscriminadamente pessoas num jardim (a polícia "acredita" que se tratou de um ajuste de contas) anuncia um novo tipo de delinquência juvenil?

Não sei, não... Que dizer, então, do que aconteceu entre o final da década de 1980 e o início da década seguinte, quando grupos de "cabeças rapadas" (bandos violentos de extrema-direita) começaram a bater - criteriosamente, pois claro! - em tudo o que era negro, e/ou militante de organizações de esquerda?

E que dizer da reacção, ainda mais violenta (e indiscriminada) dos grupos de jovens negros dos subúrbos que, até meados dos anos 90, espalharam um clima de insegurança - esse bem real - agredindo e roubando... tudo o que não era "negro" (e por isso eu lhes chamei, num artigo do semanário Sul Expresso, "racistas ao contrário")? Em 1992, um grupo de 30 (ou mais) desses jovenzitos suburbanos (aos quais, erradamente, alguns chamavam "gangs") desembarcou no largo de Cacilhas e arrasou tudo o que lhes apareceu à frente e não era "negro"... até que um jovem, português, branco, lhes mostrou que estava vestido com uma camisola do MPLA (eram tempos eleitorais em Angola...) e aí eles pararam: "epá, há um engano!..."

Tem piada, mas não é piada: aconteceu mesmo!

Hoje os larápios recorrem ao "carjacking" (porque, devido ao reforço dos sistemas de segurança, já não conseguem roubar carros a não ser com os proprietários lá dentro)? Pois bem: na década passada, os putos dos subúrbios recorriam mais ao "telemóveljacking", que funcionava mais ou menos assim: estavas sozinho e eras cercado por um bando e ou lhes davas, de livre vontade, o (como eles diziam) "meu telemóvel, que tens no bolso", ou levavas na boca e ficavas na mesma sem o telemóvel! Hoje és assaltado, numa estrada deserta, se tiveres um carro topo de gama?


Opá, há uns poucos anos eras assaltado (em qualquer sítio, e a qualquer hora)... se tivesses um telemóvel (e, de preferência, fosses "branco" - ou "pula", que é uma expressão angolana, derivada de "polaco", e que eles usavam sem saberem porquê...)!

Ah, não acreditam? Acham que estou a exagerar? Acham que é mais uma vitorinice das minhas?

Está bem. Então leiam o que se segue:





Que tal?

Histórias de um "Portugal Perigoso"... (2)

Parece que em 1996, houve uma vaga de crime violento... Muito violento, mesmo.






Passo os olhos pela revista do semanário Expresso de 21 de Setembro de 1996, e leio:

«Ourém, 24 de Agosto: um casal e dois filhos são mortos a tiro de caçadeira; Águas de Moura, 3 de Setembro: uma bomba explode no carro do casal Galego; Fundão, 6 de Setembro: uma bomba deflagra na escola e mata uma funcionária».


E mais: «O assassínio de toda a família de Acácio P., na madrugada de sábado, 24 de Agosto passado, em Ourém, Quinta da Granja, revestiu-se de uma tal crueza que um investigador da PJ não hesitou em abandonar a habitual circunspecção policial para declarar que os crimes «foram cometidos num quadro de grande dramatismo e demonstrando grande vileza».

(texto do jornalista Rui Pereira, na mencionada publicação)







O artigo citado (Três crimes da 'loucura normal') dramatiza - excessivamente, para o meu gosto, mas enfim... - crimes vionetos ocorridos nesse Verão de 1996... com recurso a caçadeiras, e (surpresa?) bombas (uma num carro, outra à porta de uma escola!), todos eles (convém esclarecer) cometidos por cidadãos portugueses!


Mas três crimes, por muito violentos que sejam, não nos dão o direito de dizer que estamos (estivemos) perante uma "vaga de criminalidade violenta". O sentimento de insegurança nem sempre corresponde a um aumento real dessa criminalidade.


A propósito (ainda segundo a revista do Expresso) o ano de 1994 (doias anos antes, portanto) foi muito mauzinho nesse aspecto da criminalidade violenta - as pessoas é que já não se lembravam.
Passo a citar:













"A sangue frio" - crimes do Verão de 1996, segundo a revista do Expresso


Motivos insondáveis e violência desproporcionada são comuns à maior parte dos crimes cuja coincidência no tempo põe em causa a segurança em geral


Um pai, que há muito se mostrava desavindo com o filho, matou-o por ter tropeçado nos seus pés, quando se encontrava num café. Um marido matou a mulher tetraplégica, com gás asfixiante, para se livrar dela. Um irmão e uma irmã, septuagenários, viviam sós e o primeiro considerou que o melhor para ambos era pôr fim à vida - matou a irmã e pretendia de seguida suicidar-se, tendo mesmo convocado a imprensa para um hotel, com objectivo de se explicar. Os três casos passaram-se em 1994 e tiveram lugar de destaque nas páginas de jornais e nas televisões. Grosso modo, analisadas as motivações e as circunstâncias, encontrar-se-ão mais afinidades que diferenças, em relação à recente onda de homicídios (54, entre os dias 1 de Julho e 9 de Setembro) - de 1996.


Talvez a primeira e principal diferença seja a de os crimes de 1994 estarem já esquecidos. Pelo contrário, a memória colectiva ainda está impressionada e tem bem presentes o assassínio de uma família inteira, a morte de um casal à bomba, ou a do jovem de 17 anos que se recusou a entregar 20 contos(...). Os motivos são fúteis e a violência é desproporcionada, nalguns casos refinada mesmo, com apreciável grau de planeamento e concepção. Impressionante é também a coincidência temporal. Mas sabe-se que tal não é inédito: o mês de Janeiro deste ano (1996) registou o mesmo número de crimes (24) que Agosto. Vinte e quatro foram também os homicídios verificados em Maio, Novembro e Dezembro de 1995. E em Março de 1994 o número foi ainda mais elevado: trinta e cinco casos consumados.



(Texto de Ana Paula Azevedo, revista do Expresso, 21 de Setembro de 1996)


Em que ficamos, então?

Que tal espreitarmos o que se dizia (escrevia) sobre a criminalidade em Portugal, e o sentimento de insegurança, nesse ano de 1994?

Histórias de um "Portugal perigoso"... (3)

O "Grande Atlas do Portugal Perigoso" - jornal Público, Junho de 1994




Em 1994 havia entre a população portuguesa um sentimento de insegurança...


Estávamos no início de uma época de prosperidade económica (recebíamos muitos fundos comunitários, havia muito dinheiro a circular) e nós, portuguesitos, entrámos na onda do novo-riquismo, fartámo-nos de comprar telemóveis, computadores e roupas de marca (iam longe os anos 80, e a promessa de frigoríficos em todos os lares portugueses...). Ainda havia por aí bandos de "skinheads" a arranjar confusões, mas já tinhamos enxotado os negros e outros pobretanas para bairros periféricos e... Ops, esses mesmo começavam a revoltar-se, e a querer, também eles, telemóveis e roupa de marca!...


A maneira mais fácil (ou a única?...) de obter essas coisas, era roubar... E se fosse roubar os "pulas", melhor ainda: vingávamos 500 anos de opressão e afirmávamos melhor as nossas raízes africanas, check it out, yo! Tá-se well?


(Se não perceberam a ironia, azar!)


Mas parece que, no meio de toda esta agitação social, os portugueses - entretidos como estavam com os seus telelés, pcs e vcrs - tinham medo, sim, mas era dos "drogados"!


Isto a fazer fé no que se afirmava no jornal Público, em 19 de Junho de 1994 (e que, não desfazendo, foi talvez a primeira tentativa feita - nessa época - por um jornal português para recolher, de forma sistematizada, dados sobre a criminalidade ou, mais propriamente, o sentimento de insegurança).


Cito:


Em Portugal a noção de local perigoso está quase sempre associada à droga. Bairros e ruas onde se faz tráfico, ou que são simplesmente pontos de encontro de toxicodependentes, aparecem em quase metade da lista de locais que o Público seleccionou a nível nacional, através de um extenso inquérito em todo o país a um grupo de onze profissões.


Neste Grande Atlas do Portugal Perigoso - que destaca os pontos que aparecem mais vezes nas estatísticas do crime mas também o simples medo que certos locais promovem a quem a eles se desloca em trabalho - Lisboa vem à frente como a cidade mais perigosa. O que não espanta, num país apesar de tudo sereno, pequeno, em que as grandes cidades são raras.


Fora da capital há evidentemente locais perigosos, onde as probabilidades de haver assaltos, furtos a pessoas ou propriedades, e ofensas corporais são maiores. Mas dos 305 concelhos portugueses só em 34 apareceram lugares onde as profissões inquiridas pelo Público - Polícias (PJ, PSP e GNR), carteiros, médicos de serviço nocturno ao domicílio, assitentes sociais, bombeiros, funcionários dos telefones, transportes (públicos e taxistas) e serviços camarários - sentem receio.


Um receio que, apesar de tudo, segundo dizem, não os impede de entrar em praticamente nenhum lugar, mesmo os de pior nome. A excepção são os taxistas, da Grande Lisboa, que explicitam várias zonas onde pura e simplesmente não entram ou, se o fazem, é porque realizaram, com o cliente, acordos prévios que chegam a incluir garantias bancárias. É o caso do interior do Casal Ventoso, um dos bairros emblemáticos do tráfico de droga em Lisboa.


O espanto de muitos profissionais perante a pergunta do Público - "Quais são os locais mais perigosos em termos de crime na região em que trabalha?" - e a reacção de vários comandos distritais de polícia, que quase se ofenderam quando perguntámos "Têm medo de entrar em algum lugar?", revela a situação de pacatez nacional e explica, em parte, a ausência de várias capitais de distrito dos mapas destas páginas.


(...)


Em relação a Lisboa (...) "a confusão ajuda os ladrões. É quase mais fácil assaltar uma casa na Av. Alexandre Herculano (transversal da Av. Liberdade, centro de Lisboa) do que um apartamento em Carnaxide" (periferia de Lisboa), disse ao Público Francisco Pereira Calvão, cordenador para a área dos furtos e roubos da Polícia Judiciária.


Aliás, para a PJ é evidente que quem estiver às dez da noite na zona do Marquês de Pombal - quem for por exemplo passear para o Parque Eduardo VII, "e ainda há muitas pesoas que vão namorar para lá" - terá muito mais hipóteses de ser agredido ou assaltado do que às cinco da manhã em muitos dos locais de capitais ou vilas de província que, no contexto local, são olhados com muita desconfiança.


À cabeça de um Atlas do Portugal Perigoso deveriam estar indicados os locais onde há mais homicídios e violações. Mas o homicídio, por exemplo, "não escolhe lugar nem hora" que permitam apontar com o dedo os sítios onde há mais ocorrências, como diz o inspector João de Sousa, de departamento de homicídios e ofensas corporais da Polícia Judiciária. Restam-nos portanto as estatísticas nacionais: em 1993 houve 83 homicídios (33 no primeiro semestre, 50 no segundo), e entre 1 de Janeiro e 31 de Maio, 49.


(...)


Geograficamente, tornou-se óbvio que o crime de rua que implica violência, os assaltos a casa e lojas, é mais comum no litoral que no interior do país. Mas também é no litoral que estão concentrados a maior parte dos portugueses, muitos deles a habitar bairros periféricos e, portanto, mais pobres.


"O Grande Atlas do Portugal Perigoso"jornal Público, 19 de Junho de 1994Texto de Bárbara Dias e Rui Cardoso Martins, com David Pontes, Luís Filipe Sebastião e os correspondentes do Público que encontraram zonas de relevo nos respectivos concelhos e distritos: Alexandrina Baptista, Santarém; Carlos Camponez, Leiria; Carlos Dias, Beja; Francisco Fonseca, Barcelos; Graça Barbosa Ribeiro, Coimbra; Idálio Revez, Faro; Jorge Talixa, Vila Franca de Xira; José Parreira, Peniche; Luís Paulo Rodrigues, Famalicão; Manuel Teixeira, Matosinhos; Pedro Garcias, Vila Real; Raul Oliveira, Sines; Raul Tavares, Setúbal; Tolentino da Nóbrega, Funchal.


O método do Atlas


O Público fez uma pergunta - "Quais são os locais mais perigosos em termos de crime na região em que trabalha?" - a um grupo de profissões de Norte a Sul de Portugal, Madeira e Açores. Polícias (PJ, PSP e GNR), carteiros, médicos de serviço nocturno e ao domicílio, assitentes sociais, bombeiros, funcionários dos telefones, transportes (públicos e taxistas) e serviços camarários foram as profissões escolhidas por serem aquelas que mais directamente fazem deslocações, constantes, aos vários pontos das cidades e vilas portuguesas, independentemente de serem ou não receados.


O levantamento feito no terreno pelos jornalistas merecia, também ele, ser objecto de estudo.


Veja-se, por exemplo, o caso de Almada, que aparece com 15 entradas (o maior número de referências nesse "atlas"), enquanto, por exemplo, Setúbal é referenciada apenas 9 vezes. Eu não me sentia mais inseguro no jardim da Cova da Piedade (Almada) que na Avenida Luisa Todi (Setúbal)... E não sei o que são as "zonas escuras do Bairro do Pica Pau Amarelo": seriam as traseiras do prédio onde eu morava, no Bairro Amarelo? Mas, nesse caso, estávamos muito longe do Hospital Garcia de Orta... (Suponho que o jornalista que recolheu os dados se estaria a referir ao bairro do Valdeão... ou ao Bairro do Matadouro... ou ao Bairro Cor de Rosa... ou mesmo ao Pragal - pois são essas as zonas residenciais mais próximas do Hospital).


Sem mais comentários, aqui fica a "caracterização" das "zonas problemáticas" de Almada, segundo o Público, em 1994:


Almada
População: 151.783Desemprego: 10,8% (dados de 1994, note-se)


Zonas escuras do Bairro do Pica Pau Amarelo
Problema: Junto às traseiras do Hospital Garcia de Orta são comuns as desavenças, talvez por seu um local de tráfico de droga.


Torcatas e Pragal
Problemas: Local de concentração de consumidores de droga. Zona de assaltos também, onde os taxistas, por exemplo, não gostam de ir.


Mata de S. António, Costa da Caparica
Problemas: Zona clandestina densamente aglomerada. A própria polícia tem medo de lá entrar. Não raras vezes, embora sem eco público, verificam-se confrontos entre "gangs" de negros e cabeças rapadas.


Jardim da Cova da Piedade
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes.


Barrocas, Cova da Piedade
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos. Os taxistas sentem-se inseguros.


Quinta do Rato e Bairro da Fundação, Laranjeiro
Problemas: idem


Quinta de Sto António e Bairro de S. João, Feijó
Problemas: idem


Bairro Fundo Fomento, Vale Figueira
Problemas: idem


Charneca e Vila Nova da Caparica
Problemas: Assaltos a carros e vivendas. Os taxistas sentem-se inseguros.


Bairro Campo da Bola, na Costa de Caparica, zonas de praia na própria vila, Marisol e zona da Fonte da Telha
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos à mão armada. Os taxistas sentem-se inseguros.


S. Pedro da Trafaria, zona 2º Torrão
Problemas: Droga e assaltos. Os taxistas sentem-se inseguros.


Ruelas de acesso ao cais de embarque, Cacilhas
Problemas: Entreposto fluvial. Zona de chegada e partida de "mulheres do alterno" e "utentes" do "bas-fond".


Imediações do Asilo 28 de Maio, Porto Brandão.
Problemas: Criminalidade de todo o tipo, com predominância para o tráfico de droga.


Cova do Vapor, Trafaria
Problemas: Os taxistas receiam trabalhar naquela zona.
Bairro Amarelo, Monte da Caparica
Problemas: Local de concentração de toxicodependentes. Assaltos.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Histórias do "Portugal perigoso" (4)

Portugal perigoso? Onda de violência?
Perigoso mesmo era andar na rua em Almada, nos anos 90!

Recapitulando: ainda que hoje exista um novo tipo de criminalidade (não o nego: é evidente), eu não me sinto mais inseguro.

Sei que me arrisco a estar no local errado, à hora errada, e a ser vítima de algum criminoso mais violento (ou mais "profissional"). Mas, nos anos 90, esse risco era constante: bastava andar na rua, a partir do início da noite, ou apanhar um autocarro para a Costa de Caparica (ou qualquer outro, que passasse pela periferia de Almada) para correr o risco de ser assaltado por um bando de imbecis dos subúrbios.

Os autocarros eram, nesse tempo uma espécie de Kinder Surpresa (passe a publicidade): não sabiamos o que ía lá dentro antes de lá entrarmos. E às vezes a "surpresa" era pancadaria e assaltos.

O quinzenário Sul Expresso tentou, nesses tempos turbolentos, perceber que raio se estava a passar. E, entre 1995 e 1996 produzimos as seguintes peças jornalísticas - assinadas pelos jornalistas António Vitorino e Marina Caldas:








Agora que essa delinquênca juvenil quase deixou de existir (veja-se o que diz o mais recente relatório de segurança interna...), seria talvez interessante - e útil - tentar entender como (com que recursos, com que métodos...) o assunto foi trabalhado pelas intituições locais e nacionais, desde os anos 90 até à actualidade.


Mas nem sempre a comunicação social tenta encontrar explicações para os factos. É triste, existe, não é fado, mas é verdade...